The Post-Game 5

 

Cynthia não suportaria ficar nem mais um segundo sequer trancada dentro de casa. Nunca fora do tipo que esperava algum herói ir salvá-la. Tornou-se o símbolo que gostaria de ter tido quando menina, queria influenciar toda uma geração de treinadores. Desde pequena gostava de se embrenhar no meio do mato em busca de novas aventuras e Pokémon, e por mais que muitas fossem arriscadas e repletas de perigos para uma criança de sua idade, delas nasceram oportunidades transformadoras.

A pequena Verity estava com o Piplup de Dawn em seu colo, observando sua mãe andando de um lado para o outro com agitação. Duke estava triste e cabisbaixo após mais uma derrota humilhante, não seria a primeira vez que era impedido de proteger a sua treinadora quando ela mais precisou. Cynthia também não conseguiu pregar os olhos à noite pensando na segurança de Dawn, mas com a insônia vieram também novas ideias e alternativas.

Dirigiu-se apressada ao seu escritório. Pelo vão da porta, Verity pôde observá-la retirar do fundo falso do baú um compartimento secreto trancado a sete chaves. Havia uma pedra de estranho formato com uma fenda e dois buracos nas laterais, um artefato extremamente antigo que atiçou sua curiosidade, mas não quis ser xereta e perguntar o que era.

— Espero não estar arriscando demais... — ponderou Cynthia consigo mesma.

Ao sair do escritório, já estava de malas prontas. Verity brincava desenhando na mesa da sala quando sua mãe passou apressada e lhe deu um beijo na testa de despedida.

— Que desenho bonito. Onde é? — perguntou Cynthia.

— Onde eu morava antes — respondeu Verity com tranquilidade, pondo os lápis coloridos de lado. — Pra onde você vai?

— Mamãe tem algumas pendências para resolver — respondeu Cynthia. — Eu pedi para alguns amigos ficarem de olho em você, eles devem chegar daqui a pouco. Não me venha aprontar com eles, hein? São três dos treinadores mais fortes que conheço, só para ter certeza que nada de ruim irá lhe acontecer.

Verity encolheu os ombros e deu risada, fingindo-se de desentendida. Quando Cynthia estava com a chave em mãos, o Piplup de Dawn correu em sua direção e começou a rodeá-la, pedindo incessantemente que a levasse junto.

— Ah, Duke, eu não sei... pode ser perigoso para alguém do seu tamanho.

O Piplup estufou e bateu no próprio peito com força, insinuando que não tinha medo de nada. Cynthia riu, afinal, como poderia negar ajuda de um Pokémon tão determinado?

A campainha tocou e ela logo foi atender. Em frente à sua casa estava ninguém menos do que Riley, Cheryl e Buck, três dos integrantes originais dos Stat Trainer que estavam por perto e se ofereceram para a difícil tarefa de cuidar da criança de uma campeã.

— Fala aí! Firmeza? — falou Buck apressado cumprimentando com acenos e gestos e já entrando na casa para ver o que tinha de bom na geladeira.

— Ah, querida... — disse Cheryl, abraçando sua amiga na tentativa de confortá-la após tudo que ocorrera. — Eu conheci a Dawn na primeira vez que eles passaram por Eterna. Ela é uma menina de ouro. Logo agora que você se estabilizou em uma casinha confortável para chamar de sua, algo terrível assim acontece. Existem muitas pessoas más nesse mundo.

— Eles não tardarão a trazê-la em segurança. Você tem os melhores do seu lado — falou Riley com confiança. — Até lá, dou a minha palavra de que sua filha estará segura conosco.

De fato era a primeira vez que seus amigos a visitavam em muito tempo. A notícia de que Cynthia tinha uma filha daquele tamanho pegou a todos de surpresa assim que souberam, e não dava para esconder que estavam curiosos para saber mais sobre a misteriosa criança.

Verity continuava na sala, alheia às visitas. Era uma garotinha de cabelos castanhos e sorriso contagiante, mas não se parecia em absolutamente nada com Cynthia. Assim que os viu, Verity deu um salto de onde estava e correu para cumprimentá-los como se já os conhecesse de longa data.

— Tio Rye, você também veio! — disse a menina referindo-se a Riley. Em seguida ela olhou para Cheryl e ficou pasma como ela tinha um corpo bonito. — Puxa, Sabi, quando foi que cresceu tanto? Você não tinha uns peitõooes desse tamanho! — Ela enfim viu Buck voltar da cozinha de boca cheia e não pôde deixar de comentar: — E você... você é a cara da tia Zisu. Eu não sabia que ela também tinha filhos, isso é muito legal! Vou ter mais gente com quem brincar.

Os Stat Trainers encararam Cynthia, sem entender absolutamente nada do que aquela garota parecia falar. Será que ela os estava confundindo com outra pessoa? Cynthia levou a mão ao rosto e lamentou não ter tempo.

— Eu explico tudo depois, mas agora realmente preciso ir. Fiquem de olho nessa pestinha. Ela é curiosa... até demais.

Assim que Cynthia fechou a porta de sua Villa, os três companheiros se entreolharam e pensaram que não seria tão difícil tomar conta de uma criança. Tinham uma mansão inteira ao seu dispor, e a hidromassagem aquecida parecia estar funcionando perfeitamente.

— Bom, eu não sei vocês, mas vou usufruir só um pouquinho dessa vida burguesa — disse Buck já com uma toalha de banho nas costas.

 

Estava quase entardecendo, mas Cynthia continuava disposta a viajar através de toda Battle Zone se fosse para encontrar sua amada. Estava sem nenhum Pokémon no time, exceto por uma pedra enigmática e um desengonçado Piplup que se apressava para acompanhar seu passo e recusava-se a ser carregado no colo. Se a noite os alcançasse, temia que Duke não fosse o suficiente para protegê-la de eventuais predadores.

— O que houve? Já cansou? — perguntou Cynthia, olhando para trás só para ter certeza de que o Piplup não tinha infartado. — Vamos lá, ainda nem começamos a nossa escalada. Segundo o Luke, devemos encontrá-lo na base da Stark Mountain. Eu só não consegui mais estabelecer contato algum, acho que está sem sinal.

Cynthia parou de andar e encarou o céu. As estrelas estavam radiantes, e a lua crescente era perfeitamente visível. Só a ideia de que aquele era o mesmo céu visto em Sinnoh há mais de quinhentos anos a fazia conectar-se com a região, pois sabia que ainda havia tanto a se explorar! Sentia saudade da inquietação de uma jornada, e por mais que agora o assunto exigisse urgência, cogitou até sugerir sair para aventurar-se com Dawn em algum lugar distante, quem sabe visitar sua casa de veraneio em Unova e conhecer novas pessoas e Pokémon.

O Piplup puxou a barra de sua calça, chamando a atenção da mulher. Podia não ser um bom lutador, mas seus extintos apitavam que eles tinham companhia.

— Saia daí quem quer que esteja se escondendo, ou vai sofrer as consequências — alertou Cynthia como seu único aviso.

Do meio da mata surgiu um homem de meia idade vestindo um sobretudo bege, roupas formais e sapatos envernizados. Seu semblante era convicto, tinha os cabelos levemente grisalhos e escovados com cuidado. Não se parecia nem um pouco com um aventureiro, estava mais para algum tipo de detetive que saíra da sessão de clássicos na biblioteca de Galar para se perder no meio de um matagal sem repelente para Cutiefly.

— Assumo que você seja a Srta. Cynthia. Sua reputação a precede — disse o homem, erguendo a mão com um distintivo da polícia antes mesmo que ela se apresentasse. — Pode me chamar de Observador, ou Looker se achar que tudo no inglês fica mais chique. Ou Bellochio. Ou Beladonis. Ou simplesmente Mr. Handsome para os íntimos. Tenho vários nomes, um para cada continente. São meus disfarces.

— Fascinante — respondeu Cynthia, pouco interessada.

— Onde estão seus Pokémon? Vejo que está sem nenhuma pokébola. Acho difícil acreditar que uma treinadora capaz como você decidiu se aventurar pela região com um inicial como se ainda fosse uma jovem.

— Perdão? — Cynthia questionou, ofendida. — Está insinuando alguma coisa sobre minha idade?

— De forma alguma — Looker respondeu, cauteloso.

— Quanta indelicadeza... E respondendo sua pergunta, o sistema ainda não deu baixa e entende que estou com seis Pokémon na equipe, por isso não me permite sacar uma sétima pokébola.

— Estamos cientes do sequestro que ocorreu em sua morada na tarde de ontem, senhorita, inclusive do roubo de seus Pokémon. A polícia foi acionada. Estamos em uma operação secreta há mais de cinco meses seguindo os passos dos membros remanescentes dos Galactic que se espalharam por Sinnoh.

— Eu não pedi a ajuda de vocês — respondeu Cynthia de forma ríspida. Ela se lembrava com clareza da ameaça de Petrel, alegando que se a polícia se envolvesse, pessoas iriam se machucar. Achava que a presença de tanta gente só dificultaria as coisas, ainda mais agora que Luke estava tão próximo de localizar o paradeiro deles.

Cynthia e Duke retomaram o caminho da selva deixando Looker para trás, mas o detetive voltou a segui-los no seu encalço.

— Ouvi dizer que a senhorita estuda mitos e lendas do Mundo Pokémon — disse ele.

— Pois é — confirmou Cynthia, pouco interessada em compartilhar mais de seu conhecimento tão valioso. — Muito do que ouço falar por aí não passa de fantasia, teoria sem embasamento. O tipo de história que busco não tem jogos de política, bombas e tiroteios como no tipo de livros que o senhor deve gostar de ler para sair por aí brincando de Detetive Wobbuffet.

— Não tenho tempo para essas brincadeiras, senhorita. Meu negócio é onde as coisas acontecem — contou o detetive. — Eu sempre estou um passo à frente de meus inimigos. Quando você menos estiver esperando, eu estarei lá.

— É mesmo? Puxa, espero que não chegue atrasado então — respondeu Cynthia com um sorriso forçado.

A mulher apressou-se alguns metros a frente quando Looker decidiu perguntar:

— O que você entende sobre fendas temporais?

Cynthia parou e olhou na direção dele de forma alarmada. Não quis deixar transparecer, mas aquele era um assunto que vinha levando como segredo absoluto até mesmo de pessoas que amava. Looker ajeitou a gravata ao perceber que tocara num tópico delicado, exatamente como havia planejado.

— Acreditamos que os Galactic estão querendo trazer seu antigo chefe de volta através de uma fenda do Distortion World.

— Ah — Cynthia soltou uma indagação, parecendo um pouco aliviada. — O mundo da antimatéria. Dizem que está no lado reverso ao nosso.

— Sim. Não podemos deixar que isso aconteça, você entende, não?

Cynthia respirou com pesar. Havia muito mais em jogo do que simplesmente resgatar sua companheira das mãos de criminosos. Sabia o quanto os Galactic e os Rocket podiam ser perigosos, ainda mais quando unidos. Desde o princípio havia dito a si mesma que não se envolveria naquelas loucuras, mas agora só podia desejar que Luke estivesse bem e em segurança.

 

i

 

Dentro da redoma repousava uma pedra vermelha que brilhava como se fosse lava, cujas bordas distorcidas emitiam uma energia densa o bastante para superaquecer o vidro blindado que a protegia. O Professor Charon examinava cuidadosamente uma pequena fratura extraída da Magma Stone através de um microscópio, estudando as reações causadas cada vez que misturava água e outros elementos orgânicos. A pedra os derretia quase que instantaneamente, por isso era necessário manuseá-lo através de um maquinário eficiente e sempre com proteção adequada.

Alerta vermelho! Alerta vermelho!

Sua concentração foi interrompida no momento em que o alarme soou. Charon nem se deu ao trabalho de olhar para trás, tão concentrado que estava. Perto da saída, Petrel fumava um cigarro até o talo, seus dedos batucando com impaciência sobre o batente da mesa.

— Não vai ir verificar o que é que tá rolando? — perguntou Petrel, pouco interessado.

— Não. Contratei você para ser o músculo dessa operação. O cérebro é por minha conta — respondeu Charon, concentrado no estudo da pedra.

Petrel jogou o cigarro no chão e o apagou com uma pisada forte.

— Nunca vou entender cientistas e essa sua ciência imbecil.

— É por isso que nunca se formou na escola, Petrel — retrucou Charon, com os olhos grudados em seu microscópio.

O executivo saiu ainda mais irritado do que antes, já farto de ter que trabalhar com aqueles Galactic imprestáveis e seus sonhos surreais. Sentia falta da facção que o abraçara em tempos de necessidade. Os Rocket sempre tomavam o que queria, mesmo que para isso tivessem que usar a força. Aquele cientista não passava de um lunático. Se pudesse, teria acabado com ele ali mesmo e faria parecer um acidente laboratorial.

Enquanto seguia através dos corredores espremidos do esconderijo, escutou o som do que parecia ser uma batalha. Se a polícia estivesse mesmo envolvida não tardaria para que eles se espalhassem como baratas, mas havia uma tensão estranha no ar.

O chão começou a tremer. Petrel precisou se apoiar em uma das paredes. Quando se deu conta, um Garchomp passou disparando por baixo da terra, cortando ferro e metal como se fosse papel. Logo atrás vinha uma Sneasel que se esgueirava pelas sombras com velocidade impressionante. O dragão brecou e fez uma curva com agressividade, pronto para interceptar sua adversária frente a frente. A Sneasel tentou defender-se, mas levou uma pancada forte o bastante para arremessá-la do outro lado.

— Sorrateira, Icicle Crash! — ordenou Amy.

A felina soprou um ar gélido que congelou um enorme pedaço de rocha que despencou de uma das paredes. Usou suas garras para fatiá-la até transformá-la no que parecia um estalactite, atirando-o em direção do dragão como se fosse uma lança. O Garchomp tentou defender-se com os braços, mas a lança o perfurou no ombro e o prensou contra a parede, causando uma dor lancinante.

— Nenhum Garchomp sobreviveria a um golpe do tipo gelo como esse — comentou Petrel, transtornado. — Essa Sneasel... parece que eu já a vi em algum lugar.

O Garchomp não se deu por vencido. De alguma forma ele parecia estar carregando uma Berry consigo, e no momento em que a consumiu, o gelo pareceu nem surtir efeito.  Dessa vez ele devolveria o ataque em dobro, causando uma ponte de pedras através do Stone Edge que atingiu a Sneasel em cheio, nocauteando-a de imediato.

— Eu fiz minha lição de casa — mencionou Luke do outro lado. — As Yache Berries possuem propriedades que diminuem o impacto de golpes de gelo.

— Pelo visto você não é leigo mesmo, apesar da cara de bobo — comentou Amy, antecipando o próximo passo. — Para a próxima luta vamos precisar de um pouco mais de espaço.

O sistema de eletricidade do laboratório sofreu uma descarga e então todas as luzes se apagaram. Petrel só conseguia pensar que precisava dar logo o fora dali, só precisava encontrar alguma saída de emergência. Seguiu a única luz vermelha que conseguiu encontrar, mas por algum motivo ela estava se distanciando cada vez mais. A luz piscou, e através dela pôde enxergar um assustador Dusknoir de braços cruzados cujo único olho o fitava como se prestes a consumi-lo. Petrel sentiu as pernas estremecerem e partiu na direção oposta, mas do outro lado uma sombra fantasmagórica espreitou-se pelas paredes até desaparecer como um sopro. Ele podia escutar sua risada sinistra ecoando por toda parte.

— Um Gengar...! — afirmou Petrel. — Eu só conheço uma pessoa que tinha um desses na equipe, ainda por cima shiny.

O Gengar disparou uma Shadow Ball contra Petrel que se agachou segundos antes da esfera maligna atingir o Dusknoir no peito. General contraiu-se com o impacto, mas tão logo recobrou a pose. Com um soco potente, devolveu um Shadow Punch na mesma moeda, acertando seu oponente aonde quer que ele tentasse se esconder.

— Por que você chama seu Gengar de Blue se ele não é azul? — perguntou Luke, só por curiosidade.

— Porque eu o capturei quando ele era um Gastly e, para sua informação, existe uma vertente da espécie desses fantasmas que emite uma fumaça azulada extremamente rara. Fui uma dessas afortunadas — contou Amy.

— Maneiro. Acho legal você dar nome para os seus Pokémon. Só os fortes fazem isso — disse o rapaz. — Por sinal, eu ainda não sei o seu.

— É Amanda Green — ela disse confiante.

— Se falou o sobrenome, então deve ser importante. Sou Luke Wallers.

 

A batalha estava começando a sair do controle. O velho Charon respirou com pesar, mas ao menos concluíra a primeira etapa de sua pesquisa. Quando desligou seu maquinário, a Magma Stone ainda estava fervendo tanto que seria impossível pegá-la com as mãos.

— O que fazemos agora, senhor? — indagou Cosmo.

— Nós esperamos — respondeu Charon. — Já provocamos a pedra, não tardará para que seus donos venham recuperá-la, atraídos pela energia que ela emite.

— Mas se os Heatran vierem, isso não poderá acarretar na erupção do vulcão adormecido sob a Stark Mountain? — insistiu o assistente. — Isto seria uma catástrofe.

— Sim. Catástrofe. Esta é a palavra — disse Charon com o semblante sombrio. — Sempre que um perigo iminente desses está para assolar um continente, acontece um evento que gosto de chamar de ruptura das fendas. Elas são completamente aleatórias e podem acontecer em qualquer lugar do mundo, mas podemos também forçar uma rachadura no tempo-espaço. Bastam alguns minutos para que elas se fechem, e isso faz com que sejam seladas para nunca mais serem vistas.

— E a garota... ela viu uma dessa fendas no Spear Pillar quando perdemos o Mestre Cyrus — Star mencionou.

— Precisamente. E, graças a ela, dessa vez eu sei exatamente onde haverá uma. E é para lá que rumamos.

Charon juntou uma pasta com seus principais arquivos confidenciais e uma bolsa com alguns poucos pertences. Era claro que ele não pretendia retornar. Aquele velho laboratório já havia sido condenado e era questão de tempo até que os Heatran chegassem e consumissem tudo com seu fogo.

Sua mão pousou sobre o botão de abertura da porta quando ele percebeu que havia água entrando por entre as frestas. Cosmo e Star se entreolharam, ponderando qual deles se esquecera de desligar a torneira ou dar descarga na privada. Quando se deram conta, a porta arrebentou como uma barragem e uma enxurrada de água varreu o laboratório inteiro.

Os corredores se transformaram em um tobogã, cuspindo-os para fora com a força de uma torrente marítima. Charon ajeitou os óculos e olhou para cima a tempo de ver um enorme Gyarados disparar um Hyper Beam na direção de um Kingdra que desviou-se por alguns poucos segundos. Mikau mirou e fez um único disparo certeiro do Hydro Pump dentro da boca da serpente, arremessando-a com força contra o chão.

— É, parece que os Heatran serão o menor dos nossos problemas — brincou Charon, limpando o jaleco e ajeitando seus pertences. — Esses dois sozinhos vão causar a erupção do vulcão.

Luke e Amy batalhavam com ferocidade, enfrentando-se com a determinação inesgotável de dois campeões que se recusavam a desistir. Seus Pokémon estavam no auge de sua força, e não fariam feio frente a um adversário desconhecido. Havia certa confiança por parte de cada um que entrava em batalha, uma vontade exagerada de vencer independente de aquilo influenciar ou não no resgate de Dawn — que, por sinal, fora largada em algum lugar do laboratório feito um saco de batatas.

— É impressão minha ou aqui dentro está esquentando? — perguntou Amy com malícia.

— Olha, faz tempo que não sinto uma empolgação dessas em uma batalha — falou Luke, limpando o suor da testa.

Os dois olharam para o alto e se deram conta de que ainda estavam dentro na montanha, aproximando-se cada vez mais de seu centro. Dava para enxergar o céu através da abertura por onde fumaça e enxofre eram expelidos. As paredes da montanha eram salpicadas de vermelho como se magma fluísse através delas em uma cachoeira constante.

E então, o primeiro deles caiu como uma rocha desgrudando da montanha. Luke olhou para o alto e notou que mais pedras se formavam como se fosse um enorme formigueiro vivo. Havia uma infinidade de Heatran que fizeram do vulcão sua morada, infestando as paredes e nadando em rios de magma. Eles haviam sido atraídos do abismo de seus lares em busca da Magma Stone, vociferando com suas mandíbulas metálicas enquanto trituravam ferro e rocha.

— Está prestes a acontecer — disse Charon com a cápsula térmica da pedra em mãos.

 

ii

 

Cynthia havia acabado de alcançar a montanha quando notou que a fumaça expelida se tornara densa e escura. Com sorte havia chegado alguns minutos antes da polícia, tempo o suficiente para resolver as coisas do seu jeito.

Duke provou-se um excelente companheiro, especialmente em uma região com predominância de Pokémon do tipo fogo, pedra e terrestre. Varreu todos por seu caminho, abrindo espaço para que a treinadora alcançasse a entrada do laboratório. Cynthia deparou-se com tudo inundado, equipamentos danificados e qualquer tipo de prova simplesmente destruída. Deixaria aquilo a cargo da polícia, pois no momento sua prioridade era encontrar Dawn e tirá-la dali em segurança o quanto antes.

Piplup parecia ter um ótimo senso de direção, localizando-se através das poças d’água que se formaram com a inundação para buscar rastros e até o cheiro de sua treinadora. Ele corria apressado até demais para um pinguinzinho desengonçado. Duke estava tão preocupado quanto qualquer outro com Dawn.

O ar começou a esquentar. Cynthia sabia que estava chegando ao centro da montanha. Assim que alcançaram a saída, ela percebeu que estavam em uma área muito mais distante e elevada da montanha onde era possível enxergar de longe Luke travar uma batalha épica contra Amy.

Abaixo deles, um rio de lava corria fumegante com uma centena de Heatran furiosos. Sobre eles, Petrel segurava Dawn amordaçada e com uma faca em seu pescoço.

— Fique quietinha e comporte-se como uma boa garota — ordenou o Rocket.

Por mais assustada que estivesse, Cynthia não deixou transparecer em momento algum sua preocupação. Petrel era o tipo de criminoso mais perigoso que agia com imprudência e, por fim, recorria à violência quando encurralado num sinal de desespero. Dele, não podia esperar nada. Duke estremeceu ao dar-se conta de que sua treinadora estava em perigo outra vez, mas Cynthia procurou acalmá-lo.

Em seu cinto, Petrel carregava as seis pokébolas roubadas do time da treinadora. Dawn a encarou nos olhos, e acreditou que tudo terminaria bem.

— Tome cuidado, Petrel. Você está entrando em um terreno sem volta — disse a ex-campeã.

— Qual é, você não vai perguntar o que eu quero? — confrontou o homem. — Dinheiro? Fama? Reconhecimento? Eu perdi tudo. Pode parecer idiota, mas eu quero me vingar de todos vocês, de qualquer pessoa, de toda essa gente feliz seguindo com suas vidas pelo mundo, se aventurando ao lado do um Pokémon inicial que amam. Nem todos têm essa chance, sabe?

— Oh, pobrezinho. Tão incompreendido — Cynthia o provocou, o que o deixou cada vez mais irritado. — Você não passa de uma mera sombra do que já foi a facção criminosa mais respeitada e influente no Mundo Pokémon. Ninguém aqui tem medo de você.

— Medo? Quero ver você dizer isso quando eu estiver com uma faca em sua garganta.

— Eu vou te ensinar o que é medo — ralhou Cynthia.

Com apenas uma das mãos, a treinadora posicionou misteriosa pedra que trouxera de sua casa. Era a primeira vez que usava algo considerado tão perigoso. Conhecida como Odd Keystone, dizia que dentro daquela pedra estavam aprisionados 108 espíritos malignos que foram banidos por conta de sua maldade constante há quinhentos anos.

A pedra tremeluziu quando sua chave foi rompida. Contorcendo-se como uma criatura finalmente liberta de seu cárcere, de dentro dela saiu uma aberração exorcizada de olhos penetrantes e barulho ensurdecedor. Petrel sentiu suas pernas tremerem diante da presença do Spiritomb, um Pokémon tão antigo que suas lendas foram esquecidas pelos livros de história. Cynthia vinha estudando aquele Pokémon há muito tempo para descobrir uma forma de colocá-lo em seu time e ser capaz de controlá-lo.

O Spiritomb abriu sua boca e começou a sugar tudo ao seu redor para dentro do vazio. A distorção causada foi forte o bastante para chamar a atenção dos Heatran e perturbar o vulcão. Um terremoto foi sentido por conta da batalha travada entre Luke e Amy. Uma enorme pedra desprendeu-se e por pouco não atingiu Petrel e Dawn que precisou se jogar para não serem atingidos. Cynthia correu para socorrê-la, mas o chão começou a rachar prestes a desmoronar. Com dedos ágeis, atirou uma Quick Ball na direção do Spiritomb e o capturou efetivamente, um acerto crítico. Mas a distração serviu para que Petrel a agarrasse pela perna enquanto os dois escorregavam em direção do rio de lava.

— Eu caio, mas vou levar um de vocês comigo...! — gritou o criminoso.

E então, Petrel sentiu uma pedra chata acertá-lo bem no meio da testa. Não fez mais do que um arranhão, deixando um filete de sangue escorrer até sua boca.

— Uma... Everstone? — indagou Petrel.

Quando se deu conta, um Piplup enfurecido correu em sua direção e disparou com a força de um canhão, dando-lhe uma cabeçada em cheio no abdômen. O impacto o fez escorregar e soltar Cynthia no susto. Pokémon e criminoso deslizaram pelo piso que cedeu sobre seus pés rumo a sua sina iminente, e durante a queda ainda foi possível escutar um último grito de desespero por parte de Petrel, quase que um clamor em nome da facção que tanto amara: “Vida longa aos Rockets!”.

Pinguim! — Cynthia gritou alarmada.

Ela correu e prostrou-se sobre a beirada do precipício quando uma luz ofuscante tomou conta do ambiente. Ao se dar conta, havia um Prinplup segurando-se com esforço na beirada e com um cinto contendo seis pokébolas intactas, arrancadas das calças do criminoso. Cynthia o ajudou a subir e o abraçou com tanta força que Duke sentiu-se um vencedor. Dawn não conseguia parar de chorar, estava tão contente por rever seus amigos, e principalmente por seu primeiro Pokémon ter aberto mão de sua forma inicial que tanto prezava somente para salvá-la.

— Eu sempre acreditei em você, Duke! Você nunca desistiu de mim, e eu nunca vou desistir de você! — disse Dawn, envolvendo-o em um forte abraço.

Cynthia juntou-se a eles num gesto caloroso e agradeceu os céus por estarem bem. Sua missão agora fora concluída, mas um novo problema se formou — a montanha não tinha mais salvação e a erupção era iminente, condenando toda a ilha conhecida como Battle Area a afundar no oceano.


The Post-Game 4

 

Era a primeira vez que Amy viajava até Sinnoh, e em outros tempos gostaria de ter feito isso para desfrutar das paisagens, visitar os resorts com vista para o mar e ostentar nos cassinos e hotéis mais luxuosos da região. Precisou se controlar, pois hoje estaria ali a trabalho.

Estava esperando que fizesse frio para comer um delicioso fondue de chocolate em Snowpoint antes de voltar, mas ninguém lhe dissera que o verão em Sinnoh fazia tanto calor. Seus longos cabelos balançavam ao toque do vento, e ao invés de optar por uma infiltração sigilosa, fez questão de garantir uma passagem em um cruzeiro que logo iria atracar na Battle Zone na ilha a nordeste de Sinnoh.

Com seu chapéu verde camuflado, óculos de sol e blusão largo por cima do vestido, a intenção era justamente passar despercebida e conseguir estudar o paradeiro dos remanescentes dos Rockets antes que mais alguém soubesse que estavam retomando as atividades. Sentia-se responsável pelos atos daqueles imbecis desde que assumira o controle da facção após a morte de seu pai, Giovanni, havia tantos anos. Apesar da clara ordem de suspender toda e qualquer atividade ilegal, havia quem não compactuasse com seus planos e não considerasse a liderança de Amanda Green eficaz. Mas Amy não era tão complacente quanto seu pai com quem não obedecia suas ordens.

E falando em ordens, havia um namorado carente a esperando em Johto que ansiava por qualquer sinal de vida desde sua partida.

— Ei. Desculpinha por sair sem avisar no meio da madrugada. Ainda sou horrível com despedidas — disse Amy enquanto fazia uma chamada de vídeo através de seu PokéGear.

Não esquenta. Já te conheço bem. Amanda Green sempre faz o que quer”, disse a voz de Ethan do outro lado. Ele vestia um avental de margaridas com uma espátula na mão e um extintor de incêndio na outra. Seu Typhlosion vistoriava tudo da sala, só por precaução.

— Eu percebi mesmo que minha mochila estava pronta. E você até se deu ao trabalho de preparar uma marmitinha para a viagem, que fofo da sua parte. Fala sério, eu tenho ou não tenho o melhor namorado do mundo?

Ethan corou do outro lado da linha com o elogio, mas estava focado demais em fazer a panela de pressão não explodir.

— Tá se alimentando direito? Eu não quero voltar pra casa e encontrar um corpo desnutrido e desidratado na cama porque você não sabe fritar um ovo direito.

Eu sei fazer pão na chapa. Por sinal, estou fazendo isso agor-- AI, MEU DEDO!”

— Amor, estou começando a pensar em abortar essa missão... Quer que eu volte pra casa?

De forma alguma! Você precisa ir resolver os problemas que os Rockets continuam causando. Nós ficamos devendo isso pro Proton e a filha dele.”

— Tô só brincando. Eu não ia voltar mesmo — disse Amy com uma risada.

A treinadora encarou a imagenzinha em seu celular por algum tempo, rindo da maneira como Ethan tentava dar o seu melhor em se virar e cuidar da casa durante a ausência da namorada. Amy jamais diria aquilo em voz alta, mas poderia ficar observando-o de longe o dia inteiro, e até encontrava certo charme nele ser um palerma que se esforçava tanto para fazer as coisas darem certo. Tudo por ela.

O que está pensando em fazer amanhã além de ser um fracasso? — indagou Amy.

Muito engraçado. Não piore minha autoestima”, disse Ethan com sarcasmo. “É difícil ficar sem você... Eu preciso fazer alguma coisa, estou ficando doido!”

— Você já explorou cada canto de Johto, o que tem para de descobrir? Céus, New Bark parece mesmo um vilarejo do interior depois que viajamos até outros continentes, aí só tem caipira!

Poxa, não fala mal da terrinha...”

— Tá bem, tá bem. Eu amo New Bark. Posso ter nascido em Kanto, mas meu coração está em Johto, porque você está aí — Amy começou a tagarelar enquanto ia mostrando a paisagem do navio. — Ei. Eu estava lembrando aquela vez que você me beijou no Lago da Fúria... ou melhor, eu estava desacordada. Nós dois sabemos que você só se aproveitou de uma dama indefesa e fez o que bem entendeu.

E-era uma respiração boca a boca, tá legal? Ouch! Calma aí que tropecei no Sand estirado no tapete.”

— Acho melhor eu voltar pra casa antes que você e o Tai coloquem fogo em tudo. Quer apostar que termino o serviço até o fim de semana? — Amy olhou para o mar e ajeitou uma mecha no cabelo. — Mesmo que esteja fazendo calor, os ventos que sopram aqui são bem gélidos, parece até a Jynx tentando me matar congelada de novo. Ah... E quando tivermos a chance, quero voltar com você.

Eu vou adorar. E sabe que você está bem sexy vestida assim? Estou doido para te encontrar e arrancar peça por peça de você.”

Eu quebro seu nariz — disse Amy com uma risada calorosa. — Vou desligar agora porque já estamos quase na costa. Se cuida, seu boçal. Te amo. Beijo-beijo.

 

Dava para enxergar a gigantesca Battle Tower muito longe na costa, erguendo-se majestosa em meio ao mar infindo como um pináculo de poder. A Fight Area recebia inúmeros treinadores estrangeiros que se preparavam para o desafio dos cem andares, mas Amy tinha outro objetivo. O primeiro passo era investigar e descobrir qualquer avanço suspeito na região nos últimos meses sem levantar suspeitas da polícia.

— Vamos começar estudando o cenário. Pidgeot, é hora da carona.

Amy lançou a pokébola de seu Pokémon pássaro que se materializou e esticou as asas para demonstrar inquietação. Sua Pidgeot era uma das maiores já registradas, capaz de carregar até três treinadores em suas costas e atravessar um continente. As penas do Pokémon reluziam ao sol, com a crina multicolorida brilhando como um arco-íris.

Amy subiu em suas costas e sobrevoou a região, encantada com o quão bela Sinnoh era. O Monte Coronet erguia-se no centro por onde uma nuvem densa pairava, mais ao norte podia ver focos de neve em Snowpoint e ao sul toda a beleza das praias maravilhosas de Sunyshore.

O vento soprava forte e o sol esquentava a cabeça. A Pidgeot praticamente planava sobre as nuvens, sempre rumando ao norte. Ela tinha tamanho domínio do céu que sua treinadora podia se dar ao luxo de estudar a topografia da região e fazer possíveis anotações em um caderno sem se preocupar em dirigi-la.

Tudo seguia na mais perfeita calma quando Amy escutou o som de sirenes. Segurou o chapéu e olhou para trás, notando que havia uma pequena cabine automática com hélices barulhentas que mais se parecia com um mini-helicóptero aproximando-se. Ela revirou os olhos e aguardou. Quando a cabine foi aberta havia um homem uniformizado ali dentro, vestindo óculos escuros e chapéu da Guarda Florestal. Empoleirado em seu ombro havia um Chatot de olhos esbugalhados e bico torto. O policial retirou os óculos e balançou a cabeça lentamente.

— Bonito, hein.

— Escuta, Seu Policial, eu nem estava acima da velocidade, todos os meus documentos estão em ordem, pode verificar. Sou nova na região, então me perdoe se eu estiver infringindo alguma lei que eu desconheça, e--

Amy começou a inventar tantas desculpas que o próprio policial ergueu a mão e pediu que ela parasse.

— Fica tranquila, moça. Só estou falando que esse seu Pidgeot aí... é mesmo uma nAve, sacou? Esse é o maior que eu já vi em toda minha vida. Precisei até parar pra perguntar — disse o homem em tom de surpresa. — Primeira Geração?

— Ah, você gostou? É sim, uma Kantoniana clássica, 6 IVs e focada em velocidade. Foi um dos meus primeiros Pokémon da vida. Cuido dela desde garotinha.

— Eu sou fissurado em Pokémon voadores. Quando menino até me inscrevi para me tornar líder de ginásio do tipo aqui na região, mas não consegui passar da segunda fase. Vou te contar, eu tenho um Staraptor, Quarta Geração, 3 IVs que já é uma mão na roda, mas ele não chega aos pés dessa belezinha aqui.

— Ela é linda mesmo, não é? — disse Amy enquanto afagava as penas de seu estimado Pokémon e falava com a voz mais fina. — Quem é a diva da mamãe, hein? Quem é?

Mamãe-mamãe! Kraaaaw! — repetiu Chatot.

Amy olhou feio em direção do Chatot que até se encolheu no ombro de seu dono.

— Então a senhorita vem de Kanto — ponderou o policial com a prancheta em mãos, em pleno voo. — O que veio fazer por essas terras gélidas bem durante o verão? Pretende participar da Battle Tower com essa superpotência?

— Ah, só estou atrás de algumas experiências novas. Sabe de algum bom lugar pra treinar?

— Sim, eu recomendaria a Stark Mountain em outros tempos, mas no momento a área está com acesso bloqueado. Ouvi dizer que a Polícia Internacional foi acionada, eles farão uma operação até o anoitecer, acredita?

— Jura? — Amy se fez de desentendida. — Ah, então é melhor eu ficar longe mesmo! Imagine só se eu acabo trombando com algum desses ladrões de Pokémon? Eu iria detestar que levassem minha pobre Pidgeot!

— Isso seria uma tragédia! — espantou-se o policial. — Nunca se sabe quando um ladrão pode estar disfarçado bem na nossa frente, né? Enfim, vou ter que pedir que tome cuidado ao sobrevoar essa área. A fumaça do vulcão pode ofuscar seu campo de visão, mesmo para um foguete experiente como sua Pidgeot.

— Pode deixar, Seu Policial!

Mamãe-mamãe! — gritou o Chatot em despedida, e só pelo olhar Amy deixou bem claro que se aquele papagaio dissesse mais alguma coisa ela o ensinaria uma palavrinha nova que iria bani-lo de todas as competições globais por uma década.

 

Assim que o policial deu as costas com seu veículo motorizado barulhento, Amy deu um rasante com sua Pidgeot que mergulhou tão depressa abaixo das nuvens que ninguém pôde enxergá-la. Por obra do acaso ou descuido das autoridades, ela agora sabia que a P.I. estava com uma operação não-tão-secreta marcada na famigerada Stark Mountain. Sua investigação começaria por ali.

Ela desceu nas proximidades da floresta, preferindo buscar alguma passagem na base da montanha. Por se tratar de um local tão famoso era de se esperar que houvesse mais treinadores na região, mas no momento não havia ninguém.

Ao descer da Pidgeot, ela esticou a mão para frente ao perceber que pequenos floquinhos pareciam pairar pelo céu. Seu chapéu já estava sujo nas bordas. Ela pegou a fuligem preta e a amassou com a ponta dos dedos.

— Cinzas vulcânicas — murmurou ela.

Para estudar o solo, lançou a pokébola de um Pokémon que vivia bem em regiões montanhas. Sorrateira, sua Sneasel, não estava nem um pouco contente por dar as caras em um lugar tão abafado e fedido que não se lembrava em nada com sua morada, mas cumpriria sua parte do trabalho e logo voltaria a descansar.

A Sneasel farejou o ar. Só podia ser enxofre, e com toda certeza a origem do cheiro a levaria ao centro do vulcão. Amy precisou se apressar para acompanhar a Sneasel que não se incomodava em olhar para trás. Sua treinadora conhecia tão bem seus Pokémon que só precisava se dar ao trabalho de dar-lhes a instrução uma única vez.

— O que encontrou, Sorrateira?

A Sneasel estava parada diante do que parecia uma zona de descarte e resíduos, com pedaços de vidro e material orgânico utilizado em pesquisa. Aquilo era um sinal mais do que óbvio de que havia atividade humana nas redondezas.

E eles não deviam estar tão distantes.

 

Em pouco mais de uma hora a Sneasel localizou uma passagem discreta nas raízes da montanha, perto do que pareciam ser termas aquecidas por vapor. Amy aproximou-se só para verificar com a pontinha do dedo a temperatura da água que estava ideal. Sentiu vontade de despir-se ali mesmo e passar algumas horas relaxando naquela banheira natural, mas já entardecia e a Polícia Internacional daria início a sua operação.

Ao adentrar a passagem, o ar começou a ficar cada vez mais quente e abafado. O local era todo iluminado por um sistema elétrico antiquado, o que indicava ao menos que alguém o vinha frequentando. Devia funcionar como uma saída de emergências, pois era um longo corredor que serpenteava cada vez mais fundo nos confins da montanha.

— Parece um laboratório velho — comentou Amy. — Isso aqui está cheirando a Rockets.

Amy não avistou uma alma viva nos poucos minutos que se infiltrou na base. Sua Sneasel caminhava à frente pronta para atacar caso necessário. A treinadora saiu investigando qualquer pista que pudesse expô-los, mas só encontrou pesquisas e livros acadêmicos. Em um dos armários havia uma série de uniformes cinza com detalhes preto estampando um logotipo em forma G que ela nunca ouvira falar.

Amy e seu Pokémon se entreolharam. Sua Sneasel estava claramente a julgando.

— Não olhe assim pra mim. Uma vez ladra, sempre ladra.

Amy vestiu o uniforme cafona e tirou um minuto para se olhar num espelho trincado no canto da sala. Deu uma bela olhada em sua traseira, preocupando-se que tudo estivesse devidamente em ordem. A roupa era um pouco cavada, com um tipo de collant apertado que ia por baixo usando botas e calças listradas.

— Por Arceus, como é que alguém em sã consciência sai na rua com um uniforme desses? Não é à toa que os Rockets ganhavam todo ano no festival de moda com o Melhor Uniforme.

No fim do corredor escutou vozes se aproximando. Os pesquisadores deviam estar começando a voltar ao serviço.

Amy esgueirou-se nas sombras com profissionalismo, pois desde pequena adquirira experiência para passar a perna mesmo nas equipes criminosas mais perigosas do mundo. Escondeu-se embaixo de uma mesa e parou para escutar. Quando olhou de relance, um rapaz e uma moça chegaram e sentaram-se em frente aos seus computadores, conversando sobre algo extremamente importante do qual Amy não compreendia.

— Star, você acha que devo arriscar?

— Não sei, Cosmo. Quantas gemas você conseguiu juntar esse mês?

— Umas 200, mas não sei se isso é o suficiente para eu conseguir a personagem que quero. São só 3% de chance, se eu gastar 155 gemas então posso ter um garantido, mas não vai sobrar nada para tentar as waifus de biquíni no fim do mês.

— Vai ter algum husbando bonitão?

— Sempre tem. Se der sorte, eu pego os dois.

Cosmo estava pronto para arriscar a sorte. Rezou para todos os deuses que conhecia e prometeu ser um capanga melhor para sua facção caso obtivesse êxito, e na décima sétima tentativa, a tela brilhou anunciando que um personagem Ultra Raro estava a caminho.

 — Glória a Arceus! — berrou Cosmo com as mãos ao alto.

Antes mesmo que pudesse comemorar a maior conquista de sua vida, sentiu as garras de uma Sneasel ao redor de seu pescoço. Do outro lado, sua companheira também havia sido imobilizada pela ladra.

— Quem são vocês? — Amy perguntou agressiva. — Para quem estão trabalhando? Que tipo de pesquisa fazem aqui? — Após um breve intervalo de interrogações, ela os pressionou: — Vocês não estão trabalhando para os Rockets, estão?

— Rockets? Claro que não. Somos Team Galactic com orgulho — respondeu Cosmo.

— Ou pelo menos o que sobrou deles — concordou Star.

— Galactic? Nunca ouvi falar — mentiu Amy. De fato não os conhecia pessoalmente, mas lembrava-se do breve relato de Proton sobre sua operação. — O que fazem debaixo dessa montanha como se estivessem atuando no sigilo?

— Nós pesquisamos Pokémon. Estamos estudando clonagem.

— Eu sabia! — afirmou Amy. — Então há de fato algum Rocket envolvido nisso.

— Nós não suportamos esses caras — contou Cosmo. — São todos um bando de egocêntricos que só visam roubar e não hesitam em ferir os outros para atingir seus métodos. Sim, temos um ou outro atuando aqui conosco. E seríamos muito gratos se pudesse dar um fim nos que restaram.

— Estamos começando a falar a mesma língua — disse Amy com interesse.

Cosmo e Star não hesitaram ao contar “quase” todos os detalhes que sabiam sobre as pesquisas do Profº Charon na Stark Mountain. Contaram sobre os eventos da Grande Criação que precedeu uma investida da polícia e os membros da Liga que liquidaram de vez a presença dos Rocket no continente. Amy, por motivos óbvios, não contou a eles que era a mandante da facção, mas também ela não tinha culpa se Archer e outros ex-executivos agiram por suas costas para reerguer os planos de Giovanni longe de Kanto.

“O Proton não tinha me explicado a história toda... parece que eles fizeram um estrago em Sinnoh também”, pensou Amy. “Me sinto responsável por isso. Está na hora de colocar um fim de uma vez por todas na Equipe Rocket e seu legado de terror.”

— Como posso encontrar os membros que sobraram? — indagou Amy.

— Um dos representantes deles está aqui. Posso guiá-la se quiser.

Cosmo a guiou através dos corredores que se dividia em inúmeras passagens, Amy atingiu a sorte das grandes por contar com aquela escolta. Quando alcançaram seu objetivo, ele fez sinal de silêncio e apontou para dentro de uma salinha escura antes de se retirar.

Amy confiava que seus Pokémon poderiam resolver qualquer problema. Sneasel estava de garras expostas, e seu Primeape pronto para nocautear quem ousasse escapar. Não sabia com qual dos ex-executivos estava lidando, e cogitou até mesmo que alguns deles tivesse voltado do mundo dos mortos para assombrá-la.

Uma moça de cabelos negros e jaleco branco estava sentada de costas para a porta, um sinal de claro desleixo tendo em vista que uma das regras primordiais dos Rockets era sempre sentar-se onde se tem visão da saída para uma eventual fuga quando necessário. De fato, a garota usava um par de fones de ouvido e balançava a cabeça alegremente, absorvida pelas anotações que fazia num papel florido com canetas coloridas.

A Sneasel tocou a ponta de sua garra nas costas dela. A garota soltou um suspiro, largou a caneta e ergueu as mãos num sinal de rendição.

— Não grite — ordenou Amy.

— Não se preocupe. Já passei por tanta coisa essa semana que estou me acostumando — respondeu Dawn, girando na cadeira bem devagar para encarar quem quer que estivesse ali.

— Você é a mandante dos Rockets por aqui? Por que está retomando as pesquisas de clonagem? — Amy a pressionou apreensiva.

— Quem, eu? — indagou Dawn, surpresa. — Não estou ajudando Rocket nenhum, estou só compartilhando meu conhecimento para ajudar.

— É o que todos cientistas dizem antes de inventar alguma engenhoca que vai colocar em risco o mundo inteiro — retrucou Amy.

— Desculpe? Que tipo de preconceito é esse para cima dos cientistas? — Dawn revidou, profundamente ofendida. — Pois saiba que nós, pesquisadores, precisamos nos arriscar para que novas descobertas possam chegar à população. Eu estou cansada desse retrato estereotipado de que o cientista é sempre o lunático, só porque mexemos com coisas que a maioria não entende. É só reparar que em toda história o arquétipo do cientista é usado como um disfarce para um vilão nessa eterna busca por conhecimento, visando despertar uma entidade adormecida ou quem sabe até--

Amy cansou-se daquela conversa e ordenou que sua Sneasel nocauteasse a garota com um golpe na nuca. Dawn apagou na mesma hora, caindo no chão desacordada. Se ela fosse mesmo a responsável pela ascensão dos Rockets em Sinnoh, precisaria de seus contatos e influência para entender o que eles estavam planejando.

— Você fala demais, garota — murmurou Amy impaciente, tentando carregá-la.

Quando estava para deixar a sala de pesquisas, a saída havia sido bloqueada. Em frente à porta havia uma mulher de cabelos vermelhos, olheiras e o velho uniforme dos Galactic com seu emblema estampado no peito. Ela estava magra e fraca, mas havia uma ferocidade no olhar que apontava que era melhor não mexerem com ela.

— Eu não sei quem você é, mas é melhor não interromper nossos planos — disse a Comandante Mars.

— Você não vai querer arrumar encrenca comigo — respondeu Amy.

A primeira investida veio por parte de Mars que arremessou sua pokébola que liberou uma Purugly balofa, tão resistente quanto um tanque. Do lado de Amy seu Primeape entrou no ringue pronto para esmurrar.

Close Combat! — ordenou a treinadora.

O Pokémon primata esmurrou a Purugly que tentava aguentar firme mesmo em clara desvantagem. Quanto mais o Primeape se irritava, mais poderoso ele se tornava. Saltitava de um lado para o outro dando jabs e socos direto no felino que se concentrava em defender até que chegassem reforços. Amy não poderia perder tempo com aquela baboseira, ou acabaria ficando encurralada.

— Não vou permitir que você leve essa menina. Ela é da família — contou Mars.

— Sei bem como é. Sempre protegemos os nossos — respondeu Amy, confiante. — E como a representante legal por todas as merdas que os Rockets continuam causando, eu preciso acabar logo com isso.

O Primeape finalizou seu oponente com um cruzado que fez o Purugly ver estrelas. Mars não estava em condições físicas ou psicológicas de vencer uma batalha. Dawn começou a se mexer ainda atordoada pela concussão, mas agora dava sinais de recobrar sua consciência.

— Tia... Martha...? O que você está... fazendo?

— Martha? Você só pode estar de brincadeira — indagou Amy, encarando a Comandante Mars. — Nós não vamos parar essa luta só porque alguém disse “Salve a Martha”, ou vamos?

A Comandante retornou seu Pokémon, mas ponderou com cuidado sobre suas palavras. Tentou interligar os fatos, e só conseguiu chegar a uma conclusão.

— Foi o meu marido que a mandou aqui, não foi? — indagou Mars.

— Se você for a esposa de um cara charmoso que atende pelo codinome Proton, então sim.

— Quero que diga a ele para não tentar mais me impedir — vociferou Mars com irritação. — Eu já tomei a minha decisão! Vou trazer o nosso filho de volta, mesmo que isso custe a minha vida. E-eu preciso fazer isso... por ele...

— Ei, ei. Vai com calma — falou Amy, procurando uma abordagem mais amena. — Eu não vim aqui para julgá-la. Vim por dois motivos: primeiro, limpar a sujeira dos outros antes que sobre para mim; e segundo, você tem uma filhinha linda te esperando em casa. Não abra mão do seu mundo inteiro só porque perdeu parte dele.

A expressão de Mars mudou da água para o vinho. Em seu olhar havia o semblante de uma mulher doce que descobrira a maternidade havia pouco tempo, mas também manchada pelas cicatrizes e doses que vinham no conjunto. Mars amava Eletra, sua filha mais velha, e queria vê-la crescer e quem sabe um dia tocar sua própria facção criminosa. Tal ideia a fez rir com os olhos marejados. Por um instante sentiu-se muito egoísta em abrir mão dela e do marido que tanto a amava.

— O que eles disseram sobre mim...? — indagou Mars.

— Os dois só querem que você volte para casa. Eles precisam de você como mãe e esposa — respondeu Amy.

— Mas como eu poderia encará-los ao voltar de mãos abanando?

Amy desviou o olhar, buscando fundo em seu próprio coração para dizer aquelas palavras:

— Eu cresci sem pai. É difícil ser cuidado por um lado só, a balança sempre acaba pendendo. Ele vivia procurando uma forma de voltar para casa e trazer alguma coisa para mim para compensar, fosse um presente que ele achava que eu queria ou rios de dinheiro. Às vezes ele só queria manter as contas pagas. Mas ele nunca percebeu que o que eu mais precisava era ter um pai presente em casa. Eu teria pago para ele pra ficar, se fosse rica como ele era. Eu teria comprado todo o tempo do mundo ao lado dele...

— Mas tempo não se compra. E disso Dialga sabe muito bem — respondeu Mars de maneira mansa.

Quando as duas finalmente estavam começando a se entender, o alarme do laboratório disparou com seu som ensurdecedor. “Alerta vermelho! Alerta vermelho! Intruso detectado!”.

— Parece que fui descoberta. — Amy deu de ombros, fingindo surpresa. — Até que demoraram.

— Não foi você — contou Mars. — Tem mais alguém aqui.

A Comandante saiu às pressas, pois não queria que ninguém soubesse que ela compactuava com os planos do Team Galactic e aquilo voltasse a colocar a segurança de sua família em risco. Amy agachou para verificar as condições de Dawn, mas a garota ainda estava desnorteada e não conseguiria andar, o que dificultaria sua fuga.

Amy olhou para o fim do corredor esfumaçado, iluminado por luzes vermelhas oscilantes conforme o alarme gritava. Sacou uma pokébola da bolsa e aguardou o confronto.

Do outro lado do corredor, duas sombras se ergueram como se envolvidas por uma dança. Um majestoso Dusknoir adentrou o local de braços cruzados ao lado de uma Froslass que fazia sua entrada triunfal como sua primeira dama. Conforme avançavam, o chão por onde os Pokémon fantasma flutuavam congelava assim como as paredes ao redor, transformando o corredor espremido em um caixão de gelo dentro de um vulcão adormecido.

Atrás deles veio um garoto ordinário, sempre de cabeça e queixo erguido com sua boina púrpura, jaqueta azul e seu clássico cachecol branco. O gelo controlara a temperatura de tal forma que ele nem precisou se dar ao trabalho de trocar de roupa, como se a própria natureza tivesse de se curvar perante sua vontade.

— Opa. Foi mal por atrapalhar seus planos. Só sei entrar pela porta da frente — disse Luke Wallers.

O que mais o surpreendia era que alguém ainda tivesse coragem e ousadia o bastante para combatê-lo. Os anos podiam tê-lo tornado mais humilde e contido, mas ainda havia traços da soberba de alguém que se consagrou campeão em sua juventude. Luke não se deu ao trabalho de pensar demais e ligar os fatos. Ali estava uma mulher desconhecida com o uniforme da extinta facção dos Galactic, pronta para enfrentá-lo. Ao seu lado, o corpo estirado da garota por quem cruzaria um continente para salvar.

Luke e Amy se encararam sem dizer palavra alguma. No cinto da calça, uma Dusk Ball estava à mostra como se fosse sua principal arma, seu dedo indicador pousando a poucos centímetros do gatilho.

— Solta a garota — ordenou Luke.

Mas Amy não gostava de receber ordens. Ela sorriu com afronta.

— Vem me obrigar.

A Dusk Ball zuniu. Um flash dominou o corredor antes que tudo mergulhasse num breu, como se tivesse roubado a própria escuridão. Por entre a fumaça e luzes oscilantes da sirene, um par de olhos amarelos surgiu e deu espaço a um enorme dragão bípede com suas lâminas no lugar de garras prontas para dilacerar. O Garchomp vociferou como forma de intimidação e aguardou as ordens ao lado de seu mestre.


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