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Aerus' Destiny

O
céu continuava o mesmo, mas por algum motivo parecia menos azul; a fogueira
ainda crepitava, mas o fogo já não aquecia como antes. Há anos perdera o brilho
nos olhos — se
realmente fosse um dragão, não teria mais interesse em ouro e nem joias. Os
anos o arrastaram como correntes pesadas em seus ombros e esferas de metal em
seus pés, estava perdido em um barquinho de madeira no meio do oceano sem
esperança de alcançar uma ilha.
Seus
amigos estavam mortos — uma lembrança amarga do tempo que consumia a tudo e
todos —, sempre pensou que teria sido melhor fazer amizade com o Senhor
do Tempo, Dialga, ao invés daquela mulher apaixonada que controlava o espaço.
Despertou
por causa do frio, mas dormir ao relento também não era nenhum conforto. A
fogueira, praticamente extinta, sua única missão era controlar aquela chama.
Ele levantou-se, jogou alguns gravetos na tentativa de ampliar a chama que
acabou por extinguir-se por completo. Não era a primeira vez que perdia seu
fogo, uma ajudinha daquele velho Houndoom cego seria bem vinda nessa hora. A
noite era o período mais cruel, pois a solidão avançava com a força do soco
mais forte de General. Lembrava-se das histórias e momentos de diversão que
compartilhara com eles, das batalhas e conquistas compartilhadas com cada um.
Onde estavam as medalhas, onde estavam os troféus? Sujos de poeira, como ele.
Coçou a barba e soltou um longo suspiro, tinha que esperar só mais um dia
passar.
Só mais um
dia.
A planície
era extensa e cercada por montanhas, qualquer um teria visto a explosão
luminosa que ocorreu e abriu uma enorme fenda no chão, exalando fumaça e poeira
como se um meteorito tivesse acabado de colidir com a terra. O dragão preferiu
não levantar-se para ver o que era. Estava velho, não tinha forças e nem
vontade. Que procurasse outro alguém.
Assim que
abriu os olhos, uma enorme sombra negra se projetava sobre ele.
— Look at that. O estado deprimente desta
pobre criatura... E pensar que você já foi o líder da Fire Tales.
O Garchomp
sentou-se e imediatamente reconheceu a figura monstruosa.
— Vista? A
máquina de guerra? Nosso tanque monstruoso que adorava destruir coisas?
— Yep. Back from
the future. I mean, from the future’s future. Oh, just forget it.
— O que
você está fazendo aqui? Você deveria estar... morto.
— Incorrect. Uma máquina não pode morrer,
mas posso ser destruído. Mas se não houver nenhum babaca para me reconstruir,
creio que as condições do nosso futuro sejam mais sérias do que eu havia imaginado
— falou Vista, sentando-se em frente ao dragão como dois velhos conhecidos que
se reencontram após longos anos em silêncio. — É melhor você também sentar-se.
Sou péssimo em contar histórias.
O Metagross
deu um único disparo na fogueira que explodiu e ardeu em chamas, alastrando o
fogo nos arredores de maneira contida, só para que eles tivessem um pouco de
iluminação naquela noite sem estrelas. Vista o olhava sério, ainda não ouvira
nenhuma pergunta ou dúvida de seu velho amigo, mas só de olhar para o semblante
dele podia compreender o que ele sentia.
— Você está
péssimo — falou Vista. — Pior que antes. O que fizeram com você?
— Acho que
fui atropelado por um caminhão chamado vida — Aerus respondeu.
— Quase não
o reconheci com essa barba de mendigo e essa cara de quem já viveu meio século.
Ainda não arranjou outro daqueles seus óculos escuros?
Aerus
permaneceu em silêncio, sem tirar os olhos do ciborgue. Sentira falta até mesmo
da maneira birrenta como ele sempre tratara todos.
— Eu já não
sou mais um garoto, Vista.
— Oh, come on. Não me venha com esse
discurso de gente velha — disse o ciborgue. — A sua alma é a última que deveria
envelhecer, ainda olho para você e enxergo o garoto inexperiente tentando
liderar uma guilda de fracassados que se tornou a maior da história. Things are getting serious, you know? Onde estão os outros?
Aerus
balançou a cabeça, incapaz de compreender.
— Eles
estão mortos, merda! Sério mesmo que você voltou do passado só para trazer...
essas lembranças? Para ficar jogando na minha cara como vivíamos tempos
maravilhosos? Eu aproveitei tudo que tinha que aproveitar, cacete, a Fire Tales
foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, mas acabou, porra!
— For Arceus’ sake, você está mais boca
suja do que eu me lembrava... Talvez o Watt possa dar um jeito nisso.
Aerus
ativou a lâmina enferrujada que jamais saíra de seu antebraço. Ele deu um grito
de ódio e partiu para cima de Vista, cravando a lâmina no peito do ciborgue que
recuou e cambaleou para trás, arrancando-o de cima de seu corpo e atirando-o
contra a parede.
— Damn, kid! Você continua impulsivo como
sempre! — Vista verificou seus sistemas para ter certeza de que nenhum fio fora
danificado. Se sua armadura defensiva não estivesse em seu auge, aquele golpe
do velho Garchomp ainda teria machucado um bocado.
— Não...
fale... mais... do Watt... — Aerus murmurou entre os dentes.
— Eu sempre
soube que o esquilo era o equilíbrio entre vocês.
— Vocês?
— You and Titânia.
Aerus
berrou novamente e partiu para cima de Vista como um animal selvagem, ele
tentava riscar a armadura de metal, mas sua arma já não era afiada há anos.
Vista precisou prensá-lo contra uma rocha usando seus braços mecânicos.
— That’s why I’m here! Você continua
impulsivo e faz merda atrás de outra, ouve um nome que lhe traz algumas lembranças
e já perde a cabeça! Talvez os anos não tenham o feito amadurecer como devia.
— Me larga,
sua sucata de merda! Eu não preciso de você aqui, eu não quero nenhum fantasma
do passado voltando para me atormentar! Me deixa em paz!
— Não pense
que eu saí direto do conforto do meu passado perfeito para consertar esse seu
futuro de merda, eu só estou aqui como um favor — Vista falou furioso, poucos
eram capazes de confrontá-lo naquela situação. Mas após ver a situação
deplorável em que o velho Aerus se encontrava, acabou se compadecendo da
situação.
Após ser
largado no chão, Aerus tentava recuperar o fôlego, tossindo sem parar.
— Onde está
a menina? — perguntou Vista.
— De quem
você está falando? — perguntou o dragão, abalado com aquele súbito encontro.
— Your daughter.
Aerus
arregalou os olhos. Não entendia algumas das palavras do vocabulário
sofisticado do Metagross, mas compreendia o que aquilo significava.
— Minha...
filha?
— Yes, yes. Um filhotinho do demônio, se
me permite dizer. Céus, aquela garota move montanhas com as próprias mãos se
assim desejar. Deve ter herdado a força da mãe e o temperamento do pai, porque
é justamente por causa disso que eu estou aqui.
Eram tantas
informações para assimilar que Aerus sentiu seu cérebro travar.
— Não, não
pode ser...
— Oh, you do. Eu vim busca-la.
Vista
prensou Aerus no chão, impedindo-o de ataca-lo de novo. O dragão rangia os
dentes.
— Vai me
deixar terminar? Enfim, vou resumir a história. A garota é mais poderosa do que
você imagina. Ela não deveria estar aqui, é uma ameaça até mesmo para o tempo e
espaço, tanto é que tenho permissão da própria Palkia para vir aqui dar um
jeito nas coisas.
Aerus foi
erguido pela cabeça, tendo de olhar bem de perto nos olhos do ciborgue
mecânico.
— E você vai
me ajudar a consertar a merda que a sua filha fez. Got it?
i
Se as
noites eram frias e solitárias, então as manhãs revelavam um lado ainda mais
difícil para continuar vivo. A garganta seca era um sinal de pouca água e as
planícies áridas eram uma lembrança das terras férteis de muitos anos. Vista se
transformara em um carro que corria em alta velocidade enquanto Aerus
permanecia quieto em seu canto, aguardando aonde quer que a viagem os levasse.
Desde o retorno do Vista do passado, vinha tentando apagar todas as lembranças
da Fire Tales que voltavam à tona.
— So, everyone is dead, right? — perguntou
Vista, sem esperar por uma resposta. — Damn,
deve ser cruel pensar em seguir em frente sem aqueles idiotas... Eles tiveram
mortes trágicas?
— Não é da
sua conta — respondeu Aerus, abraçado aos seus joelhos como um mendigo acuado
por grandalhões armados com ferro e bastões.
— Aquele
fracassado do Marco não viveu o bastante para me reconstruir? Nem a Wiki e o
Mozilla aguentaram? Quando eu voltar para meu tempo vou me certificar de
ensiná-los direitinho a me reconstruir, vão ter que treinar três vezes por dia.
Espere, e o Mikau? Está para nascer um atirador mais capacitado do aquele
desgraçado! Diz que fui eu que matei ele, please.
— Você não
tem nem mais corpo — Aerus rompeu o silêncio. — Sua cabeça está em um tanque
líquido em um museu. Alguns dizem que você ainda pensa em uma forma de fugir de
lá.
— Tragic. Um final digno. Sobrou mais
alguém que possa nos ajudar nessa demanda?
— Bom...
para ser sincero sobrou alguém com quem jogo xadrez à tarde. Eu compro alguns
remédios para ele, mas não tenho condições de tomar conta dele.
— Você não
tem condições de cuidar nem de si mesmo.
Vista
dirigiu até uma cabana isolada perto do mar. Ao menos a vista ali continuava a
mesma, era o mais perto que tinha do seu tempo, céu nublado e uma garoa fina em
tardes de inverno. Esteve pensando a viagem inteira em quem iria encontrar ali,
se desse de cara com um Mikau velho e rabugento não poderia segurar a risada,
mas na primeira vez que se deparou com o silêncio naquele cômodo frio, percebeu
que não tinha tempo para brincadeiras.
A casinha
tinha rampas e nenhum degrau, a mobília era de uma madeira simples, mas pelo
menos a privacidade e o sossego proporcionados eram melhores do que imaginá-lo
em um asilo. Na varanda de frente para o mar, estava um homem de cadeira de
rodas com os cabelos loiros. Apesar da idade avançada — quase vinte anos à
frente de Aerus — ele ainda devia fazer sucesso com as velhinhas. Os cabelos
bem penteados para trás tinham alguns fios brancos na raiz, mas ele sempre
tentava pintá-los para esconder a idade. O rosto fora o mais ferido pela idade,
um sinal de que nem mesmo a criatura mais perfeita do mundo poderia ser bonita
para sempre.
O velho
Seth ouviu a porta abrir-se, mas não se importou em ir recebê-los.
— Eu não
vou jogar xadrez com você de novo. Estou cansado de ganhar, Aerus. Você nem ao
menos tenta — a voz de Seth estava um pouco rouca, mas ainda era possível ouvir
um pequeno rastro da canção melodiosa que um dia saíra de sua boca.
— Eu trouxe
uma visita dos velhos tempos. Só cuidado com o coração.
Assim que
Seth virou a cadeira de rodas, deparar-se com Vista não o deixou tão surpreso
quanto Aerus esperava. Parecia que os dois haviam se encontrado na última
manhã.
— Aqui está
alguém que eu não esperava ver de novo — disse Seth.
— Damn, os dois maiores rivais de antigamente
agora se reúnem aos domingos para jogar xadrez na beira da praia. Time changes — murmurou Vista.
—
Certamente, meu nobre visitante do passado. Prefere chá ou café? Por favor,
sente-se enquanto o Aerus prepara um pouco para nós. Eu vou adorar ouvi-lo.
Aerus não
preparou nada. Vista compartilhou com Seth maiores detalhes sobre o estrago que
a suposta filha de Aerus causara em universos alternativos e como ele fora
enviado do passado justamente para consertar aqueles problemas. Mesmo após ter
destruído sua máquina do tempo e jurado nunca mais usá-la, a urgência do plano
obrigou que decisões maiores fossem tomadas em prol da existência de todos
naquele universo.
— E onde
está a menina? — perguntou Seth.
— Poderíamos
perguntar para o pai ausente e imprestável dela — respondeu Vista, olhando para
Aerus que parecia cada vez mais furioso ao ouvir aquela ideia sem sentido.
— Vocês
acham mesmo que eu não saberia que tenho uma filha? Que nem saberia o nome
dela? Que eu abandonaria uma menina criada pela própria Titânia, a mulher que
mais amei nessa vida? Pela forma enigmática que vocês se comunicam, parece até
que estão contra mim e eu sou o culpado disso tudo!
— Você foi
lerdo para muitas coisas nessa vida, caro amigo — disse Seth. — E ser pai foi
uma delas.
— Talvez eu
não a tenha conhecido ainda porque eu estava ocupado demais cuidando de um
velho de cadeira de rodas que não consegue nem mais preparar um café decente —
respondeu Aerus.
Vista
ergueu-se para impedir que aquele duelo de velhinhos partisse para o nível de
disputa de bengalas.
— Pelo
menos algumas coisas não mudaram. Come
on! Onde é que uma menina de oito anos se esconderia nesse mundo caso
estivesse completamente sozinha e desamparada? O único lugar que a traria
conforto nas horas difíceis, onde ela se sinta acolhida quando mais precisar?
Deve ter restado um lugar assim no mundo...
ii
Vista se
lembrava da placa que um dia tivera de colocar no portão principal da guilda.
Não havia mais letreiro e nem muros, aquele deveria ter sido palco de uma
guerra sem medidas que não deixara nada para trás além de rastro e destruição.
Aerus empurrava a cadeira de rodas de Seth sem olhar para os lados, ele só
olhava o chão e fingia que não existia nada ao seu redor. Sem uma fogueira
ligada, aquelas redondezas eram muito frias. Aerus colocou uma manta sobre o
ombro do Dragonite e certificou-se de que ele estivesse confortável em sua
cadeira naquela longa caminhada.
— Oh, eu
lembro desse lugar... Era o bar da Sophie, não? — apontou Seth.
— Já virei
muita mesa de ponta cabeça nesse salão... Era ali que ficavam os dormitórios?
Lembro que a Wiki alugava um quarto antes de irmos para o laboratório na
montanha. Damn, já dei cada susto
naquelas crianças...
Aerus
mantinha o semblante imparcial. Só queria dar logo o fora dali.
— Pronto.
Já terminaram sua excursão? Podemos ir embora? — ele os apressou. — Eu odeio esse
lugar.
— Aerus,
meu bom amigo, não podemos abrir mão de tantas lembranças maravilhosas. Você já
se esqueceu das competições de braço de ferro no bar? Ou das festas com os
demais membros da guilda, as viagens para o parque de diversão, as brigas e
batalhas que travamos aqui para protegermos a guilda — a nossa guilda? Não abra
mão de seu passado, Aerus. Ele ainda é uma parte importante do seu
amadurecimento.
— Eu não
esqueci... Eu jamais esqueceria.
Duas
pequenas rochas deslizaram, Vista virou-se com seu canhão preparado e Aerus
ativou suas lâminas enferrujadas em sinal de alerta, seus sensos continuavam
ótimos apesar dos anos. Seth também percebeu, mas ele já não conseguia mover-se
com a mesma facilidade, por isso virou sua cadeira de rodas e falou com a voz
bondosa.
— Sabemos
que você está aí, querida... Por que não vem até nós?
Aerus ainda
não tinha percebido que estava tão perto de onde costumava ser o seu quarto.
Talvez até tivesse percebido, mas preferiu fingir que não existia mais nada ali
— o que de fato era verdade. Vista guardou seu canhão e ele retraiu a lâmina de
volta para seu braço. Havia uma menina de pé sobre os destroços de uma parede
tombada. Ela tinha o cabelo acinzentado ainda curto, mas uma trança singela
fora preparada com todo carinho do lado direito. Seus olhos eram intensos, do
tipo que poderia intimidar um inimigo a desistir antes mesmo de entrar em uma
luta. Ela usava um vestido branco com botinhas, preso ao cinto improvisado
carregava alguns mantimentos e provisões. No braço esquerdo carregava parte da
armadura que um dia pertencera a sua mãe, a mão direita não largava a bainha da
espada quase do seu tamanho, presa à suas costas.
Seth
revelou um sorriso discreto, Aerus permaneceu trêmulo sem sair do seu lugar.
— Damn — disse Vista, olhando para a
menina e depois para Aerus. — Ela tem a cara da mãe, mas nunca achei que fosse
parecida com você. Tem certeza que é a sua filha?
— Olá,
querida. Por que não se aproxima? — Seth convidou-a gentilmente.
Vista
ergueu seu canhão e atirou de forma inesperada. Uma rede feita de correntes
disparou contra a menina que retirou a espada das costas a tempo de reduzir a
rede a pedaços de ferro deslocados. Aerus gritou indignado por seu amigo ter
arruinado aquele momento.
— Não
acredito que você fez isso, sua merda de sucata ambulante!
—
Assustamos a menina — Seth meneou a cabeça.
— Minha
função é pegar a menina e dar o fora daqui. Eu não dou a mínima para o que você
sentir.
Vista
disparou em uma perseguição atrás da garota. Aerus queria persegui-lo, mas não
queria deixar Seth sozinho naquela situação. O velho Dragonite segurou-o com
sua mão fraca e concordou com a cabeça, insinuando que ele deveria persegui-la
também.
Aerus
correu por cima dos escombros, vez ou outra escorregava por já não ter muito
equilíbrio, mas não podia deixar que algo acontecesse com aquela criança. Não
de novo.
Vista era
grande demais, e por isso, um alvo fácil. Ele avançava pelos antigos domínios
da Fire Tales, empurrando escombros na tentativa falha de encontrar uma menina
mirrada naquele campo desolado. Ele revirou uma parede quando viu que a luz
fora tampada por um breve instante, a garota havia saltado do alto com a espada
em mãos, procurando cravá-la no centro do elmo de prata do ciborgue. Vista
sabia que aquela era a espada de própria Titânia, uma arma capaz de cortar até
mesmo o aço mais resistente. O Metagross agarrou a menina pelo corpo e
arremessou-a contra o chão sem dó na tentativa de contê-lo.
— You come with me.
A garota
franziu o cenho e segurou as enormes garras da criatura, pressionando-as com
tanta força que o metal se retorceu entre suas pequenas mãos. Vista recuou
incrédulo, a garota guardou sua espada e ergueu os dois punhos, insinuando que
lutaria contra ele usando sua própria força. Vista tentou disparar contra as
pernas da menina a ponto de fazê-la parar, mas ela deu um salto e socou o peito
do ciborgue com tanta força que ele foi arremessado para longe.
Aerus viu o
estado em que seu amigo se encontrava, mas não conseguia compreender por que
eles lutavam.
— O que
está acontecendo aqui? Por que vocês estão lutando como se suas vidas
dependessem disso? — indagou Aerus.
Vista
levantou-se pronto para mais. Ele disparou com a força de um canhão contra a
garota que esperou o impulso de seu oponente para brandir sua espada. Ela
arrancou um braço inteiro de Vista sem fazer força, o Metagross sentiu o óleo
jorrar e ele compreendeu que não poderia aguentar muito tempo.
— Pelo
menos posso confirmar que sua mãe te treinou direitinho — disse Vista. — Mas
você também herdou algumas habilidades do seu pai, como a de atacar primeiro e
perguntar depois.
— Você
nunca vai me levar de volta. — disse a garota. — Eu sei que serei punida.
A garota
pisou no peito do ciborgue e o impediu de levantar-se como se tivesse o peso de
uma torre inteira. Vista borbulhava de raiva, a garota brandiu a Anima Argentum
e colocou-a no pescoço de seu inimigo, perfurando-o e arrancando sua cabeça.
Pasmo com a
cena, Aerus gritou de longe, mas não a tempo de impedi-la.
— Platina! O que pensa que está fazendo?
A garota
recuou no mesmo instante que o ouviu. Parecia ter medo daquela voz — austera,
furiosa. Pela primeira vez em muito tempo o velho Aerus pôde vê-la tão de
perto. Ela era a cara da mãe em tantos sentidos... tinha os mesmos olhos que
ela. Era como uma mini Titânia, andando livre e solta para além dos limites da
guilda ou aonde tivesse vontade.
— Tih...
minha Tih... — Aerus tentou aproximar-se. Queria abraça-la, mas ela recuou. —
Como pode estar aqui?
Platina
virou-se e correu, desaparecendo nos destroços. Aerus ajoelhou-se no chão,
incapaz de compreender o que estava acontecendo e por que aquele fantasma do
passado voltava para assombrá-lo. Suas mãos rasgavam a terra, precisava descontar
sua raiva em alguma coisa, com a lâmina enferrujada tentou partir uma pedra ao
meio na medida que seus gritos de agonia ecoavam pelos quatro cantos da velha
guilda abandonada.
— Oh, please, stop crying... Sei que ficou
triste com a minha morte momentânea, mas eu ainda estou inteiro. Ou quase —
disse a cabeça de Vista, deslocada de seu corpo.
Aerus
revelou um sorriso discreto, mas não estava chorando por ele.
— Como se
eu me importasse com um monte de sucata feito você.
— É a
garota. Ela morreu há tanto tempo — afirmou Seth, arranjando dificuldades para
passar pelos escombros com sua cadeira de rodas. — Senhor Vista, devo admitir
que dessa vez você fez uma verdadeira bagunça na linha do tempo do nosso
universo.
— ME? Oh, a culpada é sempre a máquina, e
não quem a usa! Eu disse que havia parado completamente com as viagens no
tempo, até destruí a última máquina, mas veja só: a filha do nosso querido
líder parece ter encontrado a versão reserva que eu criei. Ela a usou para
viajar no tempo à própria vontade e depois o culpado sou eu!
— Mas por
quê? Por que ela viria para o pior futuro de nossa cronologia? — Aerus
perguntou. — Por que ela teve de vir justo para o futuro em que eu a perdi?
iii
Platina
correu até ter certeza de que não iriam mais persegui-la. Havia deixado os
limites de sua antiga guilda, mesmo que soubesse que nela houvesse uma magia
que a mantivesse invisível aos olhos do inimigo. Ela sentou-se e abraçou os
joelhos, sentindo uma lágrima escorrer pelas lembranças e o arrependimento que
a corroía por dentro.
— Desculpa,
papai, eu não queria...
Platina foi
surpreendida pelo som de três pessoas conversando. Ela escondeu-se e tentou
espiar, mas parecia que alguém a havia encontrado antes. Havia um homem trajado
de preto e máscara, em seus dois ombros havia cabeças que falavam sem parar,
como se tivessem vida própria.
— Viu só?
Viu só? Eu disse que havia sobrado um! — disse a primeira cabeça.
— Só pode
ser um fantasma. Todos esses membros asquerosos da Fire Tales deviam estar
mortos! — respondeu a segunda. — Nós cinco a destruímos e precisamos de muito
mais do que um exército inteiro para isso. Só pode ser uma maldição!
— Quem é
você? — indagou Platina, preparando sua espada.
O homem de
máscara manteve-se silencioso, mas suas mãos falaram por ele.
— Ora, nós
somos a Hydra, o Hydreigon. Um dos atuais membros dos Remakable Five. E o que
um fantasma como você faz nessas terras? Vocês da Fire Tales são um perigo e devem
ser eliminados!
Platina
preparou sua espada e defendeu-se do primeiro golpe do homem mascarado. Agora
ela compreendia como viagens no tempo poderiam ser perigosas, prometera a si
mesma que aquela seria a última vez que usaria uma das máquinas do Sr. Vista
para fugir.
A Hydra era
letal em seus golpes, mas Platina defendia-se de um dos guerreiros mais
poderosos daquele tempo como se enfrentasse um oponente qualquer. Ao ouvir o
som de metal se colidindo, Aerus soube que sua filha estava em apuros, mas temia
não chegar lá a tempo.
— É a
menina. É bom você salvar a versão do passado se quiser que no futuro volte a
encontra-la — respondeu a cabeça de Vista. — A morte de alguém do passado no
futuro resultaria em um desastre completo em todas as realidades. Nem mesmo a
guardiã do tempo poderia permitir isso.
— Eu
preciso encontra-la! — bradou Aerus.
— Eu posso
leva-lo — respondeu Seth em sua cadeira de rodas. — Mas tem que me prometer que
vai aprender a preparar um café decente.
— Vá à
merda, Seth!
— Até onde sei
a garota é sua filha.
Aerus teve
de ceder, prometendo até cozinhar nos domingos se necessário. Seth revelou um
sorriso discreto, de suas costas duas enormes asas surgiram, ainda fortes o
bastante para erguer Aerus e leva-lo até a cena de batalha. A cabeça de Vista
também foi levada, mas seu enorme corpo teve de ficar para trás.
Chegando no
local, Platina enfrentava a Hydra que a atacava com a força de três homens.
Seth o largou do alto de forma que Aerus conseguisse alvejar seu oponente pelas
costas, mas as cabeças alertaram de seu inimigo antes. Agora, pai e filha se
uniam para enfrentar uma ameaça desconhecida.
—
Destrua-os! Não deve restar ninguém dessa guilda amaldiçoada para contar
história!
— Vocês não vão tirar minha filha de mim de novo!
— gritou Aerus.
A garota
prendeu a respiração ao ouvir seu pai, lutando para defendê-la daquela forma.
Sentiu vontade de chorar e abraça-lo como sempre fizera, mas aquela vontade
teria de ficar para depois. Os dois confrontavam Hydra de igual para igual, o homem
mascarado tinha de lidar com a fúria de um pai e o desespero de uma filha.
Aerus acertou-o no peito com as duas lâminas, mas o homem revidou cravando uma
faca da mesma forma. Platina gritou ao se deparar com a cena, brandindo a
espada de sua mãe e perfurando o inimigo de uma ponta a outra.
Aerus caiu
no chão, trêmulo. Fazia tanto tempo que não lutava, mas o sangue de guerreiro
ainda borbulhava dentro dele. A ferida sangrava muito, Seth talvez pudesse
leva-lo ao hospital voando, mas precisavam ser rápidos. Platina segurou seu pai
em seus braços, dessa vez incapaz de conter as lágrimas.
— Papai,
desculpa, eu não queria ter fugido, é que eu fiquei com tanto medo...
— Medo de
quê, minha querida? Você estará segura enquanto estiver comigo — respondeu o
velho Aerus, tossindo sangue. — Eu jamais vou deixar que algo aconteça com você
de novo... Não enquanto eu estiver vivo.
— Ela
estava com medo justamente de você, seu velho idiota — disse a cabeça de Vista.
— Tudo começou quando sua filha quis brincar com seus óculos escuros e acabou
quebrando-os. Eu nunca o vi tão irritado, Aerus, você deveria aprender a
controlar mais esse seu temperamento e a entender que ela é só uma criança.
Crianças cometem erros, por isso elas precisam de pais que as ensinem o que é
correto.
— Eu ia
pedir desculpas, pai, só que você estava tão furioso — disse a pequena Platina,
segurando a mão machucada e ensanguentada do velho. — Ficava dizendo que ia me
punir se me pegasse...
— Eu disse
isso? — Aerus perguntou, incrédulo, por um breve instante lembrando-se daquela
tarde que já acontecera há tantos anos. — Minha nossa, eu disse.
— Então foi
por isso que a garota escapou para o lugar mais distante de você — presumiu
Seth, sentado sobre uma pedra enquanto assimilava a cena. — Você sempre foi um
péssimo pai, Aerus.
— Eu
tentei, cacete! Eu juro que tentei — respondeu ele, abraçando a menina e
desejando nunca tê-lo perdido. — Maldição, garota, eu só quero ter você de
volta... você e sua mãe. E o Watt. E o Mikau. E o General. E a Wiki. Cacete, eu
só quero todo mundo de volta, mesmo que isso pareça impossível! Por favor,
voltem para seu tempo e deem alguns tapas na cara do jovem Aerus. Eu precisava
ter aprendido algumas lições sobre como cuidar de crianças quando tive a chance,
lembrem-me de valorizar mais meus amigos, de amar mais, viver mais.
— Eu
mandarei o recado — disse Vista. — Só não sei se ele vai entender na hora...
— Eu me
certificarei de que entenda — respondeu Platina.
Céus, ela estava
começando a falar igual à mãe.
Platina
segurava a cabeça de Vista, esperando que o ciborgue programasse mentalmente
sua máquina do tempo que os levasse de volta para o passado. Talvez aquele
futuro nunca mais existisse. Talvez seus amigos não morressem de forma tão trágica que
lhe desse pesadelos à noite. Talvez eles
tivesse mais tempo de fazer tudo certo da próxima vez.
— Vocês
ainda podem mudar esse futuro desastroso em que vivo? — perguntou Aerus.
— I don’t know. Talvez com algumas
decisões certas e união nós certamente faremos diferente — ponderou Vista. — Just kidding. Você acha mesmo que a
guilda mais incrível desse continente poderia ter um fim como esse? Se alguma
coisa acontecer de errado, pode ter certeza que eu viajo quantas vezes forem
necessárias para consertar tudo, vou até para outra dimensão para acertar as
contas com o escritor. We’ll be safe.
— Quando
voltarem, poderiam sugerir que o jovem Aerus aprendesse a preparar café desde
cedo? E diga também para ele praticar um pouco de xadrez, quero ter algumas
partidas mais interessantes quando eu ficar velho e moribundo e não tenha
nenhuma companhia mais agradável — disse Seth, devolvendo o olhar para seu
velho amigo de tempos atrás. — Apesar de ser a única.
Platina
ensinaria aquilo com todo prazer. Quando voltasse, a primeira coisa que faria seria dar um forte abraço em seus pais e dizer o quanto os amava, o quanto queria ser como eles quando crescesse. A última visão que teve daquela realidade era
a de seu pai, um velho ranzinza e cansado deitado sobre o chão com o peito
sangrando, um pai triste e arrependido de ter perdido seus maiores tesouros.
Talvez aquela viagem no tempo tivesse sido importante para que ela visualizasse
o futuro e que dessa vez não esperasse que os outros a protegessem.
Era ela
quem iria protegê-los.
— Não vai
pedir desculpas para o seu tio por ter arrancado a cabeça dele do corpo? —
perguntou Vista.
— Não.
— Menina
levada... I like that. Ao chegarmos
em casa, deixa que eu conserto os óculos do seu pai.

Vista's Time Machine - Episode 5: [Im]Perfect World
Support Conversation (Vista x iDie)
Gênero: Amizade, Ação, Drama;
Tema: Em uma de suas viagens temporais, Vista modifica seu passado por uma decisão tola, de tal maneira que, pela primeira vez, ele sente que nunca deveria ter construído a Máquina do Tempo;
Simplesmente não
aguentava mais aquela vida. Estava farto da mesma rotina de sempre; dos amigos
chatos o importunando, das visitas indesejadas que atrapalhavam seu trabalho.
Quando queria ter um tempo só para si ou concentrar-se em seus afazeres, era surpreendido
por uma mulher quase nua correndo atrás de um garoto só de toalha pela sala,
molhando equipamentos, encharcando o chão, fazendo barulho e quebrando coisas.
Estava chegando a um nível insuportável.
— Marquiiiiinho! Você prometeu que iria
tomar banho comigo se eu ganhasse no stripper pôquer, e já estou quase sem
peças para serem tiradas, mas a vitória foi minha!!
— Eu nunca disse que concordaria com
isso! — O Mothim gritou, e em uma de suas tentativas frustradas de escapar, for
surpreendido por um homem másculo que surgiu logo na virada do corredor. De
peito definido e braços fortes, ele o agarrou o garoto de surpresa e o
arremessou no sofá.
— Peguei ele, fofa — respondeu Mozilla,
contente com sua conquista.
A moça até estalou os dedos e lambeu os
beiços.
— Perfeito. Agora leve-o para a banheira
e encha de bolhas que eu cuido do resto.
— Hah! Como se eu fosse deixar o prêmio
inteiro para você — Mozilla respondeu com um ar esnobe, passando uma das mãos no
cabelo de Marco. — Eu fiquei em terceiro lugar, então tenho direito de, pelo
menos, um pequeno percentual.
— Só tinham três jogadores, querido —
Wiki respondeu, já carregando Marco amarrado em suas costas em direção do
banheiro.
A mulher nem se ligou quando chutou um
emaranhado de fios num canto, dando três pulinhos desengonçados, mas
conseguindo equilibrar-se. Uma fumaça negra começou a pairar no ar, e ela
provavelmente vinha de onde Vista estava trabalhando.
— Credo, que cheiro horrível é esse? Tá
pensando demais aí, Vista?
O Metagross deixou uma de suas ferramentas
cair. Mais um de seus produtos arruinados quando, sem se dar conta, Wiki
tropeçara na tomada. A chave de fenda tiniu no chão. O ciborgue levantou-se sem
dizer mais nada e explodiu umas das paredes, deixando o lugar com a cabeça
prestes a explodir. Marco se assustou com a cena, mas Wiki e Mozilla deram
muita importância.
— Ihh, acho que pegamos pesado com a
bagunça dessa vez... — disse Marco de mãos amarradas, preso nas costas de Wiki.
— Não esquenta — respondeu a mulher. —
Daqui a pouco ele volta, esse monstrão de metal simplesmente não conseguiria
viver sem a gente, somos a vida dele!
Marco soltou um longo suspiro.
— Às vezes penso se ele não estaria se
virando bem melhor sem a gente...
Vista pisava com os pés firmes no chão.
Não encontrava harmonia alguma naquela guilda, parecia que todas as pessoas ao
seu redor só queriam abusar de sua boa vontade. Sentia falta das batalhas, das
guerras que participava quando ainda fazia parte da guilda Mithril, comandada
por iDie, o Pokémon Metálico mais poderoso de Sinnoh até então (antes da
chegada de Vista, pelo menos, ou assim ele considerava).
Enquanto tentava caminhar e tranquilizar
sua mente nos campos pacíficos dentro dos limites da guilda, foi surpreendido
por um tiro bem no meio de sua testa. A Life Orb que carregava encrustada em
seu elmo de ferro estourou, caindo aos pedaços no chão.
— Era uma peça de colecionador... —
grunhiu o Metagross.
Viu ao longe Mikau correndo e gabando-se por
sua proeza de acertar-lhe um tiro bem no meio da testa. Pelo menos continuava
vivo. A paciência de Vista estava no limite. Sempre que tentava encontrar paz,
deparava-se com algo ainda mais irritante. Primeiro, Eva e Tom Sawyer
aproveitavam a tarde de sol para se divertirem na colina quando derrubaram uma
enorme pedra que arrastou-se montanha abaixo exatamente onde Vista estivera
sentado. A queda foi brusca. Segundo, Lyndis e Karl jogavam bola e
acidentalmente a Infernape acertou uma bolada bem na cabeça do ciborgue. Depois
eles ainda saíram correndo com medo de pedirem desculpas. O dia seguiu maçante
com situações semelhantes àquelas.
Corroendo-se por dentro e prestes a
explodir tudo, literalmente, sua paciência já limitada alcançou o auge quando Aerus
e Watt apareceram correndo por ali e o esquilo não viu por onde andava. Acabou
trombando com o guerreiro de metal que lhe lançou um olhar sinistro por baixo
de sua capa.
— Ouch... F-foi mal, senhor Vista! É que
estou com muita pressa, preciso de ajuda!
— Suma daqui antes que seja tarde,
esquilo — respondeu Vista.
— Espera, o tio máquina de guerra pode
ser perfeito para nos ajudar! — disse Aerus, contente. — É o seguinte,
parceiro, eu e o meu maninho saímos numa viagem hoje pela manhã quando
encontramos um objeto esquisito abandonado.
Watt o interrompeu, eufórico.
— Tecnicamente, um TM 64. Só não me
pergunte como!
— Pois bem — continuou Aerus. — E tu deve
conhecer melhor do que ninguém qual TM é esse. EXPLOSION! Quando trouxemos a
tal coisa para a guilda, eu ativei algum mecanismo estranho e somente então
descobri do que se tratava.
— Senhor Vista, achamos que ele vai
explodir a qualquer momento — continuou o pobre Watt, desesperado. — Não para
de apitar.
— Cara, nós estamos tentando descobrir
como desativar essa coisa há horas, antes que ela destrua a guilda inteira!
— Não é problema meu — respondeu Vista,
indiferente, preparando-se para ir embora.
— Graças à Arceus temos um bom engenheiro
na guilda, ou mecânico, ou programador, seja lá o que você faz! — respondeu
Aerus, contente. — Por favor, só dá essa ajudinha para os irmãos, coisa rápida!
— No — Vista respondeu com certa calma,
diferente dos “NOOO!” que ele costumava responder quando estava realmente
irritado. — Estou meio cansado, não tenho tempo para ficar resolvendo probleminhas
irrelevantes como esse.
Percebendo que suas tentativas haviam
sido em vão, Aerus apontou em sua direção e exclamou:
— Caramba, e o que você faz nessa guilda,
afinal de contas?
Vista parou de andar.
Watt percebera que teria sido melhor que Aerus
nunca tivesse dito aquilo. Teve medo de que uma batalha começasse ali no mesmo
instante. O imenso Metagross voltou e caminhou em direção dos dois, intimidando
os líderes da Fire Tales só com um olhar, chegando tão perto de encará-los no
rosto só para dizer:
— I should never have accepted
entering this guild.
Ele então virou e partiu, sem esperar
para ver a reação do Garchomp à uma ofensa tão grande quanto aquela. Pensou em
voltar para seu laboratório, onde sabia que teria paz, mas lembrou-se que Wiki,
Marco e Mozilla provavelmente deveriam estar continuando a festa maluca deles em
sua ausência.
Vista ausentou-se por várias horas, vagou
além dos limites da Fire Tales, enfrentou alguns bandidos desprezíveis e gastou
todo o tempo que fosse necessário antes de voltar para a casa, e nem mesmo
aquilo o havia acalmado. Sua mente continuava aflita e perturbada, só conseguia
pensar que sua vida andava de mal a pior.
A noite caiu, e ele abriu a porta com
cuidado. O silêncio finalmente prevalecia. Não havia sinal de seus amigos.
Caminhou até a máquina que estivera fazendo alguns reparos e a encarou com
atenção. Se realmente quisesse, poderia acabar com tudo aquilo antes mesmo de
começar, seria uma melhora e tanto. A Máquina do Tempo que nunca deveria ter
sido criada. Parou logo em frente ao enorme equipamento, encarando-o no escuro,
quando um ouviu um gemido baixo vindo do sofá, o que logo o enfureceu ao pensar
tratar-se de algo desrespeitoso.
— Damn,
Wiki! Vocês não conseguem me deixar em paz nem por um instante?!
Porém, ao olhar com mais atenção, viu que
Wiki apenas dormia ali tranquilamente, vestindo só as roupas de baixo, toda
encolhida de frio por conta do cobertor que estava derramado no chão.
Aparentemente, ela estava tendo uma noite conturbada.
— V-Vista... — murmurou enquanto dormia. —
Vista, não...
Será que estava tendo algum pesadelo com
ele? O que quer que aquele sonho significasse, certamente a amedrontava, como
uma menina que anda sozinha no escuro.
— Vista... Vista... — Wiki repetia, e seu
rosto começava suar a ponto de que algumas lágrimas rolassem mesmo com os olhos
fechados.
O Metagross soltou um longo suspiro.
— Talvez sua vida fosse muito melhor se
eu nem existisse, não é? — Vista murmurou em silêncio, sem a intenção de que
ela ouvisse.
Voltou a atenção para sua máquina do
tempo, e por fim decidiu. Iria embora dali para nunca mais voltar. Adeus Fire
Tales, adeus aos mesmos amigos de sempre. Adeus Marco, Mozilla, e adeus a uma
belíssima Wiki dormindo só com as roupas de baixo no sofá. Todas aquelas cenas
que um dia tanto prezara viveria apenas em suas memórias, e estava disposto a
aceitar o que o destino lhe reservava em qualquer universo alternativo que
encontrasse para habitar.
O ciborgue entrou em sua máquina do tempo
que iniciou-se e fez um clarão, começando uma onda de sons e barulho. Wiki era
conhecida por ter o sono pesado e ainda demorou para acordar e perceber o que
acontecia. Lentamente ela abriu um dos olhos e viu que seu amigo Vista estava
na máquina do tempo que ele mesmo reconstruíra, para o que viria a ser sua
última vez.
— Leve-me para uma vida onde eu jamais
entrei nessa guilda ou conheci essa gente. Vai ser melhor para mim — fez-se um
intervalo —, vai ser melhor para eles.
Uma onda se formou, e tudo ao seu redor
girou antes que se apagasse.
As viagens no tempo costumavam afetar
muito os humanos e até causar danos irreparáveis, mas Vista já fizera tanto
daquilo que já estava acostumado, e podia muito bem reparar os danos em seus
sistemas com enorme facilidade. Algumas vezes pareciam durar eternidades, e em
outras, apenas alguns segundos rápidos, como o piscar de olhos, ignorando toda
a física e ciência moderna. Não sabia se morria e voltava à vida nesse curto
intervalo de tempo, mas viajar no tempo já era como perambular pelas páginas de
um livro que pode ser aberto em qualquer hora e qualquer página que desejasse.
E isso o tornava o leitor da obra.
Mas havia um pequeno problema... Odiava
quando vinha parar naquele lugar — o Nada. Só ia parar ali quando algo
realmente ruim ocorria após uma
viagem no tempo que afetaria até mesmo o universo e, para isso, uma pequena
intervenção divina era comumente necessária.
Paula não estava com uma das melhores
expressões. As mãos estavam entrelaçadas, apoiadas sobre uma mesa redonda
gerada por energia cósmica com apenas duas cadeiras, uma em cada ponta. Vista
sentou-se meio desengonçado à espera do que a deusa do espaço teria a contar
para ele depois de mais uma desastrosa viagem no tempo. Se Dialga não fosse
irmão de Palkia e tivesse fortes afinidades com o pessoal da Fire Tales, ela
provavelmente já teria feito Vista vaporizar do universo pelas constantes quebras
que ele causava em todas as dimensões existentes.
— Quero ouvir de sua própria boca — começou
Paula. — De onde surgiu essa ideia ridícula de viajar no tempo para fingir que
nunca entrou na Fire Tales.
Vista deu de ombros, meio indisposto a
explicar.
— I
dunno. I guess I’m tired of them
— respondeu na maior sinceridade.
— Como você é rude...
A deusa piscou vagarosamente, e dessa vez
demonstrou um raro sorriso para a ocasião.
— Você vai adorar ver o que causou.
— O que houve dessa vez? Alguma explosão
cósmica? Algum defeito complexo na teoria da física ou interrupção temporal por
conta do encontro de ambas as minhas versões do passado e do futuro em uma
mesma linha temporal? Não tenho sido tão fácil de se surpreender depois de
tantas viagens.
— Veja por si só, meu querido.
No centro da mesa redonda do vazio, uma
imagem se formou, como um espelho que a tudo revelava. Paula mostrou a guilda
dos Fire Tales, exatamente como sempre fora. Não havia nenhuma mudança, nem
mesmo uma pedra fora do lugar. Pôde ver muitos membros lá, estavam todos
contentes, treinando, levando a vida como sempre levaram, absolutamente sem
nenhuma mudança significativa.
— Está querendo dizer que minha presença
na guilda é irrelevante? — vociferou o ciborgue, irritadíssimo.
— Continue olhando.
Mais acima na colina, havia um
laboratório, coincidentemente no mesmo lugar onde ele próprio construíra o seu,
mas a diferença era na construção que havia se tornado um pouco mais moderna e
arranjada. Vista continuou olhando a imagem ilusória com atenção. Uma porta se
abriu, e dali de dentro Wiki surgiu mais linda e radiante do que jamais vira.
Lembrava-se de como adorava ver aquela mulher sorrir, mas nunca antes a havia
visto daquela maneira. Na sequência viu Mozilla carregar Marco no colo enquanto
os dois davam muitas risadas e se divertiam, pareciam ser os mesmos de sempre,
só que mais felizes.
Seus olhos se arregalaram quando ele viu
uma quarta presença surgir. Ali estava iDie, seu rival e maior inimigo num
passado muito distante.
— NO.
NO. NOOOO!! — Vista gritou com todas as suas forças, incrédulo. — What’s this? Por que esse monstro está
na guilda deles, como isso aconteceu?!!
— Você desejou que nunca tivesse entrado
na Fire Tales, e seu desejo foi coincidido em sua viagem no tempo, mas o
universo fez seu trabalho ao colocar outra pessoa em seu lugar, com as mesmas
capacidades, se não superiores — contou Paula com um sorriso de certa forma
sarcástico, como se percebesse que finalmente o feitiço voltara contra o
feiticeiro. — Não vê como eles estão felizes agora?
Como isso era possível? Como os amigos
que mais prezava nessa vida agora estavam andando com a pessoa que mais odiava,
e para piorar, como eles pareciam felizes! Viu Wiki segurar em uma das mãos de
iDie e leva-lo adiante, linda e radiante como sempre. Quando foi a última vez
que ela o tocara daquela maneira, mesmo que inconscientemente?
— Venha logo, iDie! Vamos apresentar essa
ideia para o pessoal da guilda! — gritou a moça contente, sendo seguida pelos
outros três.
— Acalme-se, senhorita Wiki, não vamos
querer vê-la espatifar-se no chão com todo esse entusiasmo, right? — sorriu iDie com alguma estranha
habilidade de prever o futuro, uma vez que Wiki tropeçaria nos próprios pés e
por pouco não saiu rolando colina abaixo, se não fosse interceptada por mãos
ágeis que lhe deram apoio.
iDie a segurou com carinho, sem malícia
ou maldade, com o simples intuito de realmente vê-la bem e segura. Se a situação
fosse com Vista, ele provavelmente a teria deixado se esborrachar no chão e
depois rido dela enquanto Marco corria desesperado para socorrê-la. De qualquer
maneira, no final Vista teria ficado para cuidar dos ferimentos dela a sós,
como adorava fazer. Não era por maldade, simplesmente gostava das coisas assim.
Na realidade, percebeu que adorava quando tudo era assim.
E ver tudo que acontecia parecer longe e
inalcançável o incomodou mais do que uma faca que vai entrando aos poucos em
seu coração.
— Obrigada, você é um amor — disse Wiki,
com um carinho sobrenatural. A mulher ainda segurou no elmo de ferro de iDie e
deu-lhe um beijo gentil no rosto, berrando na sequência: — Já que está me
segurando, quebra um galho e me leva assim pra base! Já cansei de andar.
— Absolutely
— concordou iDie num gesto gentil e colocando-a em seus ombros, como se ela
fosse sua filha e pilota. Wiki estava alta e imponente, sentia o vento soprar
em seu rosto. Tinha sob os pés um tanque de guerra que lhe dava mais segurança
que nenhuma outra máquina poderia, um guerreiro de metal para chamar só de seu.
Vista teria adorado jogá-la no chão e
gritado: Not my problem! Mas não teve
essa oportunidade
Aquilo estava ficando cada vez pior.
As imagens continuaram. Ao chegar nos
limites da guilda, todos receberam o grande iDie como um verdadeiro líder. As
crianças o rodeavam, Lyndis chutara uma bola em sua direção que fora agarrada
com perícia, e depois lançada para muito longe de propósito (bem, pelo menos
nisso eles concordavam que fora divertido). Aerus, o grande líder, o recebera
de braços abertos.
— Diga aí, Máquina de Guerra! O que faz
por aqui num dia desses? Nós sentimos a sua falta!
— Desenvolvi um novo mecanismo capaz de
aumentar o ataque físico de todos os guerreiros com essa prioridade, o Choice Band. E para os outros não
ficarem de fora, criei também o Choice
Specs para os guerreiros com Sp.
Attack — explicou iDie.
— Isso é incrível — admitiu General,
impressionado com a capacidade de criação do Metagross. — Vai nos auxiliar
muito na guerra contra os Remarkable Five!
— Poxa, eu queria usar esses óculos
maneiros, mas eles são só para Sp. Attack! — afirmou Aerus, referindo-se ao Choice Specs. — Eles ficam tão legais em
mim, nunca tentei usar algo nesse estilão. Agora irei substituir meus óculos
escuros por um par de óculos coloridos em tons de vermelho e amarelo. STYLE.
— All
right — iDie respondeu com dedicação. — Preciso continuar minhas criações
antes que a data das batalhas chegue, mas até lá, quero que sintam-se livres
para visitar-nos no laboratório para ver como as coisas andam. Podemos dar uma
festa, vamos sair juntos e festejar, pois uma mente vazia também é oficina de
Darkrai. Let’s keep our minds clean!
Todos os membros da Fire Tales
concordaram em uníssono, erguendo as mãos juntas, ansiosos por uma batalha onde
tinham a certeza da vitória. Todos continuavam fortes e confiantes como nunca,
a diferença é que agora tinham alguém para incentivá-los ainda mais ao invés de
simplesmente reclamar o dia inteiro.
A imagem se desfez, e dessa vez Vista encontrou-se
num lugar diferente. Paula não estava mais em lugar algum. Ao seu redor havia
um cenário desolado, tecnológico, diversos equipamentos impressionantes que iam
muito além do que sua imaginação e criatividade teria condições de criar.
Porém, era uma visão triste e abandonada. Ele estava no centro de tudo, era
como o dono supremo de todas aquelas invenções.
— Pelo visto teve tempo o suficiente para
fazer com que suas maiores ambições se tornassem reais, não é mesmo, old friend?
Vista cerrou os punhos ao reconhecer
aquela voz. Viu que iDie estava no lado oposto do campo, e dessa vez não era
nenhuma ilusão ou imagem de sua mente, ele era muito real. Estava armado dos
pés ao pescoço, suas maquinações eram incríveis e refinadas, diria até belas,
tinham um design que não caberia a sua mente criar. Nunca pensou que seu rival
teria tanto tempo para aperfeiçoar-se daquela maneira, principalmente com as
obrigações que tinha na Liga.
— Estive aguardando este nosso encontro —
disse Vista num estado de frenesi incontido. — Você roubou tudo que eu tinha!
— Digo o mesmo — iDie concordou. — Mas
não permitirei que você roube o bem mais precioso que encontrei nesta nova
vida: My friends, my guild, my Family.
Perto de onde seu rival estava, Vista aos
poucos percebeu que Wiki, Mozilla e Marco estavam todos ali, gritando bem alto.
Até mesmo Aerus e Watt estavam juntos, os membros da Fire Tales cantavam pela
vitória de seu amigo, mas Vista notou que algo estava errado... Por que não
diziam o nome dele?
— Vamos lá, iDie, detona esse cara! —
gritou Aerus.
— Falta muito pouco, nós confiamos em você,
não desista, não tenha medo dele! — continuou Marco, e ver seu pequeno pupilo
gritar pelo inimigo só não o feriu tanto quanto o que veio a seguir.
— iDie, destrua esse monstro, e vamos
voltar para casa!
Wiki. A sua Wiki havia dito aquilo? E o
monstro era ele? Não, aquilo não
poderia estar acontecendo... Somente agora as palavras de Paula fizeram
sentido. Quando viajou no tempo, o universo encarregou-se de inverter os papéis.
iDie tornara-se membro efetivo da Fire Tales, era bondoso e criativo, mudara a
guilda para melhor e ajudara a todos com suas ideias revolucionárias. E quanto
à Vista, caíra no mesmo campo que iDie ocupava em seu próprio universo, um
caminho triste e solitário, mas supremo.
Vista, o Pokémon Metálico mais poderoso
do mundo. Adorava a maneira como aquilo soaria quando finalmente alcançasse se
objetivo. O imperador da tecnologia. A encarnação do mal e o último desafio que
se estendia entre seus amigos e a vitória na Liga Pokémon. Era tudo que
gostaria de ter ouvido, mas não daquela maneira.
— No,
no... Isso não está acontecendo — murmurou Vista, recuando devagar.
iDie avançou com velocidade, atirando com
suas balas projetadas para nunca errarem o alvo e certificando-se de ferir seu
oponente com toda a convicção que sentia em seu coração. Por mais que Vista
também estivesse furioso, sentia-se mais machucado por dentro do que
enfurecido. Sentia-se arrependido, na verdade. Não se lembrava da última vez
que sentiu vontade de desculpar-se com todos e pedir por uma segunda chance,
mas aquilo de nada adiantaria. Eles não o ouviriam.
Seu rival acertou-lhe um soco no queixo,
mas Vista revidou com um soco três vezes mais intenso do que era acostumado. O
que acontecera com seu corpo? Como estava tão poderoso? Era essa a troca de
seus amigos? A amizade pela força suprema?
— iDiE!! — A voz de Wiki foi ouvida como
um lamento.
— Fique afastada, my dear sweet
child. Eu nunca vou permitir que esse monstro machuque vocês... Esta
rivalidade é nossa, Vista. Deixe-os fora disso! — gritou iDie.
— Why
would I do that? — o ciborgue murmurou com a voz baixa, mas foi recebido
com um forte disparo de canhão. — They
are... They are my friends...
— E ainda age com ironia para cima de mim?
— iDie gritou, enfurecido. — Vista, o Andarilho Fantasma, você será destruído! Eu
vou proteger meus amigos, custe o que custar!
iDie aproximou-se o suficiente para
encostar seu canhão no peito de Vista. Ele disparou, ferindo-o mortalmente e
fazendo-o ajoelhar-se no chão.
— Eu o farei arrepender-se de todas as
suas ações em sua vida — disse-lhe iDie.
Já cansado daquela humilhação, seus olhos
arderam em chamas. Vista ergueu-se e, com um golpe inesperado, perfurou o peito
de iDie. Ele chegou bem perto e sussurrou baixo:
— Você não tem ideia de quanto tempo
esperei por isso.
O que havia acontecido? Por que dissera
aquilo? Aquelas palavras há muito guardadas saíram de uma maneira que não
planejara. Onde esperava os aplausos, viu apenas tristeza. Olhou para suas
próprias mãos, e viu ali garras mortíferas. No lugar de seu rosto, existia
apenas uma máscara de terror e medo. O que havia acontecido com ele?
— iDiE! — gritaram seus amigos. — iDiE!!
Não desista, levante-se! Derrote-o, estamos contando com você!
Wiki apoiou-se em uma das arquibancadas,
ameaçando entrar e parar a luta antes que seu amigo se ferisse, mas Aerus a
impedia. Com os olhos de vidro cheios de lágrimas, a mulher encarou bem fundo
os olhos de Vista e falou:
— Você é um monstro! Eu vou matar você! Eu te odeio mais do que tudo
nesse universo, eu te odeio!!!
Vista recuou. Seu maior sonho se
realizara, ele havia superado seu rival, iDie, mas por que não conseguia
comemorar? O que estava faltando? Levou as mãos até a cabeça e caiu de joelhos,
sussurrando baixo o profundo arrependimento em seu coração. Não esperava que
ninguém ouvisse, mas falou da mesma maneira.
— Por favor, me desculpem por tentar
arrumar minha vida que já era perfeita... Desculpe-me por ter uma vida boa, mas
exigir uma melhor — ele ergueu seu rosto, e então começou a gritar e repetir
com todas as suas forças. — I’m sorry! I’m sorry! I’m sorry!
Com a fronte baixa encostada no chão, Vista
sentiu suas lágrimas escorrerem. Pensou que elas já haviam se extinguido havia
muito tempo, desde que se tornara uma máquina, mas ficou feliz por saber que
elas ainda estavam ali. Devia mesmo ter passado tal humilhação. Queria ser mandado
embora, ridicularizado, preferia perder tudo que sempre sonhou em ter a
vivenciar aquilo.
Alguém aproximou-se. Teve medo de
levantar e encarar os olhos de Wiki decepcionados, não sabia como a encararia,
como se tudo que haviam passado jamais tivesse existido. Foi quando sentiu o
toque suave de Paula, tocando sua cabeça com a suavidade de uma divindade. A
mulher então aproximou-se como uma mãe que aninha o filho em seus braços quando
ele mais precisa, dizendo com a voz mansa:
— Brincar com a vida dos outros é
divertido, mas não é nada legal quando a vítima é você, não é? — sussurrou a
deusa. — Você viajou no tempo, tentou tornar tudo melhor, divertiu-se o
bastante para rir e ter muitas histórias para contar. Mas espero que agora você
tenha percebido que o que você tem feito foi terrível, Vista. É hora de parar.
Diante dos pés da deusa, o soldado sem
sentimentos chorava como nos dias em que entrara no exército e o obrigaram a
entrar naquela vida sem retorno. Ele não conseguia olhar nos olhos dela. A
Guardiã do Espaço brilhava em sua armadura cintilante, e o simples vislumbre de
sua força total o destruiria.
— Por favor, — ele clamou com a voz
baixa. — Me dê outra chance.
Era a primeira vez que Paula ouvira uma
frase tão sincera de Vista. “Por favor” não fazia parte de seu vocabulário,
exceto quando dizia ironicamente para que calassem a boca ou trouxessem um
refresco.
Paula agachou, segurando com as duas mãos
no rosto do ciborgue e sibilando o mesmo sorriso que fez com que um humano
normal se apaixonasse por ela. Agora estava transformada mais uma vez,
assumindo sua aparência apenas como Paula, a mulher que tanto o ajudara a consertar
suas burradas em cada viagem no tempo que fizera.
— Vá, e viva sua vida imperfeitamente
perfeita. Tenha bons sonhos, criança, e não direi para que esqueça essa
aventura, mas para que sempre lembre-se dela e torne-a um exemplo enquanto durar
sua existência.
• •
•
Ao abrir os olhos, Vista encontrou-se no
mesmo lugar de antes, seu laboratório velho e bagunçado, com calcinhas
penduradas na cadeira, salgadinhos abertos e ferramentas espalhadas por todos
os cantos. Em sua frente, estava a máquina do tempo, imóvel e inalterada. Wiki
ainda dormia no sofá.
O ciborgue arqueou uma das sobrancelhas.
No fim das contas, percebeu que ainda odiava aquele lugar. Vira tanta coisa boa
que logo sua mente começou a pipocar com tantas ideias de como melhorá-lo. Queria
começar tudo de novo, mas dessa vez ao lado de seus amigos. iDie podia muito
bem ser um sujeito mais tranquilo e organizado, mas ele jamais aprenderia a
conviver com a rotina maluca dos Fire Tales. E daquilo Vista não abriria mão.
Adorava causar algumas explosões.
Correu em direção da mulher e pegou-a na
colo dando-lhe um susto daqueles.
— Ei, que assédio é esse? Deixa eu
acordar primeiro! — gritou Wiki, espantada.
— Arrume suas coisas, andrógena. EVERYTHING IS GOING TO EXPLODE!
— Como é que é?!
Antes que Wiki pudesse fazer mais
perguntas, Vista levou-a nas costas e foi em direção do quarto onde Marco e
Mozilla também estavam, e deu-lhe um susto ainda maior por interrompê-los no
meio da madrugada.
— CARAMBA! Bate na porta antes, cara! —
resmungou Mozilla.
— Ué, o que estou fazendo aqui? Ou
melhor, COMO VIM PARAR AQUI? — gritou Marco.
Vista agarrou-os, somente com suas roupas
de baixo, pijamas, ou o que fosse que estivessem usando na hora. Saiu correndo
no meio da madrugada até se deparar com seus companheiros de guilda em volta da
fogueira no meio da noite, encarando um objeto em forma de CD enquanto General
suava na tentativa de desativá-lo.
— Vamos lá, cara, você consegue, ou vai
tudo explodir! — gritava Aerus, impaciente.
— Meu caro companheiro, entrei na Fire
Tales para lutar e comandar exércitos, e não para desarmar bombas ou lidar com
esse tipo de pressão! Nunca senti tanta dúvida entre cortar um fio vermelho ou
o verde, acho que eu cortaria a garganta de inimigos com mais facilidade... —
bradou General com as mãos trêmulas. — Mas o problema é que esta coisa não tem
fios...
Não demorou para que Vista chegasse
correndo e destruindo tudo. Ele jogou seus amigos no chão, agarrou o TM e
arremessou-a com enorme força em direção de seu velho laboratório. O aparelho
saiu deslizando pelo ar como um disco. Demorou pouco mais de alguns segundos
para que caísse suavemente no chão explodisse tudo nos limites da Fire Tales,
causando um tremendo choque até mesmo na base, mas pelo menos sem ferir
ninguém.
Todos o olharam espantados, até que Aerus
ergueu as mãos pro céu e gritou.
—
ALELUIA! Eu sabia que você estava brincando e que de última hora ia salvar a
gente, viva ao grande Vista!
Seus companheiros comemoraram juntos e o
ciborgue sorriu, contente. Wiki estava toda descabelada e vestindo apenas suas
roupas de baixo, ainda tentando entender o que havia acontecido e o motivo de
tanto alarde.
— Beleza, deixa eu entender... Então você
mandou uma bomba para a nossa casa, explodiu tudo, e agora não temos mais onde
morar — disse a mulher com a voz irônica. — Oh, meus parabéns, Vista. Você
merece o troféu de idiota do ano!
— Bem, eu estava planejando recomeçar de
qualquer maneira — contou o Metagross. — E dessa vez, sem chances de
reconstruir aquela máquina. Chega de viagens no tempo.
— Pensei que elas tivessem acabado desde
o primeiro episódio — continuou Mozilla.
— Mas ele sempre dá um jeito de
reconstruir, né — brincou Marco.
— Not today, kid. Not today.
— Vou querer ser recompensada mais tarde
com aquele seu mecanismo esquisito que cria um monte de tentáculos
cibernéticos, espero que pelo menos isso não tenha sido destruído — continuou
Wiki, indignada. — E guarde o que eu vou dizer, agora você vai ter que me
suportar um bom tempo, porque eu não vou te largar enquanto não reconstruir
tudo! EU QUERO MINHA CASA DE VOLTA.
— Not
bad.
— Mandou bem, hein, parceiro! — disse
Aerus, dando um forte soco nas costas do ciborgue, que por acidente abaixou a
cabeça e fez com que seu elmo de ferro caísse. Todos os demais membros arregalaram
os olhos. Wiki quase soltou um grito de espanto ao ver a real face de Vista.
O dragão olhou primeiro para a máscara
caída, e depois para o rosto de Vista.
— Ops.
— Qualquer um que tenha visto o que acaba
de ver, não será poupado —murmurou Vista, voltando a colocar seu elmo enquanto
lançava um olhar mortal para todos os demais membros da Fire Tales. — Fujam,
seus merdinhas, enquanto ainda dá tempo! Hah, hah. Porque eu vou pegá-los, e nunca mais vou soltar.




































