Capítulo 68
A Página Perdida

A neve que caia do céu transmitia uma suave sensação de que a virada no tempo seria súbita e oportuna. O ar estava soturno, o sol sequer ousara evidenciar-se no horizonte e Snowpoint lentamente entrava no silêncio profundo do amanhecer. Luke estava de pé logo cedo, vestindo um pesado moletom e preparando-se para a rotina de treino que estaria tomando início.
O rapaz deixou a pousada logo cedo, e ao passar pelo portal de madeira lançou um de seus dispositivos que revelou um suntuoso dragão. Era Aerus, seu Garchomp. Luke soltou um suspiro prolongado de respiração pesada, e ao reparar que praticamente toda a cidade continuava adormecida sentiu vontade de voltar e dormir mais uma vez em sua cama quentinha ao lado de Dawn. Porém, o jovem sabia que a partir daquele ponto ele não poderia vacilar e deixar-se levar pela falta de vontade. Precisava de treino, precisava estar tão preparado quanto seus Pokémons para alcançar seus objetivos.
O Garchomp olhou para a neve que caía e demonstrou com sua feição irritada que odiava aquele frio. Luke deu tocou em uma das patas do dragão, revelando um sorriso determinado.
— Vamos lá, o ginásio de gelo está mais próximo do que imaginamos — disse o treinador. — Temos de enfrentar nossas desvantagens para continuar caminhando rumo ao topo. Vamos juntos seguir nessa, campeão.
Luke foi caminhando lentamente e logo iniciou seu treino. Percorreu as trilhas do cais que levavam até a floresta, sendo que o oceano era inteiramente coberto por uma espessa neblina fria que deixava suas águas cobertas por um véu branco muito vasto. Luke apreçou o passo, e conforme seu corpo esquentava começou a correr simulando um treino matinal. Vestia uma touca e suas longas calças o protegiam do frio juntos de tênis de corrida especiais. Era um treino pesado para qualquer jovem, mas ele estava disposto a enfrentar todos os obstáculos com seus Pokémons, pois havia finalmente aprendido que não adiantava buscar o sucesso se ele próprio não se empenhasse.
Aerus quase desmaiava no caminho. Não que o dragão estivesse fora de forma, mas os últimos dois meses lhe deixaram um pouco mais preguiçoso do que era, e ele tinha apenas suas duras escamas para protegê-lo do frio, embora aquelas escamas fossem mais resistentes ao calor, e não à temperaturas baixas. No meio do caminho Aerus já resmungava, Luke ria ocasionalmente tentando manter a concentração para não perder o fôlego.

O treino se sucedeu dessa maneira até por volta das dez da manhã. Corridas, escaladas, pulos. As vestes do jovem já estavam ensopadas de suor, e agora era Aerus quem finalmente entrara no pique,. O dragão corria de um lado para o outro na neve, chutando todo aquele gelo que tanto odiava. Luke fez um percurso até uma área próxima onde combinara com Dawn de encontrá-lo. Ao chegar, o garoto encarou um amontoado de pedras e sentou-se sobre elas.
— E então, Garchomp? Precisamos melhorar o seu Rock Slide. O tipo pedra é eficiente contra gelo. Se nós aperfeiçoarmos o golpe, poderemos ter um ataque que deixará a líder de ginásio sem reação.
Luke afastou-se, pedindo para que o dragão azulado se concentrasse em criar uma torre de pedras naquele local onde haviam tantas rochas amontoadas. Aerus concentrou-se, lançando o Rock Slide com um incrível impacto que fez algumas pedras racharem e desaparecerem às migalhas nos montes de neve.
Luke observava o treino, pensativo.
— Stone Edge — ponderou ele. — Temos de alcançar o nível desse golpe, o mais poderoso dos Pokémons do tipo rocha. E pensar que eu ainda lembro do dia em que a tia Martha deu o TM que continha este Rock Slide. Nós mal tínhamos controle sobre o movimento...
Luke soltou um longo suspiro, olhando para o céu que clareava.
— Espero que ela esteja bem...
O jovem lançou seu Porygon-Z, que com sua habilidade de criar esferas incandescentes acendeu uma lareira para esquentá-los. Luke ficou ali à espera de Dawn, deixou que Aerus seguisse com seus treinos enquanto ele ouvia um pouco de música em seu aparelho, graças à tecnologia de Wiki, seu Pokémon cibernético. De repente ele sentiu que ouvia o toque de algum brinquedo. Soava como aquelas caixinhas de música com bailarinas, suas notas eram suaves e dramáticas, trazendo uma clara sensação de pesar somente por ouvi-la. Luke trocou a música, e só então percebeu que não era de seu aparelho que ela vinha.
— Está ouvindo isso? — perguntou o jovem para seu Pokémon.
Wiki virou-se com seus olhos brilhantes a fitar a floresta de coníferas coberta por neve, insinuando que realmente ouvira algo, mas não sabia explicar ao certo de onde vinha.
Pouco depois Dawn fez seu caminho até o lugar combinado, trazendo uma sacola onde ela comprara alimentos para o almoço dos dois. A moça se empenhava em sempre ajudar Luke com o que podia, ela aproveitava para acordar cedo e preparar algo para que seu amado continuasse com energia e disposição para treinar. Dawn foi até o jovem, deu-lhe um rápido selinho no rosto e entregou a sacola.
— Quentinho. Para você não congelar aqui, o que eu faria se você desaparecesse nesse mar de neve? — disse a garota com um sorriso.
— Valeu. Eu também estaria zicado sem você por perto. É tenso manter o ritmo de treinos, mas a força de vontade que você me transmite já vale por tudo — agradeceu Luke, pegando o alimento e voltando a sentar-se em um banco de madeira ali perto. — Mas deixa eu perguntar... Por um acaso você ouviu alguma música estranha quando vinha para cá?
— Não me fale de músicas, da última vez que eu tive essa impressão acabamos entrando na Lost Tower e nos deparando com aquele assustador integrante da Elite dos 4 — disse Dawn ao lembrar-se de tantas aventuras dos últimos meses. — Mas sim, eu ouvi sim. Parecia o som de algum brinquedo, pensei que fosse seu.
— Putz... Cidades de neve conseguem ser mais assustadoras do que torres enfeitiçadas quando elas querem.
A moça olhou para os lados com atenção. Os dois permanecem em silêncio na tentativa de ouvir aquele estranho som novamente, mas os minutos se passaram e assunto se perdeu.
— Faz frio demais esse horário, não? — emendou Dawn, esquentando seus braços. — Posso ganhar pelo menos um abraço para esquentar?
Luke sorriu, colocando a mão nos ombros da moça e abraçando-a forte para perto de si o que fez Dawn suspirar e aconchegar-se nos braços do garoto. Os dois continuaram dessa maneira por um tempo até ouvirem que o som da caixa de brinquedos continuava em algum lugar, bem perto dali. O moreno levantou-se incomodado, procurando saber de onde vinha.
— Garchomp, consegue perceber de onde vêm esse som?
O dragão cessou seus treinos e olhou ao redor. Ele tinha um senso muito mais apurado do que humanos, e acabou olhando para o amontoado de pedras que ele tentava destruir até então. Aerus partiu para próximo da parede de rochas, começando a golpeá-la com suas garras. Dawn levantou-se surpresa quando percebeu que havia algo embaixo de tudo aquilo. Era como um altar, onde algo fora escondido. Aerus não teve dificuldades para retirar as enormes pedras, e ao terminar encontrou de onde vinha o som.
Era uma pequena caixinha de joias que agora estava entreaberta e tocando uma melodia fraca e serena. Provavelmente a tentativa de aperfeiçoar o Stone Edge acabara revelando aquele objeto de algum lugar na neve onde estivera perdido até então.
Luke agachou, pegou o objeto e o verificou, mostrando-o para Dawn.
— Que lindo — disse a moça, vendo a caixinha de sons. — Alguém deve ter perdido.
— Mas está velho — respondeu Luke. — Muito, muito velho. Está enferrujado em algumas partes pela umidade da neve, mas veja... Algo me diz que ele estava congelado até então, porque tem uma folha rasgada aqui dentro, com uma assinatura de 1857.
Dawn pegou a folha e a encarou o manuscrito com maior atenção. A caligrafia era impecável, e parecia tratar-se de uma carta para um destinatário de extrema importância, alguém da alta realeza. No canto inferior direito, estava assinado com o nome: Sra. Glade Ciary Lissili.
Luke sentiu no mesmo instante que algo se debatia em uma de suas pokébolas. O jovem liberou-a, notando que Glaciallis por algum motivo ficara inquieta quando viu a caixinha de música. A dama de gelo encarou o objeto atentamente, seus olhos perdidos o encaram por longos minutos com uma estranheza anormal. A fantasma segurou a folha de papel, voltou a olhar a caixa e ouvir a canção. Passou seus dedos pálidos por sobre a caligrafia e então voltou a encarar seu treinador.
— Essa caixinha... — disse Glaciallis, transmitindo tal mensagem apenas com um olhar. — Essa caixinha era minha.
Luke voltou a encarar a assinatura, e percebeu que era exatamente a mesma caligrafia que vira inscrito no diário que sua Froslass sempre carregava junto. A fantasma de gelo ficou quieta, sua respiração estava pesada e Aerus e Wiki foram em sua direção para consolá-la. Eles nunca antes tinham visto sua amiga tão preocupada e perplexa com algo.
— Ei, ei! Froslass o que está acontecendo? Como você pode ter certeza que essa caixinha era sua, você já viveu aqui?
— Não é possível, — acrescentou Dawn — você disse aquela vez que a capturou no Old Chateau próximo á Eterna. É impossível ela ter percorrido um caminho tão longo!
As mãozinhas de Glaciallis tremiam, e segurando a caixinha contra seu peito a mulher fantasma começou a olhar de um lado para o outro, como se agora percebesse que estava em um território muito familiar. Ela correu para longe sem permissão e sem olhar para trás. Seu treinador surpreendeu-se, pois nunca antes a vira sequer afastar-se da equipe desacompanhada.
Luke retornou seus Aerus e Wiki, e logo começou a correr atrás da fantasma que desparecia no manto branco de neve que forrava o chão. Era extremamente difícil seguir seu rastro, pois Glaciallis flutuava e não havia pegadas para se ter como trilha. Luke e Dawn pararam de correr até perceberem que já haviam adentrado fundo na floresta. O rapaz olhou para os arredores com um olhar de relance e estendeu as mãos num sinal de frustração.
— Nossa, o que houve com ela? Eu nunca a vi tão incomodada com alguma coisa...
— Acha que ela fugiu? — perguntou Dawn.
— Meus Pokémons jamais fugiriam — respondeu Luke com seriedade. — Concentre-se na música, na canção... Consegue ouvir alguma coisa?
Os dois ficaram em silêncio novamente, sendo dominados pela serenidade tensa e profunda da floresta. Luke seguiu para o leste, indo cada vez mais para longe da cidade, e então, em uma clareira bem distante, viu que Glaciallis estava ali parada de frente à uma cabana abandonada.

Era claramente velha, muito velha, mas o frio a deixara intacta, e sua aparência rústica a tornava um ponto interessante de ser contemplado. Glaciallis continuava ali de frente, encarando a porta caída de madeira. Dawn já conhecia histórias o suficiente sobre casas assombradas, Vivian a enchia de medo contando as aventuras de sua prima Julia nas Ilhas Laranja, e entrar lá dentro não parecia ser uma de suas primeiras opções.
Porém, por algum motivo aquele chalé não transmitia medo ou desconfiança, apenas tristeza. Ele trazia a sensação de mistério que deixava Glaciallis confusa, e ver sua adorável donzela entristecida amargurava todo o ar ao redor. A fantasma olhou para seu treinador com olhos perturbados, e depois voltou a encarar a cabana.
— O que há lá dentro? — perguntou Dawn.
— Quer descobrir? — acrescentou Luke.
— E-Eu não! E se um fantasma nos atacar?
— Algum fantasma sempre vai nos atacar, essa é uma das leis de casas abandonadas do Mundo Pokémon. Mas fique tranquila, temos o general de todos esses espíritos de nosso lado, o que devemos temer?
Luke começou a caminhar até entrar na bela varanda da cabana. Glaciallis o acompanhava de mãos dadas, ainda segurando a caixinha de som em um dos bracinhos curtos. O jovem lançou sua Dusk Ball revelando o grandioso militar dos espíritos do passado. O General Dusclops preocupou-se com o estado de sua nobre donzela, que pediu para que ele não se preocupasse demais com ela.
— Eu só estou assustada... e confusa — explicou Glaciallis. — Tenho lembranças desse lugar, mas já faz tanto tempo que não consigo lembrar de tudo. Sei apenas que deixei algo aqui, que esqueci algo que eu jamais deveria ter esquecido.
Luke empurrou a porta de madeira, tendo de afastar um pouco a neve que cobria a entrada. Um ranger terrível subiu ecoando pelas paredes como se dessem vida ao local, Dawn segurou mais forte nos braços de seu amado um pouco receosa. Teias de aranha cobriam cada canto, o que era bem estranho pensar que um inseto conseguiria sobreviver à temperaturas tão baixas. Quando Luke forçou a vista viu que aquelas teias tinham uma estranha coloração prateada, como se tivessem sido ordenadas a serem tecidas por alguém capaz de comandar até mesmo a natureza a mudar seus hábitos.
Glaciallis escondeu-se atrás de General, encarando a cabana cercada de memórias e flashbacks de seu passado. Ela já estivera ali, sabia disso.
Luke foi caminhando pelo salão central e percebeu que o interior da cabana era muito mais luxuoso do que de fora. Era impossível dizer que o local estava abandonado há tanto tempo, mas estava claro que apenas o gelo e a neve foram os responsáveis por manterem o imóvel intacto daquela maneira. A cabana trazia uma mobília nobre e exótica, como se tivesse sido ordenada por verdadeiros imperadores do passado. Era como uma casa de campo que lhes desse a oportunidade de fugir do mundo, mesmo que apenas por alguns instantes.
Dawn tomou um susto e conteve um grito quando viu uma Spinarak passar em sua frente, o que imediatamente chamou a atenção de Luke.
— Você viu aquilo?!
— Um inseto!! — afirmou Dawn, frustrada. — Não que eu tenha medo deles, mas esse aqui era...
— Prateado.

O jovem imaginava se aquele Spinarak não poderia ser considerado shiny, mas pelo que lembrava as aranhas daquela espécie mais rara eram azuladas, e não completamente prateadas. O General agachou e caminhou até a criaturinha, examinando-a atentamente com um certo tom de interesse. Glaciallis não fazia ideia do que se tratava, e pouco depois o fantasma chegou a conclusão de que aquela Spinarak prateada não era um simples acaso.
— É uma chave — afirmou o Dusclops para seu treinador. — Esta criatura prateada é uma chave que abre uma porta para algum segredo que não temos conhecimento do que seja. Deseja continuar, senhor?
Luke pensou se não seria ousadia demais continuar seguindo em frente, mas Glaciallis continuava com uma arma dúvida em sua mente, seria terrível para ela ter de conviver com aquilo. O que era aquela cabana? Qual a lembrança que a caixa de sons lhe trazia? Luke concordou, entregando a Spinarak prateada nas mãos de Dawn que fez uma cara de nojo.
— Quer que eu fique com ela mesmo?
— Só por um curto período de tempo. Vamos lá, Dawn. Você está de luvas, deixe esse bichinho na sua bolsa e cuidado para não esmagá-lo.
Dawn foi obrigada a concordar, colocando a aranha prateada em sua bolsa. A criaturinha se adequou muito bem, apoiando suas patinhas para fora e encarando tudo ao redor como se acabasse de ganhar uma viagem de graça.
Conforme Luke e seus Pokémons seguiam, a cabana revelou-se mais escura. Agora muitas das janelas estavam quebradas e cobertas por montes de neves, algumas passagens inclusive estavam bloqueadas. O rapaz acendeu uma lanterna para continuar, e quando forçou a visão viu que mais uma Spinarak prateada passeava em sua frente, tecendo uma teia dentro de um vaso velho.
— Devem haver outras chaves então, outras portas — ponderou o garoto. — Vamos levar as outras, tudo bem?
A mochila de Dawn ficava cada vez mais cheia de aranhas prateadas. Já se passara uma hora na cabana e haviam cinco Spinaraks na mochila, balançando e se remexendo como se apreciassem a viagem quentinha na bolsa da garota. Logo General fez um sinal para que seus companheiros parassem, indicando que eles haviam chegado à uma biblioteca.
Quando Glaciallis entrou no lugar ela o reconheceu de imediato. Sim, aquela cabana era mais do que um simples local abandonado, deveria ter alguma ligação com seu passado, com aquilo que ela era antes de tornar-se um... fantasma. Infelizmente grande parte dos livros estavam revirados e apodrecidos, as páginas estavam umedecida e letras ilegíveis, desperdiçando quase que por completo uma biblioteca magnífica daquelas.
Os dois Pokémons fantasmas foram seguindo pelos corredores de livros, e subitamente pararam quando viram algo. Havia um Duskull solitário ali, sentado em cima de um dos gabinetes, olhando para uma fresta na janela sendo possível encarar o céu nublado. O General Dusclops soltou um alto assovio, fazendo um sinal para que o Duskull saísse de sua posição e batesse continência para o militar.
— S-Senhor, eu não esperava encontrá-lo por aqui, precisa de meus serviços? — indagou o soldado Duskull.
— O que este batalhão faz neste casarão abandonado? Estão à serviço de alguém? — perguntou General.
O soldadinho manteve a pose de respeito, acenando com a cabeça.
— Sim, há dois séculos fomos incumbidos de proteger um tesouro, e há dois séculos estamos aqui para protegê-lo — disse o soldado, olhando para Glaciallis e mantendo-se quieto por um instante. — Senhorita, você voltou?
— Perdão...? — indagou Glaciallis confusa. — Eu... Eu acho que você deve estar me confundido.
— Peço-lhe desculpas, senhorita! Eu realmente devo estar... — disse o Duskullzinho de maneira acanhada. — Permissão para sair, senhor?
— Dispensado.
Assim que General deu-lhe a ordem o Duskull desapareceu, transformando-se em uma breve cortina de poeira que desvaneceu em meio aos livros.
Luke continuou a seguir os caminhos escondidos daquela cabana, e por fim percebeu que eles chegavam ao fim das áreas que podiam ser alcançadas. Agora eles estavam na sala de jantares, que trazia uma longa mesa e uma lareira do outro lado da parede que não era acendida há décadas. Havia também quatro quadros na parede, dois de cada lado. Dawn tentava conter as Spinaraks prateadas em sua bolsa quando notou que havia algo naquela sala de jantares.
— É minha impressão, ou há fantasmas sentados naquelas cadeiras?
Luke forçou a visão, notando que em cada uma daquelas cadeiras havia um Duskull sentado, parado e com uma expressão estática. Seria uma batalha entediante ter de enfrentar um por um aqueles Pokémons inofensivos, então, assim que General tomou frente o militar bateu as pernas e bradou com sua voz autoritária:
— Sentido!
Todos os Duskulls pularam de suas cadeiras, caindo no chão, tropeçando e derrubando vasos ao seu redor. Logo todos eles formaram uma fila e bateram continência para seu senhor, que mantinha o respeito em frente à sua doce Glaciallis. Logo, Castelo falou:
— Soldados, estou em busca dos mistérios deste gabinete, e é de interesse de minha mulher descobrir o que há escondido nesse lugar.
Os Duskulls continuaram quietos, encarando Glaciallis com olhares curiosos. Foi incondicionalmente que um deles comentou:
— Senhorita? É você mesmo?
Glaciallis afastou-se novamente, confusa e frustrada por não saber do que eles falavam, ou ao menos não ter a capacidade de lembrar-se. Vendo que sua princesa das neves sentia-se incomodada, Castelo mandou todos os soldados permanecerem em posição enquanto ele andava de uma ponta a outra examinando a sala de jantares.
— Meu senhor, — disse um dos soldados Duskull — nós protegemos algo aqui há muito tempo, e nos foi incumbido o dever de jamais permitir que alguém profanasse o túmulo de nossa senhora. Porém, aqui está ela própria, em sua vida após a morte. Por esse motivo presumo que nosso dever tenha sido finalmente cumprido.
— Túmulo? — indagou Glaciallis.
— Sim, túmulo, minha senhora. O seu túmulo. Nós o protegemos, e agora você está de volta. Não precisamos mais continuar defendendo-o — explicou outro soldado.
Logo todos os pequenos Duskulls bateram continência e falaram em conjunto:
— Permissão para sair, senhor?
— Dispensados — afirmou Castelo um pouco pensativo, e logo todos os fantasmas de soldados e guardas ali presente desapareceram para finalmente terem o descanso prometido.
Glaciallis agora estava mais surpresa do que nunca. Então, ali estava o seu túmulo? Era ali que ela tinha falecido há tanto tempo? Era por esse motivo que a cabana lhe trouxera tantas lembranças, por aquele motivo ela sentia-se tão incomodada quando caminhava pelo piso envelhecido do salão.
Luke notou que a lareira apagada servia como uma passagem secreta que levava para algum lugar adiante. Se havia um mistério a ser resolvido, então todas as respostas estariam lá em baixo. Glaciallis correu pelos corredores apertados, ignorando qualquer perigo que tivesse de enfrentar. General a acompanhou, assim como seus treinadores.
As escadarias que levavam para o subsolo pareciam não ter fim, e cada vez mais o ar ficava pesado. A lanterna de Luke havia acabado a pilha, o jovem carregava uma vela que agora também estava quase para terminar, o que os obrigava a agir mais depressa se não quisessem sair dali às escuras.
Quando os degraus terminaram, uma porta de ferro adornada com pedras brilhantes revelava-se trancada com um cadeado em forma de aranha. Glaciallis tentou atravessar a parede, mas tomou um choque quando percebeu que alguma espécie de escudo mágico invisível protegia aquela sala secreta.
— Dawn, as Spinaraks prateadas!
Dawn abriu sua bolsa e depositou gentilmente as Spinaraks no chão.
— Espero que uma delas sirva — comentou.
Algumas das aranhas aproveitaram a oportunidade para fugir, desaparecendo nas frestas de pedra das paredes, porém, uma delas caminhou até o cadeado, entrando na fechadura que se rompeu e caiu no chão.
A donzela de gelo soltou um longo suspiro. Quando a porta foi aberta ela viu um quarto muito bem mantido, um ar refrigerado saiu de lá dentro que quase congelou os ossos dos dois humanos e as almas dos fantasmas ali presentes.
Os olhos de Glaciallis estavam estáticos. Havia um mulher ali dentro, um túmulo congelado de uma linda moça de longos cabelos loiros e feições orientais. Ela estava congelada em um imenso bloco de gelo, e gentilmente depositada na parede como um quadro que nunca perde a sua beleza. O próprio General surpreendeu-se com a cena, e Dawn não deixou de sentir um calafrio na espinha.
— Essa... Essa mulher... — disse Luke em voz baixa.
— Sou eu — assentiu Glaciallis com a voz trêmula.
Glaciallis ficou a encará-la, como se admirada por uma beleza que esquecera que tivera. A sala ainda tinha coisas que ela se lembrava de quando era viva, haviam vários livros apodrecidos e caixinhas de som, como aquela encontrada no meio das pedras na floresta de coníferas. Luke e Dawn afastaram-se, negando entrar no ambiente, mas General e sua amada foram se aproximando, encarando tudo com atenção.
— Minha senhora, você era deslumbrante — afirmou Castelo, impressionado. — E continua sendo até hoje, mesmo após a morte.
— M-Mas como isso é possível? Eu estou morta, então por que continuo vagando? Por que fui enviada de volta como um fantasma? Por que não me foi dado o direito de descansar?
General pareceu pensativo com aquela pergunta, mas sabia o que dizer na hora certa. Era sábio, e aprendera com sua vida após a morte.
— Muitas almas são enviadas de volta quando ainda se têm um objetivo a cumprir. É difícil compreender qual nosso destino nesse mundo, mas eu, particularmente, não faço questão de saber — disse o militar com um sorriso, fazendo com que Glaciallis o encarasse com olhos chorosos e assustados. — Se eu não tivesse morrido, eu não a teria conhecido, e eu não poderia apaixonar-me uma segunda vez. Sou muito grato à morte, muito grato por ter você aqui ao meu lado.
Glaciallis permaneceu séria, notando então que havia um único envelope lacrado sobre uma mesinha de canto. A Froslass flutuou até a carta e encarou o selo, notando um símbolo que lhe era muito familiar trazendo a letra "G" grafada em cera vermelha. Ao abrir, ela viu que ali estava sua caligrafia, e por um instante um sopro de lembranças lhe percorreram.
Glaciallis imediatamente fechou o envelope e o deixou de volta onde estava.
— Não pretende abrir, minha senhora? — perguntou General.
— Se eu abrir, eu descobrirei o motivo pelo qual continuo a viver como um espírito. Se eu abrir, e descobrir meu destino, finalmente terei como descansar em paz... Mas eu não quero a paz, senhor. Eu quero... eu quero... viver ao seu lado. Eu também aprendi a amá-lo nos últimos meses, Castelo. E também sou agradecida à morte por isso.
O militar revelou um sorriso incontido, sentindo uma enorme vontade de abraçá-la por aquelas palavras tão lindas. De fato ele não ligou de estar sendo observado por seu treinador, ele agachou e com braços fortes deu um abraço terno e caloroso na mulher que retribuiu de forma carente e aliviada.
— Foi mal galera, mas será que podemos dar uma agilizada? A vela está apagando, e acho que até fiquei com medo desse lugar agora que descobri um defunto no porão — disse Luke, implorando para que seus Pokémons se apressassem.
Os dois fantasmas concordaram, mas antes que a Froslass saísse da sala ela ainda olhou para trás e observou mais uma vez seu corpo humano. O corpo de Glade Ciary Lissili. Glaciallis depositou gentilmente a caixinha de músicas naquele salão e saiu. Aquela porta nunca mais viria a ser aberta.
Os jovens correram para fora da cabana, e o túmulo de gelo ficou para trás assim como a misteriosa carta que Glaciallis se recusara a ler. Certamente a moça fizera a decisão certa por aderir à ignorância, era melhor viver uma vida imortal sem preocupações do que descobrir, de fato, por qual motivo ela continuava viva como um fantasma.
“Meu querido, encerro essa última carta como um reforço para tudo aquilo que eu já lhe disse.
Mesmo após a morte, juro fidelidade para você. Juro que viveremos eternamente como um. Eu serei sua, você será meu, e que para sempre possamos estar conectados pelos dois laços da vida, compartilhando a eternidade ao lado um do outro.
Eu nunca me apaixonarei por mais ninguém. Isso eu lhe prometo, contanto que você também jure estar ao meu lado mesmo após a morte. Nossos caminhos se interligarão, acredite, basta deixar o tempo dizer, e quando a hora chegar, saberemos que nosso amor um pelo outro pode superar qualquer barreira.
Sua, e somente sua, Glade.”
Fire Tales 26

A manhã estava sombria, e nos últimos tempos pairava no ar os boatos de que muitos Pokémons avistaram criaturas fantasmagóricas nos arredores. Não se tratava da simples presença de um espírito, nem mesmo o General Dusclops era capaz de dizer ao certo do que se tratava, mas, certamente, aquilo trazia um ar de tensão e euforia para dentro da Fire Tales.
Copos vazios eram vistos nas mesas do bar, vozes uivantes perambulavam pelos corredores ao anoitecer, e o pior de tudo é que comidas deliciosas apareciam servidas na cozinha, e ninguém fazia ideia de quem as havia cozinhado. Este era o maior mistério do momento, todas as fofocas tratavam do mesmo assunto.
— Estou falando, apareceu um copo na mesa. Vazio! E o pior de tudo não é isso, havia dinheiro do lado, ou seja, um fantasma veio até aqui, bebeu, e ainda fez questão de pagar! — dizia Sophie frustrada, apontando para um copo de vidro que continuava em cima do balcão.
— Mano, eu acho que é alguma alma maligna de um cozinheiro nóia que pegou fogo nas ideia do seu próprio fogão, tá ligado? Ele deve ter chegado aí pra se vingar da gente, por isso ele traz umas comidas dahora pra gente provar — disse Karl em um tom de seriedade.
— E não aconteceu poucas vezes, foram várias. Muito mais recentemente — assentiu a atendente. — Acho que esse fantasma continua perambulando por essas bandas...
— Eu sou um espião, admito que eu teria notícias se qualquer membro entrasse na Fire Tales sem ser desejado — concordou Al Capone.
Lyndis ajeitou-se em sua banqueta e falou:
— Qual é, Al! Ninguém conseguiria passar despercebido por você ou pelo senhor Atros. Se isso realmente existe, então está dentro da Fire Tales.
— Não pode ser um fantasma, nós o enxergaríamos... — ponderou Al Capone. — Bem, acho que tenho algumas dúvidas a serem respondidas com o General. Irei à procura dele, e caso eu volte com notícias, iriei notificá-la, senhorita Sophie.
— Tudo bem, mas... Só tomem cuidado com esse novo... fantasma.
— Tudo bem, mas... Só tomem cuidado com esse novo... fantasma.
Al e Lyndis saíram do bar preparando-se para seguir até o Salão Central onde General e Aerus bolavam estratégias para sua próxima batalha de ginásio. A lua brilhava intensamente no céu, mas algumas nuvens a cobriam fazendo com que o ambiente transmitisse uma sensação esquisita de que eles estavam sendo, nitidamente, observados.
O mafioso parou, e olhou para trás.
— O que foi, Al? — perguntou Lyndis.
— Nós estamos sendo observados — confirmou ele dessa vez num tom mais sério. Seus olhos iam de um lado para o outro na escuridão quando uma voz muito familiar foi ouvida:
— Claro que estão, estou aqui falando com vocês há meia hora e ninguém me responde!
Al Capone piscou com força e Lyndis deu um pulo quando eles puderam ver o velho Panetto parado ao seu lado, com suas gordurinhas extras e as roupas tão chamativas ao anoitecer. O Honchkrow ficou apreensivo por um momento.
— D-Desde quando o senhor está aqui?
— Desde quando? Estou falando com vocês há horas, eu ouvi a conversa sobre o copo misterioso no bar, mas sempre que eu falava era como se vocês não me ouvissem! — reclamou Panetto um pouco frustrado.
— Foi mal, estávamos meio preocupados tratando sobre o assunto do novo Fantasma do pedaço. Mas dessa vez, esse fantasma é tão poderoso que nem mesmo os próprios fantasmas podem vê-lo! Acredita?! — alertou Lyndis.
Panetto fez uma careta, coçando a cabeça um pouco sem graça.
— Era isso que eu estava tentando falar para vocês, não existe fantasma nenhum. Fui eu quem deixou os copos lá no bar, sou eu quem falo com vocês, e eu ando nos corredores de noite para ir ao banheiro... Ninguém nunca mais deu atenção para mim!
Al e Lyndis se entreolharam um pouco confusos, mas afinal de contas aquilo fazia muito sentido. O corvo falou:
— Bem, devo admitir que faz muito, muito, muito tempo que não o vejo na base. Eu podia jurar que o senhor tivesse abandonado a guilda há meses.
— Mas eu sou um dos membros mais antigos daqui, eu cozinho e almoço com vocês todas as manhãs — respondeu Panetto.
— Ah, então aquelas comidas deliciosas eram suas? — perguntou Lyndis de barriga cheia.
O velho cozinheiro franziu o cenho.
— Vai me dizer que vocês não sabiam?
Lyndis tentou esconder uma risada, até mesmo Al achou graça no fato de todos os guerreiros da guilda ficarem assustados com um membro que estava lá há tanto tempo. Panetto coçou seu bigode, falando em seguida:
— Isso explica por que vocês não têm conversado comigo... Acho que estou meio sumido na guilda, minha presença passa quase despercebida. Bem, na verdade eu queria perguntar se um de vocês saberia como alegrar a Akebia. Ela está tendo alguns problemas com a aparência e tem estado tão entristecida.... Pessoal? Olá? Vocês ainda estão aí?
Panetto olhou a sua volta e percebeu que Al Capone e Lyndis já haviam desaparecido, ou então, para eles era o pobre Panetto quem havia desaparecido.
O velho Gastrodon enfiou as mãos no bolso e saiu de lá ainda mais frustrado. Aquele ocorrido explicava muitas coisas, mas além de ter de lidar com os problemas de Akebia ele agora sabia que seus companheiros de equipe pareciam não enxergá-lo, ou haviam esquecido dele. Ao caminhar no pátio da guilda pôde ouvir Aerus comentar:
— Panetto? Bem, eu lembro de um velho amigo que entrou na guilda há muito tempo, mas isso já faz meses... Não sei dizer ao certo que fim ele levou, a Titânia poderia dizer mais sobre seu paradeiro.
Panetto ficou ainda mais entristecido com aquilo.
— Será que estou me transformando em um fantasma?
Logo o homem correu para onde Akebia estava. A mulher encontrava-se em uma área do pátio da guilda cercado por árvores ressecadas e uma pequena lagoa de águas límpidas na beirada. A doce Roserade tinha a maquiagem manchada e os olhos inchados, ela passava a mão pela água corrente como uma princesa perdida em seu próprio tempo. Panetto aproximou-se e sentou-se ao seu lado.
— Você está melhor?
— Não — respondeu ela de maneira grossa, finalizando a conversa naquele ponto.
O velho cruzou os braços, parecendo decepcionado com aquela cena.
— Bem, agora acho que somos nós dois com problemas... Acredita que os outros membros da guilda não se lembram de mim? Eles estão dizendo que deixei a guilda há meses. Como isso é possível se estou ao lado deles o tempo todo?
— Sua presença só passa despercebida — assentiu Akebia, limpando o rosto úmido. — Assim como eu. Mon cher, acho que nós dois somos desnecessários nessa vida...
— Não diga isso, você é... Você é... Tão bonita! Veja esse seu rosto lindo, você é perfeita!
Akebia franziu o cenho e mais algumas lágrimas rolaram de seu rosto, mas agora, de angústia. Ela parecia realmente indignada, ergueu o tom de voz e esticou o braço ao segurar na gola do blusão do velho Gastrodon.
— É disso que estou falando, será que você não consegue entender?! Eu sai em missão ontem e encontrei uma ex-amiga, e sabe o que ela me disse?!
— O q-que ela disse?
— "Você não passa de um rostinho bonito." — respondeu Akebia, agora com a voz entristecida. — É isso que eu sou, Panetto... SÓ um rostinho bonito...
— O q-que ela disse?
— "Você não passa de um rostinho bonito." — respondeu Akebia, agora com a voz entristecida. — É isso que eu sou, Panetto... SÓ um rostinho bonito...
— E não está bom...? — perguntou ele assustado.
— Você gostaria de ser lembrado SÓ como mais um da Fire Tales? Acho que não, né?
Panetto recuou com os olhos arregalados, o que fez Akebia largá-lo e abaixar o rosto num sinal arrependido. A mulher levou um de seus braços até a cintura, tirando os cabelos esverdeados do rosto enquanto limpava o nariz e umedecia os lábios.
— Eu queria que as coisas voltassem a ser como eram antes.
Panetto olhou para suas próprias mãos, e por um instante imaginou como ele próprio havia mudado nos últimos tempos. Ele podia ser imenso e chamativo por fora, mas ainda assim, era como se estivesse vazio por dentro.
— Bem, elas podem mudar, Akebia... É só nós dois desejarmos de todo o coração tentar melhorar, vamos fazer isso um pelo outro!
A mulher olhou para seu companheiro de maneira séria e falou:
— Às vezes penso em todas as vezes que você me ferrou, e sempre me fazia pensar que era algo que eu tinha feito — disse Akebia. — Eu não quero viver assim, Panetto. Tenho medo de mudar, e piorar. Fique longe de mim.
A Roserade saiu correndo dali o mais depressa que podia, deixando para trás um velho reflexivo que agora pensava se suas decisões haviam sido certas. Desde o começo de sua carreira nos Fire Tales ele cometia tais gafes. A começar por abandonar a guilda para ficar com uma moça que acabara de conhecer, e agora, ele havia perdido o carinho da única mulher que realmente se importava com ele.
Ou melhor, a única pessoa que ainda o enxergava.
Talvez tivesse sido melhor se ele nunca tivesse entrado na guilda. Talvez aquele dia em que ele conhecera uma doce Budew nos campos floridos devesse nunca ter existido. Mas Panetto ainda lembrava-se da voz doce da jovem menina que lhe estendeu a mão e sugeriu:
Quer ser o meu amigo?
Akebia era apaixonada, dizia que estava tão feliz que poderia morrer. Mas o próprio Panetto sentia-se solitário ao lado da jovem, Akebia mal tinha fama entre seus companheiros e quase passava despercebida, na época. Quando os caminhos se inverteram, foi ela quem passou a sentir o vazio de estar sozinha.
Panetto olhou para as próprias mãos e pensou:
— Acho que... Acho que realmente estou desaparecendo desse lugar. Será que eles sentiriam falta de mim se eu fosse embora mais uma vez?
Ele recorreu à ajuda de uma companheira conhecida. Foi em direção da biblioteca onde deparou-se com Glaciallis e Chaud ajeitando alguns livros sobre as prateleiras. O local parecia bem bagunçado, livros estavam estendidos enquanto Chaud segurava uma grande escada de metal permitindo que a dama de gelo alcançasse as prateleiras mais altas. Panetto escorregou em algumas folhas o que fez até mesmo os olhos atentos de Chaud colocarem-se em alerta.
— Ouviu isso? — indagou ele de forma séria.
— A-Acho que é o fantasma de que todos estão falando... Ele deve ter vindo para nos assombrar também — disse Glaciallis, assustada.
— Um fantasma assustando um fantasma? Essa é boa...
Panetto levantou-se do tombo, e somente então Chaud percebeu a presença do velho companheiro fazendo a tensão diminuir.
— Panetto? Faz muito tempo que não o vejo, velho amigo. — O Bastiodon parecia sério em seus dizeres.
— Mas eu passei ao seu lado no corredor ontem mesmo... E você quase enfiou seu escudo na minha testa, se eu não tivesse agachado por pouco!
Chaud olhou para Glaciallis, assentindo num aceno discreto. Panetto soltou um suspiro ao concluir que ninguém, literalmente, reconhecia que ele continuava sendo um membro ativo da guilda.
— Eu preciso da ajuda de vocês! E-Eu estou desaparecendo, não sei mais o que fazer!
— Tecnicamente é impossível você possuir uma habilidade como essa sendo um guerreiro da Nova Geração — explicou Chaud. — Mas talvez você tenha descoberto um novo poder, Panetto. Além de controlar tempestades agora você pode também tornar-se invisível, se desejar. Isso é surpreendnete.
— Mas eu não quero isso... Eu só queria...
— Panetto?
— Sim, Chaud?
— Ah, você está aí. Como fez isso?
— O que?
— V-Você desapareceu, e depois voltou. É impressionante — afirmou Glaciallis, surpresa.
Nem mesmo os Pokémons fantasmas mais antigos dominavam com tamanha perfeição essa habilidade. Se o indivíduo mantivesse os olhos sem piscar por longos minutos ele começava a enxergar vultos, e ainda assim, Panetto parecia dominar essa habilidade com maestria. Logo Chaud chegou a uma conclusão.
— Acredito que eu tenha uma resposta para seu problema. Uma identidade.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Panetto.
— Trata-se de sua personalidade. Você não se destaca, acaba sendo esquecido pelos outros. Você fica em sua zona de conforto e espera não sair dela — explicou o guerreiro da máscara de ferro.
— E como eu posso fazer para acabar com isso?
— Essa é uma resposta que você deve encontrar, senhor Panetto... — comentou Glaciallis em voz baixa. — Depende de você querer mudar, depende de você querer ajeitar o que está errado. Fantasmas não são imortais... Eles podem ter a vida eterna, mas se passam muitos anos no esquecimento eles simplesmente desejam desaparecer.
— E isso pode acontecer com qualquer personagem, Panetto. Ele pode deixar de existir, se for esquecido.
Panetto ponderou pelas sugestões de seus amigos, agradecendo a ajuda deles antes de partir pela porta de entrada da biblioteca.
— Obrigado, pessoal. Vou me esforçar para achar uma resposta, então preparem-se para meu retorno muito em breve! Até logo!
A Froslass parou e olhou para a porta de entrada.
A Froslass parou e olhou para a porta de entrada.
— Hm? Você ouviu isso? — perguntou Glaciallis.
— Ouvi sim, mas parecia a voz de um amigo que eu conhecia na guilda há muito, muito tempo... Melhor deixar para lá — respondeu Chaud pensativo, logo voltando a ajeitar os livros nas prateleiras junto da bibliotecária.
• • •
Panetto procurou por Akebia nos lugares onde ele sabia que sua amiga mais adorava ficar. Ela não estava presente em seu quarto, maquiando-se ou escolhendo roupas, também não encontrava-se no bar ou fazendo uma caminhada pelo pasto de flores que ela cultivara no verão passado.
O bigodudo surpreendeu-se ao encontrá-la no depósito da guilda, carregando alguns cadernos velhos e telas de pintura. Raramente Akebia esforçava-se para fazer algo que não fosse cuidar de plantas ou mandar os outros pastarem. Mas, naquele momento, ela parecia trabalhar em algo realmente grande.
Ao aproximar-se, Akebia respondeu:
— Eu pensei ter dito para você ficar longe.
— Pelo menos você ainda me enxerga .. — disse ele.
— O que você quer agora? Estou meio ocupada com algumas coisas, se não se importa, suma da minha frente com todos esses seus dotes culinários, com as boas lembranças dos tempos que passamos juntos, desse bigode fofo e das bochechas rechonchudas que eu tanto adorava.
— Mas você não precisava me cortar... Fingir como se nunca tivesse acontecido e que não éramos nada.
— Eu nem preciso do seu amor! Você me trata como uma estranha!— respondeu Akebia.
— Eu quero tentar mudar, Akebia... Mas você também precisa.
— Eu não vou mudar, estou muito bem assim. Argh, Panetto! Você já não é garoto incrível que eu conheci! Agora você é apenas alguém que eu costumava conhecer, é incrível como certas coisas mudam em nossas vidas, não?!
Akebia saiu do depósito carregando suas molduras, mas logo o peso das telas cansara seus braços e ela tropeçou deixando-as cair, quebrando algumas bordas. Uma das unhas da mulher acabou quebrada, o que a deixou inconformada.
— Você fala de mim, mas você também nunca muda, não é, Akebia?
A mulher parou ao virar-se para trás, e por um instante foi como se ela enxergasse seu reflexo estampado nos olhos entristecidos do companheiro.
"Você é só um rostinho bonito."
E de fato, Akebia também não se importava em tentar mudar aquilo. Ela nada mais era do que uma junção de todos que resultava em nada. Akebia desejava que os outros mudassem por ela quando ela própria não aceitava isso.
E de fato, Akebia também não se importava em tentar mudar aquilo. Ela nada mais era do que uma junção de todos que resultava em nada. Akebia desejava que os outros mudassem por ela quando ela própria não aceitava isso.
A Roserade largou com força as molduras no chão, sentando-se em cima de um tronco com o rosto apoiado sobre seus braços para esconder os olhos tristes. Ela pôde ouvir alguém aproximando-se, viu que Panetto juntou as molduras quebradas, colocou-as na frente de sua companheira e sentou-se ao seu lado para consolá-la.
— O que você estava tentando fazer?
— Nada... Restez à l'écart, é segredo.
— Você sempre foi de ficar sem graça quando esconde algo novo, não é? Você tem medo da reação das pessoas, têm medo de inovar, do desconhecido — disse Panetto com uma voz compreensiva.
— Bem, e está aí uma coisa em você que nunca muda também... Você continua sendo cuidadoso com o que é seu — disse Akebia, limpando o rosto umedecido. — Ahh, Panetto... Eu queria mudar, queria de verdade.
— Bem, e está aí uma coisa em você que nunca muda também... Você continua sendo cuidadoso com o que é seu — disse Akebia, limpando o rosto umedecido. — Ahh, Panetto... Eu queria mudar, queria de verdade.
— Sei que é ruim quando mudamos pelos outros, mas não vamos fazer isso por eles, e sim, por nós mesmos. Você está satisfeita sendo apenas um rostinho bonito?
— N-Não... — respondeu ela sem graça.
— Okay, eu também não quero ser um guerreiro invisível nessa equipe. Nos próximos meses iremos mudar, e muito! Prometa que vai se esforçar, prometa que agirá de maneira diferente.
Akebia olhou para os lados, vendo as molduras que ela tentara levar para seu quarto agora há pouco. A moça pegou um livro de arte que também estava caído no chão e o folheou:
— Eu queria mudar, mas ainda não tinha um motivo. Vou deixar de me preocupar tanto com a beleza, quero ser uma moça inteligente, diferente. Acho que preciso saber lidar com críticas se eu quiser que essas minhas ideias possam continuar seguindo em frente.
— E o que exatamente você está preparando?
— Eu já disse que é segredo — disse Akebia com uma risada.
— E o que exatamente você está preparando?
— Eu já disse que é segredo — disse Akebia com uma risada.
A moça começou a ajeitar as molduras e seus pincéis enquanto falava.
— Vou cortar o meu cabelo, ler muitos livros e... colocarei um par de óculos. Sim, óculos me deixarão sexy. A Wiki deve saber muito sobre como me tornar uma mulher sexy! Quero ser uma moça centrada e inteligente.
— Vou cortar o meu cabelo, ler muitos livros e... colocarei um par de óculos. Sim, óculos me deixarão sexy. A Wiki deve saber muito sobre como me tornar uma mulher sexy! Quero ser uma moça centrada e inteligente.
— Tudo bem, tudo bem! Agora prometa que irá melhorar por você mesmo.
Akebia riu, apontando o indicador na ponta do nariz de Panetto e afastando-o com um toque delicado.
— E eu preciso prometer para mim mesma que vou mudar? Eu simplesmente quero, e vou, mudar. Para mim isso já é o bastante, e você?
Akebia logo saiu dali, carregando seus livros e molduras prometendo muito em breve tornar-se algo muito maior do que um simples rostinho bonito da guilda.
Afinal de contas, Panetto se perguntava: Seria errado mudar? Todos necessitamos de um senso de autoestima e de autovalor para que possamos ajudar-nos a nós mesmos a mudar algo em nós. O velho Gastrodon foi em direção do pátio, onde involuntariamente recebeu um aceno de Aerus e Watt que caminhavam ali perto. Ele inclusive pôde ouvir o esquilo comentar bem baixinho para seu amigo dragão:
— Eu disse que ele continuava na guilda. Ele sempre esteve aqui.
Panetto sorriu, respirou bem fundo e aceitou que aquele era apenas o começo de grandes mudanças em sua vida. Os boatos sobre o misterioso fantasma logo começaram a desaparecer, os copos vazios em cima do balcão se tornaram menos frequentes e os passos moribundos no corredor não passavam de meras lendas.
E no fim das contas, Panetto pôde extrair algo que levou por toda sua vida: Ele ainda tinha muito a melhorar e evoluir. Não poderia estagnar em sua vida no conforto das comodidades. Não seria preciso mudar para agradar os outros, ele poderia melhorar por eles.
Tanto que alguns dias depois...
Tanto que alguns dias depois...
— Iuhuul! Mon cher, onde você estava? Você demorou tanto!
— Tentei vir o mais rápido que pude, Akebia. Então, o que exatamente você está preparando?
— Veja, esta era a minha surpresa, aquele segredo que cheguei a mencionar. Vamos utilizar nossos corpos nus para moldes baseados em um clipe maravilhoso que assisti outro dia, uma técnica de stop motion! Est étonnant! Então, está preparado para tentar algo novo?— Aww... Será que ainda tenho aquela habilidade de ficar invisível?
Artbook - The Wallers Brothers Template
Autor(a): Nyx (part. Litos)
Finalizado: 25 de Março, 2013
Técnica: Pintura Digital
Resolução: 2084 x 1245
Tamanho: 1,11 mb
Descrição: Luke e Lukas. Os Irmãos Wallers. Imagem do Template. Pokémon. Personagens da fanfiction Aventuras em Sinnoh.







































