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Aerus' Destiny

O céu continuava o mesmo, mas por algum motivo parecia menos azul; a fogueira ainda crepitava, mas o fogo já não aquecia como antes. Há anos perdera o brilho nos olhos — se realmente fosse um dragão, não teria mais interesse em ouro e nem joias. Os anos o arrastaram como correntes pesadas em seus ombros e esferas de metal em seus pés, estava perdido em um barquinho de madeira no meio do oceano sem esperança de alcançar uma ilha.
Seus amigos estavam mortos — uma lembrança amarga do tempo que consumia a tudo e todos —, sempre pensou que teria sido melhor fazer amizade com o Senhor do Tempo, Dialga, ao invés daquela mulher apaixonada que controlava o espaço.
Despertou por causa do frio, mas dormir ao relento também não era nenhum conforto. A fogueira, praticamente extinta, sua única missão era controlar aquela chama. Ele levantou-se, jogou alguns gravetos na tentativa de ampliar a chama que acabou por extinguir-se por completo. Não era a primeira vez que perdia seu fogo, uma ajudinha daquele velho Houndoom cego seria bem vinda nessa hora. A noite era o período mais cruel, pois a solidão avançava com a força do soco mais forte de General. Lembrava-se das histórias e momentos de diversão que compartilhara com eles, das batalhas e conquistas compartilhadas com cada um. Onde estavam as medalhas, onde estavam os troféus? Sujos de poeira, como ele. Coçou a barba e soltou um longo suspiro, tinha que esperar só mais um dia passar.
Só mais um dia.
A planície era extensa e cercada por montanhas, qualquer um teria visto a explosão luminosa que ocorreu e abriu uma enorme fenda no chão, exalando fumaça e poeira como se um meteorito tivesse acabado de colidir com a terra. O dragão preferiu não levantar-se para ver o que era. Estava velho, não tinha forças e nem vontade. Que procurasse outro alguém.
Assim que abriu os olhos, uma enorme sombra negra se projetava sobre ele.
Look at that. O estado deprimente desta pobre criatura... E pensar que você já foi o líder da Fire Tales.
O Garchomp sentou-se e imediatamente reconheceu a figura monstruosa.
— Vista? A máquina de guerra? Nosso tanque monstruoso que adorava destruir coisas?
— Yep. Back from the future. I mean, from the future’s future. Oh, just forget it.
— O que você está fazendo aqui? Você deveria estar... morto.
Incorrect. Uma máquina não pode morrer, mas posso ser destruído. Mas se não houver nenhum babaca para me reconstruir, creio que as condições do nosso futuro sejam mais sérias do que eu havia imaginado — falou Vista, sentando-se em frente ao dragão como dois velhos conhecidos que se reencontram após longos anos em silêncio. — É melhor você também sentar-se. Sou péssimo em contar histórias.
O Metagross deu um único disparo na fogueira que explodiu e ardeu em chamas, alastrando o fogo nos arredores de maneira contida, só para que eles tivessem um pouco de iluminação naquela noite sem estrelas. Vista o olhava sério, ainda não ouvira nenhuma pergunta ou dúvida de seu velho amigo, mas só de olhar para o semblante dele podia compreender o que ele sentia.
— Você está péssimo — falou Vista. — Pior que antes. O que fizeram com você?
— Acho que fui atropelado por um caminhão chamado vida — Aerus respondeu.
— Quase não o reconheci com essa barba de mendigo e essa cara de quem já viveu meio século. Ainda não arranjou outro daqueles seus óculos escuros?
Aerus permaneceu em silêncio, sem tirar os olhos do ciborgue. Sentira falta até mesmo da maneira birrenta como ele sempre tratara todos.
— Eu já não sou mais um garoto, Vista.
Oh, come on. Não me venha com esse discurso de gente velha — disse o ciborgue. — A sua alma é a última que deveria envelhecer, ainda olho para você e enxergo o garoto inexperiente tentando liderar uma guilda de fracassados que se tornou a maior da história. Things are getting serious, you know? Onde estão os outros?
Aerus balançou a cabeça, incapaz de compreender.
— Eles estão mortos, merda! Sério mesmo que você voltou do passado só para trazer... essas lembranças? Para ficar jogando na minha cara como vivíamos tempos maravilhosos? Eu aproveitei tudo que tinha que aproveitar, cacete, a Fire Tales foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, mas acabou, porra!
For Arceus’ sake, você está mais boca suja do que eu me lembrava... Talvez o Watt possa dar um jeito nisso.
Aerus ativou a lâmina enferrujada que jamais saíra de seu antebraço. Ele deu um grito de ódio e partiu para cima de Vista, cravando a lâmina no peito do ciborgue que recuou e cambaleou para trás, arrancando-o de cima de seu corpo e atirando-o contra a parede.
Damn, kid! Você continua impulsivo como sempre! — Vista verificou seus sistemas para ter certeza de que nenhum fio fora danificado. Se sua armadura defensiva não estivesse em seu auge, aquele golpe do velho Garchomp ainda teria machucado um bocado.
— Não... fale... mais... do Watt... — Aerus murmurou entre os dentes.
— Eu sempre soube que o esquilo era o equilíbrio entre vocês.
— Vocês?
You and Titânia.
Aerus berrou novamente e partiu para cima de Vista como um animal selvagem, ele tentava riscar a armadura de metal, mas sua arma já não era afiada há anos. Vista precisou prensá-lo contra uma rocha usando seus braços mecânicos.
That’s why I’m here! Você continua impulsivo e faz merda atrás de outra, ouve um nome que lhe traz algumas lembranças e já perde a cabeça! Talvez os anos não tenham o feito amadurecer como devia.
— Me larga, sua sucata de merda! Eu não preciso de você aqui, eu não quero nenhum fantasma do passado voltando para me atormentar! Me deixa em paz!
— Não pense que eu saí direto do conforto do meu passado perfeito para consertar esse seu futuro de merda, eu só estou aqui como um favor — Vista falou furioso, poucos eram capazes de confrontá-lo naquela situação. Mas após ver a situação deplorável em que o velho Aerus se encontrava, acabou se compadecendo da situação.
Após ser largado no chão, Aerus tentava recuperar o fôlego, tossindo sem parar.
— Onde está a menina? — perguntou Vista.
— De quem você está falando? — perguntou o dragão, abalado com aquele súbito encontro.
Your daughter.
Aerus arregalou os olhos. Não entendia algumas das palavras do vocabulário sofisticado do Metagross, mas compreendia o que aquilo significava.
— Minha... filha?
Yes, yes. Um filhotinho do demônio, se me permite dizer. Céus, aquela garota move montanhas com as próprias mãos se assim desejar. Deve ter herdado a força da mãe e o temperamento do pai, porque é justamente por causa disso que eu estou aqui.
Eram tantas informações para assimilar que Aerus sentiu seu cérebro travar.
— Não, não pode ser...
Oh, you do. Eu vim busca-la.
Vista prensou Aerus no chão, impedindo-o de ataca-lo de novo. O dragão rangia os dentes.
— Vai me deixar terminar? Enfim, vou resumir a história. A garota é mais poderosa do que você imagina. Ela não deveria estar aqui, é uma ameaça até mesmo para o tempo e espaço, tanto é que tenho permissão da própria Palkia para vir aqui dar um jeito nas coisas.
Aerus foi erguido pela cabeça, tendo de olhar bem de perto nos olhos do ciborgue mecânico.
— E você vai me ajudar a consertar a merda que a sua filha fez. Got it?

i

Se as noites eram frias e solitárias, então as manhãs revelavam um lado ainda mais difícil para continuar vivo. A garganta seca era um sinal de pouca água e as planícies áridas eram uma lembrança das terras férteis de muitos anos. Vista se transformara em um carro que corria em alta velocidade enquanto Aerus permanecia quieto em seu canto, aguardando aonde quer que a viagem os levasse. Desde o retorno do Vista do passado, vinha tentando apagar todas as lembranças da Fire Tales que voltavam à tona.
So, everyone is dead, right? — perguntou Vista, sem esperar por uma resposta. — Damn, deve ser cruel pensar em seguir em frente sem aqueles idiotas... Eles tiveram mortes trágicas?
— Não é da sua conta — respondeu Aerus, abraçado aos seus joelhos como um mendigo acuado por grandalhões armados com ferro e bastões.
— Aquele fracassado do Marco não viveu o bastante para me reconstruir? Nem a Wiki e o Mozilla aguentaram? Quando eu voltar para meu tempo vou me certificar de ensiná-los direitinho a me reconstruir, vão ter que treinar três vezes por dia. Espere, e o Mikau? Está para nascer um atirador mais capacitado do aquele desgraçado! Diz que fui eu que matei ele, please.
— Você não tem nem mais corpo — Aerus rompeu o silêncio. — Sua cabeça está em um tanque líquido em um museu. Alguns dizem que você ainda pensa em uma forma de fugir de lá.
Tragic. Um final digno. Sobrou mais alguém que possa nos ajudar nessa demanda?
— Bom... para ser sincero sobrou alguém com quem jogo xadrez à tarde. Eu compro alguns remédios para ele, mas não tenho condições de tomar conta dele.
— Você não tem condições de cuidar nem de si mesmo.

Vista dirigiu até uma cabana isolada perto do mar. Ao menos a vista ali continuava a mesma, era o mais perto que tinha do seu tempo, céu nublado e uma garoa fina em tardes de inverno. Esteve pensando a viagem inteira em quem iria encontrar ali, se desse de cara com um Mikau velho e rabugento não poderia segurar a risada, mas na primeira vez que se deparou com o silêncio naquele cômodo frio, percebeu que não tinha tempo para brincadeiras.
A casinha tinha rampas e nenhum degrau, a mobília era de uma madeira simples, mas pelo menos a privacidade e o sossego proporcionados eram melhores do que imaginá-lo em um asilo. Na varanda de frente para o mar, estava um homem de cadeira de rodas com os cabelos loiros. Apesar da idade avançada — quase vinte anos à frente de Aerus — ele ainda devia fazer sucesso com as velhinhas. Os cabelos bem penteados para trás tinham alguns fios brancos na raiz, mas ele sempre tentava pintá-los para esconder a idade. O rosto fora o mais ferido pela idade, um sinal de que nem mesmo a criatura mais perfeita do mundo poderia ser bonita para sempre.
O velho Seth ouviu a porta abrir-se, mas não se importou em ir recebê-los.
— Eu não vou jogar xadrez com você de novo. Estou cansado de ganhar, Aerus. Você nem ao menos tenta — a voz de Seth estava um pouco rouca, mas ainda era possível ouvir um pequeno rastro da canção melodiosa que um dia saíra de sua boca.
— Eu trouxe uma visita dos velhos tempos. Só cuidado com o coração.
Assim que Seth virou a cadeira de rodas, deparar-se com Vista não o deixou tão surpreso quanto Aerus esperava. Parecia que os dois haviam se encontrado na última manhã.
— Aqui está alguém que eu não esperava ver de novo — disse Seth.
Damn, os dois maiores rivais de antigamente agora se reúnem aos domingos para jogar xadrez na beira da praia. Time changes — murmurou Vista.
— Certamente, meu nobre visitante do passado. Prefere chá ou café? Por favor, sente-se enquanto o Aerus prepara um pouco para nós. Eu vou adorar ouvi-lo.

Aerus não preparou nada. Vista compartilhou com Seth maiores detalhes sobre o estrago que a suposta filha de Aerus causara em universos alternativos e como ele fora enviado do passado justamente para consertar aqueles problemas. Mesmo após ter destruído sua máquina do tempo e jurado nunca mais usá-la, a urgência do plano obrigou que decisões maiores fossem tomadas em prol da existência de todos naquele universo.
— E onde está a menina? — perguntou Seth.
— Poderíamos perguntar para o pai ausente e imprestável dela — respondeu Vista, olhando para Aerus que parecia cada vez mais furioso ao ouvir aquela ideia sem sentido.
— Vocês acham mesmo que eu não saberia que tenho uma filha? Que nem saberia o nome dela? Que eu abandonaria uma menina criada pela própria Titânia, a mulher que mais amei nessa vida? Pela forma enigmática que vocês se comunicam, parece até que estão contra mim e eu sou o culpado disso tudo!
— Você foi lerdo para muitas coisas nessa vida, caro amigo — disse Seth. — E ser pai foi uma delas.
— Talvez eu não a tenha conhecido ainda porque eu estava ocupado demais cuidando de um velho de cadeira de rodas que não consegue nem mais preparar um café decente — respondeu Aerus.
Vista ergueu-se para impedir que aquele duelo de velhinhos partisse para o nível de disputa de bengalas.
— Pelo menos algumas coisas não mudaram. Come on! Onde é que uma menina de oito anos se esconderia nesse mundo caso estivesse completamente sozinha e desamparada? O único lugar que a traria conforto nas horas difíceis, onde ela se sinta acolhida quando mais precisar? Deve ter restado um lugar assim no mundo...

ii

Vista se lembrava da placa que um dia tivera de colocar no portão principal da guilda. Não havia mais letreiro e nem muros, aquele deveria ter sido palco de uma guerra sem medidas que não deixara nada para trás além de rastro e destruição. Aerus empurrava a cadeira de rodas de Seth sem olhar para os lados, ele só olhava o chão e fingia que não existia nada ao seu redor. Sem uma fogueira ligada, aquelas redondezas eram muito frias. Aerus colocou uma manta sobre o ombro do Dragonite e certificou-se de que ele estivesse confortável em sua cadeira naquela longa caminhada.
— Oh, eu lembro desse lugar... Era o bar da Sophie, não? — apontou Seth.
— Já virei muita mesa de ponta cabeça nesse salão... Era ali que ficavam os dormitórios? Lembro que a Wiki alugava um quarto antes de irmos para o laboratório na montanha. Damn, já dei cada susto naquelas crianças...
Aerus mantinha o semblante imparcial. Só queria dar logo o fora dali.
— Pronto. Já terminaram sua excursão? Podemos ir embora? — ele os apressou. — Eu odeio esse lugar.
— Aerus, meu bom amigo, não podemos abrir mão de tantas lembranças maravilhosas. Você já se esqueceu das competições de braço de ferro no bar? Ou das festas com os demais membros da guilda, as viagens para o parque de diversão, as brigas e batalhas que travamos aqui para protegermos a guilda — a nossa guilda? Não abra mão de seu passado, Aerus. Ele ainda é uma parte importante do seu amadurecimento.
— Eu não esqueci... Eu jamais esqueceria.
Duas pequenas rochas deslizaram, Vista virou-se com seu canhão preparado e Aerus ativou suas lâminas enferrujadas em sinal de alerta, seus sensos continuavam ótimos apesar dos anos. Seth também percebeu, mas ele já não conseguia mover-se com a mesma facilidade, por isso virou sua cadeira de rodas e falou com a voz bondosa.
— Sabemos que você está aí, querida... Por que não vem até nós?
Aerus ainda não tinha percebido que estava tão perto de onde costumava ser o seu quarto. Talvez até tivesse percebido, mas preferiu fingir que não existia mais nada ali — o que de fato era verdade. Vista guardou seu canhão e ele retraiu a lâmina de volta para seu braço. Havia uma menina de pé sobre os destroços de uma parede tombada. Ela tinha o cabelo acinzentado ainda curto, mas uma trança singela fora preparada com todo carinho do lado direito. Seus olhos eram intensos, do tipo que poderia intimidar um inimigo a desistir antes mesmo de entrar em uma luta. Ela usava um vestido branco com botinhas, preso ao cinto improvisado carregava alguns mantimentos e provisões. No braço esquerdo carregava parte da armadura que um dia pertencera a sua mãe, a mão direita não largava a bainha da espada quase do seu tamanho, presa à suas costas.
Seth revelou um sorriso discreto, Aerus permaneceu trêmulo sem sair do seu lugar.
Damn — disse Vista, olhando para a menina e depois para Aerus. — Ela tem a cara da mãe, mas nunca achei que fosse parecida com você. Tem certeza que é a sua filha?
— Olá, querida. Por que não se aproxima? — Seth convidou-a gentilmente.
Vista ergueu seu canhão e atirou de forma inesperada. Uma rede feita de correntes disparou contra a menina que retirou a espada das costas a tempo de reduzir a rede a pedaços de ferro deslocados. Aerus gritou indignado por seu amigo ter arruinado aquele momento.
— Não acredito que você fez isso, sua merda de sucata ambulante!
— Assustamos a menina — Seth meneou a cabeça.
— Minha função é pegar a menina e dar o fora daqui. Eu não dou a mínima para o que você sentir.
Vista disparou em uma perseguição atrás da garota. Aerus queria persegui-lo, mas não queria deixar Seth sozinho naquela situação. O velho Dragonite segurou-o com sua mão fraca e concordou com a cabeça, insinuando que ele deveria persegui-la também.
Aerus correu por cima dos escombros, vez ou outra escorregava por já não ter muito equilíbrio, mas não podia deixar que algo acontecesse com aquela criança. Não de novo.
Vista era grande demais, e por isso, um alvo fácil. Ele avançava pelos antigos domínios da Fire Tales, empurrando escombros na tentativa falha de encontrar uma menina mirrada naquele campo desolado. Ele revirou uma parede quando viu que a luz fora tampada por um breve instante, a garota havia saltado do alto com a espada em mãos, procurando cravá-la no centro do elmo de prata do ciborgue. Vista sabia que aquela era a espada de própria Titânia, uma arma capaz de cortar até mesmo o aço mais resistente. O Metagross agarrou a menina pelo corpo e arremessou-a contra o chão sem dó na tentativa de contê-lo.
You come with me.
A garota franziu o cenho e segurou as enormes garras da criatura, pressionando-as com tanta força que o metal se retorceu entre suas pequenas mãos. Vista recuou incrédulo, a garota guardou sua espada e ergueu os dois punhos, insinuando que lutaria contra ele usando sua própria força. Vista tentou disparar contra as pernas da menina a ponto de fazê-la parar, mas ela deu um salto e socou o peito do ciborgue com tanta força que ele foi arremessado para longe.
Aerus viu o estado em que seu amigo se encontrava, mas não conseguia compreender por que eles lutavam.
— O que está acontecendo aqui? Por que vocês estão lutando como se suas vidas dependessem disso? — indagou Aerus.
Vista levantou-se pronto para mais. Ele disparou com a força de um canhão contra a garota que esperou o impulso de seu oponente para brandir sua espada. Ela arrancou um braço inteiro de Vista sem fazer força, o Metagross sentiu o óleo jorrar e ele compreendeu que não poderia aguentar muito tempo.
— Pelo menos posso confirmar que sua mãe te treinou direitinho — disse Vista. — Mas você também herdou algumas habilidades do seu pai, como a de atacar primeiro e perguntar depois.
— Você nunca vai me levar de volta. — disse a garota. — Eu sei que serei punida.
A garota pisou no peito do ciborgue e o impediu de levantar-se como se tivesse o peso de uma torre inteira. Vista borbulhava de raiva, a garota brandiu a Anima Argentum e colocou-a no pescoço de seu inimigo, perfurando-o e arrancando sua cabeça.
Pasmo com a cena, Aerus gritou de longe, mas não a tempo de impedi-la.
Platina! O que pensa que está fazendo?
A garota recuou no mesmo instante que o ouviu. Parecia ter medo daquela voz — austera, furiosa. Pela primeira vez em muito tempo o velho Aerus pôde vê-la tão de perto. Ela era a cara da mãe em tantos sentidos... tinha os mesmos olhos que ela. Era como uma mini Titânia, andando livre e solta para além dos limites da guilda ou aonde tivesse vontade.
— Tih... minha Tih... — Aerus tentou aproximar-se. Queria abraça-la, mas ela recuou. — Como pode estar aqui?
Platina virou-se e correu, desaparecendo nos destroços. Aerus ajoelhou-se no chão, incapaz de compreender o que estava acontecendo e por que aquele fantasma do passado voltava para assombrá-lo. Suas mãos rasgavam a terra, precisava descontar sua raiva em alguma coisa, com a lâmina enferrujada tentou partir uma pedra ao meio na medida que seus gritos de agonia ecoavam pelos quatro cantos da velha guilda abandonada.
Oh, please, stop crying... Sei que ficou triste com a minha morte momentânea, mas eu ainda estou inteiro. Ou quase — disse a cabeça de Vista, deslocada de seu corpo.
Aerus revelou um sorriso discreto, mas não estava chorando por ele.
— Como se eu me importasse com um monte de sucata feito você.
— É a garota. Ela morreu há tanto tempo — afirmou Seth, arranjando dificuldades para passar pelos escombros com sua cadeira de rodas. — Senhor Vista, devo admitir que dessa vez você fez uma verdadeira bagunça na linha do tempo do nosso universo.
ME? Oh, a culpada é sempre a máquina, e não quem a usa! Eu disse que havia parado completamente com as viagens no tempo, até destruí a última máquina, mas veja só: a filha do nosso querido líder parece ter encontrado a versão reserva que eu criei. Ela a usou para viajar no tempo à própria vontade e depois o culpado sou eu!
— Mas por quê? Por que ela viria para o pior futuro de nossa cronologia? — Aerus perguntou. — Por que ela teve de vir justo para o futuro em que eu a perdi?

iii

Platina correu até ter certeza de que não iriam mais persegui-la. Havia deixado os limites de sua antiga guilda, mesmo que soubesse que nela houvesse uma magia que a mantivesse invisível aos olhos do inimigo. Ela sentou-se e abraçou os joelhos, sentindo uma lágrima escorrer pelas lembranças e o arrependimento que a corroía por dentro.
— Desculpa, papai, eu não queria...
Platina foi surpreendida pelo som de três pessoas conversando. Ela escondeu-se e tentou espiar, mas parecia que alguém a havia encontrado antes. Havia um homem trajado de preto e máscara, em seus dois ombros havia cabeças que falavam sem parar, como se tivessem vida própria.
— Viu só? Viu só? Eu disse que havia sobrado um! — disse a primeira cabeça.
— Só pode ser um fantasma. Todos esses membros asquerosos da Fire Tales deviam estar mortos! — respondeu a segunda. — Nós cinco a destruímos e precisamos de muito mais do que um exército inteiro para isso. Só pode ser uma maldição!
— Quem é você? — indagou Platina, preparando sua espada.
O homem de máscara manteve-se silencioso, mas suas mãos falaram por ele.
— Ora, nós somos a Hydra, o Hydreigon. Um dos atuais membros dos Remakable Five. E o que um fantasma como você faz nessas terras? Vocês da Fire Tales são um perigo e devem ser eliminados!
Platina preparou sua espada e defendeu-se do primeiro golpe do homem mascarado. Agora ela compreendia como viagens no tempo poderiam ser perigosas, prometera a si mesma que aquela seria a última vez que usaria uma das máquinas do Sr. Vista para fugir.
A Hydra era letal em seus golpes, mas Platina defendia-se de um dos guerreiros mais poderosos daquele tempo como se enfrentasse um oponente qualquer. Ao ouvir o som de metal se colidindo, Aerus soube que sua filha estava em apuros, mas temia não chegar lá a tempo.
— É a menina. É bom você salvar a versão do passado se quiser que no futuro volte a encontra-la — respondeu a cabeça de Vista. — A morte de alguém do passado no futuro resultaria em um desastre completo em todas as realidades. Nem mesmo a guardiã do tempo poderia permitir isso.
— Eu preciso encontra-la! — bradou Aerus.
— Eu posso leva-lo — respondeu Seth em sua cadeira de rodas. — Mas tem que me prometer que vai aprender a preparar um café decente.
— Vá à merda, Seth!
— Até onde sei a garota é sua filha.
Aerus teve de ceder, prometendo até cozinhar nos domingos se necessário. Seth revelou um sorriso discreto, de suas costas duas enormes asas surgiram, ainda fortes o bastante para erguer Aerus e leva-lo até a cena de batalha. A cabeça de Vista também foi levada, mas seu enorme corpo teve de ficar para trás.
Chegando no local, Platina enfrentava a Hydra que a atacava com a força de três homens. Seth o largou do alto de forma que Aerus conseguisse alvejar seu oponente pelas costas, mas as cabeças alertaram de seu inimigo antes. Agora, pai e filha se uniam para enfrentar uma ameaça desconhecida.
— Destrua-os! Não deve restar ninguém dessa guilda amaldiçoada para contar história!
Vocês não vão tirar minha filha de mim de novo! — gritou Aerus.
A garota prendeu a respiração ao ouvir seu pai, lutando para defendê-la daquela forma. Sentiu vontade de chorar e abraça-lo como sempre fizera, mas aquela vontade teria de ficar para depois. Os dois confrontavam Hydra de igual para igual, o homem mascarado tinha de lidar com a fúria de um pai e o desespero de uma filha. Aerus acertou-o no peito com as duas lâminas, mas o homem revidou cravando uma faca da mesma forma. Platina gritou ao se deparar com a cena, brandindo a espada de sua mãe e perfurando o inimigo de uma ponta a outra.
Aerus caiu no chão, trêmulo. Fazia tanto tempo que não lutava, mas o sangue de guerreiro ainda borbulhava dentro dele. A ferida sangrava muito, Seth talvez pudesse leva-lo ao hospital voando, mas precisavam ser rápidos. Platina segurou seu pai em seus braços, dessa vez incapaz de conter as lágrimas.
— Papai, desculpa, eu não queria ter fugido, é que eu fiquei com tanto medo...
— Medo de quê, minha querida? Você estará segura enquanto estiver comigo — respondeu o velho Aerus, tossindo sangue. — Eu jamais vou deixar que algo aconteça com você de novo... Não enquanto eu estiver vivo.
— Ela estava com medo justamente de você, seu velho idiota — disse a cabeça de Vista. — Tudo começou quando sua filha quis brincar com seus óculos escuros e acabou quebrando-os. Eu nunca o vi tão irritado, Aerus, você deveria aprender a controlar mais esse seu temperamento e a entender que ela é só uma criança. Crianças cometem erros, por isso elas precisam de pais que as ensinem o que é correto.
— Eu ia pedir desculpas, pai, só que você estava tão furioso — disse a pequena Platina, segurando a mão machucada e ensanguentada do velho. — Ficava dizendo que ia me punir se me pegasse...
— Eu disse isso? — Aerus perguntou, incrédulo, por um breve instante lembrando-se daquela tarde que já acontecera há tantos anos. — Minha nossa, eu disse.
— Então foi por isso que a garota escapou para o lugar mais distante de você — presumiu Seth, sentado sobre uma pedra enquanto assimilava a cena. — Você sempre foi um péssimo pai, Aerus.
— Eu tentei, cacete! Eu juro que tentei — respondeu ele, abraçando a menina e desejando nunca tê-lo perdido. — Maldição, garota, eu só quero ter você de volta... você e sua mãe. E o Watt. E o Mikau. E o General. E a Wiki. Cacete, eu só quero todo mundo de volta, mesmo que isso pareça impossível! Por favor, voltem para seu tempo e deem alguns tapas na cara do jovem Aerus. Eu precisava ter aprendido algumas lições sobre como cuidar de crianças quando tive a chance, lembrem-me de valorizar mais meus amigos, de amar mais, viver mais.
— Eu mandarei o recado — disse Vista. — Só não sei se ele vai entender na hora...
— Eu me certificarei de que entenda — respondeu Platina.
Céus, ela estava começando a falar igual à mãe.
Platina segurava a cabeça de Vista, esperando que o ciborgue programasse mentalmente sua máquina do tempo que os levasse de volta para o passado. Talvez aquele futuro nunca mais existisse. Talvez seus amigos não morressem de forma tão trágica que lhe desse pesadelos à noite. Talvez eles tivesse mais tempo de fazer tudo certo da próxima vez.
— Vocês ainda podem mudar esse futuro desastroso em que vivo? — perguntou Aerus.
I don’t know. Talvez com algumas decisões certas e união nós certamente faremos diferente — ponderou Vista. — Just kidding. Você acha mesmo que a guilda mais incrível desse continente poderia ter um fim como esse? Se alguma coisa acontecer de errado, pode ter certeza que eu viajo quantas vezes forem necessárias para consertar tudo, vou até para outra dimensão para acertar as contas com o escritor. We’ll be safe.
— Quando voltarem, poderiam sugerir que o jovem Aerus aprendesse a preparar café desde cedo? E diga também para ele praticar um pouco de xadrez, quero ter algumas partidas mais interessantes quando eu ficar velho e moribundo e não tenha nenhuma companhia mais agradável — disse Seth, devolvendo o olhar para seu velho amigo de tempos atrás. — Apesar de ser a única.
Platina ensinaria aquilo com todo prazer. Quando voltasse, a primeira coisa que faria seria dar um forte abraço em seus pais e dizer o quanto os amava, o quanto queria ser como eles quando crescesse. A última visão que teve daquela realidade era a de seu pai, um velho ranzinza e cansado deitado sobre o chão com o peito sangrando, um pai triste e arrependido de ter perdido seus maiores tesouros. Talvez aquela viagem no tempo tivesse sido importante para que ela visualizasse o futuro e que dessa vez não esperasse que os outros a protegessem.
Era ela quem iria protegê-los.
— Não vai pedir desculpas para o seu tio por ter arrancado a cabeça dele do corpo? — perguntou Vista.
— Não.
— Menina levada... I like that. Ao chegarmos em casa, deixa que eu conserto os óculos do seu pai.

Vista's Time Machine - Episode 5: [Im]Perfect World

Support Conversation (Vista x iDie)
Gênero: Amizade, Ação, Drama;
Tema: Em uma de suas viagens temporais, Vista modifica seu passado por uma decisão tola, de tal maneira que, pela primeira vez, ele sente que nunca deveria ter construído a Máquina do Tempo;
Notas: Último episódio de nossa mini-série Vista's Time Machine! Aproveitem.


Simplesmente não aguentava mais aquela vida. Estava farto da mesma rotina de sempre; dos amigos chatos o importunando, das visitas indesejadas que atrapalhavam seu trabalho. Quando queria ter um tempo só para si ou concentrar-se em seus afazeres, era surpreendido por uma mulher quase nua correndo atrás de um garoto só de toalha pela sala, molhando equipamentos, encharcando o chão, fazendo barulho e quebrando coisas. Estava chegando a um nível insuportável.
— Marquiiiiinho! Você prometeu que iria tomar banho comigo se eu ganhasse no stripper pôquer, e já estou quase sem peças para serem tiradas, mas a vitória foi minha!!
— Eu nunca disse que concordaria com isso! — O Mothim gritou, e em uma de suas tentativas frustradas de escapar, for surpreendido por um homem másculo que surgiu logo na virada do corredor. De peito definido e braços fortes, ele o agarrou o garoto de surpresa e o arremessou no sofá.
— Peguei ele, fofa — respondeu Mozilla, contente com sua conquista.
A moça até estalou os dedos e lambeu os beiços.
— Perfeito. Agora leve-o para a banheira e encha de bolhas que eu cuido do resto.
— Hah! Como se eu fosse deixar o prêmio inteiro para você — Mozilla respondeu com um ar esnobe, passando uma das mãos no cabelo de Marco. — Eu fiquei em terceiro lugar, então tenho direito de, pelo menos, um pequeno percentual.
— Só tinham três jogadores, querido — Wiki respondeu, já carregando Marco amarrado em suas costas em direção do banheiro.
A mulher nem se ligou quando chutou um emaranhado de fios num canto, dando três pulinhos desengonçados, mas conseguindo equilibrar-se. Uma fumaça negra começou a pairar no ar, e ela provavelmente vinha de onde Vista estava trabalhando.
— Credo, que cheiro horrível é esse? Tá pensando demais aí, Vista?
O Metagross deixou uma de suas ferramentas cair. Mais um de seus produtos arruinados quando, sem se dar conta, Wiki tropeçara na tomada. A chave de fenda tiniu no chão. O ciborgue levantou-se sem dizer mais nada e explodiu umas das paredes, deixando o lugar com a cabeça prestes a explodir. Marco se assustou com a cena, mas Wiki e Mozilla deram muita importância.
— Ihh, acho que pegamos pesado com a bagunça dessa vez... — disse Marco de mãos amarradas, preso nas costas de Wiki.
— Não esquenta — respondeu a mulher. — Daqui a pouco ele volta, esse monstrão de metal simplesmente não conseguiria viver sem a gente, somos a vida dele!
Marco soltou um longo suspiro.
— Às vezes penso se ele não estaria se virando bem melhor sem a gente...
Vista pisava com os pés firmes no chão. Não encontrava harmonia alguma naquela guilda, parecia que todas as pessoas ao seu redor só queriam abusar de sua boa vontade. Sentia falta das batalhas, das guerras que participava quando ainda fazia parte da guilda Mithril, comandada por iDie, o Pokémon Metálico mais poderoso de Sinnoh até então (antes da chegada de Vista, pelo menos, ou assim ele considerava).
Enquanto tentava caminhar e tranquilizar sua mente nos campos pacíficos dentro dos limites da guilda, foi surpreendido por um tiro bem no meio de sua testa. A Life Orb que carregava encrustada em seu elmo de ferro estourou, caindo aos pedaços no chão.
— Era uma peça de colecionador... — grunhiu o Metagross.
 Viu ao longe Mikau correndo e gabando-se por sua proeza de acertar-lhe um tiro bem no meio da testa. Pelo menos continuava vivo. A paciência de Vista estava no limite. Sempre que tentava encontrar paz, deparava-se com algo ainda mais irritante. Primeiro, Eva e Tom Sawyer aproveitavam a tarde de sol para se divertirem na colina quando derrubaram uma enorme pedra que arrastou-se montanha abaixo exatamente onde Vista estivera sentado. A queda foi brusca. Segundo, Lyndis e Karl jogavam bola e acidentalmente a Infernape acertou uma bolada bem na cabeça do ciborgue. Depois eles ainda saíram correndo com medo de pedirem desculpas. O dia seguiu maçante com situações semelhantes àquelas.
Corroendo-se por dentro e prestes a explodir tudo, literalmente, sua paciência já limitada alcançou o auge quando Aerus e Watt apareceram correndo por ali e o esquilo não viu por onde andava. Acabou trombando com o guerreiro de metal que lhe lançou um olhar sinistro por baixo de sua capa.
— Ouch... F-foi mal, senhor Vista! É que estou com muita pressa, preciso de ajuda!
— Suma daqui antes que seja tarde, esquilo — respondeu Vista.
— Espera, o tio máquina de guerra pode ser perfeito para nos ajudar! — disse Aerus, contente. — É o seguinte, parceiro, eu e o meu maninho saímos numa viagem hoje pela manhã quando encontramos um objeto esquisito abandonado.
Watt o interrompeu, eufórico.
— Tecnicamente, um TM 64. Só não me pergunte como!
— Pois bem — continuou Aerus. — E tu deve conhecer melhor do que ninguém qual TM é esse. EXPLOSION! Quando trouxemos a tal coisa para a guilda, eu ativei algum mecanismo estranho e somente então descobri do que se tratava.
— Senhor Vista, achamos que ele vai explodir a qualquer momento — continuou o pobre Watt, desesperado. — Não para de apitar.
— Cara, nós estamos tentando descobrir como desativar essa coisa há horas, antes que ela destrua a guilda inteira!
— Não é problema meu — respondeu Vista, indiferente, preparando-se para ir embora.
— Graças à Arceus temos um bom engenheiro na guilda, ou mecânico, ou programador, seja lá o que você faz! — respondeu Aerus, contente. — Por favor, só dá essa ajudinha para os irmãos, coisa rápida!
— No — Vista respondeu com certa calma, diferente dos “NOOO!” que ele costumava responder quando estava realmente irritado. — Estou meio cansado, não tenho tempo para ficar resolvendo probleminhas irrelevantes como esse.
Percebendo que suas tentativas haviam sido em vão, Aerus apontou em sua direção e exclamou:
— Caramba, e o que você faz nessa guilda, afinal de contas?
Vista parou de andar.
Watt percebera que teria sido melhor que Aerus nunca tivesse dito aquilo. Teve medo de que uma batalha começasse ali no mesmo instante. O imenso Metagross voltou e caminhou em direção dos dois, intimidando os líderes da Fire Tales só com um olhar, chegando tão perto de encará-los no rosto só para dizer:
I should never have accepted entering this guild.
Ele então virou e partiu, sem esperar para ver a reação do Garchomp à uma ofensa tão grande quanto aquela. Pensou em voltar para seu laboratório, onde sabia que teria paz, mas lembrou-se que Wiki, Marco e Mozilla provavelmente deveriam estar continuando a festa maluca deles em sua ausência.
Vista ausentou-se por várias horas, vagou além dos limites da Fire Tales, enfrentou alguns bandidos desprezíveis e gastou todo o tempo que fosse necessário antes de voltar para a casa, e nem mesmo aquilo o havia acalmado. Sua mente continuava aflita e perturbada, só conseguia pensar que sua vida andava de mal a pior.
A noite caiu, e ele abriu a porta com cuidado. O silêncio finalmente prevalecia. Não havia sinal de seus amigos. Caminhou até a máquina que estivera fazendo alguns reparos e a encarou com atenção. Se realmente quisesse, poderia acabar com tudo aquilo antes mesmo de começar, seria uma melhora e tanto. A Máquina do Tempo que nunca deveria ter sido criada. Parou logo em frente ao enorme equipamento, encarando-o no escuro, quando um ouviu um gemido baixo vindo do sofá, o que logo o enfureceu ao pensar tratar-se de algo desrespeitoso.
Damn, Wiki! Vocês não conseguem me deixar em paz nem por um instante?!
Porém, ao olhar com mais atenção, viu que Wiki apenas dormia ali tranquilamente, vestindo só as roupas de baixo, toda encolhida de frio por conta do cobertor que estava derramado no chão. Aparentemente, ela estava tendo uma noite conturbada.
— V-Vista... — murmurou enquanto dormia. — Vista, não...
Será que estava tendo algum pesadelo com ele? O que quer que aquele sonho significasse, certamente a amedrontava, como uma menina que anda sozinha no escuro.
— Vista... Vista... — Wiki repetia, e seu rosto começava suar a ponto de que algumas lágrimas rolassem mesmo com os olhos fechados.
O Metagross soltou um longo suspiro.
— Talvez sua vida fosse muito melhor se eu nem existisse, não é? — Vista murmurou em silêncio, sem a intenção de que ela ouvisse.
Voltou a atenção para sua máquina do tempo, e por fim decidiu. Iria embora dali para nunca mais voltar. Adeus Fire Tales, adeus aos mesmos amigos de sempre. Adeus Marco, Mozilla, e adeus a uma belíssima Wiki dormindo só com as roupas de baixo no sofá. Todas aquelas cenas que um dia tanto prezara viveria apenas em suas memórias, e estava disposto a aceitar o que o destino lhe reservava em qualquer universo alternativo que encontrasse para habitar.
O ciborgue entrou em sua máquina do tempo que iniciou-se e fez um clarão, começando uma onda de sons e barulho. Wiki era conhecida por ter o sono pesado e ainda demorou para acordar e perceber o que acontecia. Lentamente ela abriu um dos olhos e viu que seu amigo Vista estava na máquina do tempo que ele mesmo reconstruíra, para o que viria a ser sua última vez.
— Leve-me para uma vida onde eu jamais entrei nessa guilda ou conheci essa gente. Vai ser melhor para mim — fez-se um intervalo —, vai ser melhor para eles.
Uma onda se formou, e tudo ao seu redor girou antes que se apagasse.
As viagens no tempo costumavam afetar muito os humanos e até causar danos irreparáveis, mas Vista já fizera tanto daquilo que já estava acostumado, e podia muito bem reparar os danos em seus sistemas com enorme facilidade. Algumas vezes pareciam durar eternidades, e em outras, apenas alguns segundos rápidos, como o piscar de olhos, ignorando toda a física e ciência moderna. Não sabia se morria e voltava à vida nesse curto intervalo de tempo, mas viajar no tempo já era como perambular pelas páginas de um livro que pode ser aberto em qualquer hora e qualquer página que desejasse. E isso o tornava o leitor da obra.
Mas havia um pequeno problema... Odiava quando vinha parar naquele lugar — o Nada. Só ia parar ali quando algo realmente ruim ocorria após uma viagem no tempo que afetaria até mesmo o universo e, para isso, uma pequena intervenção divina era comumente necessária.
Paula não estava com uma das melhores expressões. As mãos estavam entrelaçadas, apoiadas sobre uma mesa redonda gerada por energia cósmica com apenas duas cadeiras, uma em cada ponta. Vista sentou-se meio desengonçado à espera do que a deusa do espaço teria a contar para ele depois de mais uma desastrosa viagem no tempo. Se Dialga não fosse irmão de Palkia e tivesse fortes afinidades com o pessoal da Fire Tales, ela provavelmente já teria feito Vista vaporizar do universo pelas constantes quebras que ele causava em todas as dimensões existentes.
— Quero ouvir de sua própria boca — começou Paula. — De onde surgiu essa ideia ridícula de viajar no tempo para fingir que nunca entrou na Fire Tales.
Vista deu de ombros, meio indisposto a explicar.
I dunno. I guess I’m tired of them — respondeu na maior sinceridade.
— Como você é rude...
A deusa piscou vagarosamente, e dessa vez demonstrou um raro sorriso para a ocasião.
— Você vai adorar ver o que causou.
— O que houve dessa vez? Alguma explosão cósmica? Algum defeito complexo na teoria da física ou interrupção temporal por conta do encontro de ambas as minhas versões do passado e do futuro em uma mesma linha temporal? Não tenho sido tão fácil de se surpreender depois de tantas viagens.
— Veja por si só, meu querido.
No centro da mesa redonda do vazio, uma imagem se formou, como um espelho que a tudo revelava. Paula mostrou a guilda dos Fire Tales, exatamente como sempre fora. Não havia nenhuma mudança, nem mesmo uma pedra fora do lugar. Pôde ver muitos membros lá, estavam todos contentes, treinando, levando a vida como sempre levaram, absolutamente sem nenhuma mudança significativa.
— Está querendo dizer que minha presença na guilda é irrelevante? — vociferou o ciborgue, irritadíssimo.
— Continue olhando.
Mais acima na colina, havia um laboratório, coincidentemente no mesmo lugar onde ele próprio construíra o seu, mas a diferença era na construção que havia se tornado um pouco mais moderna e arranjada. Vista continuou olhando a imagem ilusória com atenção. Uma porta se abriu, e dali de dentro Wiki surgiu mais linda e radiante do que jamais vira. Lembrava-se de como adorava ver aquela mulher sorrir, mas nunca antes a havia visto daquela maneira. Na sequência viu Mozilla carregar Marco no colo enquanto os dois davam muitas risadas e se divertiam, pareciam ser os mesmos de sempre, só que mais felizes.
Seus olhos se arregalaram quando ele viu uma quarta presença surgir. Ali estava iDie, seu rival e maior inimigo num passado muito distante.
NO. NO. NOOOO!! — Vista gritou com todas as suas forças, incrédulo. — What’s this? Por que esse monstro está na guilda deles, como isso aconteceu?!!
— Você desejou que nunca tivesse entrado na Fire Tales, e seu desejo foi coincidido em sua viagem no tempo, mas o universo fez seu trabalho ao colocar outra pessoa em seu lugar, com as mesmas capacidades, se não superiores — contou Paula com um sorriso de certa forma sarcástico, como se percebesse que finalmente o feitiço voltara contra o feiticeiro. — Não vê como eles estão felizes agora?
Como isso era possível? Como os amigos que mais prezava nessa vida agora estavam andando com a pessoa que mais odiava, e para piorar, como eles pareciam felizes! Viu Wiki segurar em uma das mãos de iDie e leva-lo adiante, linda e radiante como sempre. Quando foi a última vez que ela o tocara daquela maneira, mesmo que inconscientemente?
— Venha logo, iDie! Vamos apresentar essa ideia para o pessoal da guilda! — gritou a moça contente, sendo seguida pelos outros três.
— Acalme-se, senhorita Wiki, não vamos querer vê-la espatifar-se no chão com todo esse entusiasmo, right? — sorriu iDie com alguma estranha habilidade de prever o futuro, uma vez que Wiki tropeçaria nos próprios pés e por pouco não saiu rolando colina abaixo, se não fosse interceptada por mãos ágeis que lhe deram apoio.
iDie a segurou com carinho, sem malícia ou maldade, com o simples intuito de realmente vê-la bem e segura. Se a situação fosse com Vista, ele provavelmente a teria deixado se esborrachar no chão e depois rido dela enquanto Marco corria desesperado para socorrê-la. De qualquer maneira, no final Vista teria ficado para cuidar dos ferimentos dela a sós, como adorava fazer. Não era por maldade, simplesmente gostava das coisas assim. Na realidade, percebeu que adorava quando tudo era assim.
E ver tudo que acontecia parecer longe e inalcançável o incomodou mais do que uma faca que vai entrando aos poucos em seu coração.
— Obrigada, você é um amor — disse Wiki, com um carinho sobrenatural. A mulher ainda segurou no elmo de ferro de iDie e deu-lhe um beijo gentil no rosto, berrando na sequência: — Já que está me segurando, quebra um galho e me leva assim pra base! Já cansei de andar.
Absolutely — concordou iDie num gesto gentil e colocando-a em seus ombros, como se ela fosse sua filha e pilota. Wiki estava alta e imponente, sentia o vento soprar em seu rosto. Tinha sob os pés um tanque de guerra que lhe dava mais segurança que nenhuma outra máquina poderia, um guerreiro de metal para chamar só de seu.
Vista teria adorado jogá-la no chão e gritado: Not my problem! Mas não teve essa oportunidade
Aquilo estava ficando cada vez pior.
As imagens continuaram. Ao chegar nos limites da guilda, todos receberam o grande iDie como um verdadeiro líder. As crianças o rodeavam, Lyndis chutara uma bola em sua direção que fora agarrada com perícia, e depois lançada para muito longe de propósito (bem, pelo menos nisso eles concordavam que fora divertido). Aerus, o grande líder, o recebera de braços abertos.
— Diga aí, Máquina de Guerra! O que faz por aqui num dia desses? Nós sentimos a sua falta!
— Desenvolvi um novo mecanismo capaz de aumentar o ataque físico de todos os guerreiros com essa prioridade, o Choice Band. E para os outros não ficarem de fora, criei também o Choice Specs para os guerreiros com Sp. Attack — explicou iDie.
— Isso é incrível — admitiu General, impressionado com a capacidade de criação do Metagross. — Vai nos auxiliar muito na guerra contra os Remarkable Five!
— Poxa, eu queria usar esses óculos maneiros, mas eles são só para Sp. Attack! — afirmou Aerus, referindo-se ao Choice Specs. — Eles ficam tão legais em mim, nunca tentei usar algo nesse estilão. Agora irei substituir meus óculos escuros por um par de óculos coloridos em tons de vermelho e amarelo. STYLE.
All right — iDie respondeu com dedicação. — Preciso continuar minhas criações antes que a data das batalhas chegue, mas até lá, quero que sintam-se livres para visitar-nos no laboratório para ver como as coisas andam. Podemos dar uma festa, vamos sair juntos e festejar, pois uma mente vazia também é oficina de Darkrai. Let’s keep our minds clean!
Todos os membros da Fire Tales concordaram em uníssono, erguendo as mãos juntas, ansiosos por uma batalha onde tinham a certeza da vitória. Todos continuavam fortes e confiantes como nunca, a diferença é que agora tinham alguém para incentivá-los ainda mais ao invés de simplesmente reclamar o dia inteiro.
A imagem se desfez, e dessa vez Vista encontrou-se num lugar diferente. Paula não estava mais em lugar algum. Ao seu redor havia um cenário desolado, tecnológico, diversos equipamentos impressionantes que iam muito além do que sua imaginação e criatividade teria condições de criar. Porém, era uma visão triste e abandonada. Ele estava no centro de tudo, era como o dono supremo de todas aquelas invenções.
— Pelo visto teve tempo o suficiente para fazer com que suas maiores ambições se tornassem reais, não é mesmo, old friend?
Vista cerrou os punhos ao reconhecer aquela voz. Viu que iDie estava no lado oposto do campo, e dessa vez não era nenhuma ilusão ou imagem de sua mente, ele era muito real. Estava armado dos pés ao pescoço, suas maquinações eram incríveis e refinadas, diria até belas, tinham um design que não caberia a sua mente criar. Nunca pensou que seu rival teria tanto tempo para aperfeiçoar-se daquela maneira, principalmente com as obrigações que tinha na Liga.
— Estive aguardando este nosso encontro — disse Vista num estado de frenesi incontido. — Você roubou tudo que eu tinha!
— Digo o mesmo — iDie concordou. — Mas não permitirei que você roube o bem mais precioso que encontrei nesta nova vida: My friends, my guild, my Family.
Perto de onde seu rival estava, Vista aos poucos percebeu que Wiki, Mozilla e Marco estavam todos ali, gritando bem alto. Até mesmo Aerus e Watt estavam juntos, os membros da Fire Tales cantavam pela vitória de seu amigo, mas Vista notou que algo estava errado... Por que não diziam o nome dele?
— Vamos lá, iDie, detona esse cara! — gritou Aerus.
— Falta muito pouco, nós confiamos em você, não desista, não tenha medo dele! — continuou Marco, e ver seu pequeno pupilo gritar pelo inimigo só não o feriu tanto quanto o que veio a seguir.
— iDie, destrua esse monstro, e vamos voltar para casa!
Wiki. A sua Wiki havia dito aquilo? E o monstro era ele? Não, aquilo não poderia estar acontecendo... Somente agora as palavras de Paula fizeram sentido. Quando viajou no tempo, o universo encarregou-se de inverter os papéis. iDie tornara-se membro efetivo da Fire Tales, era bondoso e criativo, mudara a guilda para melhor e ajudara a todos com suas ideias revolucionárias. E quanto à Vista, caíra no mesmo campo que iDie ocupava em seu próprio universo, um caminho triste e solitário, mas supremo.
Vista, o Pokémon Metálico mais poderoso do mundo. Adorava a maneira como aquilo soaria quando finalmente alcançasse se objetivo. O imperador da tecnologia. A encarnação do mal e o último desafio que se estendia entre seus amigos e a vitória na Liga Pokémon. Era tudo que gostaria de ter ouvido, mas não daquela maneira.
No, no... Isso não está acontecendo — murmurou Vista, recuando devagar.
iDie avançou com velocidade, atirando com suas balas projetadas para nunca errarem o alvo e certificando-se de ferir seu oponente com toda a convicção que sentia em seu coração. Por mais que Vista também estivesse furioso, sentia-se mais machucado por dentro do que enfurecido. Sentia-se arrependido, na verdade. Não se lembrava da última vez que sentiu vontade de desculpar-se com todos e pedir por uma segunda chance, mas aquilo de nada adiantaria. Eles não o ouviriam.
Seu rival acertou-lhe um soco no queixo, mas Vista revidou com um soco três vezes mais intenso do que era acostumado. O que acontecera com seu corpo? Como estava tão poderoso? Era essa a troca de seus amigos? A amizade pela força suprema?
— iDiE!! — A voz de Wiki foi ouvida como um lamento.
— Fique afastada, my dear sweet child. Eu nunca vou permitir que esse monstro machuque vocês... Esta rivalidade é nossa, Vista. Deixe-os fora disso! — gritou iDie.
Why would I do that? — o ciborgue murmurou com a voz baixa, mas foi recebido com um forte disparo de canhão. — They are... They are my friends...
— E ainda age com ironia para cima de mim? — iDie gritou, enfurecido. — Vista, o Andarilho Fantasma, você será destruído! Eu vou proteger meus amigos, custe o que custar!
iDie aproximou-se o suficiente para encostar seu canhão no peito de Vista. Ele disparou, ferindo-o mortalmente e fazendo-o ajoelhar-se no chão.
— Eu o farei arrepender-se de todas as suas ações em sua vida — disse-lhe iDie.
Já cansado daquela humilhação, seus olhos arderam em chamas. Vista ergueu-se e, com um golpe inesperado, perfurou o peito de iDie. Ele chegou bem perto e sussurrou baixo:
— Você não tem ideia de quanto tempo esperei por isso.
O que havia acontecido? Por que dissera aquilo? Aquelas palavras há muito guardadas saíram de uma maneira que não planejara. Onde esperava os aplausos, viu apenas tristeza. Olhou para suas próprias mãos, e viu ali garras mortíferas. No lugar de seu rosto, existia apenas uma máscara de terror e medo. O que havia acontecido com ele?
— iDiE! — gritaram seus amigos. — iDiE!! Não desista, levante-se! Derrote-o, estamos contando com você!
Wiki apoiou-se em uma das arquibancadas, ameaçando entrar e parar a luta antes que seu amigo se ferisse, mas Aerus a impedia. Com os olhos de vidro cheios de lágrimas, a mulher encarou bem fundo os olhos de Vista e falou:
— Você é um monstro! Eu vou matar você! Eu te odeio mais do que tudo nesse universo, eu te odeio!!!
Vista recuou. Seu maior sonho se realizara, ele havia superado seu rival, iDie, mas por que não conseguia comemorar? O que estava faltando? Levou as mãos até a cabeça e caiu de joelhos, sussurrando baixo o profundo arrependimento em seu coração. Não esperava que ninguém ouvisse, mas falou da mesma maneira.
Por favor, me desculpem por tentar arrumar minha vida que já era perfeita... Desculpe-me por ter uma vida boa, mas exigir uma melhor — ele ergueu seu rosto, e então começou a gritar e repetir com todas as suas forças. — I’m sorry! I’m sorry! I’m sorry!
Com a fronte baixa encostada no chão, Vista sentiu suas lágrimas escorrerem. Pensou que elas já haviam se extinguido havia muito tempo, desde que se tornara uma máquina, mas ficou feliz por saber que elas ainda estavam ali. Devia mesmo ter passado tal humilhação. Queria ser mandado embora, ridicularizado, preferia perder tudo que sempre sonhou em ter a vivenciar aquilo.
Alguém aproximou-se. Teve medo de levantar e encarar os olhos de Wiki decepcionados, não sabia como a encararia, como se tudo que haviam passado jamais tivesse existido. Foi quando sentiu o toque suave de Paula, tocando sua cabeça com a suavidade de uma divindade. A mulher então aproximou-se como uma mãe que aninha o filho em seus braços quando ele mais precisa, dizendo com a voz mansa:
— Brincar com a vida dos outros é divertido, mas não é nada legal quando a vítima é você, não é? — sussurrou a deusa. — Você viajou no tempo, tentou tornar tudo melhor, divertiu-se o bastante para rir e ter muitas histórias para contar. Mas espero que agora você tenha percebido que o que você tem feito foi terrível, Vista. É hora de parar.
Diante dos pés da deusa, o soldado sem sentimentos chorava como nos dias em que entrara no exército e o obrigaram a entrar naquela vida sem retorno. Ele não conseguia olhar nos olhos dela. A Guardiã do Espaço brilhava em sua armadura cintilante, e o simples vislumbre de sua força total o destruiria.
— Por favor, — ele clamou com a voz baixa. — Me dê outra chance.
Era a primeira vez que Paula ouvira uma frase tão sincera de Vista. “Por favor” não fazia parte de seu vocabulário, exceto quando dizia ironicamente para que calassem a boca ou trouxessem um refresco.
Paula agachou, segurando com as duas mãos no rosto do ciborgue e sibilando o mesmo sorriso que fez com que um humano normal se apaixonasse por ela. Agora estava transformada mais uma vez, assumindo sua aparência apenas como Paula, a mulher que tanto o ajudara a consertar suas burradas em cada viagem no tempo que fizera.
— Vá, e viva sua vida imperfeitamente perfeita. Tenha bons sonhos, criança, e não direi para que esqueça essa aventura, mas para que sempre lembre-se dela e torne-a um exemplo enquanto durar sua existência.

• • •

Ao abrir os olhos, Vista encontrou-se no mesmo lugar de antes, seu laboratório velho e bagunçado, com calcinhas penduradas na cadeira, salgadinhos abertos e ferramentas espalhadas por todos os cantos. Em sua frente, estava a máquina do tempo, imóvel e inalterada. Wiki ainda dormia no sofá.
O ciborgue arqueou uma das sobrancelhas. No fim das contas, percebeu que ainda odiava aquele lugar. Vira tanta coisa boa que logo sua mente começou a pipocar com tantas ideias de como melhorá-lo. Queria começar tudo de novo, mas dessa vez ao lado de seus amigos. iDie podia muito bem ser um sujeito mais tranquilo e organizado, mas ele jamais aprenderia a conviver com a rotina maluca dos Fire Tales. E daquilo Vista não abriria mão. Adorava causar algumas explosões.
Correu em direção da mulher e pegou-a na colo dando-lhe um susto daqueles.
— Ei, que assédio é esse? Deixa eu acordar primeiro! — gritou Wiki, espantada.
— Arrume suas coisas, andrógena. EVERYTHING IS GOING TO EXPLODE!
— Como é que é?!
Antes que Wiki pudesse fazer mais perguntas, Vista levou-a nas costas e foi em direção do quarto onde Marco e Mozilla também estavam, e deu-lhe um susto ainda maior por interrompê-los no meio da madrugada.
— CARAMBA! Bate na porta antes, cara! — resmungou Mozilla.
— Ué, o que estou fazendo aqui? Ou melhor, COMO VIM PARAR AQUI? — gritou Marco.
Vista agarrou-os, somente com suas roupas de baixo, pijamas, ou o que fosse que estivessem usando na hora. Saiu correndo no meio da madrugada até se deparar com seus companheiros de guilda em volta da fogueira no meio da noite, encarando um objeto em forma de CD enquanto General suava na tentativa de desativá-lo.
— Vamos lá, cara, você consegue, ou vai tudo explodir! — gritava Aerus, impaciente.
— Meu caro companheiro, entrei na Fire Tales para lutar e comandar exércitos, e não para desarmar bombas ou lidar com esse tipo de pressão! Nunca senti tanta dúvida entre cortar um fio vermelho ou o verde, acho que eu cortaria a garganta de inimigos com mais facilidade... — bradou General com as mãos trêmulas. — Mas o problema é que esta coisa não tem fios...
Não demorou para que Vista chegasse correndo e destruindo tudo. Ele jogou seus amigos no chão, agarrou o TM e arremessou-a com enorme força em direção de seu velho laboratório. O aparelho saiu deslizando pelo ar como um disco. Demorou pouco mais de alguns segundos para que caísse suavemente no chão explodisse tudo nos limites da Fire Tales, causando um tremendo choque até mesmo na base, mas pelo menos sem ferir ninguém.
Todos o olharam espantados, até que Aerus ergueu as mãos pro céu e gritou.
 — ALELUIA! Eu sabia que você estava brincando e que de última hora ia salvar a gente, viva ao grande Vista!
Seus companheiros comemoraram juntos e o ciborgue sorriu, contente. Wiki estava toda descabelada e vestindo apenas suas roupas de baixo, ainda tentando entender o que havia acontecido e o motivo de tanto alarde.
— Beleza, deixa eu entender... Então você mandou uma bomba para a nossa casa, explodiu tudo, e agora não temos mais onde morar — disse a mulher com a voz irônica. — Oh, meus parabéns, Vista. Você merece o troféu de idiota do ano!
— Bem, eu estava planejando recomeçar de qualquer maneira — contou o Metagross. — E dessa vez, sem chances de reconstruir aquela máquina. Chega de viagens no tempo.
— Pensei que elas tivessem acabado desde o primeiro episódio — continuou Mozilla.
— Mas ele sempre dá um jeito de reconstruir, né — brincou Marco.
Not today, kid. Not today.
— Vou querer ser recompensada mais tarde com aquele seu mecanismo esquisito que cria um monte de tentáculos cibernéticos, espero que pelo menos isso não tenha sido destruído — continuou Wiki, indignada. — E guarde o que eu vou dizer, agora você vai ter que me suportar um bom tempo, porque eu não vou te largar enquanto não reconstruir tudo! EU QUERO MINHA CASA DE VOLTA.
Not bad.
— Mandou bem, hein, parceiro! — disse Aerus, dando um forte soco nas costas do ciborgue, que por acidente abaixou a cabeça e fez com que seu elmo de ferro caísse. Todos os demais membros arregalaram os olhos. Wiki quase soltou um grito de espanto ao ver a real face de Vista.
O dragão olhou primeiro para a máscara caída, e depois para o rosto de Vista.
— Ops.
— Qualquer um que tenha visto o que acaba de ver, não será poupado —murmurou Vista, voltando a colocar seu elmo enquanto lançava um olhar mortal para todos os demais membros da Fire Tales. — Fujam, seus merdinhas, enquanto ainda dá tempo! Hah, hah. Porque eu vou pegá-los, e nunca mais vou soltar.

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