Posted by : CanasOminous Dec 7, 2012


Walter estava a limpar uma das bancadas de sua residência em Twinleaf. Uma estranha cena para quem outrora já fora o maior campeão da região, a figura mais bem vista pela sociedade, símbolo de poder e força, agora, limpando uma das bancadas. Quando se recebia uma tarefa da ditatorial esposa não havia como negar, e por mais que Walter fosse a mais alta figura do passado, certos costumes nunca se perdiam.
       O homem vestia uma regata cinzenta que lhe cobria o corpo bem definido, mas agora marcado pela idade. Coçava a barba de hora em hora enquanto passava o espanador por cima das estantes já limpas, mas quarta feira era dia de limpar a casa, e estando suja ou não, Melyssa o mandaria limpá-la. Por outro lado, o homem não se sentia constrangido por estar em uma situação como aquela, ele até apreciava, pois sempre fora muito centralizado com questões de limpeza e organização.
          De repente, seu celular começou a tocar, uma mensagem havia acabado de chegar. Walter deixou o espanador de lado e pegou o aparelho notando que se tratava de uma mensagem de Glenn Combs, seu velho amigo dos tempos de criança. Walter arqueou uma das sobrancelhas tentando imaginar o motivo pelo qual havia recebido uma mensagem em um dia peculiar como aquele, vendo as seguintes palavras digitadas com cautela pelo companheiro: 


Walter coçou sua barba novamente num sinal pensativo, pensando se alguém havia roubado o celular de Glenn, ou então se por algum motivo algo grave realmente havia acontecido. Pouco depois outra mensagem chegou.


Agora ele tinha certeza de que a mensagem seguia o verdadeiro Glenn. Faltava algumas horas para às cinco, e Walter não perderia a chance de sair para esfriar a cabeça e divertir-se com seus velhos amigos. Aquilo era mais interessante do que as reuniões monótonas do passado, e parecia já fazer meses desde que ele vira seus amigos da última vez. Porém, sua esposa logo desceu de seu quarto com outro celular em mãos.
— Recebeu a mensagem do Glenn? — indagou Melyssa, vendo o marido acenar positivamente com a cabeça — E por quê ainda não foi se trocar?
— Estou ocupado. — respondeu o homem com uma risada cansada — E que poder sobrenatural você tem que permite que você saiba tudo que eu faço?
— Sou sua esposa, ao lado de todo campeão existe uma grande mulher. Vamos lá, você fica aqui enfurnado o dia inteiro, vá divertir-se um pouco!
Melyssa caminhou em direção de Walter, retirou o espanador, e mandou-o sair de lá para se trocar. O homem riu vendo que sua tática havia dado certo, pelo menos ela o dispensara dos serviços, mas logo sua esposa também subiu para o quarto com uma bela notícia:
— Ah, pensando bem, o Glenn também falou que eu deveria ir. Não pense que fugiu de seu dever, a estante é sua quando voltar.
Walter riu, acenando positivamente, afinal, nem sempre o campeão levava a vitória. Sua esposa demorou algumas horas a mais para se trocar, por isso, o casal acabou por chegar depois das seis por mais que Salamance fosse o dragão mais rápido de toda a região. Walter voou discretamente para Hearthome, mas os paparazzi o encontravam onde quer que fosse. Não chegou a conversar com a mídia que se tumultuava em frente ao hotel, ele imediatamente adentrou o imóvel e seguiu até o balcão, perguntando para a recepcionista:
— O senhor Glenn Combs marcou uma reunião comigo. — disse Walter com um ar cortês e decidido.
— Seja bem vindo, Doutor Wallers! O senhor Glenn vos aguarda na adega do salão central, primeira curva a direita. — explicou a mulher.
Walter acenou positivamente e estendeu o braço para que Melyssa o acompanhasse e ambos adentrassem como verdadeiros reis. Alguns nobres da cidade faziam sua estadia no hotel, e se banqueteavam pelas especiarias do cozinheiro local, mas Walter não ficaria no restaurante ao lado de todos os outros convidados, ambos foram levados até a mais bela adega do Hotel Deluxe Heart onde Glenn os aguardava de braços abertos.
— Waltão, meu irmão dos velhos tempos! — disse o rapper, dando um abraço seguindo de leves tapas nas costas do companheiro — Como vai tua vida, manolo?
— Continua seguindo. — sorriu o homem.
Glenn virou-se para Melyssa e fez um cumprimento.
— E a primeira dama, continua tão bela quanto antes!
— Obrigada, Glenn. Certamente, é bom revê-lo. — respondeu Melyssa de forma simpática — Mas diga-me, qual o motivo de tanta urgência? Você me tratou com tanto respeito na mensagem que até cheguei a pensar que fossemos desconhecidos!
— Foi uma brincadeira, Melyssinha. Eu queria mesmo é que vocês viessem porque preparei algo especial. — disse Glenn animado, buscando no bolso as chaves de sua adega particular — Tcharans! Estou dando um tempo do hotel essa noite para receber os grandes campeões, como nos velhos tempos! Fechei só pra nóis!
Melyssa levou sua mão até o rosto envergonhada, mas agradeceu o ato do velho amigo dizendo que não havia necessidade de recebê-los de tal maneira. O lugar era lindo, iluminado por lamparinas de ouro em cor amarelada deixando tudo num tom rústico e exótico. Era como as tavernas de ofício, em cada espaço na parede um vinho diferente fora depositado somando naquele pequeno espaço um valor maior do muitos demorariam uma vida inteira para adquirir. Os estofados eram feitos de espuma, e adaptavam-se conforme o corpo de quem se deitava sobre ele. As taças de cristal haviam sido encomendadas de Hoenn, e Glenn escolheu a dedo uma garrafa de vinho de Liechi Berry, uma das mais caras do mundo. O músico colocou o líquido em quatro taças, e assim entregou-as para seus companheiros.
— Falta uma pessoa para que possamos brindar. — explicou Glenn.
Pouco depois um homem trajado de terno e um chapéu fedora compareceu na entrada com uma expressão de surpresa. Era Marshall, o guardião da quarta casa e líder da ex-elite nos tempos antigos. Marshall olhou para Walter por um tempo, mas em seguida soltou uma risada descontraída.
— Eu sabia que era brincadeira do Glenn... Tanto que atrasei uma hora para vir, mas eu precisava certificar-me se tinham explodido metade do hotel mesmo, não se pode duvidar de nada atualmente. — explicou Marshall.
— Qual é, encontrar-se com os amigos nunca é demais!! — disse Glenn com uma risada, fazendo seus companheiros rirem da mesma forma enquanto ele distribuía as taças de maneira elegante — Vamos brindar à todos nós, à nossas vidas, ao nosso sucesso e à nossa família! Saúde!
Walter tomou um ligeiro gole de forma refinada, apenas degustando do sabor daquele vinho como costumava fazer nos tempos de sua ascensão. Faltava apenas um charuto para que tudo ficasse perfeitamente igual aos dias de sua glória. Glenn afastou-se-se e mostrou uma pedra ornamentada para exatas seis pessoas com poltronas de seda e talheres de ouro.
— Vamos lá, sentem-se, sentem-se! Até parece que não são de casa.
Walter sorriu e pegou um dos lugares ao lado de sua esposa. Marshall ajeito o chapéu e o blazer ao e também sentou-se na companhia da Elite. Glenn fez um sinal para seus amigos e apontou para seu celular no bolso demonstrando desapontamento.
— Eu tentei chamar o Erick, liguei no número que eu tinha dele, mas ele não atendeu. Cai direto na caixa postal, acho que ele mudou de novo. Pedi para que meus assistentes procurassem nas listas telefônicas de toda a região, mas o número dele está fora de ar.
— O Erick ainda mora naquela mesma casa de Sunyshore. — comentou Marshall — É uma pena que ele não possa comparecer, seria bom tê-lo conosco... Quantos anos fazem que não o vemos? 
— Eu não o vejo desde... Presumo que há pelo menos cinco anos. Outro o dia o encontrei em Jubilife, mas ele não deve ter me reconhecido, praticamente passou reto. — continuou Glenn.
 — Sinto falta do pequeno Erick, eu gostaria mesmo é poder revê-lo como fazíamos todos os domingos no café da tarde em casa. — disse Melyssa, olhando para a mesa e notando os seis lugares dispostos. Glenn praticamente tinha feito aquilo de propósito, dois para os campeões e quatro para a Elite, por mais que Erick e Selena não estivessem mais presentes. Era quase que involuntário, por um momento o clima entre os velhos amigos tornou-se sombrio e desanimado.
— Minha surpresa mesmo seria trazer o Erick para que pudéssemos relembrar os velhos tempos, mas acho que seremos só nos quatro. — disse Glenn meio desanimado — Mas nem por isso todo mundo vai ficar aqui parado com essa expressão de Magikarp morto, não é?
— Certamente, nós não deveríamos simplesmente ficar relembrando do passado. Já deixamos isso para trás há muito tempo. — disse Walter — Então, devemos nos servir?
— Sim, sim. É só se levantar e ir lá pegar a comida. Não quer que eu sirva na boquinha, né? — riu Glenn, vendo uma feição espantada no rosto de seus convidados — Qual é, já perderam o carisma de antigamente? É só se levantar e ir pegar a comida, que mal tem nisso?
— Você não muda, Glenn. Nem mesmo a idade exerce poder sobre você, ainda aparenta estar nos seus vinte anos. — disse Marshall.
— Nem me diga, estou beirando os quarentão e sentado numa mesa de gente velha. Com exceção da senhorita Melyssa, é claro. Seus velhotes do caramba!! E se a senhora puder tampar os ouvidos, está faltando umas gatinhas nessa festa, não acha? — disse o rapper.
— Isso me faz lembrar de quando saímos em jornada pela primeira vez... — disse Walter com um sorriso.
— De quando morávamos em Twinleaf e nos apaixonávamos pelas aventuras e apresentações... — continuou Melyssa.
— De quando não havia crimes e nosso único objetivo era se divertir... — respondeu Marshall — Certamente, isso me traz lembranças muito, muito antigas. Mas não deixam de ser, simplesmente, as melhores.
Glenn sorriu, estava feliz por ver que seus velhos amigos não tinham se perdido neste mundo com a ganância de estar sempre no topo. Infelizmente a Era deles veio a terminar, mas nem por isso Walter e sua companhia perderam a simplicidade e a humildade de quando eram jovens. Todos ali presentes não sofriam influência da sociedade e seus regimes, por mais que tivessem alcançado o mais alto posto de sucesso, a alma dos aventureiros jamais desapareça de seus corações.

Cinco Moedas

— Prontinho, doutor. Seu sapato está novinho em folha.
Poupa-me os detalhes daquele lorde, mas lembro-me da cartola quando ele abaixou o jornal, lançou um rápido olhar para os sapatos envernizados, e em seguida voltou a observar aquele garotinho de boina em sua frente. Revelou um sorriso terno, lançou cinco moedas em minhas mãos a que agradeci várias vezes. O homem fez um aceno e ajeitou o chapéu, voltando a caminhar com sua bengala em direção da cidade.
Passei a marcar este como o ponto inicial de minhas aventuras porque foi quando marquei exatamente três anos desde que conheci a Melyssa.
Agradeci as cinco moedas e então fui correndo diretamente para uma área onde havia um riozinho com águas correntes. A cidade de Twinleaf, poderíamos chamá-la de Vilarejo de Twinleaf naquela época, a única cidade que não sofreu alterações com o tempo, sendo que aquele lindo lago continua tão puro e inocente quanto as pessoas que aqui habitam, e com elas, a saudade de uma velha infância num mundo praticamente extinto no sistema capitalista dos dias atuais.
Talvez por conta daquela sensação eu procurei voltar para Twinleaf depois de perder o título de campeão, é em Twinleaf onde nasci e onde passei grande parte da infância. Quando ando pelas trilhas do sul ainda sou capaz de lembrar perfeitamente da manhã em que mostrei as cinco moedas para meu velho amigo Glenn, que mais tarde também viria a tornar-se o terceiro integrante de minha Elite. Mostrei as moedas como se fossem uma arca dourada.
— Olha, Glenn. Aquele homem me deu alguns mangos a mais, daqui a pouco vou poder comprar a minha pokébola.
— Supimpa, Waltinho. — essa gíria me persegue até os dias atuais — Falta muito pra você conseguir comprar agora? Já tem ideia também do primeiro Pokémon que vai capturar?
— Não sei, não quero um Bidoof. Eu queria mesmo era um Pokémon inicial, mas o Professor não me daria um, não. — respondi.
— Falta muito então? — persistiu Glenn.
— Umas trinta moedas. Até o fim de semana eu consigo.
— Vamos até a casa da Melyssa, ela pode tentar nos ajudar de novo.
Glenn era o filho do caseiro da casa de Melyssa. Nós dois éramos filhos de pais sem tantas condições financeiras quanto ela, mas ainda assim o velho Glenn nunca andava mal vestido. Havia juntado dinheiro por vários meses somente para comprar um boné de marca. Estimo em pensar que ele ainda o guarda até hoje, isso se não estiver trancafiado sob sete chaves em um altar de ouro... Ele sempre foi um garoto simples que lutava para ser como as figuras famosas de outras regiões, mas acima de tudo, um jovem que nunca perdeu sua identidade. Nem o dinheiro e nem as influências o tornaram uma pessoa ruim. Alegro-me muito em saber que estivemos lado a lado até o fim, e mesmo após nossa queda, ele manteve-se como um grande empresário. Não apenas isso, e sim, como um grande amigo.
E pensar que estas lembranças tiveram início a partir de cinco moedas...

Glenn trouxera alguns petiscos para seus visitantes, queijos cortados em cubículos e salames da carne mais fina eram separados em um prato de prata ornamentado com a figura de Pokémons lendários dava o ar de soberania e poder. As taças de vinho permaneciam cheias, e ao lado uma caneca já começava a ser enchida com uma leva de cerveja depositadas nos melhores barris, apenas aguardando a degustação dos mais refinados paladares.
          Glenn trouxe dois charutos, sabia que Marshall e Melyssa não fumavam, mas quando se encontrava com Walter aquilo era praticamente indispensável. O ex-campeão tragou e soltou uma bufada de fumaça no ar, mas em seguida Melyssa pegou o charuto e o apagou.
— Pronto, já se divertiu o suficiente. Você está muito velho para essas coisas. — disse a esposa.
— Poxa, Melyssinha. Eu encomendei esses especialmente das ilhas paradisíacas no Arquipélago Laranja! Eles custaram os olhos da cara! — argumentou Glenn.
— Fique quieto antes que eu apague o seu também.
— Sim, senhora.
Walter riu ao admitir a derrota para a primeira dama, ela era a única mulher que dominava toda a Elite e derrubava seu campeão com enorme tranquilidade. Glenn ria e fazia algumas palhaçadas ao lado de Marshall, de fato não havia sequer um segundo que o moreno não parava de sorrir, ele parecia estar mais feliz do que nunca. Logo Walter aproximou-se e chamou por seu nome:
— Glenn, deixe-me perguntar. Você ainda tem aquele seu boné guardado?
Walter não precisou nem explicar qual boné era, Glenn abriu a boca em sinal de surpresa completamente fascinado pelo fato do amigo lembrar-se daquilo e deu alguns tapas no ombro do companheiro.
— Maluco, quanto tempo faz isso? Uns vinte e cinco anos? Na época bonés ainda eram baratos, e pensar que demorei tanto só para comprar aquele. Cara, como tu foi lembrar disso?
— Eu estava apenas parando para repensar em alguns fatos da vida. Acho que esta reunião com o pessoal das antigas trouxe à tona algumas boas memórias. — respondeu Walter.
— Boas memórias? Sua mente está parecendo um museu, e que eu saiba era a Melyssinha que tinha a boa memória. Pergunta aí para ela, aposto que ela lembra a roupa que você usava quando se conheceram.
Walter riu, e sabia que era verdade, mas a memória era um ponto que ele também deveria gabar-se, pois nunca faltava aos compromissos e lembrava-se de como foram seus primeiros dias ao lado de Melyssa. Cada instante fazia tudo parecer um filme em que as lembranças dos velhos tempos passavam como um telão em sua frente.

Os Olhos de Melyssa

Era ela, com seus lacinhos vermelhos, vestido esguio e contemplativo... Um tesouro! Assim que nós dois chegamos aos portões da mansão não precisamos de muito trabalho para pular o muro. Naquela época não havia necessidade de cercas elétricas ou lanças, não havia sequer perigo para se preocupar, a não ser que dois garotos apaixonados representassem alguma ameaça. No andar de cima estava a bela moça de cabelos negros e vestidinho de renda, o meu coração de criança começava a palpitar sempre que via Melyssa pentear os cabelos na janela.
E quem diria que aquela linda moça era uma das figuras mais ricas do vilarejo, e por ser filha do homem de maior influência na cidade ela poderia ter o que quiser. Eu a idolatrava, a achava a menina mais linda de toda a Sinnoh.
— Tchu-tchuca! Aparece na janela para nos dar um “oi”! — essas gírias do Glenn me dão a sensação de vergonha até hoje.
— Vá-se embora, Glenn. — replicou Melyssa — Papai pode te ouvir.
— Mas eu trouxe o Waltinho junto.
Melyssa praticamente deu um salto para fora da janela, encontrou-se procurando altivamente pelo nome citado, e ao lado de Glenn estava eu, um garoto de suspensórios e olhos enfeitiçados. Eu tinha apenas quinze anos, mas não deixava de admirar a beleza de Melyssa, que já tinha seus dezessete. Ela era alta e esguia, com um estilo único para aquela época. Talvez magra demais para os olhos de hoje, mas o tempo resolve algumas coisas, se é que você me entende. Desceu as escadas correndo e ainda tentando não chamar a atenção parou de frente à porta e debruçou-se sobre uma das paredes enquanto olhava apaixonadamente para mim.
Ficamos ali trocando sorrisos, a feição dissimulada de Melyssa encantava qualquer garoto apaixonado como eu. Ela era filha do coronel da cidade, com dezessete anos ela estava na idade de vestir-se de forma mais ousada, e com isso, as saias revelavam um pouco de seus joelhos. Quando Melyssa estava mais à vontade até mesmo mostrava os tornozelos tirando suas meias brancas de cano longo. E ainda por cima em breve completaria dezoito anos. Com dezoito poderia fazer algo que nenhuma outra menina de Twinleaf podia... Ela poderia usar brincos e maquiagem. Hoje pode ser motivo de risadas, caro ouvinte, mas não ria de minha juventude. Aos quinze anos tudo se torna magistralmente único.
Nós dois só fomos interrompidos de nosso momento quando Glenn voltou a abanar a mão e sorrir, relembrando-me o motivo pelo qual havíamos ido até lá:
— Melyssa! O Waltinho tava querendo te pedir uma coisa
— Que é? — perguntou ela ainda com seu sorriso apaixonado.
Eu não respondi de imediato, na época fiquei ali parado como se enfeitiçado pela sedução de Melyssa. Ela era uma menina cobiçada, e poderia ter o namorado que quisesse por aquelas bandas, embora não tivesse ninguém a vista naqueles dias. Sua função era apenas cativar os olhos apaixonados do vizinho embaralhado.
— Que é, Waltinho? Não queres me pedir nada? — perguntou Melyssa.
— Não, não, senhorita. Só queria dar uma olhada nos seus cabelos negros. — respondi, fazendo-a dar uma leve risada. Uso essa tática até hoje.
— Ora, se quiseres ver meu cabelo não precisavas pedir que eu descesse até aqui. — disse ela com um tom provocativo, também respondendo da mesma maneira: — Mas não tem problema, não. Eu gosto de descer as escadas, gosto de vir aqui para te ver, mesmo que de longe.
Aqueles eram os namoros de minha infância, tampei o rosto com minha boina e depois fiz um aceno de despedida para Melyssa, talvez fechando os olhos fosse a única forma de livrar-me daquele feitiço. Saí de lá na companhia de Glenn enquanto a garota subia para seu quarto a ver se eu ainda a observava de longe. Meu amigo empurrou meu ombro e perguntou:
— Que foi? Por quê não pediu dinheiro para ela? Sabe que ela dá.
— Não sou homem de pedir dinheiro, não. Só ei de pedir a Melyssa algo quando eu for seu namorado e quando eu for mais rico que ela, mesmo que isso me obrigue a derrotar a Liga e virar campeão!
Nunca leve uma proposta tão a sério. A graça de prometer e ameaçar durante a infância é não cumpri-las. Nunca as levei tão a sério.
Glenn sorriu e colocou a mão em volta de meu ombro novamente:
— Nunca duvidei de ti, mas aí é esperar tempo demais. Pede Melyssa em namoro antes, ou faça ela prometer que sempre vai ficar contigo.

— Waltão, Waltão... Essas coisas da infância são como uma vergonha na atualidade, nossa inocência ao lidar com os fatos é surpreendente, não? — disse Glenn com uma risada — Lembro quando tu ficava falando para a Melyssa prometer que se casaria com você.
— Hm, e eu nunca prometi. — respondeu Melyssa rapidamente enquanto beliscava alguns aperitivos. Marshall riu ao lembrar-se que aquilo era verdade, mas preferia ficar quieto e ouvir. Ele também era um dos melhores amigos da mulher, e não apreciava muito sua convivência com Walter. 
Melyssa continuou:
— Você me irritava todas as noites tentando fazer prometer que me casaria com você.
— E se casou. Valeu a pena, não é? — respondeu Walter com um ar vitorioso.
— Levando em conta a protuberância que vêm crescendo em sua barriga e as marcas da idade chegando... Não sei se realmente valeu a pena. — brincou ela fazendo o marido olhar feio. Melyssa segurou nas mãos de Walter e beijou-as, afinal, ela jamais poderia esquecer os momentos de sua maior aventura ao lado do futuro esposo.
— Você sabe que eu te amo, não?

Promessas

— Prometes uma coisa?
— Então diga.
— Mas você promete?
— Só prometo depois de ouvir.
— Promete que ficará somente comigo?
— Mas aí é tempo demais, Waltinho. Como saberei que você ainda gosta de mim?
— Eu prometo, você promete?
— Não sei, não sei. É tempo demais.
Tive uma ligeira lembrança do dia em que pedi para Melyssa prometer que jamais namoraria outro homem, se não eu. Ela não prometeu, falou que era esperar tempo demais até que eu fosse mais rico do que ela, no momento rimos, mas não me magoei. Somente muito tempo depois fui perceber que ela mesma ficaria feliz em dar todo seu dinheiro para que eu a pedisse em namoro o mais depressa possível. Minha esposa me ajudou em tantas tarefas, é ela quem me acompanhou e me incentivou a derrotar inúmeros desafios. Tudo isso de volta aos tempos de minha viagem; eu, Glenn, Marshall e Melyssa, a equipe de aventureiros que saía mundo afora, cada qual em busca de seus respectivos sonhos.
Melyssa era muito rica, e por isso seus pais sempre a obrigaram a enfrentar aqueles abomináveis Contests. Todos eles já são tão cheios de regras e normas, isso que em meu tempo costumavam ser ainda mais rigorosos. Melyssa teve os ideais de mudar as competições e permitir que jovens menos favorecidos também participassem, ela sempre quis que eu entrasse em uma competição somente para vê-la, mas nem isso os juízes permitiam, afinal, eu era apenas um garotinho de um bairro mais pobre. Porém, as ambições de Melyssa jamais mudaram, quando esta mulher quer algo, ela consegue. Sou a prova viva disso.
As competições de hoje são rigorosas, e antigamente conseguiam ser piores. Melyssa mudou isso, em tempos atuais ouvi dizer que novas crianças lutam por uma maior igualdade social, e de certo, devo dizer que isso me agrada. Outro dia tive notícia de meu filho Lukas causando alguns estragos na estrutura do governo. Não escondo que adoro isso. Não por rancor, mas acredito que nem todas as Elites tenham uma estrutura capaz de completar o que a região precisa, e atualmente, devo dizer que ela se encontra em um  estado de caos total.
Mas isto seria assunto para outras lembranças... Vamos deixar os jovens seguirem com seu tempo.

— Diga-me, Waltão. E o velho Salamence? Anda numa boa?
— Só um pouco... velho. Mas a idade chega para todo mundo, ainda assim não deve estar tão enferrujado quanto eu, aposto que aguenta uma boa batalha.
— E pensar que esse dragão veio como Bagonzinho mixuruca até cair em suas mãos, hein?

Um Dragão Perdido

Cada lembrança, cada ambiente nessa cidade vem marcada por suas memórias. Meu velho companheiro Salamence deve estar adormecido na sala nesse instante, dormindo em cima do sofá que mal suporta seu peso. Esse pequeno Bagon nunca perdeu a velha mania de dormir naquele lugar... Sou obrigado a trocá-lo de mês em mês. Relembrando estes fatos vejo como este dragãozinho tornou-se meu primeiro Pokémon, e também o integrante mais importante de minha jornada. Hoje estou velho, assim como ele. Sinto isso quando o vejo batalhar, não mais é capaz de dar tudo de si, mas isto devido ao fato de que nenhum outro adversário foi capaz de fazer-lhe frente.
Nestes dias lembrei-me do Gible que dei ao meu filho. Pergunto-me se ele será tão forte a ponto de derrubar meu velho Salamance. Não duvido da força de Luke, meu sangue corre em suas veias, e ainda assim almejo vê-lo batalhar ao meu lado algum dia. Vamos à história do Salamance...
Vindo de regiões distantes um duque do vilarejo encomendara um Bagon de Hoenn, afirmando ser o Pokémon mais poderoso de lá. O filho, impaciente do jeito que era, não podia contentar-se com a fraqueza e a falta de habilidades daquele dragão que supostamente deveria ser o mais poderoso de todos. Ele o maltratava, e isso me irritava profundamente. Morei grande parte de minha infância naquele bairro, e por isso posso dizer que eu conhecia cada segredo em suas trajetórias. Certo dia ouvi aquele garotinho maltratando o Pokémon novamente.
— Papai, esse Bagon que me deste não faz nada! Peço o Fire Blast e ele cospe água! — gritou o garotinho mimado, sem saber que aquele golpe mais arde viria a tornar-se o Hydro Pump — Eu não o quero mais.
— Cuidas do dragãozinho, pequeno. És um presente muito caro.
— Mas eu disse que eu não quero. Se não quero, jogo fora.
Posso narrar perfeitamente o dia em que vi aquele garoto enxerido no quintal de sua mansão. Nós dois já não nos batíamos, eu odiava o jeito mesquinho dele de agir, assim como ele provavelmente abominava a minha presença na vizinhança. Quando vi o pequeno Bagon ser maltratado, não pude conter-me.
— Para! — gritei.
— Quem vai me impedir? — retrucou o garoto.
Eu acertei o filho do duque com um soco tão forte que minha própria mão ficou doendo por uma semana inteira. O corpo do menino envergou-se como uma Magikarp fora d'água, ainda costumo rir de noite quando lembro da cena. O garoto voltou correndo para sua casa e apenas largou o Pokémon ali caído. Não sei que fim levou, nunca mais ouvi falar de seu nome, mas tive notícias de que sua família perdeu muitas ações de alguns anos para cá e veio a falir. Agarrei o Bagon e o levei para a residência de Melyssa. A partir daquele ponto eu comecei a ser tratado como um foragido, pois eu havia metido um soco no filho de um rico, e aquilo era imperdoável.
Pelo menos eu tinha um Bagon ao meu lado. Não sei dizer se isto era bom na mente de uma criança, mas deste então o dragãozinho tornou-se minha arca dourada, um objeto que jamais poderia ser encontrado. A mente das crianças, sempre tão criativa...

— Agora que tu comentou sobre o Salamence, é tão estranho pensar que começou sua jornada como um treinador foragido, não é? Lembra, lembra? Você vivia chorando de noite falando que a polícia ia te pegar! Hah, hah, hah... — disse Glenn.
— Foragido? Naqueles tempos aquilo era uma brincadeira, mas atualmente roubar um Pokémon me levaria para o juizado de menores. Os tempos mudaram... E esse sequestro envolvendo o Luke? Não podemos nem mais deixar os filhos saírem em sua jornada, antigamente esse tipo de coisa não acontecia...
— Certamente, Walter. Esse escândalo foi de chocar qualquer um, percebemos que o mundo já não é tão pacífico quanto antigamente... — comentou Marshall.
— Mas agora tu é a lei cara, pode fazer o que quiser. — assentiu Glenn.
— A justiça é falha, meu amigo. Nunca acreditei nela. São humanos que as escrevem, então por que não hão de fazer por benefício próprio? O Walter não pode mais descansar e deixar seus filhos seguirem seus sonhos em uma aventura, corremos o risco deles serem sequestrados ou qualquer outro ato disseminado que interfira nessa jornada.
— Marshall, pode me fazer um favor? Mantenha o olho fixo nos jovens. Estarei indo vê-los na sexta-feira, estou mais preocupado do que nunca... Como todo pai sei que o certo a se fazer é não pensar que esses riscos não existem, pois eles sempre estão aí presentes.

A Justiça é Falha

— Foge, cara. O filho do duque vai contar tudo para o papai dele, e voltar para descontar a raiva em ti! — alertou Glenn preocupado.
— Não fujo sem a Melyssa! — retruquei.
Melyssa já sabia de tudo que ocorrera até então, fofoca em cidade pequena resulta nisso. Quando nos aproximamos de sua casa com o dragãozinho ferido em mãos pude vê-la com uma mala pronta e algumas pokébolas consigo. Ela entregou aqueles caríssimos dispositivos em minhas mãos e disse:
— Foge, Waltinho. — naquela época a coragem não caminhava com os humildes residentes de Twinleaf, não se podia resolver problemas em batalhas Pokémon. O mais influente sempre ganhava. — Comece uma jornada e explore o mundo ao lado deste Bagon! Torne-se o melhor!
— Não vou sem você, tenho medo de te perder.
— Você tem medo disso?
— Não tenho medo nem de apanhar, só não quero perder você.
— Bobinho, estás tremendo! Faz o seguinte, me espera ao amanhecer. Vou em viagem com vocês dois, já tenho um inicial mesmo. Irei tornar-me coordenadora!
Se naquele tempo eu pudesse dizer o quão simples era chegar em casa e afirmar com orgulho: "Mãe, estou deixando tudo para virar um Mestre Pokémon!" vocês provavelmente ficariam surpresos. São tempos que não voltam mais, hoje temos de nos preocupar com criminosos e pessoas de má índole até mesmo no caminho de crescimento de nossos filhos. Por mais que a polícia hoje seja assumida por um grande amigo meu, creio que nem mesmo ele seja capaz de lidar com tanta violência que anda pelas ruas estreitas da cidade.
E por falar nele, Marshall era amigo direto de Melyssa. Amigos até demais por assim dizer, ele era quase que o segurança mirim de minha esposa na infância. Filho de policiais, não acreditava na justiça. Admito ter certo descontentamento com o Marshall porque sempre achei que ele roubaria a Melyssa de mim, pensamentos bobos de crianças, mas no fim, Melyssa o tratava mais como um protegido do que como um amante. Marshall era apenas quieto e centrado demais, e minha esposa sempre preferiu algo mais agitado nos homens. Parando para analisar, acredito que eu precisaria voltar a animar-me como antigamente, já não tenho a mesma disposição dos tempos antigos... Certo dia eu o encarei de frente e afirmei com prontidão:
— Se eu for campeão, você vai ser o chefe da minha elite! — disse eu.
— Você nunca vai ser campeão. — ria Marshall.
— Quando eu me tornar, então prometes entrar?
— Não participo de batalhas.
Ele era um rapaz complicado, mas quando ganhei sua confiança você adquiri uma sombra que nunca mais se dispersou. Admito que o Marshall nunca foi voltado para o lado de batalhas, mas desde que começou a seguir jornada com aquele Murkrow tornou-se um treinador mais capacitado do que tantos outros que levavam a tarefa a sério. Quando me tornei campeão não sei se ele ainda lembrava-se da promessa, mas acredito que eu tenha o obrigado a unir-se à equipe... Marshall aceitou sem relutar, lembro-me de que Glenn ficou furioso pelo fato de que eu não o escalei como líder da equipe, mas por muitos anos ele provou porque era o melhor. E continua sendo.
Marshall ficou ao meu lado até o fim, defendeu as quatro casas até o último momento, e hoje é simplesmente o cérebro por trás da polícia. Lembro-me que ele mesmo não acreditava na justiça quando criança... Martha é a irmã adotiva de Melyssa, atualmente ela está envolvida com uma facção de cientistas mirabolantes, e ele permanece ajudando-a para que os Galactics não recebam essa culpa por parte do governo que não está nada satisfeito com seus ideais. Essa equipe de lunáticos nunca representaram uma ameaça, acredito que a pequena Martha sempre tenha tido estes sonhos de mudar o mundo, e imagino aonde ela chegaria com esses ideais hoje...
Bem, não culpo o Marshall por isso, ajudar uma facção que quer construir um novo mundo não deixa de ser, de certo, errado. Mas foi a meu pedido, hoje vejo como a justiça é falha. É... Os tempos mudaram.

Walter já tomava os últimos goles de seu vinho, e aos poucos a adega ia trazendo aquela sensação despedida. O clima era estável, aos poucos podia-se ouvir claramente que o hotel diminuía seu movimento e os visitantes já adentravam seus cômodos para uma noite de sonhos, mas não havia horário para os reis, eram eles quem delimitavam o tempo. Os aperitivos já iam se esgotando, o charuto já havia sido inteiramente tragado, e as garrafas de vinho permaneciam sobre a mesa demonstrando toda a sua glória. Glenn já se debruçava sobre o ombro de Marshall rindo ainda mais alto do que antes.
— Diga aí, tio Waltão! Já está ficando bêbado, já está?!!
— É você quem está, Glenn. — respondeu ele com uma risada. Era difícil derrubar o campeão em termos de bebida, seria necessário o dobro daquilo para que ele ficasse realmente animado.
Mas Melyssa já se soltava, e o que começou como um jantar cordial se tornava uma confraternização de velhos amigos que narravam histórias e lembranças de seu passado.
— Poxa, Waltão! E aquele dia que eu estava roncando feito um Tepig e você jogou pimenta na minha boca e eu saí correndo pelado pela casa? Seu desgraçado, miserável, vou acabar com você! Eu te amo, cara...
— Ninguém mandou você tentar me vencer em uma competição de bebida. Enquanto você tomava cinco goladas eu jogava o meu na grama do lado. E para melhorar você foi dormir e roncar feito um Emboar velho. Por Arceus, aquilo passou longe de ser um Tepig! — disse Walter, fazendo os outros caírem na risada.
Glenn coçou a cabeça enquanto ria, e apesar de estar um pouco fora de si não deixou de comentar:
— Ai, ai... Cada coisa bizarra... — comentou o rapper, fazendo um longo silêncio pairar por alguns segundos — Na verdade eu tinha algo importante pra falar contigo... Eu estava quase esquecendo. Seu filho tem aquela doença, sabe? Lembra da mensagem que te mandei?
— Lembro-me, lembro-me muito bem. Já conversei com a Melyssa sobre isso, ela pediu para que interrompêssemos a viagem do Luke, mas ele ficaria constrangido se o fizéssemos.
Melyssa atentou-se à conversa, e logo a interrompeu.
— Mas isso pode piorar, querido... E se ele não tiver alguém para ajudá-lo como eu o ajudei?
— Você pode ter me ajudado naquele tempo, Melyssa, mas o Luke tem ao Lukas, e eles precisam aprender a corrigir seus erros sozinhos.
Melyssa encostou a cabeça no ombro do marido, voltando-se para Marshall e Glenn e fazendo um pedido com a voz suave:
— Peço só para que vocês fiquem de olho neles. Sabe, isso pode piorar se ele tiver mais ilusões de superioridade, e conhecendo o seu tipo de sangue, ele não vai parar enquanto não achar alguém melhor do que ele.

Ilusões de Superioridade

Melyssa, a mulher de minha vida, minha melhor amiga, e também minha salvadora. Reli uma mensagem de Glenn há algumas semanas e acabei por lembrar-me daquele único momento em que ela levantou a mão contra mim, e o fez bem. Recebi um tapa naquele dia que sinto a vermelhidão das marcas mesmo após vinte e cinco anos, ou então isso seja apenas um pouco do batom dos beijos que recebo de minha esposa. Sei que a amo, amo incondicionalmente. Não apenas como mulher, mas como amiga. Melyssa me salvou de uma grave doença antes que ela se agravasse.
— Eu sou o melhor treinador do mundo, ainda não fui derrotado por ninguém. — cheguei a afirmar isso um dia quando eu era mais novo, e Melyssa parecia não ter gostado nada daquilo.
— Isso não explica o fato de você ter a permissão de humilhar quem o derrota. — ela me repreendeu uma única vez, mas eu não quis dar ouvidos e respondi:
— Eu sou invencível!
Ela me deu um tapa, tão forte, mas tão forte, que eu ainda posso sentir sua mão em meu rosto. Vale reforçar. Devo enfatizar que aquele tapa salvou a minha vida.
— Você não é mais forte do que eu, e por isso é bom parar com essa mania ridícula de achar-se o centro do universo. Não quero mais vê-lo agir assim, ouviu bem?
Foi a minha primeira derrota de minha jornada, mas também, aquela estranha doença nunca mais se evidenciou em mim... Muito tempo depois fui descobrir que se tratava de algo conhecido como Megalomania, e por força do destino, meu filho também a herdou de mim. Me pergunto se alguém seria capaz de curá-lo, confio na capacidade dele como um treinador muito poderoso, mas será que ele encontraria uma garota com a mesma força e determinação que sua mãe? Temo também pelo Lukas, não sei se isso se evidenciaria nele, mas creio que o Luke seja mais propício. Se eu não tivesse levado aquela tapa, temo imaginar onde eu poderia ter chegado.

Infelizmente a reunião de amigos já chegava ao fim, mas certametne teria se prolongado se todos eles não tivessem de trabalhar cedo na manhã seguinte. Já passava das horas da manhã, quem diria que o tempo passara voando! Marshall e Melyssa ajudaram Glenn e levar os pratos e talheres para a cozinha do hotel, tudo estava no silêncio total, estavam acordados apenas os atendentes do balcão, alguns empregados que faziam a faxina, e as dezenas de seguranças do lado de fora. Eles se despediram com um abraço terno e caloroso, um por um, Walter foi em direção de Glenn e após apertar-lhe a mão abraçou o velho amigo por tudo que ele fez.
— Vocês sabem que sempre serão bem vindos em minha casa. — disse Glenn.
— E pensar que éramos eu e meu marido que faziam as reuniões aos domingos! Nós deveríamos voltar a fazê-las, mas para isso vou querer alguns sobrinhos de vocês dois, precisamos aumentar a família. — disse Melyssa com uma risada.
— Ihh, isso aí vai ter que depender do tio Marshall. Eu estou de boa! — assentiu Glenn, erguendo os braços enquanto o homem ria do outro lado e demonstrava não ter interesse naquilo da mesma maneira.
Marshall cumprimentou-os cordialmente e disse estar voltando para Canalave para certificar-se de que Luke e Lukas passavam bem no hospital. Walter prometeu comparecer antes do fim de semana para fazer-lhes uma surpresa, e não deixaria de faltar a seu compromisso. O homem saiu do hotel com a mesma pompa de quando entrara, e as pessoas ao seu redor pareciam fazer uma reverência. Subiu em seu Salamance e partiu para sua casa após um dia longo e cansativo.
Ao chegarem em Twinleaf puderam deparar-se com a pureza e a calmaria da cidade, certamente aquilo os confortava, e voltar para sua cidade natal depois de tantos anos era uma enorme dádiva. Walter abriu a porta e Salamence saiu atropelando tudo na sala para deitar-se no sofá como de costume. Walter olhou para os armários ainda empoeirados e lembrou-se de que sua missão matinal das quartas devia ser cumprida, mas Melyssa não o mandou arrumar tudo, pois ambos estavam exaustos e precisavam de descanso.
— Bem, e já que estamos acordados mesmo... Termine suas coisas logo, mas estarei esperando por você lá em cima. — disse ela com uma voz sedutora.
Walter riu e confirmou com um sorriso enquanto sua esposa dava-lhe um beijo suave no rosto barbudo. O homem logo começou a limpar a bancada e levantar as mesas que seu Salamance havia destruído, o dragão agora roncava como se nunca tivesse dormido na vida, e Walter inclusive teve vontade de jogar um pouco de pimenta em sua boca para saber se ele teria a mesma reação de Glenn. O homem tinha um sorriso espontâneo em seu rosto, e enquanto limpava tudo encontrou próximo à uma mesinha um único quadro que jazia caído. E então, um último pensamento lhe passou naquela noite:

Vamos ao Final

Quando passei o pano por cima da mesa notei aquele velho retrato adornado em molduras simples de madeira. A imagem retratava cinco jovens marcados pela juventude, todos coloridos em tonalidades de sépia, mas rejuvenescidos pela eternidade. Toda minha infância presa numa simples imagem, que se resumia aos meus dias de diversão ao lado de amigos ainda próximos e de pessoas que para sempre marcariam minha vida. É uma época que não volta mais.
Bons tempos. — encontrei-me sussurrando essas palavras sibilando um sorriso sereno em meu rosto. Como aquela simples imagem poderia guardar tantas recordações? Com apenas um olhar fui capaz de ser levado há vinte e cinco anos, quando era eu quem iniciava minha própria aventura repleta de intrigas e desafios.
Algo que pude reparar em todos esses anos como campeão: A vida é boa, mas não acaba com o fim aparente. Alguns quando perdem tudo desistem, pensam em se matar, deixam tudo para trás. Pensei como seria agora que eu havia perdido tudo, precisei me mudar de Sunyshore e recomeçar do zero, mas não desisti. Eu tinha meus amigos de infância, tinha uma esposa linda, dois filhos para cuidar. Quando voltei para Twinleaf foi como um novo começo, mas agora eu não precisava fugir de um sujeitinho chato da vizinhança. Eu ainda era respeitado, pois quem é rei nunca perde a majestade.
O que eu percebi que tinha agora era outro sonho, apenas isso: Viver. Viver intensamente. Ver meus filhos crescerem, ver as gerações passarem e cumprirem seus objetivos no ciclo eterno da vida, descobrir novas tecnologias, iniciar novas gerações, tudo. Quero ficar ao lado de minha esposa, viver ao lado dela cada segundo. Ver meus filhos crescerem fortes e saudáveis. É preciso sentir para descrever. E agora, aquele retrato... Ele pode trazer memórias maravilhosas, mas, sinceramente, não preciso dele. Elas vivem comigo, em meu coração, e o legado do pequeno fugitivo de boina ficou para sempre marcado em minha geração. O verdadeiro campeão é aquele que mantém seu legado eterno.

 

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  1. Sempre surpreendendo!

    Nossa adorei essa reunião da ex-elite.Seus dialogos sempre impecaveis trazem a melhor sensação para o leitor.

    Quem diria que o grande Walter era um pobre garoto que juntava dinehiro para compra um singela pokeball e apaixonado por uma garota de nivel social elevado ao seu.

    Com essas pequenas lembranças comecei a me apaixonar pela Melyssa, o jeito dele é curta e grossa, adorei!

    — Poxa, Melyssinha. Eu encomendei esses especialmente das ilhas paradisíacas no Arquipélago Laranja! Eles custaram os olhos da cara! — argumentou Glenn.
    — Fique quieto antes que eu apegue o seu também.
    — Sim, senhora.

    kkkkk ri muito msm.Enfim, sem muito o que comentar, so esprando ate semana que vem para ver o encontro do Walter com seus filhos e sua futura nora.

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  2. Top demais esse epi Canas, é bom ver o que aconteceu com os maiores treinadores de todas as eras, eles simplesmente são épicos. Mas tem algo me deixando encucado, não foi o foco principal do capítulo mas chamou minha atenção - Erick - Ele sem dúvidas vai ter uma participação grande nessa história e eu decidi levantar algumas hipóteses sobre isso:
    1- Erick entrou para os Galatics e quer governar o mundo capturando os lendários.
    2- Erick está sempre treinando junto com o líder do 8° Ginásio(que me fugiu o nome agora) por isso, é praticamente impossível passar dele
    3- Erick conseguiu enfrentar Arceus e este por ter considerado o mesmo um adversário a altura, o concedeu uma dimensão própria onde pode treinar e se tornar cada vez mais forte

    Bem, a ultima eh bem improvável mas veio na minha cabeça entao . ..
    Parabéns pelo otimo cap

    Ps. Sou o Chaios mas to c preguiça de loggar

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  3. Muito bom, eu ri em praticamente todo o capitulo, gostei da Melyssa, do Marshall, do Glenn e do Salamence do Walter (eu lembrei do meu, vôo com ele para todo o comtinente, as veses eu fico com dó, ele já passou por Kanto, Johto, Sinnoh e atualmente está em Unova). Mas eu tenho uma duvida, vc vai fazer mais especiais da elite, ou vc colocou "0" pq o outro especial começou do "1"?

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  4. Diga aí, companheiros. Olha Chaios, você mencionou um assunto bem importante mesmo. Um capítulo especial como esse da elite serve exatamente para mencionar coisas muito pequenas além do andamento da história, são pequenos fatos e acontecimentos que mais tarde se interligarão com a história central e são muito importantes para aprendermos a respeitar mais um determinado personagem. Por Arceus, quanto tempo fazia que o Walter não aparecia aqui no blog? 1 ano já? É bom para o pessoal mais novo conhecê-los melhor, o ex-campeão não pode permanecer vivo apenas na memória dos mais velhos, ele é uma lenda!

    O Erick mesmo foi um dos pontos mais importantes que vocês notaram, e as teorias do Chios a respeito dele me deixaram muito surpreso. Posso garantir que ele ainda será muito importante na fanfiction, muito importante mesmo. Não posso assegurar que as teorias estão certas ou erradas, mas acredito que agora esse garoto já tenha se fixado na mente de vocês, e veremos como ele andou nesses quase 10 anos que esteve afastado. Algo muito grande deve ter acontecido com ele, algo muito... importante.

    E só respondendo a pergunta do meu companheiro Venusaur Jr. Na verdade o Ex-Elite 4 foi o primeiro especial do blog, acho que o primeiro "grande" por assim dizer. Quando eu o terminei ele recebeu o Oscar de melhor especial da Saga Pérola, então posso dizer que tudo envolvendo esses caras traz coisas boas. A ideia de trazer um Parte 0 foi para não sepultar o especial nas ruínas do tempo, esse pequeno capítulo da infância do Walter falava basicamente da mesma coisa, e criar um novo especial só para a "Infância de Walter" seria muito desnecessário. Acabei juntando o útil ao agradável, fiz a Parte 0 para mostrar que tudo isso aconteceu tem relação com aquele especial, pois não deixa de ser uma história sobre a Elite. A única diferença é esse capítulo especial está diretamente ligado aos capítulos atuais como vocês puderam ver, tanto que ele ocorre como se passasse um ou dois dias depois da destruição da Ilha de Ferro. Pular um capítulo como esse é como tirar todo o recheio do bolo e ainda derrubar o morango. Se estou colocando a Ex-Elite em um momento como esse, então quer dizer que o próximo Arco terá muito influência desses caras. A verdadeira batalha está para começar!

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  5. Agora que você falou da "infancia do Walter" eu lembrei de uma enquete que você perguntou qual especial nós gostariamos de ler, eu votei no especial do Riley (se me lembro bem foi pouco depois da 1º aparição dele) mas o vencedor foi "A Infancia de Walter", foi legal ter interligado esse especial com a história central (rimô)!!!

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  6. Oh, sim, é bom ver que vocês se lembram disso! Fui voltando alguns capítulos e procurando o resultado daquela enquete, a Infância de Walter foi a vencedora, e desde aquela época e vinha planejando esse especial, acredita? EU fiz a enquete em Julho, e apenas em Dezembro consegui lançar o especial. As outras sugestões de especiais era sobre outras guildas como do Lucario e do Arcanine, e esse eu também cumpri. Tinha também sobre a Parte 4 e 5 do Sadness Orchestra, e algumas informações sobre os Red Fortress que puderam ser vistas no decorrer de alguns episódios.

    Daquelas alternativas falta eu cumprir apenas dois: O Stone Flower 2, que provavelmente farei algo em conjunto com o Shadow Zangoose; e esse Especial do Riley, que eu também pretendo trazer numa parceria com a Leeca. É engraçado ver como apenas tanto tempo depois pude cumprir com tudo, não é? Mas o importante é que eu não falhei com vocês e consegui tornar reais todos meus planos! Esse especial do Riley na verdade será incluso em outro especial, chamado Support Conversation. Em breve vocês saberão mais sobre ele, quero ver se consigo lançá-lo anda na próxima semana e digo que muita gente vai curtir, especialmente as garotas. E digo que no Capítulo 61 ele também terá uma rápida aparição na história! A longa espera valeu a pena, não?

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  7. Já que você está falando que a Ex-Elite terá aparições, eu tenho (mais algumas) hipóteses.
    Após algo(ainda não sei o que vai ser) acontecer, a Ex-Elite verá que nunca deveria ter saído de lá, logo eles juntarão a galera das antigas pra bater de frente com a atual, mas espera? e o lugar da Selena? Talvez a equipe do melhor que já vai estar totalmente evoluída, e com os 8 ginásios derrotados, vai suprir a falta da dama de ferro. Isso resultaria num embate perfeito, os dois que lutam juntos enfrentarão o Glenn e Marshall, Walter enfrentaria algum outro e deixaria Luke para enfrentar o Ike, e confrontar a "unbeatable" Serpente de Metal. Mas quem poderia enfrentar alguem tão forte? Aerus talvez? Não, o Aerus não enfrentaria sua amada, O senhor das sombras, o Pseudo-Lendário imparável, aquele sem sentimentos: Vista.
    Enfim, se realmente for algo assim, acho que seriia muuuuuuito foda msm.


    Ps: Vc deve ta pensando agora, "que cara mais chato, com essas teorias improváveis, Ah como eu tenho leitores idiotas"
    Sou o Chaios denovo ^^

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  8. Canas, Canas... Por qual motivo você nasceu com tanta criatividade, seu egoísta! Deixe um pouco pros outros. O.K, tô brincando, seu pinguim desengonçado. (Oia, arrumei outro apelido! O/)

    Concordo com o Mano lá de cima! Tu deve estar achando que somos um bando de babuínos bobocas balbuciando em bando.

    Já achei um jeito de fazer tu me responder de novo: Vou revelar se sou menino ou menina! E a resposta é... Sou uma garota! (Mas por fora. Por dentro você pode ver que sou basicamente um menino.) Sou que nem a Tih: Pertence ao lado (ECA!) Rosa da força, mas é durona que só! E eu gosto mais do azul, se você se pergunta.

    Me surpreendendo como sempre, Canas-kun! (Oia a intimidade...) Continue assim... Se não vou mandar a Titih dar um terremoto que vai te jogar pra os fundilhos dos planetas dos fracassados, seu cachorro possuído.

    Eu sei, sou fera em dar apelidos. E como sempre, estou só brincando, morou? É tudo palhaçada minha, não leve a sério.

    Sayonara!

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  9. Olha só Júlia, será mesmo que eu só respondo as garotas aqui do blog? kkkkkkkkkkk Brincadeira, acho que fiquei muito tempo só com leitores homens, daí qualquer mulher a gente fica meio que feito urubu em cima kk Bem, não foi uma comparação boa, digamos mais que seja um carinho especial, pois mulheres devem ser tratadas como damas! Acho que ainda tenho um pouco dos ideais do Leafeon kk O engraçado é que de uns tempos para cá surgiram várias leitoras mulheres, e isso para mim é muito bom, uma verdadeira conquista! Creio que seja por causa dos Fire Tales, eu tenho feito alguns tipos de enredo que as garotas gostam com ajuda de minhas irmãs, agora só espero manter essas leitoras, acho que elas têm uma visão diferente das coisas, embora sejam bem difíceis de se conquistar... Mas tá okay, foi minha falha, como não pude notar antes? Você é quem ficava me confundindo!!! kkkkk E quais serão os apelidos novos da próxima vez? Já podemos montar uma lista com os nomes estranhos daqui kkk

    Ai, ai... E a propósito Chaos, você tem bolado teorias muito legais, você sai do óbvio, e exatamente por sair do óbvio que muitas vezes você chegou perto de coisas que já pensei em fazer. Serião, até eu me surpreendi quando você chegou a mencionar alguns planos que eu tinha mas acabei deixando de lado. Todas foram ideias muito interessantes, desde a Ex-Elite enfrentar a Elite atual até a suposta batalha do Luke contra o Ike na Liga Pokémon. Isso já é garantido, em algum momento da aventura o Luke VAI ter que enfrentar a Titânia. Não é possível dizer quem, como, ou quando será, mas creio que poucos sejam capazes de fazer frente à serpente de metal. Sua descrição do Vista até me lembrou do Rei Bruxo em sua entrada triunfal nos livros: Aquele que dizem que nenhum homem vivo pode matar. Quando juntar a galerinha do Luke pra bater em alguém aí o bicho vai pegar kkkkkk Ahh meu rapaz, e eu nunca acharia que tenho leitores idiotas, digo apenas diferentes! E é exatamente essa diferença que me cativa, essa exclusividade e autenticidade que torna Sinnoh um lugar tão importante para mim. Eu mesmo não bato bem da cabeça, então creio que seja preciso uma pitada de loucura para entender os loucos! (:

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  10. canas estou gostando de todos os personagens desta ex-elite! tenho certeza que essa elite vai continuar nas mãos de luke lukas e dawn e quem sabe os tempos de gloria voltaram para sinnoh. o talento de toda a ex-elite reina nesses três.

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  11. adorei o especial!
    Canas vc é um escritor incrivel(disso sabemos)mas o k aconteceria se o luke perdesse no ultimo momento(sabe pra kela cobra de titanio k nos abandonou e k TERA k voltar)teria k enfrentar tudo d novo(k nem os jogos)?
    ai vai tudo d novo.AI vai demorar pra tih voltar
    WV

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  12. Aproposito a melysa é dmais!tanto como mae fodastica e mulher k sabe por medo e ordem!(não rebaixei o nivel do walter por k ele era um ex-elite e pq tem um salamence!mesmo k ele adore o sofa e seja gordinho ele ainda é fodastico)
    WV

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