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Aventuras no Desconhecido [Capítulo 4]

Capítulo 4 – Cavern & Valley
[FINAL]

Os dias que se seguiram na Ilha Pokémon foram repletos de surpresas agradáveis e paisagens exuberantes. Dawn lhes mostrara uma passagem secreta descoberta na saída do riacho que levava a uma caverna oculta repleta de cristais, onde Vivian e Stanley se depararam com criaturas incríveis de todos os tipos. A ruiva tomava todo cuidado para que o flash da câmera não cegasse nenhum Pokémon, por isso as fotos não ficaram tão boas; estavam mais ocupados tentando fugir de um Victreebel furioso e um Muk fedorento, adormecido na fenda mais profunda da caverna. Dentre as maravilhas encontradas, os vestígios do ovo de Articuno foi o que mais recebeu atenção, tanto que Stanley precisou guardar uma lasca tão dura e brilhante quanto um diamante.
Logo completaria uma semana que estavam alojados — ou melhor, perdidos — na ilha remota. Em dados momentos, sentiam como se tivessem ficado presos em um parque de diversões que fechara para uso exclusivo no fim de semana, sem horário para voltar e nem pais para fiscalizar o que quer que estivessem fazendo.
A preocupação com a forma que encontrariam para escapar dali parecia uma realidade distante — a selva oferecia alimento de sobra, tinham a água potável de nascentes e até energia por conta dos geradores na usina que alimentava o laboratório onde Dawn fazia sua pesquisa. E se decidissem ficar? E se aquele era seu destino, viver como um Pokémon selvagem? Primeiro, eles precisavam sobreviver aos desafios da ilha.
A famosa cadeia de montanhas que formavam a imagem de um Dugtrio podia se vista do início do vale. O ZERO-ONE se adaptara ao seu formato de bote e agora flutuava tranquilo no percurso, guiado pela correnteza que descia o vale.
Rema, Stan! Esses seus bracinhos só servem pra fazer massagem? — gritou Vivian.
Os dois não contavam que ZERO-ONE apresentaria um defeito durante a excursão. Vivian e Stanley se espremiam dentro do automóvel tentando não se molhar; não fora uma boa ideia os dois terem ido juntos, deviam ter escutado a voz da consciência de Dawn que insistiu no fato dele ter sido construído para um único passageiro.
— Deixar nossos Pokémon no laboratório foi uma ótima ideia, viu — disse Vivian irritada, pressionando a mesma tecla havia uma hora. — “Drinian e Primia precisam de um tempinho juntos também, vamos deixá-los aqui com todos nossos Pokémon enquanto saímos SOZINHOS por aí para explorar uma ilha PERIGOSA E MORTAL!”
— Ah, mas você não negou na hora, né? — respondeu o rapaz, empurrando o bote com um remo improvisado feito de um galho para que não batessem nas rochas pelo percurso. — Se ao menos eu tivesse meu Gyarados, ele nos tiraria daqui em um instante.
— Seu Gyarados é um medroso, isso sim! Ficou com medinho de enfrentar aquele leviatã no oceano só porque era duas vezes maior do que ele.
— O coitado tá traumatizado até hoje... — disse Stanley. — Vou conversar com ele quando voltarmos.
— Isso se a gente voltar.
Vivian tentou relaxar, mas estava tensa demais. O sol forte fazia o rosto arder e a quantidade de Pokémon aquáticos curiosos que tentavam derrubá-los era insana; de um grupo de Squirtles arteiros até um cardume de Magikarps desesperadas em respirar. Vivian conseguiu fotografar apenas a cauda de um Dratini que saltou tão rápido que deveria estar usando o Extremespeed, um Goldeen belíssimo espirrou água em seu aparelho que parou de funcionar por breves trinta segundos — o suficiente para que Vivian tivesse um mini-infarto —, mas quase todas as fotos do vale estavam ficando horríveis. Aquele não era mesmo um dia para sair de casa.
— Tá dando tudo errado — resmungou a garota, como se o universo conspirasse ao seu favor.
— Pelo menos temos um tempinho só nosso.
— É, mas estou ficando meio enjoada de só poder olhar pra sua cara.
Ouch — resmungou Stanley, chateado. Vivian só podia estar naquela fase, mas agora precisava aguentá-la, visto que não tinha para onde fugir.
O bote flutuou tranquilo até uma ilhota onde um grupo de Gravelers se amontoava para dormir. Havia muito que se olhar na paisagem do vale que era de um laranja penetrante, suas enormes paredes de rocha se erguiam como se estivessem olhando um cânion inundado de baixo para cima, não havia um lugar parecido com aquele em nenhuma outra região do mundo Pokémon.
Um Sandshrew arteiro já os acompanhava no percurso havia pelo menos uma hora. Ele entrava debaixo da terra quando percebia que o observavam, mas parecia gostar de seguir a estranha presença de dois humanos em sua morada. Vivian tirara tantas fotos dele quanto conseguira.
— Tenho um amigo em Johto que tinha um Sandslash, foi um dos primeiros parceiros de viagem dele — disse Vivian enquanto verificava a qualidade das imagens. — Quando eu era pequena, lembro que meu avô Pryce o enfrentou com seu Sandslash de gelo, foi uma das batalhas mais legais que pude presenciar, gosto muito dessa espécie desde então.
— Hm — Stanley respondeu meio desinteressado.
— Ah, vai começar a dar resposta seca agora? Melhor conversar com uma parede.
— Só estou meio cansado, Vi.
— Você tá um cu hoje, hein? Cacete — reclamou Vivian frustrada.
— Epa, epa! Pra que tanta raiva? Isso não vai nos ajudar em nada.
— Estou aqui tentando criar um diálogo pra essa viagem ser menos maçante e você não colabora!
— Então senta e aproveita a paisagem — continuou Stanley.
— É, acho que vou mesmo. Melhor do que conversar com você.
O Sandshrew grunhiu alto. Vivian olhou para a criaturinha que se movia de forma frenética, como se estivesse tentando avisá-los de alguma coisa.
— Olha lá, nem ele quer nos ver brigando, então vê se para, tá?
— Acho que não é isso que o Sandshrew está tentando dizer, Vi...
Stanley apontou para frente. O bote ganhava velocidade, seguindo a correnteza em direção de uma dúzia de cascatas que desaguavam onde os olhos não alcançavam. Os dois começaram a remar desesperados na direção oposta, o pobre Sandshrew não tinha nem chance de se aproximar ou pedir que seus amigos do tipo terrestres o ajudassem. Incapazes de adiar o inevitável, Stanley abraçou Vivian com mais força para que ela não caísse do bote e os dois se deixaram levar.
O ZERO-ONE colidiu com força contra rochas, mas sua estrutura rígida aguentou firme. Eles desceram tão depressa pela correnteza que três Staryus apareceram girando velozes por pensarem que eles estavam brincando. O bote mergulhou fundo com a queda da última cachoeira, mas suas boias haviam sido feitas para resistirem a qualquer impacto. Encharcados, apavorados e com água até o pescoço, a correnteza pareceu finalmente dar uma trégua. O coração de Vivian batia forte, ainda tremendo com o ocorrido, ela encostou a cabeça no ombro de Stanley e falou baixinho:
— Estou ficando cansada dessa ilha... por favor, vamos embora.
O rapaz concordou com a cabeça, agora só precisavam encontrar um meio.
— Era só o que me faltava — falou Stanley, olhando mais a frente.
Vivian notou que a água toda do vale era sugada para o centro do que parecia um redemoinho a poucos metros da praia. Os dois pegaram seus remos, mas estavam sem forças para enfrentar a fúria da natureza.
Rema, Stan! Que baita final idiota seria se morrêssemos aqui, enfrentamos o fim do mundo e uma Liga Pokémon pra terminar afogados! Rema! Rema! Puta que pariu, como eu odeio esse lugar!
— É uma boa hora para sermos salvos pelo Poder da Amizade, não acha? — gritou o loiro em resposta.
— Tá esperando que a Dawn apareça aqui com o Piplup dela? Vai sonhando!
O redemoinho ganhava força, sugando tudo ao seu redor. Como de forma milagrosa, Stanley pressionou todos os botões que conseguiu ao mesmo tempo e o ZERO-ONE voltou a funcionar, empurrando-os com um tranco para longe do redemoinho e levando-os em segurança para longe dali.
Vivian respirou aliviada. Depois dessa experiência, nunca é que tentaria voltar para o continente nas costas do Gyarados de Stanley, o oceano poderia se revelar ainda mais cruel e imprevisível. Sem contar que o leviatã ainda estava por ali, rondando a ilha. Como o vale desaguava no mar, eles puderam enxergar suas barbatanas bem longe como um submarino gigante, esperando outras malas ou viajantes desavisados para jogar no estômago.
A correnteza se separava em duas rotas, a segunda levava para uma lagoa calma e tranquila que foi a primeira opção dos viajantes. Para a surpresa mútua, havia uma cabana de madeira ali. Eles estacionaram o ZERO-ONE na costa e saíram da água alongando as pernas depois de tantas horas espremidos dentro do bote.
— Quer ir dar uma olhada? — perguntou Stanley.
Vivian deu de ombros. Não tinham outra alternativa que não fosse esperar o Gyarados gigante sair da rota, precisavam levar o ZERO-ONE até os trilhos enferrujados na praia de onde seguiriam com tranquilidade até o laboratório. A rota do vale, nunca mais.
A cabana era de um aspecto rústico, mas parecia recente demais para os pesquisadores que se alojaram na ilha havia vinte anos. De mobília simples, contava com cortinas delicadas e almofadas em formato de Pokémon que davam um toque a mais de meiguice; havia varas de pescar nos armários e comida podre nas prateleiras, era como se seus donos tivessem saído às pressas. Uma cama de casal de lençóis brancos fez Vivian imaginar que as pessoas que ali moravam deviam ser felizes com a vida que levavam; conviviam com o que a natureza os oferecia e não havia nenhuma outra preocupação do mundo exterior para aturdi-los.
— Imagina só nós dois morando aqui, mozão? — insinuou Vivian, já um pouco mais tranquila e doce do que horas atrás. — Poderíamos virar nudistas, plantar algumas berries, cultivar batata... não é a nossa cara?
— Tá doida? Você não é mais a exímia caçadora de insetos de quanto tinha quatorze anos. Naquela época, eu até entendo que conseguiria viver só do que a natureza te fornecer, mas na hora que a sua última carga de bateria acabar, aposto que você pira.
— É, mas o sangue de Azalea ainda passa por minhas veias! — respondeu, tentando se convencer de que não era tão dependente da tecnologia quanto Stanley insinuava.
Stanley já deixara a cabana, mas Vivian quis dar uma última olhada. Ela ajoelhou-se e vasculhou embaixo da cama, onde encontrou o que parecia ser uma presilha. Ao puxá-la, reconheceu o formato na mesma hora — uma Butterfree azulada, sujo e gasto, mas era inconfundível.
— Stan. Stan. Stan! — Ela começou a berrar. — Meu Arceus, você não vai acreditar no que encontrei!
Vivian voltou correndo para o namorado com a presilha em mãos, as palavras que saíam de sua boca mal faziam sentido.
— O que é isso? — ele perguntou surpreso. — Algum objeto raro?
— Stan, isso pertencia à minha prima, Julia!

i

Vivian e Stanley correram de volta para o laboratório com o ZERO-ONE ligado no modo de tração no máximo. Uma tempestade forte parecia se aproximar, pois uma nuvem cinzenta do tamanho de uma cidade se formou sobre o céu da ilha. Dawn até se assustou com a chegada repentina dos dois, estava estudando os Porygon quando uma ventania atravessou a porta e Vivian saiu atropelando suas mesas e anotações com a mão erguida.
— Dawn, tem mais alguém morando nessa ilha? — A ruiva perguntou enquanto chacoalhava a amiga. — Você viu mais alguém nesse tempo que ficou aqui? Por favor, me responde!
— C-calma, Vi... — respondeu Dawn, ajeitando os óculos e limpando o jaleco. — Céus, vocês estão péssimos. Por que demoraram tanto?
— Ficamos presos no vale, mas isso não importa agora — disse Vivian, erguendo a presilha na frente dela. — Isso. Como é que isso veio parar aqui?
— Eu não tenho como saber. — Dawn tentou mantê-la calma, pois percebera que o assunto deixara sua amiga exasperada. — Antes de mais nada, onde o encontrou?
Stanley puxou uma cadeira para que Vivian se sentasse, ela estava tensa demais para dizer qualquer coisa, mas tentou organizar as palavras como pôde.
— Essa presilha é idêntica à que minha prima Julia usava... só ela tinha, era uma marca dela, quando lembro de seus cabelos loiros penso neles presos para trás com esse prendedor, e só consigo... só consigo pensar...
— Calma, Vi — disse seu namorado. — Antes de mais nada, quem é Julia?
— Quem é Julia?! Ela é só a mandante das Primas de Azalea, minha inspiração! Pensa numa atriz bonitona e multiplica por mil vezes, ela é a Gardevoir do mundo Pokémon, ela é minha deusa, minha louca, minha feiticeira! Eu me inspirei a vida toda na Julia, queria ser como ela quando crescesse, mas de uns anos para cá perdemos totalmente nosso contato e, do nada, essa presilha cai em minhas mãos, só pode ser um sinal!
Dawn e Stanley se entreolharam, tentando ligar os pontos.
— Por que você nunca nos contou dessa prima se ela é tão importante para você? — perguntou Dawn.
— Nunca contei? Hah! Como se eu... nunca contei mesmo? — indagou Vivian confusa.
— Eu conheço todas as suas primas de Azalea — disse Stanley. — Você fala tanto delas que conheço cada uma por nome, mas eu nunca ouvi falar de nenhuma Julia.
— Vocês só podem estar brincando. Eu vou mostrar a diva que era essa mulher.
Vivian tirou seu celular da bolsa e começou a vasculhar as fotos mais antigas que tinha com a prima de quando eram crianças, mas quando chegou ao limite de suas recordações percebeu que não havia nada. Acessou o Zap-Zapdos, mas lembrou-se que Julia não era do tempo de smartphones e provavelmente nem saberia como usá-los; pensou nas cartas que deixara em casa, mas estavam longe demais para provar que a caligrafia dela estava ali, que ela era real.
— Vi — Stanley tocou as costas dela gentilmente. — Essa garota... existe mesmo?
— É claro que existe! Tá me achando com cara de doida? Calma que eu vou achar, lembro dela ter me mandado uma foto do arquipélago das Ilhas Laranja faz um tempo, era cada cenário surreal que até parecia ser fake.
— Espera — Dawn começou. — Ilhas Laranja?
— É — Vivian balançou a cabeça impaciente. — Sei que quase ninguém conhece, tem gente que nem considera canon, mas é um baita de um lugar bonito para visitar, um dia pretendo ir até lá com minha prima para ela mostrar a vida de luxo que tem tido nos últimos anos, porque só aceito isso como desculpas para alguém demorar tanto só pra entrar em contato. Quanto custa pra enviar uma cartinha pra outra região, uns quinze conto?
Dawn e Stanley se entreolharam pasmos e pareceram compartilhar pensamentos. Vivian continuava com os olhos fixos na tela do celular, seus amigos procuravam a melhor forma de dar-lhe a notícia, mas nenhuma pouparia o choque abrupto que viria a seguir.
— Vivian, você... não ficou sabendo? — perguntou a pesquisadora.
— Sabendo de quê?
— As Ilhas Laranja...
— Quê que tem as ilhas? Vai me dizer que não são laranja?
— ... afundaram — respondeu Stanley com a voz séria.
Vivian parou de mexer no celular e olhou para ele.
— Tá me zoando?
— Não, Vivi, jamais brincaríamos com isso! — respondeu Dawn. — Apareceu em todos os noticiários na época, foi notícia por meses, um desastre terrível! Acho que foi antes até de começarmos nossas jornadas por Sinnoh.
Vivian começou a fazer as contas com os dedos, e o tempo em que Julia parara de enviar cartas batia com as datas.
— Eu não fazia ideia — murmurou a ruiva, sem reação.
— Você tinha parentes lá? — perguntou Stanley. — Caramba, Vi, isso é terrível. Eu não fazia ideia... você não assistia TV? Seus avós teriam te contado, alguém na sua família saberia disso.
— Eu nunca gostei muito de TV, tá legal? Eu sempre dizia para meus pais que não queria saber das tragédias do mundo, nunca fui de me atualizar com notícias, mas... cacete, vou provar que existe.
— Existe o que?
— Minha prima, oras!
— Qual delas?
Vivian abriu a boca, mas a fechou devagar.
Não lembrava.
Não era possível que tivesse esquecido o nome dela, era como se uma força exterior arrancasse seu brinquedo favorito de dentro da caixa. Sabia que a conhecia, então por que aquelas lembranças maravilhosas pareciam se tornar escassos, como uma história contada por outra pessoa?
Vivian abriu a galeria do celular e voltou a procurar qualquer registro da prima. Talvez se continuasse insistindo encontraria alguma imagem ali para mostrar que eles estavam errados, que tudo não passara de um mal entendido.
Será que sua família também conspirara para ocultar aquela informação? Seus avós sabiam e ela era a última a saber, como sempre acontecia? Quando se deu conta, haviam lágrimas escorrendo pela tela principal.
— E-eu acho que tenho o número antigo — disse Vivian com a voz trêmula. — Vou ligar pra ela, mas talvez não me atenda porque é muito ocupada, sabe... a essa altura deve estar bebendo Berry Juice na sombra de uma palmeira ao lado da namorada. E-eu lembro da voz dela. Minha prima. Minha melhor amiga...
Vivian começou a chorar compulsivamente. Stanley tirou o celular da mão dela e a abraçou com força. Queria confortá-la, mas sabia que nenhuma palavra que dissesse aliviaria aquele peso. Talvez estivessem só sendo precipitados, talvez tudo não passasse de um mau entendido que ainda os faria rir muito daquela situação dali a alguns anos, mas naquele exato instante machucava tanto que chegava a doer. Vivian enterrou o rosto no peito dele, agora incapaz de conter os soluços altos e as lágrimas que molhavam sua camisa; vê-la chorar era uma cena tão dolorida que Stanley se via desarmado, poderia chorar a qualquer momento junto dela, mas queria ser forte para suportar o sofrimento pelos dois.
Nenhuma foto, nenhum relato. Será que Julia viveria apenas em suas memórias?
— Por favor, não me deixa esquecê-la... — disse Vivian, enterrando a presilha em direção ao peito como se quisesse trocar o seu coração pelo dela. — É a única coisa que sobrou...
Começou a ventar muito lá fora, não tardou para que uma chuva torrencial caísse com uma força que somente ilhas tropicais conheciam. Dawn identificou uma tempestade vinda do oceano que ela só presenciara uma vez na vida quando era criança e lhe trazia lembranças avassaladoras; a imagem do bote tentando evacuar a ilha de Dewford, em Hoenn, que custou a vida de seus pais ainda atormentava seus sonhos.
Vivian ergueu-se depressa e se desvencilhou dos braços de Stanley, correndo para fora.
— Não deixe ela sair, é muito perigoso! — implorou Dawn.
Vivian correu depressa e bateu a porta. O vento estava tão forte que as palmeiras se curvavam perante ela. Não era possível enxergar um metro a sua frente, uma enxurrada de folhas era varrida para longe, as gotas perfuravam como navalhas.
Pare de brincar com as minhas lembranças! — Vivian gritou com as mãos na cabeça, como se condenasse as divindades. — Eu odeio essa ilha!
Stanley tentou abrir a porta, mas o vento estava tão forte que precisou usar todo o peso do corpo para empurrá-la. Ele chamou Primia, a Scizor era forte e pesada o bastante para agarrar sua treinadora e trazê-la para dentro, mas Vivian gritava para o céu como se esperasse uma resposta para as consequências que a assolavam.
— Vivian, sai daí! — gritou Stanley. — É muito perigoso!
Um raio iluminou o céu cinzento, cortando o véu esfumaçado que se formava. Vivian fechou os olhos e esperou ser atingida, quem sabe assim pagasse pela displicência de nunca ter sequer investigado o motivo de sua prima ter parado de entrar em contato havia tantos anos. Um trovão esbravejou, tão alto e ensurdecedor quanto a ira de Thundurus. O raio veio em seguida como uma lança.
O metal de Primia atraíra uma descarga elétrica tão forte que foi como se todos ali tivessem sido atingidos por um Thunder. Vivian sentiu o impacto no peito e caiu de bruços no chão a quatro metros dali, imaginando estar morta. Na verdade, não ligava. Preferia que acabasse assim mesmo. Com o rosto sujo de lama, ela fechou os olhos e esperou que a morte a levasse, mas no minuto que se seguiu estranhou a calmaria que a cercara.
Uma mão estendeu-se em sua direção. Ela olhou para cima e enxergou o rosto de Julia, tão puro e angelical, mas com aquele semblante sacana de quem a puxaria escondida para um banheiro público para fazer besteira.
“Vai mesmo ficar aí deitada, sua preguiçosa? Não é assim que as Primas de Azalea se comportam”.
Vivian não tocou a mão dela, mas sentiu alguém levantá-la no colo.
— Graças aos céus, ela está viva — ouviu a voz de Dawn, fraca e distante.
Não soube dizer quanto tempo ficara naquela situação, mas pareceu levar apenas alguns segundos. Estava com o rosto ensanguentado por uma rocha que a atingira e sentia muito frio.
Ao abrir os olhos, viu Stanley debruçado sobre ela com os olhos lacrimejando.
— E-eu não saberia o que fazer se te perdesse... — disse o rapaz entre soluços enquanto a acariciava no rosto. — Você é minha vida.
— Calma, mozão — disse Vivian daquele jeitinho que só ela conseguia. — Vaso ruim não quebra.
Os dois tentaram rir, mas a situação não permitia. Primia estava muito ferida, mas graças a ela o impacto do raio não fora nem metade do que seus treinadores receberam. Drinian estava aninhado ao lado da Scizor enquanto Dawn revirava seus pertences atrás de um Hyper Potion e um Paralyz Heal. Era muito mais fácil um Pokémon se recuperar daquele dano do que um humano.
— Eu vi minha prima, Stan... ela tá bem — falou Vivian.
— Sério? — perguntou ele, cheio de esperança. — E ela é bonita, que nem nas suas lembranças?
— Linda. Como uma deusa, uma louca, uma...
Vivian fechou os olhos, exausta, e adormeceu um sono tranquilo onde sonhou com sua família reunida no natal, festejando a ceia e comendo até não aguentarem mais.

ii

Após uma noite turbulenta, a tempestade deixara estragos permanentes na ilha, Dawn tentava tranquilizá-los ao lembrar como a natureza era única e perfeita, sendo capaz de se recompor sozinha em questão de alguns meses para a fauna tão característica que a compunha.
Na manhã seguinte, Vivian foi andar logo cedo na praia para apreciar o nascer do sol. O local estava vazio sem a presença de nenhum Pokémon, nem mesmo os Lapras ou o Gyarados gigante deixaram suas tocas. Ficou sentada sobre um tronco de árvore caída observando o mar quando seus amigos se aproximaram e sentaram-se ao lado, em silêncio. Stanley sabia que quando a namorada ficava quieta demais era porque havia algo errado.
— Vocês acham que eu fiquei louca? — perguntou Vivian. — E se ela nunca existiu mesmo?
— É sua prima, pô. Se você diz que a conheceu, quem somos nós para duvidar? — brincou Stan.
Vivian começou a massagear o coração, sentia ele estranho desde que por pouco não fora atingida pelo raio.
— Esse espaço no coração... parece que nada vai preenchê-lo — disse a ruiva. — Por que as pessoas precisam ir embora? E por que depois que elas se vão nós tentamos agir como se nada tivesse acontecido?
— Chega um momento da vida, quando nos deparamos com a morte de alguém, que nós percebemos como nossa existência é frágil e finita — falou Dawn. — Alguns aprendem isso mais cedo do que outros, então começamos a nos preparar desde então. Por isso vivemos essa busca eterna de um sentido, talvez algo que nos eternize ou que ao menos marque as pessoas à nossa volta.
— É errado eu sentir saudade?
— Claro que não — disse Stanley, puxando-a para mais perto. — Saudade é uma coisa boa. Às vezes ainda me pego chorando pela morte do meu avô. E isso não é ruim. Significa que temos tantas coisas boas para lembrar, não? Eu guardo essas memórias como tesouros.
— É — Vivian encostou a cabeça nele. — Eu só queria ter tido a chance de me despedir dela...
A garota fechou os olhos, mas um clarão pareceu incomodá-la. Ao abri-los, viu a estranha forma de um Pokémon descer do céu, tinha uma coloração perolada rosa e uma longa cauda,  parecia brincar nas nuvens como se fossem feitas de algodão doce. Ao tocar o chão, a criatura assumiu uma forma humana. Era uma garota loira, de vestido florido e sorriso travesso. Vivian ficou de pé na mesma hora ao vê-la, a humana aproximou-se. Não encontrava palavras para expressar sua surpresa.
A garota luminosa em sua frente estendeu a mão, como se pedisse algo. Vivian percebeu que estivera segurando a presilha de Butterfree. Ela a entregou, e a garota a prendeu em seus cabelos dourados.
Ela apontou para o coração e começou a fazer uma sequência de gestos que Vivian não compreendia.
— Ela disse que sentiu muita saudade de você — falou Dawn, surpresa ao descobrir que faria uso da linguagem de sinais que aprendera na faculdade. — E está pedindo desculpas por partir repentinamente.
Vivian mordeu os lábios, mas não se aguentou; logo estava se debulhando em lágrimas de novo. Queria abraçá-la, mas não sabia se ela continuaria ali caso o fizesse.
— “Você é uma garota forte. Deve continuar seguindo em frente” — Dawn repetiu, atenta aos gestos. — “Eu te amo muito. Muito. Muito. Muito. E estou bem aqui, não precisa se preocupar. Sei como é difícil dizer adeus, parece fácil até chegar a sua vez. Mesmo que eu não volte para casa, quero que continue prezando sua família, pois é nela que está o seu lar.”
Vivian balançava a cabeça infinitas vezes, usando as mãos para limpar as lágrimas e cobrir o rosto. Jamais recusaria um último pedido de sua capitã. A garota luminosa desviou o olhar e encarou o horizonte.
— “Ninguém nunca sabe quando sua história vai terminar, mas... o que importa é a aventura de viver, não?” — Dawn fez uma pausa até entender o que a última frase significava e percebeu que estava chorando também. — “Adeus, amada e querida prima”.
Vivian correu para abraçá-la, mas assim que tocou seu rosto a garota luminosa se desfez em brilho e borboletas rosadas, de onde um Pokémon de aparência felina ergueu-se em direção do céu e desapareceu em uma nuvem colorida.
— Aquela era... Mew? — perguntou Stanley.
Vivian sorriu ao vê-la subir, ciente de que ela agora pertencia ao mundo, tal como sua prima Julia — uma indomável criatura, cheia de amor para oferecer e que vivera uma vida plena até o fim de seus dias.
Satisfeita com o encerramento daquela história, levou a mão ao bolso da jaqueta e percebeu que havia algo ali dentro. Quando o retirou, deparou-se com um pedaço de guardanapo amassado e seus olhos se iluminaram.
— Acho que acabei de descobrir uma forma de sairmos dessa ilha.

ii

De malas prontas, os três aguardavam o resgate no lugar marcado. Stanley reunira seus poucos pertences recuperados enquanto Dawn resumira três meses de pesquisa em uma pasta e um pendrive, havia inclusive estudos antigos sobre o DNA que ela encontrou em livros e pastas velhas — pretendia lê-los e decifrá-los com calma quando chegasse em casa. O encontro com o Mew levantara uma interessante teoria seria possível que a técnica Transform dava a possibilidade de um Pokémon se parecer com humanos? Será que os Pokémon lendários conseguiam ler pensamentos e interpretar sentimentos com um simples toque através do Synchronize? Como provaria o que havia acabado de ver?  Isso era conteúdo de sobra para começar a tese de seu TCC na Unisyno quando voltasse e tirar uma nota 10.
Vivian subira até o ponto mais alto da ilha. Por mais que os últimos dias tivessem sido frustrantes, podia dizer que sentiria muita falta daquela terra inóspita que a abraçara de forma tão inusitada, trazendo respostas para perguntas que a acompanhavam havia tanto tempo. Balançava as pernas contente do alto do penhasco quando ouviu alguém se aproximar.
— Stan, vamos tirar uma última foto? — perguntou Vivian.
Ela sentiu um estranho cheiro de fumo e, quando olhou para trás, havia um rapaz que ela buscou em sua memória algum resquício de lembrança que o envolvesse, apesar de não conseguir.
Imaginou que devia ter seus vinte e poucos anos, mas a expressão fatigada de quem viu muito o fazia parecer mais velho do que realmente era. A velha calça jeans surrada com diversos tipos de panos diferentes remendados dava àquele jovem uma aparência suja — sem falar na jaqueta vermelha que o vento litorâneo insistia em fazer ser notada a cicatriz de queimadura que ele carregava no corpo e se estendia até a altura do peito.
Com uma das mãos ele segurava o boné branco e vermelho, mas seus olhos não se desviavam do horizonte.
— Então, Mew foi até você por vontade própria — disse o rapaz. — Pensei que ela teria medo de se aproximar de humanos depois de tudo que aconteceu.
— Quem é você? — perguntou Vivian. — Achei que a ilha fosse deserta.
— E é — respondeu ele, se desfazendo do fumo enquanto descia a colina com as mãos no bolso. — Nada além de fantasmas.
Vivian desviou a atenção. Se estava conversando com fantasmas, então estava ficando louca mesmo. Quando se virou novamente só para ter certeza, deu de cara com Stanley.
— Pode me explicar como é que você tinha o telefone do Falkner no seu bolso?
— Ah, sobre isso... eu o enfrentei e conquistei sua insígnia no mesmo que dia você chegou em Johto, era uma das novidades que eu queria te contar e acabei me esquecendo. Ele me passou o telefone para trocarmos uma ideia, nada com segundas intenções, só achei que seria bom ter o contato de um policial e líder de ginásio, sabe? Mas quem diria que isso acabaria sendo útil na hora de chamar o resgate para uma ilha, hein?
— Calma, chuchu, não estou te julgando — brincou Stanley ao vê-la suar frio. — Não sei quem é esse Falkner, mas se você gosta dele, então deve ser gente boa. Eu não ligo de você ter outros amigos, não quero que fique presa dentro de casa me esperando.
— Uou, você é o melhor namorado mesmo. Valeu, mozão! — disse Vivian, roubando-lhe um beijão bem dado. — Qualquer hora fazemos uma festa a três que vai ser uma beleza.
— Boa! Uma batalha a três seria bem divertida — respondeu Stanley que não entendera o sentido da frase.
Quando os dois desceram a colina, Dawn aproveitava o tempo que tinha para fazer o último estudo do comportamento dos Lapras. A última recarga de bateria de seu celular tinha acabado e não havia espaço para mais nenhuma foto. Vivian esticou as mãos bem para o alto, como se pudesse tocar o sol lindo que fazia depois da tempestade da última noite.
— Sabe, tudo isso me fez pensar. A vida é tão curta, a gente nunca sabe quando nossa história pode terminar e se teremos mais chances de continuar a escrevê-la, o capítulo acaba mais cedo do que a gente espera e a temporada não dura tanto quanto gostaríamos. — Ela virou-se para Stanley e segurou sua mão. — Então, AME quem te AMA! Apesar das dificuldades do dia a dia, depois disso tudo vem a paz, e a gente só precisa encontrá-la.
A conversa se perdeu quando o vento forte anunciou a chegada de diversos Pokémon voadores. Um Pidgeot, um Skarmory e um Fearow grandes o bastante para carregar seus passageiros pousaram na costa, ofereciam até mesmo cintos de segurança e um espaço entre as pernas para levar suas bagagens. Falkner desceu da enorme ave para cumprimentar Vivian que corou ao vê-lo vestido com seu uniforme de polícia e a feição de galã de novela.
— Em que confusão você foi se meter, hein, ruivinha? — brincou Falkner.
— Você não tem noção da sorte que tive ao descobrir que seu número ainda estava no meu bolso, e não é só isso, você foi o único que recebeu meu sinal! — disse Vivian. — Como isso é possível?
Falkner tirou um aparelho Nextel do bolso e falou num tom brincalhão:
— Deve ser porque ele é meio velho.
Os viajantes se posicionaram nos pássaros que alçaram voo, deixando para trás as boas lembranças que a Ilha Pokémon lhes trouxera e todos os seus mistérios.

iii

Aquela viagem parecia ter acontecido há tanto tempo. Estava deitada em sua cama com as pernas no colo de Stanley que massageava seus pés. Com seu pijama confortável, cabelo lavado, bateria e barriga cheias, não havia muito que Vivian pudesse reclamar da casa de sua avó. Sentira falta das pelúcias de Spinarak e do conforto de sua cama, nem mesmo quando ficara anos viajando por Sinnoh imaginou que sentiria tanta falta de casa.
Havia acabado de terminar de montar seu mural de fotos e o colocado na parede em frente a sua escrivaninha. Imprimira tantas que fora difícil escolher apenas trinta, enchera os arredores de imãs personalizados e frases motivadoras; queria ter algo para se lembrar de cada fase da vida — da viagem com os Irmãos Wallers por Sinnoh, de suas brincadeiras com cada geração de primas em Azalea, das desventuras na Ilha Pokémon e as tantas experiências maravilhosas ao lado do namorado.
Stanley estava terminando de assistir um episódio inédito de “Steven Stone e o Universo das Pedras” quando Vivian espreguiçou-se e se esparramou de braços abertos na cama.
— Stan, eu percebi uma coisa... — Ela fez suspense até que ele perguntasse o que era.
— E?
— Sou muito grata e feliz pela vida, pelos amigos e pela família que tenho.
Stanley sorriu. Ainda era a mesma Vivian adorável de sempre.
De repente, foi como se uma lembrança que há muito a importunava a acertou em cheio, obrigando-a a sair correndo pela casa à procura de alguém.
— Ô, vó! — ela gritou do andar de cima. — Sabe onde tá aquela carta que chegou aqui semana passada?
Se foi você quem guardou, é você quem deve saber! — respondeu dona Katherine da cozinha.
Mas tava aqui no meu quarto!
Ah, aquela carta? Joguei fora. Seu quarto tava uma bagunça, menina.
Vivian voltou a esparramar-se no sofá. Estava frustrada, pois queria ter tido a chance de reler a carta para ter certeza de que não deixara escapar nenhum detalhe.
— Stan, eu estava aqui pensando com os meus botões... Quem será que era o tal de C?
— Do que você tá falando? — perguntou o rapaz.
— Do remetente que me enviou aquela carta estranha, sugerindo que eu fosse explorar a Ilha Pokémon. Ele afirmou que eu encontraria respostas para perguntas que há muito vinha fazendo, e eu realmente encontrei, mas como é que ele poderia ter tanta certeza disso?
— Deve ter sido a Cynthia. C de Cynthia. Dawn falou que foi ela que a mandou para lá, não?
— Na verdade ela disse que estava cumprindo estágio a mando do próprio Profº Carvalho. Será que foi ele?
— Você teria que ser muito especial para que um pesquisador do calibre dele decida entrar em contato — respondeu Stanley.
— Ah, tanto faz! Depois dessa loucura toda, acho que vou pra Kalos passar um tempinho com a minha prima Kath...
Vivian deu-se por satisfeita com a resposta de que tanto Cynthia quanto o Profº Carvalho poderiam ter sido os responsáveis pelo envio da carta. Mas, no final das contas, aquilo não importava mais. Nunca teria pensado que uma jornada atrás do desconhecido a faria descobrir algo mais sobre si própria, sobre histórias que havia deixado para trás e a maravilhosa sensação de mergulhar no mundo Pokémon esperando apenas ser surpreendida.
          Afinal, viver por si só é uma grande aventura, não?






Aventuras no Desconhecido [Capítulo 3]


Capítulo 3 – Vulcan & River

Stan, acorda! O mar tá pegando fogo!
O rapaz levantou-se apavorado com uma pokébola em mãos. Imaginou se não seria obra dos Galactics e seus planos de destruição global, ou quem sabe os Rockets tinham instalado uma base de operações secreta na ilha, mas deparou-se com uma namorada agitada que saltava em seu colo enquanto brincava com suas bochechas.
— Brincadeirinha! — Vivian esparramou-se na barriga dele, como se estivesse se espreguiçando em uma cama quentinha e confortável. — Bom dia, mozão. Dormiu bem?
— Melhor, agora que você foi a primeira coisa que vi no dia.
Stanley tornou a relaxar, a essa altura já devia estar acostumado com as formas excêntricas de ser despertado, afinal, era bem similar ao que ela fazia quando os dois viajavam juntos por Sinnoh — em algum momento da jornada, lembrava-se de tê-la ouvindo pedir um par de desfibriladores emprestado, mas graças à Arceus nunca chegou a usá-los.
Ela era sempre assim, dinâmica e enérgica às sete da matina; já ele preferia uma madrugada tranquila para ouvir música e divertir-se com os amigos. Vez ou outra, Vivian tentava acompanhá-lo em suas maratonas de seriados quando encontrava algo novo no Natuflix, o maior serviço de streaming Pokémon da região, mas acabava dormindo no segundo ou terceiro episódio. Mesmo assim, Stan amava a companhia dela, porque sempre que queria alguém para comentar a batalha final sua namorada dizia cheia de empolgação: “Sério? Uau, me conte mais! Adoro saber das coisas que te fazem feliz.”
Por sinal, onde estavam?
Stanley olhou para os lados, ainda sonolento. Não se lembrava de nenhuma rota de Sinnoh que tivesse uma visão tão linda do oceano e o horizonte distante, muito menos que o sol intenso os castigasse como se estivessem no auge do verão. A ficha caiu, trazendo-lhe lembranças de que estava viajando com a namorada em uma ilha deserta atrás de nada em específico, e como sentira saudade daquilo! Aventurar-se pelo desconhecido com ela, se continuassem progredindo mais alguns capítulos logo se deparariam com Luke, Lukas e Dawn trazendo as novidades e conquistas de suas aventuras. Ele olhou para o lado e deparou-se com Vivian se trocando, a moça vestia apenas seu shortinho e chinelos enquanto vasculhava a mala de Stan atrás de algo que servisse nela, e acabou optando por uma jaqueta larga e um boné velho da Liga Pokémon que a protegeria do sol.
— Tem o seu cheirinho... — disse Vivian com o rosto enterrado na jaqueta.
Todas as roupas dele estavam bem dobradas e organizadas por cor e degradê, do jeito que Stanley gostava. Vivian adorava vestir de usar as roupas dele, pois cabiam direitinho nela, a danada ficava bem em qualquer moda masculina.
— De cabelo curtinho assim, vão pensar que sou um garoto — disse ela enquanto se olhava no reflexo de seu celular. Stanley não pôde deixar de brincar:
— Seria um garotão sexy.
— Ai, para, tá querendo um agradinho, né? — Vivian pegou-se rindo, mas bem que se contentaria de ouvi-lo elogiá-la o dia inteiro. — É muito nojento eu usar sua escova de dente?
— Nojento seria se você não escovasse — respondeu Stan.
— Às vezes dá a impressão de que não fazemos essas coisas enquanto estamos nos aventurando, né? — disse Vivian. — Tipo, imagina se nós fôssemos escritores de uma história, você perderia tempo descrevendo tarefas do cotidiano de seus personagens como usar o banheiro, preparar o almoço, essas coisas? Isso cortaria totalmente o clima.
— Não sei, acho que depende das prioridades que temos e do quão rápido um autor quer terminá-la.
— É, faz sentido. Oxi, você trouxe até pente, shampoo e condicionador? Por isso que eu adoro ter um namorado prevenido que nem você, Stan, não preciso ficar me preocupando com esses utensílios dispensáveis! — disse Vivian enquanto vasculhava o nécessaire dele. — Não acredito que você trouxe protetor solar e cortador de unhas também. Eu te amo, mozão.
Vivian e Stanley retomaram a jornada pela Ilha Pokémon logo cedo, a começar pela trilha que levava ao túnel escuro. O local costumava ser a entrada de uma usina desativada, os pesquisadores que estudavam os arredores precisavam de uma fonte de energia que alimentasse suas máquinas e a presença de Pokémon elétricos no local como Magnemites, Electrodes e Electabuzz auxiliavam os geradores. Um dos principais motivos de estudo que cativara a atenção de diversos pesquisadores à época era a influência de nuvens tão grandes que pareciam acomodar algo dentro delas; tais nuvens afastavam tempestades tropicais e mantinham o clima regular, tornando o habitat perfeito para os mais diversos tipos de criaturas — mas elas ainda aconteciam, era impossível controlar a natureza.
O túnel era menos assustador do que imaginavam. Após passarem a primeira noite na ilha, ela parecia se tornar mais amigável, os Pokémon continuavam chegando perto o bastante para Vivian tirar ótimas fotos, pois estavam desacostumados com a presença de humanos. O grande Torterra continuava a guiá-los, afastando Zubats que voavam por todas as partes e até mesmo um Haunter brincalhão que tentou assustá-los.
— Stan, saca só — disse Vivian, apontando para uma estranha forma amarelada. — Olha aquela pedra esquisita.
— O Luke teria dito que é um fóssil ancestral — brincou Stanley, apanhando um pedregulho e atirando-o nela.
Para a surpresa dos dois, a pedra gigante pareceu se levantar e rastejar devagar pelo chão de lama, o par de olhos vermelhos brilhando na escuridão do túnel como dois faróis. Stanley abriu a boca ao reconhecer um Kabuto, um Pokémon fóssil que desaparecera havia milhões de anos, ele era tão grande que poderia dizer que havia um humano escondido ali dentro. Aquele achado não poderia passar despercebido, os dois poderiam revolucionar a ciência juntos! Stanley já estava com uma Ultra Ball na mão quando Vivian o puxou para trás.
— Nem pensar! Já disse que aqui é uma reserva, sem capturas.
— Mas olha só o tamanho daquele Kabuto! O Luke ia pirar de inveja se eu trouxesse um Pokémon fóssil pra casa. Poxa, pensa no meu lado, só protagonista tem chance de ser agraciado com um desses... Ninguém vai acreditar em nós quando voltarmos.
— É para isso que existem câmeras, fofo. É só mirar, encontrar a melhor pose, e...
FLASH!
A caverna toda se iluminou. O brilho do aparelho foi tão intenso que o Kabuto se assustou e caiu para trás. Eles olharam para o alto e uma aglomeração de Zubats assustados que forravam o teto saíram voando por todas as partes, Vivian sacou a pokébola de Primia para que a Scizor os protegesse dos ataques, pois o Torterra encontrava-se imobilizado — todos seus ataques como Stone Edge e o Earthquake colocariam em risco a segurança de seus treinadores.
Assim que os Zubats se dispersaram, os dois treinadores viram que o Kabuto estava com o casco virado para baixo e as perninhas balançando para cima, incapaz de se mover.
— Pobrezinho, não podemos deixá-lo ali... — disse Vivian. — Vai, tá esperando o quê?
— Eu? Assim que eu o virar esse bicho vai me fatiar em pedacinhos, ele tá até grunhindo de raiva, consegue ouvir? — respondeu Stanley.
— E eu lá tenho cara de que aguentaria esse peso todo? Pode não parecer, mas eu sou uma lady delicada — disse Vivian com uma piscadela forçada. — Affe, vai logo, coloca esses muques pra funcionar e me ajuda aqui.
— Se prepara pra correr, hein...
— Você tem que ser mais lerdo que um Metapod pra ser alcançado por um Kabuto.
Vivian arregaçou as mangas e os dois começaram a revirar o Pokémon, mas perceberam que nem de perto ele era tão pesado quanto imaginavam. De fato, ele tinha a carapaça macia e um semblante artificial.
— Graças ao céus, pensei que fosse morrer aqui! — eles ouviram uma voz mecânica.
Stanley piscou, pois tinha certeza de que aquela frase não fora dita por Vivian.
— O P-Pokémon tá falando! — disse o loiro em sinal de surpresa.
— Cacetada, mas isso é impossível — comentou Vivian, intrigada. — Será que é um clone modificado ou algum tipo de mutação? Admito que às vezes consigo escutar a Primia falando na minha cabeça, mas tem que rolar muito Poder da Amizade envolvido.
— Essa ilha tá mexendo com a nossa cabeça, Vi. Sempre suspeitei que faltassem alguns parafusos em nós, mas... isso aqui é novidade — Stanley começou, certo de que estava conversando com um Pokémon selvagem como se fosse algo natural. — Sério, é cada história doida que a gente ouve, Onix que fala, Pokémon montando guilda e lutando com espada, Torchic usando Leer... eu não duvido de mais nada nesse mundo — falou Stanley.
— Gente, vocês estão me ouvindo? Alôôô? — gemeu o Kabuto. — Ainda estou aqui. Dá pra alguém me ajudar?
Os dois encaram o Kabuto, aguardando novas ordens.
— Então, amigo... como é que podemos te ajudar? Perdeu-se da sua família?
— Sei que pode parecer estranho, mas isso é uma fantasia — disse o Kabuto. — Li o artigo de um pesquisador famoso de Kanto que relatou seus experimentos enquanto aprendia os hábitos, costumes e limitações de Pokémon ao se fantasiar como eles, só não imaginei que minhas patinhas fossem me impossibilitar de ativar o botão que desativa o traje! Eu fui muito burra.
— Burro foi quem criou essa porcaria — falou Stanley.
— Não, burro é a pessoa que entrou aí dentro — respondeu Vivian.
— Será que vocês podem parar de me azucrinar e me ajudar logo? É só apertar o botão vermelho na minha lateral esquerda.
Vivian apressou-se a localizar o botão. Ao apertá-lo, uma cortina de fumaça foi exalada e a carapaça do Kabuto se abriu, liberando uma forma humana que saiu dali de dentro. Os dois se remexeram ansiosos, estavam no aguardo de uma revelação histórica, talvez o encontro com alguma celebridade internacional ou alguém no nível do próprio Professor Carvalho, porém...
— Ah, é só a Dawn — falou Vivian.
— Oi, Dawn — respondeu Stanley.
— Não acredito que de todas as pessoas fui encontrar justo vocês — disse a garota ao se livrar da fantasia. — Bem que reconheci suas vozes, mas é difícil enxergar com aquela roupa toda.
— Vem cá, me dá um abraço, amiga! — disse Vivian contente, já recuperada. — Você nos deu um sustinho aqui agora, mas estamos felizes em... pera, o que você tá fazendo aqui? E que coincidência doida a nível ex-machina é essa? SERÁ QUE ARCEUS ESTÁ CONSPIRANDO CONTRA NÓS?
— Gente, calma, acho que posso explicar... mas primeiro será que podem me dar uma carona para fora desse túnel? Eu adoraria respirar um pouco de ar puro depois de tanto tempo presa no corpo de um Kabuto.
Dawn acompanhou-os pela trilha enferrujada até a saída, onde o Torterra estacionou. A garota fartava-se das frutas que seus amigos tinham recolhido, considerava-se sortuda por ter se deparado justo com dois conhecidos de uma região tão distante, mas não estava em posição de reclamar de nada.
— Eu vim para a Ilha Pokémon para fazer uma pesquisa na minha área.
— Verdade, você queria ser pesquisadora, né? — perguntou Vivian. Todo mundo se esquecia daquele detalhe.
— Pois é. Depois de viajar por Sinnoh com vocês, eu senti que precisava continuar seguindo esse sonho, sabe? Apesar de eu nunca ter exercido muito, acho que levo jeito!
— Ai, menina, estou tão feliz por você! Eu jurava que você seria a terceira protagonista inútil e sem ambição pelo resto da sua vida, mas pelo visto todos têm uma chance de redenção.
— Obrigada pela parte que me toca — respondeu Dawn com ironia. — Eu me formo ano que vem pela Unisyno. Tenho muita sorte de ter alguém como a Cynthia que se ofereceu para pagar o curso que custa os olhos da cara, ela vive dizendo que nunca é tarde para uma formação, estou me esforçando ao máximo para ser a melhor da turma! Tive até aulas de libras, não que eu vá usar, mas é sempre bom entender dessas coisas quando se lida com pessoas.
— Gente, que maravilha, então logo mais você tá desempregada que nem a gente — continuou Vivian.
— Tá afiada hoje, hein? Mas devo concordar, tá difícil pra todo mundo... Pelo menos estou feliz em trabalhar com o que amo, e a Ilha Pokémon oferece tantos meios de pesquisa únicos! Foi a Cynthia quem conseguiu pra mim uma autorização, ela conhece muita gente importante. Estou aqui cumprindo estágio, o Profº Carvalho ficou contente em oferecer uma vaga para retomar a pesquisa dele atrás de informações do lendário Mew e suas habilidades de transformação. É no que pretendo formular minha tese, “Pokémon e sua habilidade de assemelhar-se a forma humana através do Poder da Amizade”.
— Mew? Tem um Mew aqui? — perguntou Stanley, ignorando o restante.
— Tinha. Mas foi há muito tempo... mas não custa nada checar os rastros e registros dele, certo? Como iniciante no ramo, ainda quero aprender e contribuir o máximo que puder com o mundo.
— Olha só, toda determinada e altruísta! Não se preocupa, até o fim do curso isso passa — disse Vivian dando-lhe alguns tapinhas nas costas. — Estou orgulhosa de você, amiga. Quem diria que viria a ser uma personagem importante, hein? Achei que seria para sempre que nem aquele seu Piplup fracassado!
— Vivian, estou começando a considerar seus comentários uma ofensa...
— Também te adoro, linda.

i

Dawn os guiou até a base onde se instalara na ilha havia menos cerca de três meses. Apesar de abandonado há quase duas décadas, o laboratório recebera reparos com o auxílio de Sly, o Machamp da garota que era especialista em reconstrução. Dawn estava magra, com cabelos desgrenhados, olheiras fundas e os óculos sujos realçavam um lado que seus amigos nunca tinha visto antes.
— Tem certeza que essa é a Dawn mesmo? — perguntou Stanley. — E se for algum outro Pokémon disfarçado de humano?
— Stan, você não tem ideia do que a faculdade faz com as pessoas — respondeu Vivian.
Dawn andava de lá para cá, tentando reunir seus pertences e organizar o que devia ser seu escritório improvisado nos últimos meses, mas ouvi-la falar tão cheia de empolgação sobre seus estudos e o que havia acontecido nos últimos anos enchia seus amigos de uma sensação reconfortante — eles percebiam que ali estava a garota meiga, meio estabanada e alegre que por tanto tempo acompanhara Luke e Lukas como se fosse sua irmã mais velha.
— Vocês não vão acreditar no que encontrei — disse a pesquisadora cheia de empolgação. — Deem só uma olhada nisso!
Ao puxar um pano velho, Dawn revelou um triciclo amarelo que mais se parecia com uma cápsula do tempo. Dada a sua empolgação, ela esperava que seus amigos reagissem de forma bem diferente; ali estava uma raridade preservada e esquecida pelo tempo.
— Contemplem: ZERO-ONE! Totalmente automatizado, essa máquina representava o auge da tecnologia do final do século XX, seus motores foram adaptados para aguentarem altas temperaturas, os pneus transformam-se em botes e ele até podia voar! Há inclusive um escudo feito com estudo avançado baseado no ataque Protect, feito para que nenhum Pokémon possa ferir o motorista enquanto ele se aproxima. Só que...
— Não parece estar funcionando — comentou Stanley.
O rapaz passou o dedo pela lataria e tirou uma crosta de poeira. Vivian saltou no assento principal e procurou pelo volante, não tinha compreendido o que Dawn quis dizer com “automatizado”, não conseguia imaginar que uma máquina poderia guiá-la ao seu objetivo com a tecnologia limitada da época. Na lateral da porta esquerda, ela se deparou com a caligrafia que pertencera ao seu antigo proprietário:

Todd Snap, 1998.

— Bom, acho que sei como fazer funcionar — disse Stanley com ar de sabichão.
— Tá brincando? — perguntou Dawn. — Como? Eu já tentei de tudo. Teria sido fácil se eu tivesse aqui o Metagross ou o Porygon-Z do Luke, mas não tenho nenhum Pokémon tão avançado.
— Você trouxe seu Probopass? Essa tecnologia é antiga, acho que uma forte recarga na bateria já resolveria. Tenho um Magnezone para ajudar.
Dawn se esquecera completamente que seu Pokémon do tipo rocha e metálico era especialista em golpes elétricos.
Enquanto os dois Pokémon trabalhavam, Dawn levou Vivian para o andar superior para apresentar o restante do laboratório e as mais de duzentas páginas de anotações que fizera desde que chegara à ilha.
— Dá pra acreditar que aqui existem ovos dos três pássaros de Kanto? Ovos, Vivian. Ninguém nunca encontrou nenhum, não há relatos da forma de reprodução de nenhum Pokémon lendário, mas encontrei restos de casca de ovo na região do túnel, do vulcão inativo e da caverna profunda. O Zapdos só nasce com uma descarga intensa de eletricidade, o ovo de Moltres precisa ser mergulhado em lava e o de Articuno só nasce com um ritual de dança das Jynx!
Sem prestar muita atenção nas divagações da amiga, Vivian mordiscava uma maçã.
— Onde é que você encontrou isso? — perguntou Dawn.
— Ali no depósito.
— Mas isso é... ração de Pokémon disfarçada. Deve estar guardada aí já faz uns vinte anos.
Vivian parou de mastigar, mas logo deu de ombros e continuou comendo.
— Se não mata, engorda — disse ela com uma risada.
Curiosa do jeito que era, Vivian logo encontrou mais o que bisbilhotar. Dawn estivera estudando uma esfera colorida que se encontrava imóvel na mesa, do tamanho de uma pokébola comum. Ao acioná-la, uma cortina de fumaça roxa fedida foi liberada e cobriu a sala como o Smokescreen de um Koffing.
— Isso aí é uma Pester Ball, fruto do estudo do Profº Carvalho. Serve para incomodar os Pokémon e fazê-los sair de seu esconderijo sem machucá-los — explicou Dawn, abanando o ar com uma pasta.
— É, mas eles devia ficar bem irritados e furiosos! — retrucou Vivian. — Posso pegar umas três? Já sei como acordar o Stanley amanhã.

Levou pelo menos quarenta minutos para que Stanley terminasse os reparos. Assim que voltaram para o primeiro andar, o Probopass havia terminado a descarga de energia no ZERO-ONE enquanto o Magnezone fazia os últimos reparos ligando partes metálicas enferrujadas. A máquina acendia os faróis e ligava o motor por alguns segundos, mas ninguém soube como fazê-lo se mexer.
— Bom, fiz o que pude — comentou Stanley limpando o suor do rosto. — Mecânica não é tão fácil quando pensei, se tivéssemos 3G eu teria ligado para o Roark ou o Sr. Byron nos dar algumas dicas...
— Pelo menos podemos tirar umas selfies dentro dele, o que me dizem? — sugeriu a ruiva.
Vivian saltou para dentro e ergueu a câmera com Dawn e Stanley unidos logo atrás dela para uma fotografia improvisada. Flash! Flash! Flash! Tirou fotos o bastante para matar toda a saudade que tivera de Dawn, de caretas a expressões com biquinho e beijinho dos dois lados do rosto de seu namorado. Enquanto revia as imagens, Vivian não parava de sorrir.
— Só falta o Luke e o Lukas agora — disse Dawn, como se lesse seus pensamentos.
— Pois é... eu queria voltar a ser criança e voltar para aquela época — falou Vivian. — Acho que a vida tinha menos preocupações e eu só me importava em... ser feliz.
— Para ser sincera, um dos motivos de eu ter continuado aqui tanto tempo é porque não há sinal, então não tive como chamar ninguém para vir me buscar. Mas também não estou preocupada com isso porque me permitiu mergulhar de cabeça em minhas pesquisas sem intromissões. Tenho avançado como nunca, mas acho que já reuni o bastante — disse Dawn. — Como é que vocês pretendem fazer para ir embora? Marcaram horário para alguém vir te buscar?
— Na verdade, caímos aqui de paraquedas — respondeu Vivian.
— Literalmente — continuou Stanley.
— Espera — falou Vivian. — Isso quer dizer que estamos presos aqui PARA SEMPRE?! Na real?
— Não tenho nenhum Pokémon voador e meu único aquático é o Duke, não acho que ele conseguiria nos levar para casa sem desmaiar no caminho.
— Duke, você só tinha uma missão... — comentou Vivian esfregando os olhos com a ponta dos dedos, visivelmente decepcionada.
— E tem um Gyarados do tamanho de um Wailord rodeando a ilha — disse Stanley. — Melhor descartar a fuga pelo oceano.
— Ouvi dizer que a Ilha Pokémon confunde bússolas e rastreadores — falou Dawn —, é muito difícil para alguém localizá-la, pois se situa em uma região chamada Triângulo dos Snorunts, e por aqui já aconteceram inúmeros naufrágios e desaparecimento de aviões que não deixaram rastros. Dizem até que foram encontrados navios intactos, sem nenhum passageiro, sendo que não foi levado dinheiro ou pertences.
— Isso só tem um significado — Vivian ergueu as mãos e falou: — Aliens.
Dawn pegou-se rindo tanto que sua barriga chegou a doer. Os três ali reunidos traziam tantas lembranças de suas aventuras pelas terras de Sinnoh... Se tivesse direito a um pedido, gostaria de voltar para aqueles tempos com os olhos de hoje, talvez assim pudesse corrigir alguns erros que ficaram para trás, teria se preocupado menos com coisas sem importância e aproveitado mais ao lado de pessoas que amava. Talvez até tivesse acertado nas batatas gratinadas, mas que graça teria? Será que isso teria influenciado em tudo que veio depois? Gostava da vida que tivera como ela era, e era adulta o bastante para entender o significado de saudade.
— É, a gente vai morrer — disse Dawn, com os olhos ainda lacrimejando de tanto rir.
Vivian estava para sair do velho automóvel quando o ZERO-ONE de repente começou a flutuar, seus pneus transformaram-se em jatos e ele levitou a uns vinte centímetros do chão. Impressionada com uma tecnologia tão antiga continuar a funcionar quase duas décadas depois, Dawn pediu que a companheira mantivesse a calma enquanto ela tentava alcançar o monitor.
— Calma, Vi. Está vendo uma tela grande? O ZERO-ONE só segue o percurso quando colocado nos trilhos, deve haver algum botão para desligar.
— Mas como é que ele vai seguir os trilhos se estiver VOANDO? — berrou a garota.
Vivian apertou qualquer coisa e puxou todas as alavancas que encontrou, os jatos se transformaram em boias, fazendo tanto a máquina quanto a menina quicarem com a queda. Todos se pegaram rindo com o ocorrido, até que Dawn teve uma ideia inusitada.
— Ei, o que acham de explorarmos algumas localizações? Perto do túnel de onde nos encontramos a atividade explosiva de alguns Electrode e Digletts revelou uma passagem que dá no vulcão desativado — disse a pesquisadora. — A área é um pouco perigosa, quase fui atropelada por um Rapidash e queimada por dois Magmar que brigavam atrás de comida, mas garanto que verão algumas cenas únicas por lá. Se você jogar uma Pester Ball dentro do vulcão, ele expele uma fumaça sinistra com a forma de um Koffing!
— Tá brincando — falou Vivian. — Até parece magia!
— Sabe o que magia me lembra, Vi? — perguntou Stanley. — Aquele filme.
Os dois se entreolharam, fizeram caretas, engrossaram a voz e começaram a rir sem parar.
Oooohm, Wingardium Leviosaaaaa!
Stop it, Stan, stooooop!
Dawn os observou com os olhos semicerrados, incrédula por breves segundos. Perguntava-se aonde é que arranjara aqueles dois como amigos e se o destino tinha sido justo em enviar justo eles para resgatá-la.
— Às vezes sinto que vocês ainda têm quatorze anos...

ii

Vivian e Stanley toparam a ideia de explorar a ilha. No fim das contas, a viagem até a Ilha Pokémon pareceu se tornar uma verdadeira excursão de escola ao invés de se sentirem isolados em uma localidade remota que talvez levasse anos até que fossem resgatados.
Com o ZERO-ONE como guia, o percurso foi rápido e direto, pois em seu código estava o comando de seguir os trilhos enferrujados até o fim. Como só havia espaço para uma pessoa dentro dele, Stanley e Dawn acompanharam Vivian de longe nas costas do Torterra enquanto a garota se divertia no carrinho como se estivesse em um parque de diversões. Ela fotografou tudo que tinha direito, desde o vulcão inativo distante até uma horda de Charmanders que começou a segui-los atraídos pelos cabelos ruivos de Vivian — deviam imaginar que ela fosse sua mãe. Três pequenos Vulpix também se divertiam correndo ao redor, nunca antes tinham visto nada tão grande quanto Drinian. Um casal de Ninetales observava os filhotes de longe, deixando-os brincar a tarde toda na companhia dos humanos.
Eles subiram no alto da montanha até o ponto em que ela descia e terminava na floresta onde o rio se formava. Dawn contou-lhes que a fauna ali era ainda mais única e excêntrica, Drinian continuou a caminhada sem reclamar, era um Pokémon forte e orgulhava-se de levar seu treinador aonde ele pedisse. Vivian quase se perdeu com a fofura dos Bulbasaur que se escondiam em troncos de árvore caídos e Stanley precisou ouvir piadas de como ele e os Slowpoke eram criaturas parecidas.
Na travessia do rio, Dawn localizou um Porygon que se camuflava com apenas a ponta do nariz para fora e o corpo coberto de lodo.
— Fiz descobertas incríveis com os Porygon nessa ilha — disse a pesquisadora. — Levantei uma tese de como esse Pokémon artificial criado pelo ser humano não precisa viver em cidades grandes para se ambientar. Nos tempos em que o Profº Carvalho estava na ilha, pesquisadores trouxeram diversos espécimes de Pokémon para ver como eles se acostumavam, e os Porygon foram um deles. Apesar de não se reproduzirem, os três exemplares se misturaram bem ao cenário, adaptando o corpo ao ambiente.
De tanto tagarelar a respeito do ecossistema e as maravilhas da Ilha Pokémon, Dawn adormeceu o caminho todo de volta na rede nas costas do Torterra. O ZERO-ONE deslizava devagar pelos trilhos da mesma praia em que Vivian e Stanley haviam pousado um dia antes, passava das seis e meia da tarde e o céu estava coberto por um tom alaranjado com a família de Lapras deslizando distantes.
Vivian ergueu a câmera de seu celular — sobrava apenas 17% e duas cargas de seus carregadores portáteis.
— Você sabe que fotografar essa cena nunca vai se igualar ao momento em que vivemos, não é? — ela ouviu Stanley perguntar.
Vivian abaixou os braços e refletiu. Em toda sua vida, nunca presenciara uma visão tão linda, e por que estava desperdiçando aquele momento tentando prendê-lo em uma tela? Queria lembrar-se dele para apreciá-lo quem sabe anos mais tarde quando estivesse casada e com filhas, mas percebeu que também precisava vivê-lo e compartilhá-lo com quem realmente importava.
Ela se levantou do automóvel e fez menção para que Stanley se aproximasse.
— Vem, pode pular — disse Vivian com os braços estendidos. — Sei que você prefere estar com os dois pés no chão, mas eu não vou te deixar cair.
O rapaz saltou de seu Torterra e segurou-se nela, o coração ofegando.
— Tem espaço para nós dois? — perguntou.
— Não, mas a gente se espreme um pouquinho.
— Você pode sentar no meu colo, se quiser.
Stanley acomodou-se primeiro, dando espaço para Vivian ficar confortável. Ela relaxou o corpo e descansou a cabeça no ombro dele, os braços de seu namorado se entrelaçaram em sua barriga, podia sentir o aroma doce dela feito mel, mesmo que não estivesse usando nenhum perfume; foi beijando sua nuca e subiu até as bochechas onde encontrou seus lábios que se grudaram como polos opostos.
— Tá confortável? — perguntou Stan.
— Tô — Vivian respondeu num momento raro em que estava corada. Ela podia ter seu jeito meio moleque, gostava de sentar-se de pernas abertas e falar gírias feito um garoto, mas só Stanley conhecia aquele lado tão sincero e casual que o fez apaixonar-se por ela. — Se eu começar a ficar excitada é culpa sua.
Stanley sorriu encabulado, mas nunca estragaria aquele momento para dizer que suas pernas estavam dormentes devido ao peso dela.


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