Notas do Autor (Capítulo 102)

UÉ. O QUE É ISSO? Sinnoh 2.0 é real?
É, digamos que sim. Não se trata de uma história inteiramente nova, não vai ter filho de personagem que nem Boruto, não vai ter Liga Pokémon, ginásio e nem e ilhas afundando, mas vai ser maneiro.

Se você caiu aqui de paraquedas e voltou a acompanhar minhas postagens, estou retornando com uma série de capítulos que contarão um pouco mais das aventuras de Luke e Lukas pela região de Sinnoh. 

"Ain, Canas, mas já deu, sua história já acabou, larga disso".
É, pode ser até verdade, não restou muito para eu contar depois de quase 250 capítulos escritos nessa fic... Mas a questão é que essa história sempre me fez feliz pra caralho. Eu voltei a escrever não para ter milhões de comentários e acessos, estou aqui para fazer uma homenagem a tudo que viemos construindo na Aliança Aventuras, e em especial ao meu amigo Dento que é o responsável por fazer tudo isso acontecer.

Alguns podem ter estranhado que o Capítulo 102 começa com protagonistas diferentes: Amy e Ethan, do Aventuras em Johto. A história em si não será sobre eles, mas essa é a primeira vez que estaremos escrevendo algo grande interligando nossos personagens (quer dizer, isso também rolou com o Aventuras em Hoenn no especial o Arco dos Regis lá em 2013, mas os capítulos foram apagados).

Eu tenho um carinho enorme por esse capítulo, porque ele surgiu das férias de 2018 quando o Dento passou uns dias em casa. É maravilhoso poder falar de fanfics com alguém que acompanhou tudo que fizemos nos últimos 8 ou 9 anos, o Dento não é só o Presidente do nosso time, eu diria que ele é o fã Nº 1 da Aliança Aventuras. Ele lê todas as histórias porque gosta demais disso. É uma parte do nosso passado que olhamos para trás cheios de saudade, e mesmo com obrigações, ainda voltamos para cá como se fosse um santuário sagrado, um Shrine na Ilex Forest que nos leva em uma verdadeira viagem no tempo para 2011 quando tínhamos menos preocupações e a vida de adolescente era bem diferente.

O QUE ESPERAR?

Sinnoh 2.0 veio como aquele especial de Natal que você não espera, mas acaba sendo uma grata surpresa. Não se preocupe, não será nada longo, coisa de 4 ou 5 episódios, só para matar a saudade mesmo. Você pode esperar publicações ocasionais aqui no blog durante o ano de 2020, vou me esforçar para não dar intervalos longos demais.

Um de meus principais intuitos aqui é fechar alguns pontos que sempre tive vontade, e eis aqui um resuminho do que poderão encontrar:
  • Dar uma importância maior para a Dawn (SERÁ QUE CONSIGO?);
  • Explorar a Resort Area e a Stark Mountain no norte de Sinnoh (EU AMO ESSA ÁREA!);
  • Mostrar que raios aconteceu com o Petrel, um dos executivos dos Rockets (QUEM?) e só para constar, ele está preso desde o Capítulo 21;
  • Explicar o que aconteceu com o Looker, o Observador (não sei por que, mas muita gente gostava dele);
  • Mostrar umas Mega Evolutions (MEGA GARCHOMP!); 
  • Trazer de volta um Pokémon que foi esquecido (APOSTO QUE SABEM QUEM!);
  • Mais cenas da Cynthia porque ela é uma DIVA.
Eu sempre disse a mim mesmo a seguinte frase: "Eu escreveria uma história inteira para um leitor que a amasse de verdade", então chegou a hora de cumprir com minha palavra. Aqui estamos nós. Escrevendo de novo.

Ninguém sabe até quando os Blogs vão durar, ninguém sabe até quando nossos amigos terão vontade de escrever e falar sobre Pokémon e fanfics, então devemos aproveitar cada quando dia enquanto ainda temos tudo isso em nossas mãos, porque eu gosto demais desse lugar. Sempre vai ser minha casa.

Capítulo 102

Amy acordou com uma mão em sua cara. Precisou de apenas alguns segundos para se localizar no quarto escuro e abafado, as frestas de luz que passavam por baixo das cortinas indicavam que já havia amanhecido. Ela se manteve em silêncio para escutar se a pessoa na cama de cima estava roncando ou só respirando baixinho, saberia dizer se ele estivesse fingindo; tentou se levantar em silêncio para ir ao banheiro sem acordá-lo, mas não conseguiu passar despercebida.
— Bom dia, meu bem — ela ouviu Ethan murmurar em sua confortável cama de solteiro, ainda de olhos fechados.
Seu passado como ladra estaria decepcionado com ela. Já não conseguia mais ser furtiva como antes — ou, pelo menos, nunca mais precisara colocar suas habilidades em prática. Amy sorriu para ele e soprou um beijo no ar antes de entrar no toalete onde arrancou a camisola e ligou o chuveiro para uma ducha rápida. Começou a pentear os cabelos emaranhados e se encarou no espelho. Sua escova de dente garantia um espaço no armário, as roupas sujas já compartilhavam o mesmo cesto e a toalha de banho com estampa de Corsolas estava secando ao lado da dele.
Há quanto tempo estavam juntos? Os anos se passaram e ela mal percebera.
Ao sair do banheiro, Ethan já estava de pé abrindo a janela para ventilar. Os ventos em New Bark eram frequentes e sopravam logo cedo, como se limpassem as preocupações e trouxessem a perspectiva de que um novo dia começara.
— E aí, pijamão — disse Amy ao arremessar uma almofada na cara dele. — O que temos pra hoje?
Ethan se esquivou do projétil aéreo que acertou bem na cara do Typhlosion que roncava baixinho em cima de um sofá que parecia minúsculo debaixo de todo aquele peso. O Pokémon soltou uma baforada quente e virou o rosto na tentativa de conter a luminosidade que entrava.
— Sei lá, a mesma coisa de sempre. Quer descer pra tomar o café da manhã?
Se lhe perguntassem, a vida em New Bark com Ethan era muito boa. Tudo bem que já fazia alguns anos que ela dormia num colchão do lado da cama, isso porque ninguém naquela casa tomava a iniciativa de ir até Violet para escolher uma cama de casal decente onde os dois coubessem sem que uma guerra precisasse ser travada, mas em dias frios gostava de subir quietinha e se esgueirar por debaixo do cobertor dele para dormirem juntinhos.
A casa era pequena e aconchegante, o mais próximo que Amy jamais tivera de chamar algo de “lar”. Dona Marieta a recebera de muito bom grado desde que os dois haviam começado a namorar, Amy concluiu que todas as piadas sobre sogras se provavam falsas — a mãe de Ethan cozinhava para eles, assistia filmes junto, emprestava seu carro quando necessário e cuidava de Amy como se fosse sua própria filha; às vezes as duas passavam tanto tempo juntas que Ethan se sentia livre para ir até o jardim com seu Sandslash ao invés de ficar e ouvir as fofocas.
— Estou saindo para ir à feira comprar legumes para a semana, depois preciso passar no banco e pagar uns boletos, aí vou na farmácia rapidinho, depois estou no dentista e volto antes das cinco. Precisa de alguma coisa, Amy? — perguntou Marieta às pressas com as chaves na mão. As duas puderam ouvir Ethan gritar arroz com salsicha e ovo do quintal, mesmo que soubesse que sua mãe iria ignorá-lo em prol da opinião da eterna “visita”.
— Não precisa de nada, dona Marieta! Sei que tudo que você cozinhar será maravilhoso, mas deixa que eu preparo hoje, então você não precisa voltar na correria.
— Ah, já falei pra deixar dessa coisa de “dona” — respondeu a senhora com ar jovial. Mesmo estando acordada desde as seis, ela tinha mais energia do que seu próprio filho. — Bem, então deixo o almoço por conta de vocês! E vê se não deixa esse menino ficar aí só sentado te olhando, coloca ele pra trabalhar também. Tomem conta de tudo direitinho, hein?
Assim que Marieta deixou a casa, Amy se juntou ao namorado que balançava na rede sem precisar fazer força devido ao vento — o que não amenizava a sensação térmica, os últimos dias em Johto vinham sendo mais quentes que o comum. Ela parou ao lado dele segurando seu suco de laranja e o chutou por baixo da rede.
— Dá um espaço aí — ordenou.
— Nem — Ethan resmungou, ainda sonolento.
Amy puxou o boné dele para baixo e, antes que pudesse revidar, esparramou-se em seu colo até que os dois se ajustassem de maneira confortável enquanto balançavam lentamente.
— Sai pra lá, a rede vai arrebentar com o peso de dois! — falou Ethan.
— Vai nada — respondeu Amy. — Sei que você faria de tudo para ficar coladinho em mim.
Ethan riu, afinal, ela o conhecia bem até demais. Os dois mal haviam acordado e já estavam deitados na rede prestes a adormecer, a vida dos cidadãos em New Bark era assim. Há alguns anos, a cidade fora palco dos holofotes por servir como porta de entrada para muitos treinadores que começavam suas jornadas, pois era onde se localizava o laboratório do Professor Elm. Ethan olhou para a construção vizinha e sorriu, embarcando em lembranças de sua longa jornada por Johto ao lado de seus grandes amigos.
— Saudades do Forrest — murmurou Ethan, imerso em pensamentos.
— Pega um navio e vai visitá-lo, ué — respondeu Amy com uma risada. Conhecia bem demais o namorado para saber que sua preguiça o impediria de embarcar em qualquer viagem.
— Eu não vou nem na cozinha preparar um suco para mim, quanto menos viajar para Kanto.
— Você já viajou até para Hoenn onde se aprimorou lutando na Batalha da Fronteira, e olha que nunca tinha tentado nada parecido — disse Amy com um sorriso. — Admita, meu bem, vez ou outra você recebe um surto de inspiração divina que o permite embarcar em uma aventura inesperada pelo mundo. Já percebeu que toda vez que você sai de sua zona de conforto, coisas incríveis acontecem?
— Tipo te pedir em namoro?
— Claro, essa foi a melhor de todas — respondeu Amy com uma risada.
— Pensar em Hoenn me faz lembrar como eu sou um fracasso.
— Ai, não começa. Você é um treinador incrível e sabe disso.
— É muito convincente ouvir isso de alguém que já foi campeã em Kanto.
— É só levantar e tentar mais uma vez. Quando você menos esperar, vai surgir outra oportunidade de realizar uma looonga jornada pelo mundo com seus Pokémon. E eu estarei do seu ladinho — disse Amy, saltando para a rede e esticando os braços para ele. — Agora vem me ajudar porque eu não cozinho de graça, não.
Quando entrava na cozinha, Amy tinha de se certificar de manter um olho no rapaz. Era comum Ethan esquecer algum tempero — o sal no arroz, o adoçante no café ou a travessa de batatas gratinadas no forno —, mas ele se esforçava.
Desde que concluíra sua jornada por Johto, Ethan era ovacionado pelas ruas de New Bark, os cidadãos o consideravam um verdadeiro prodígio que chegara onde nenhum outro habitante local conseguira, mas Amy percebia que faltava algo. Desejava de todo coração encontrar alguma forma de mandá-lo em uma aventura nova onde pudesse reconquistar o brilho nos olhos, mas como? Tinham uma boa vida na cidade onde eram raras as surpresas e a rotina os abraçava como um velho conhecido.
Mas o destino — sempre cheio de suas surpresas e peripécias — sabe quando agir.
O almoço estava quase saindo quando a campainha tocou. Amy, vestida com o avental emprestado de Marieta escrito “Melhor Mãe”, estava com as mãos ocupadas e não pôde ir atender.
— Pode ver quem é? — ela perguntou e Ethan fez que sim.
Amy cantarolava uma cantiga alegre na cozinha quando ouviu o rapaz abrir a porta, mas ela foi fechada com tanta força que a estrutura da casa chegou a tremer. Pouco depois, via-se Ethan correr desesperado pela cozinha, afogando-se em suas próprias palavras.
— Amy, Amy! Tem um cara lá fora, você precisa se esconder!
— Do que você tá falando? — ela perguntou.
— Eles voltaram — exclamou Ethan, de olhos arregalados e tremendo dos pés à cabeça. — Os Rockets voltaram!
Foi a vez dela quase deixar a travessa de vidro cair no chão. A palavra “Rocket” ainda mexia com seu interior, muitas experiências traumatizantes e pontas soltas de seu passado voltaram à tona. Havia anos que ninguém ouvia falar das atividades dos criminosos, como a teriam localizado? Era como um fantasma que sempre voltava para assombrá-la, mas um choro de criança pareceu despertar-lhe do transe. Os dois correram para a sala de visitas, Amy se esgueirou pelo olho mágico da porta e viu um homem tentando acalmar uma garotinha de colo.
— Executivo Proton? — Amy murmurou baixinho.
Ao abrir a porta, o homem tentava de todas as formas acalmar a menina em seu colo.
— Não precisava ter batido com tanta força — resmungou Proton meio mal humorado. — Tudo bem, sei que é um pouco inesperado, mas... Surpresa?
A garotinha, ao perceber que tinha boa companhia, parou de chorar e esticou os bracinhos em direção de Amy.
— Tia Amanda!
Amy esboçou aquele sorriso forçado de quem não leva jeito com crianças.
— Ethan, pode colocar mais um prato na mesa?

i

O silêncio na casa foi substituído pela euforia que somente a presença de uma criança consegue causar, a filhinha de Proton agora brincava de empurrar o Wobbuffet de Ethan só para vê-lo ir para frente e para trás como um João Bobo. A última vez que Ethan se deparara com o ex-administrador dos Rockets não lhe trazia lembranças agradáveis, era estranho vê-lo se comportar como um pai de família, sua mera presença no recinto o deixava desconfortável, como se tudo não passasse de outro plano para sequestrar sua namorada.
Amy só estava terminando de tirar as batatas do forno, mas os minutos agonizantes que Ethan e Proton se encararam na sala de estar valeram por qualquer batalha Pokémon.
— Então... — Proton começou na tentativa de amenizar o clima. — Como é que vai a vida?
— Ótima — Ethan respondeu seco, indo direto ao ponto. — O que você veio fazer aqui?
— Bem, eu estava de passagem e decidi visitar uma amiga.
— Não amplie as coisas, éramos apenas colegas de trabalho — frisou Amy ao retornar da cozinha. — Admito que eu não esperava por sua visita, ainda mais acompanhando dessa...
Ethan a cortou antes que ela dissesse “coisa”.
— Qual o nome da sua filha?
— Eletra.
“Esse é o nome mais cafona que eu já ouvi”, pensou Amy com um sorriso doce.
— Quem diria, você como pai, hein? — ela brincou para disfarçar.
— Nem me fale, devo parecer mais surpreso do que vocês — brincou Proton. — Nunca imaginei que eu fosse me estabilizar com alguém e querer construir uma família, sou muito agradecido à Martha. Veja o destino de colegas nossos dos tempos dos Rockets; muitos desaparecidos, outros cumprindo pena de décadas na prisão, alguns mortos ou executados pelas autoridades... Penso que sou muito sortudo por ser considerado “apenas” um foragido.
— E por que exatamente você voltou para nos assombrar como um Gastly? — Ethan perguntou como quem pretende encerrar o encontro antes mesmo da hora do almoço.
A cabeça de um Gengar shiny emergiu do chão, pensando ter sido chamado.
Proton não esboçava o sorriso cínico que lhe era tão costumeiro; não se parecia em nada com o charlatão de antigamente, pelo contrário, algo preocupante o vinha incomodando a ponto de recorrer às duas únicas pessoas que julgava confiáveis. Ele tirou a boina e passou a mão pelos cabelos esverdeados com alguns poucos fios brancos, parecia que o excesso de preocupações o envelhecera alguns anos.
— Lembram-se do Petrel?
— Claro. — Amy confirmou com a cabeça. — Não ouço notícias dele há anos.
— Bom, eu e o Petrel nos metemos em algumas confusões em Sinnoh há alguns anos, como vocês devem ter ficado sabendo. Foi lá onde conheci a mãe da Eletra, a Comandante Mars, uma das representantes de uma facção conhecida como Galactic.
— Pensei que essas coisas de louco só aconteciam em Kanto e Johto — brincou Amy.
— Nem, tem um monte desses idiotas em Hoenn e Kalos também — respondeu Ethan. — Na verdade, acho que eles estão por toda parte...
— Pois bem — Proton retomou a conversa —, há alguns meses, Petrel veio me visitar após uma fuga bem sucedida da prisão, aposto que o miserável subornou alguém lá dentro. Ele ainda mantém aquelas ideias de recuperar a nossa glória, acho que nunca aceitou completamente a morte do chefe; mas da última vez que o vi, Petrel parecia... alterado. Ele não parava de falar em vingança, disse até que feriu gente inocente. Isso não é mais para mim, tenho uma família para zelar e sei que isso coloca em risco nossa segurança.
Amy estava chocada com o rumo da conversa. Não podia acreditar que mesmo depois de tantos anos os seguidores de seu pai ainda mantinham ideais tão cruéis. Os Rockets eram como uma dorzinha nas costas que sempre voltava, mas caso ficasse velha demais, um dia já não teria mais forças para combatê-la.
Proton virou-se para observar a criancinha que se divertia com o Wobbuffet.
— Minha família é tudo que eu tenho. Os problemas começaram quando minha esposa desapareceu, pouco depois dessa visita que recebemos do Petrel.
— Como assim “desapareceu”? — indagou Amy. — Acha que ela foi sequestrada?
— A Martha é inteligente demais para ser capturada. Ela estava envolvida com um pesquisador chamado Profº Charon, ele insinuava que Rockets e Galactics deviam trabalhar juntos uma última vez pelo bem maior. O projeto de Charon envolve clonagem de Pokémon avançada, ele insinuou até ser capaz de revivê-los... nada que nunca tenhamos tentado, e falhado miseravelmente.
— Ah, eu me lembro do problema que rolou com o Dragonite do Lance — mencionou Ethan.
— A Martha começou a agir de um jeito estranho... Ela estava distante, esquiva até com nossa filha.
— Como ela reagiu depois de perder um filho? — perguntou Amy.
— Eita, que história essa? — continuou Ethan. — Vocês estão conversando como se tivessem mantido contato próximo nos últimos anos.
— Querido, você acha que eu só fico em casa coçando que nem você?
Amy soltou um leve suspiro, sua voz não escondia o desapontamento. Há cerca de um ano, recebera uma ligação desesperada do ex-administrador. Proton tinha dificuldades em explicar-lhe o ocorrido — sua esposa, até então grávida, tinha sofrido um acidente. A cirurgia foi marcada às pressas, mas parecia que a criança já havia desenvolvido uma má formação e não sobreviveu. Martha jamais se recuperou por completo do choque. Por qual motivo Proton decidira ligar justo para Amy, ela nunca soube dizer. Mesmo que não tivesse mais nenhuma ligação com os Rockets, talvez os antigos membros a considerassem a verdadeira herdeira ao posto de líder que seu pai, Giovanni, deixara para trás.
Por esse motivo, Amy não estava surpresa em reencontrá-lo pessoalmente; não importava o quanto tentasse livrar-se de sua ligação com os Rockets, uma força misteriosa parecia sempre arrastá-la de volta, tornando-a eternamente responsável pela sujeira e os pecados cometidos. Nunca julgara necessário compartilhar com Ethan sobre tais conversas, não queria incomodá-lo.
— Eu vim pedir sua ajuda porque não sei mais o que fazer — disse Proton com ar de preocupação, olhando para sua segunda filha. — Nós dois sofremos com essa perda...
— O que disse para sua filha desde o sumiço da Comandante Mars? — perguntou Amy, apontando para a pequena Eletra de forma discreta.
— Falei apenas que a mamãe precisou viajar, mas tem sido difícil não levantar suspeitas. Ela chora todas as noites, diz que está com saudade. Veja, é uma menina de ouro.
Amy virou-se ao perceber que a criança se aproximava trazendo o que parecia ser uma Pokébola dourada com duas letras incrustadas no meio — GS.
— O que é isso, tia Amanda?
— Ah, é só um brinquedo quebrado. Está vazia.
— Posso brincar?
— Não. É de coleção.
Eletra voltou a deixar o objeto na estante, pois não parecia mais tão interessante. Amy não precisou refletir muito para dar a resposta ao ex-executivo:
— Eu irei investigar o que está acontecendo.
Tanto Proton quanto Ethan a encararam cheios de surpresa.
— Como assim, meu bem? Você realmente vai se envolver com esses caras de novo? — indagou Ethan, que ficou sem graça após alguns segundos ao olhar para Proton. — Nada pessoal, colega.
Proton levantou as duas mãos e fechou os olhos, num sinal de “deixa disso”.
— Se tem alguém que possui a habilidade necessária pra fazer isso da maneira mais rápida possível, sou eu. É pela coisinha... digo, criança — disse Amy olhando para Ethan.
— Bem, a ideia a princípio era deixar a Eletra umas semanas com vocês enquanto eu ia atrás de respostas, mas se a própria Srta. Amanda Green está se oferecendo para tal missão, quem sou eu para recusar? — Proton aproveitou-se da situação, um charlatão como só ele. — Você é a garota que burlou, enganou e deixou a maior facção criminosa do país comendo poeira com apenas quinze anos, não existe ninguém melhor para cumprir essa tarefa do que você.

ii

Depois de um almoço bem servido, Proton deixou New Bark antes do entardecer com sua filhinha adormecida no colo. Para onde ele iria ou onde estava se escondendo, Amy não soube dizer, mas tinha certeza de que estavam seguros e voltariam a se encontrar quando a tarefa terminasse. Ethan se manteve quieto pelo resto do dia, sentia-se deixado de fora dos grandes planos, como sempre. Sua namorada precisou de muita calma e paciência para dar-lhe a devida atenção.
— Então, quando é que você sai nessa viagem? — perguntou Ethan.
— Não sei. Quer que eu vá agora?
— Tá brincando, né? A vida sem você aqui vai ser... vazia. Capaz da minha mãe até me despejar pra fora de casa até você voltar.
— Você precisa mesmo encontrar algo para se distrair. O que acha de sairmos em uma aventura por aí depois? Só nós dois.
— Pra onde?
— Para onde sua imaginação levar.
— Vai ser difícil aguentar um tempo sem você — respondeu o treinador. — Tudo voltará a ser como era antes de eu sair em jornada por Johto, quando um jovem Ethan só buscava fugir da mesmice de sempre...
Amy sorriu ao perceber como ele estava desconsolado com a ideia de ficar apenas algumas semanas longe de sua amada. Ela se aproximou devagar, quase como se o seduzisse, sentou-se em seu colo, arrancou o boné e o colocou na própria cabeça, lascando-lhe um beijo digno que começou no pescoço e fez seu caminho até os lábios, digno de despedidas de filme.
— E o que seria de Ethan sem uma Amy em sua vida, não?
— Como consegue ser amável, sexy, assustadora e surpreendente, tudo num só dia, hein?
— Querido, sou uma musa de muitas facetas. Formidável treinadora, excelente namorada e nora, prestativa, conselheira, guerreira...
— Você é a coisinha mais linda do mundo, isso sim.
— Se usar essa voz de neném comigo de novo eu quebro todos seus dentes.
Ethan começou a rir, pois cada dia que passava sentia que a amava mais e mais. Em sua cabeça vivia repetindo palavras românticas, do quanto gostava de suas curvas, do sorriso travesso e de como adorava acordar do seu lado; mas na hora de expressá-las sempre se atrapalhava todo. Ethan a abraçou com mais força, como se dessa forma pudesse impedi-la de partir.
— Sabe, essa conversa de hoje com o Proton me fez pensar em uma coisa... — Amy mencionou entre suspiros.
— O quê?
— Que eu não quero ter filhos tão cedo.
— Apoiada — Ethan concordou depressa, tão assustado quanto ela com a ideia.
— E que também temos uma pilha de louças para lavar, sua mãe vai ficar furiosa se voltar e ver que não fizemos nada. Não se esquece do nosso acordo, hoje é você Quilava.
O grande Typhlosion grunhiu baixinho no seu sofá confortável.


 

Finalmente, Meu Livro: Matéria - Espada de Madeira

É, aqui estamos. Quem me acompanhou nessa trajetória sabe que foi uma aventura bem longa, com muitos obstáculos no caminho, estou ciente de que minha verdadeira jornada como escritor está apenas começando, mas me ofereço esses minutos de tranquilidade para curtir a realização de alcançar algo que venho buscando há tanto tempo.

Esses personagens surgiram lá em 2005, essa conquista serve para provar ao "eu" criança de 10 anos que é possível, sim, alcançar seus sonhos. E pensar que escrever fanfics de Pokémon me levaria a descobrir algo que amo, escrever me tornou uma pessoa melhor. Coloquei meu coração nessa história e mal posso esperar para compartilhá-la com vocês.

Há cerca de 7 anos, um leitor aqui do blog me mandou um e-mail dizendo o seguinte: "Cara, já pensou em publicar um livro infantil? Porque você tem muito talento! No dia em que você lançar, eu estarei lá para comprar".  A verdade é que não sei mais onde anda esse leitor, nem faço ideia se ele ainda frequenta esse blog ou se chegou a conferir a conclusão do Aventuras em Sinnoh em 2015, mas vocês não fazem ideia de como essas mensagens me motivaram a continuar seguindo em frente. Não se trata de uma só pessoa em especial, foram todos vocês, cada leitor desse blog amado que me ensinou a escrever, a lidar com críticas, me deu confiança e elevou minha criatividade ao nível máximo do que eu era capaz de oferecer.

Esse livro é para vocês. Obrigado por todo o carinho.
Matéria - Espada de Madeira, está disponível agora para compra. Que nossas aventuras nunca terminem!


Cortinas de Prata

Cortinas de Prata
Capítulo Especial - Sinnoh x Johto

Dez e vinte e quatro da manhã. Era uma terça-feira. O dia mais longo da minha vida.
O despertador tocou sete da manhã, minha mãe e eu estávamos hospedadas em Mahogany para visitar o vô Pryce que estava de cama. Já fazia alguns meses que comecei a visitá-lo todos os dias, ele estava meio fraco, mamãe dizia que era bom os netos estarem por perto o máximo de tempo possível.
A casa estava silenciosa, mas, como de costume, minha avó Katherine já estava na cozinha preparando o café da manhã. Cumprimentei-a com um beijo no rosto e olhei para o quebra-cabeça inacabado na mesa de sala — três mil peças, esse ia demorar um bocado.
— Vivian, sobe aqui, depressa! — minha mãe chamou com urgência.
Subi as escadas às pressas e me deparei com meu avô deitado em sua cama de bruços. Ele respirava com dificuldade, escorria baba de sua boca, seus olhos mal conseguiam se abrir; minha mãe sempre soube como lidar com situações adversas, eu não. Ela tomou o celular na mão e ligou para um tio médico, precisava descobrir o que estava acontecendo. Fiquei em choque, há pouco menos de duas semanas o vô Pryce parecia tão bem, estava rindo de meus comentários e resmungando com seu mau humor costumeiro... Do dia para a noite, foi como se ele tivesse envelhecido dez anos, seus cabelos sempre bem penteados estavam todos desgrenhados, a cama fedia a mijo, sua comida permanecia intocada na mesinha de canto.
Minha avó entrou no quarto trazendo um pratinho com pão e mortadela frito. Parecia que nem ela havia notado a súbita piora do meu avô.
Após receber as instruções do meu tio, mamãe começou a correr pela casa feita louca. Lembro dela ter me dito no dia seguinte: “Eu pedi pro universo me mandar alguém, qualquer pessoa, porque eu não conseguiria fazer aquilo sozinha”. Não demorou muito para que minha tia Neusa de Azalea chegasse — como um sinal divino —, e ela percebeu que a situação requeria urgência.
Deixei o quarto, porque eu não estava com cabeça para aquilo. Eu sabia que ia acontecer. Não quis negar, pois sabia das condições e da doença dele, mas encontrei dificuldades em compreender como a vida seria dali em diante. Subi e desci a escada mais vezes do que deveria, eu só não queria estar lá dentro, ficava repetindo a mim mesma: “Por favor, por favor, não deixa eu estar perto quando acontecer”. Observei cada quadro na estante, o meu favorito era um do vô bem novo carregando sua Swinub gorducha no colo, a primeira captura dele; cada objeto velho que trazia tantas histórias que eu ainda não conhecia; o tempo estava acabando, e por um breve instante fui assolada com a ideia de que não tinha aproveitado como deveria.
Minha mãe passou às pressas pelo corredor com os cobertores sujos. Enquanto ela estava ocupada, fui até o quarto e me sentei do lado do meu avô. Eu não sabia se ele estava me ouvindo, mas também não encontrei nenhuma palavra que oferecesse conforto, por isso só segurei sua mão, o que é curioso, não éramos de nos encostar muito. Fiquei acariciando-o de leve, como se tivesse a esperança de que minha presença o confortasse.
— Pai, pai. Você quer ir ao médico? — minha mãe falou com a voz solene. Era surpreendente o quão tranquila ela aparentava, dada a situação.
Meu vô mexeu a cabeça devagar — um sinal de que ele estava sim nos escutando —, mas fez que não com a cabeça. Decidimos deixá-lo tranquilo, enquanto minha mãe fazia conforme meu tio médico indicava pelo telefone.
Foi surpreendente como a notícia correu rápido. Em menos de duas horas, recebemos a visita de pelo menos seis parentes diferentes. Todos ajudavam com o que podiam, fiquei mais tranquila com a presença deles porque, sinceramente, eu não estava em condições de consolar a minha avó. Dona Katherine sempre foi uma mulher muito forte, mesmo que os dois nem fossem mais casados, quando ele começou a piorar, ela se mudou para Mahogany para cuidar do meu avô todo santo dia — preparava café, almoço e janta, aguentava os xingamentos (até porque gente velha é assim, gosta de xingar), limpava a casa, trocava os lençóis e no dia seguinte estava pronta para repetir a dose.
Eu estava sentada na varanda quando ouvi minha tia cochichar para minha mãe:
— Chegou a hora.
Respirei fundo e fechei os olhos. É, chegou a hora.
Quando subi para o quarto, me deparei com o corpo na cama. Vi minha avó sentada do ladinho dele, acariciando seu cabelo devagar. Eu digo que a mulher é forte, porque ela derramou uma lágrima, só uma. O homem da vida dela havia acabado de falecer, mas ela não fez estardalhaço, não perdeu o controle, nem demonstrou — era como se ela compreendesse que, frágeis como somos, um dia a morte chega para todos. Eu dei um abraço forte na minha mãe que também se permitiu chorar um pouquinho, mas havia muito a que se pensar: Onde seria o enterro? Como fazer o anúncio? O que fazer com o corpo? Qual o melhor velório? Quem ia assumir o ginásio?
É, morrer dá um trabalhão. O que mais doeu nessa primeira parte do dia foi ver o irmão mais novo do vô chegar. Ele é meio surdo, tadinho, e foi a última pessoa a conversar com ele em vida. Minha mãe disse que o vô estendeu o braço e sorriu, como se só o estivesse esperando chegar para enfim descansar. Eles eram em cinco irmãos, agora só sobrava um. Eu sou filha única, mas, cacete, deve doer ver todo mundo indo embora até só sobrar você.
— Vivian, querida, pode abrir a janela? — pediu minha avó.
Eu abri os vidros e, nossa. Que dia lindo pra morrer. Sério, a frase pode parecer sarcástica, mas estava um dia incrível mesmo, nada daquela chuva ralinha dos filmes e paleta de cores cinzenta que os cineastas costumam usar quando querem passar um clima mais tenso; estava fresco e ensolarado. Se eu tivesse que escolher uma forma de morrer, queria que fosse assim. Meu vô não queria que seus últimos momentos fossem enclausurados em um hospital, talvez entubado, lutando para sobreviver mesmo diante da derrota iminente, com gente estranha correndo no corredor e uma máquina apitando do lado; ele estava cercado das pessoas que amava, no conforto de sua própria cama e na segurança de seu lar.
A notícia da morte correu ainda mais depressa, logo começou a vir parente de tudo quanto é parte. A primeira a chegar foi a prima Katy, que por sorte havia acabado de voltar de Kalos para passar umas férias; ela me abraçou acanhada, meio que sem saber o que fazer, porque sabia o quanto eu era apegada com meu avô.
— Ei, Vi... como é que está?
— Ah, eu tô bem — respondi com sinceridade.
Nós nos sentamos na beirada da cama, o corpo do meu avô já havia sido retirado. Na mesinha de canto, vi o prato que minha avó havia preparado para ele — sua última refeição.
— Ele não comeu o pão com mortadela — falei.
E, pela primeira vez no dia, me permiti chorar, pois percebi que ele nunca mais ia tomar café da manhã comigo.
Comecei a mastigar o pão mesmo sem fome, eu não ia permitir que o último café da manhã dele fosse pro lixo. Céus, minha cabeça estava uma ameba. Katy me abraçou, e eu lembrei que o dia ainda nem havia começado.
O que veio a seguir foi uma sucessão de cenas esquisitas. Muita espera e correria, é como falei, morrer não é fácil. Mamãe precisou ser muito forte, perdi um vô, mas ela perdeu um PAI. Quando alguém morre, tem tanta burocracia envolvida que você pode ter certeza que pelo menos um mês inteiro você não vai ter tranquilidade; é caixão, cemitério, contas a acertar, termos e contratos, aposentadoria, muita coisa para passar adiante. Enquanto os adultos discutiam, eu me sentei na cadeira de rodas do vovô e comecei a ir para frente e para trás. Quis experimentar um pouco a sensação, saber como ele se sentia, eu nunca havia percebido como era desconfortável, por que ele nunca me contou? Quando uma tia me viu ali sentada, ela ficou em choque. Não sei se pensava que eu estava desonrando a memória dele, mas a cadeira agora era minha, pô.
Recebemos uma ligação por chamada de vídeo, e esta deve ter sido a parte mais doida do dia. Adivinha quem era? Irmão da minha mãe, um cara que se mudou para uma região distante para virar Mestre Pokémon e nunca deu satisfação a ninguém. Fazia uns quinze anos que eu não o via, ele nem era considerado parte da família; tinha sua própria vida longe de nós e, em todo esse tempo, ele nunca ligou para saber como estávamos.
“Como é que ele está?”, escutei a voz abafada do outro lado.
— Ele já morreu... — minha mãe respondeu.
“Posso vê-lo?”
Sério? Sério que ele queria ver um corpo morto? Por que ele não veio visitar quando enviamos uma carta, dizendo que a saúde do vô tinha piorado? Por que ele nunca visitou o pai nos últimos quarenta anos? Ou melhor, por que ele não volta AGORA? Seria um ótimo momento para se redimir, rever todos nós, contar sobre sua vida nova e depois voltar, ninguém estava pedindo para ele ficar para sempre. Minha mãe levou o celular até o quarto e mostrou o corpo lá parado, sei lá, vai que ele achava que era brincadeira.
“Tudo bem. Tchau”.
E essa foi a última vez que ouvi falar do meu tio. Mamãe já nem liga mais, ela diz que não devemos julgar a dor dos outros, mas... “Posso ver o corpo dele?” Fala sério, puta que pariu.

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Aqui começamos a segunda parte desse longo dia, vamos dar um pulo para o velório, porque aparece muita gente famosa e vocês vão gostar. Sabe, uma das maiores doenças que assola os idosos é a depressão — eles acham que já não são mais úteis para ninguém, um peso no mundo; palavras de amor e gestos de carinho se tornam cada vez mais raros e a fragilidade diante do que um dia foram piora ainda mais a situação. Meu avô fechou o ginásio há alguns anos, e isso acabou com ele. Batalhar era sua vida, mas é engraçado pensar que ele também tinha hobbies. Lembro quando ele me contava sobre a guerra, e me presenteou com uma medalha de sua participação! Desde então, comecei a chamá-lo de “capitão” em reconhecimento ao seu cargo como líder de ginásio. Pryce gostava também de pescar, atividades que seus colegas da Liga desconheciam. Na verdade, tem muita coisa sobre ele que nem eu sei.
Como ele morreu bem cedinho, o corpo só ficou pronto lá por volta do meio dia e o cemitério só ficaria aberto até as quatro. Minha mãe decidiu adiar o enterro para a manhã seguinte, dessa forma todo mundo que pegou um avião ou se juntou ao seu Pokémon voador para comparecer ao enterro teria tempo de chegar.
Só que isso significava passar a madrugada inteira ali, o que se revelou como uma experiência bem louca por si só.
Eu não me vesti de preto naquele dia, não dá pra imaginar uma Vivian de preto. Eu até que estava bem, me recuperando, achava que o pior já tinha passado.
— Vi, acha que pode postar uma mensagem no seu perfil, avisando todos do ocorrido? — perguntou minha mãe.
— Sim, claro — respondi. Ela não queria nada muito elaborado, só pediu para anotar o endereço e o horário do velório, para as pessoas se programarem. Passei uns trinta minutos pensando em como escrever até conseguir algo satisfatório, e enfim, postado.
Meu texto atingiu umas duzentas e cinquenta curtidas e mais de cem comentários. Uau. Nem minhas fotos de biquíni chegam a tanto.
Quando chegamos ao velório, vi gente de tudo quanto é canto, reencontrei amigos que não via há anos e recebi a visita de pessoas que eu menos esperava. O pessoal da Liga Pokémon garantiu o quarto mais chique, e nas primeiras horas da manhã não demorou para lotar; todos os líderes de ginásio da região de Johto compareceram, cada um trazendo uma mensagem motivadora ao seu próprio estilo.
— Que linda declaração de amor, Virginia! — encorajou Chuck, contendo uma ou duas lágrimas. Nem fiz questão de corrigir meu nome. — Ele foi um lutador, um verdadeiro capitão!
— Sei como é perder alguém querido, minhas orações estarão com você e toda sua família — falou Jasmine.
— Meus sentimentos — disse Clair.
— Seu avô foi um verdadeiro amigo de muitas histórias, ele era de uma sabedoria infinita. Que encontre a paz — continuou Morty. — Saiba que a morte nada mais é do que uma jornada que todos nós teremos que tomar.
Se eu disser que não sorri nesse dia, eu estaria mentindo. Que surpresa foi a minha ao me deparar com Ethan e Amy juntos; ele sem o boné, todo tímido e comovido; e ela com um par de óculos escuros maiores que o rosto para esconder os olhos inchados, sem perder a pose. Amy me abraçou forte, não perdi a oportunidade para brincar e dizer: “Tu ainda me deve uma bike”. Nós duas rimos muito, naquela hora eu estava realmente feliz por vê-los.
Junto de Ethan, era claro que tinha de vir todo o seu fã clube. Muitos velhinhos ali conheciam Pryce, alguns haviam estudado com ele quando pequenos, outros eram colegas de trabalho ou apenas espectadores que tinham tido a chance de assistir a uma das tantas batalhas incríveis que ele travara.
Um senhorzinho que eu não conhecia o nome chegou para mim e falou:
— Vivi, tenho sessenta e um anos e amaria ter uma neta como você. Um dia, quando eu partir, gostaria de receber uma homenagem como aquela que você escreveu. Esteja onde estiver, tenho certeza que ele está muito orgulhoso de ter convivido com você, que Arceus possa consolar os corações de todos que amam seu querido avô.
Sabe, ouvir aquilo de um estranho me deixou muito feliz. Eu, uma neta exemplar? Nunca fiz nada para merecer tal reconhecimento, só postei alguns pensamentos em uma rede social, mas parecia que todo mundo tinha lido. O velório estava lotado, meu avô estaria surpreso! Ele amava receber atenção, mas me entristece pensar que não está mais aqui para ver quanta gente se importava com ele. A vida é cheia dessas, quantas vezes nós só arranjamos tempo para visitar alguém depois de que ela já morreu? Sabe aquelas coroas de flores? Ele recebeu sete, todas lindas e bem decoradas, quase não tinha mais espaço do lado do caixão. E as visitas não paravam de chegar, o ambiente era preenchido por aquele burburinho baixo, uma risada ocasional irrompendo pelo aposento, uma fungada ou outra para esconder a choradeira.
A cena que mais doeu em mim — na verdade, em todo mundo que estava presente — foi quando chegou o irmão mais novo do meu vô. Como mencionei, ele é meio surdo. Eu o vi se aproximar do caixão, mas acho que não tinha noção de estar falando alto demais.
— Meu irmão! Meu irmão! Agora eu estou sozinho, e quem cuidará de mim?
Ele foi guiado por uma das netas, seu corpo tremendo e o nariz fungando, e nós ainda podíamos ouvi-lo repetir: “Agora só sobrou eu... me sinto tão só. Por que vocês me deixaram?”
Stanley, meu namorado, foi o próximo a chegar, quase comecei a chorar só de vê-lo na porta. Ele ficou ao meu lado até o fim, ouvindo, falando quando necessário. Sua mera presença me confortava, foi muito importante tê-lo por perto. Eu não estava esperando ver tanta gente vinda de Sinnoh, era uma viagem longa, até hoje não sei como eles fizeram para chegar tão rápido. De noitinha, Luke e Lukas chegaram com sua família, fiquei de boca aberta ao saber que até o pai deles, o famoso ex-campeão, Walter Wallers, também estava junto.
Lukas, meigo como sempre, quase me arrancou mais lágrimas. Luke, por outro lado, me fez rir quando eu achava que meu mundo não tinha mais cor.
— Vivian, você é uma das primeiras e únicas pessoas nesse mundo que tiveram a proeza de fazer meu pai chorar — disse Lukas. — Sério, quando ele leu aquele seu texto, mamãe me contou que o viu chorando bem baixinho, escondido no quarto.
Conversar com aqueles dois irmãos no meio madrugada me deu mais energia para aguentar as difíceis horas que se seguiram — afinal, o enterro só poderia ser feito às oito.
— Ei, Luke, acha que pode me emprestar os óculos escuros do seu Garchomp? — perguntei.
— Claro, por quê?
— Sei lá, só pra me prevenir. Depois eu devolvo.
Meus amigos de Sinnoh não pararam de chegar, acho que não consegui esconder minha cara de terror ao me deparar com Marley, minha rival de longa data dos tempos do Grande Festival. Ela só veste preto, naturalmente, então não estava muito diferente do que eu estava acostumada a vê-la, mas quando me abraçou, meu peito se apertou ao perceber que ela também chorava.
— Você precisa ser forte agora — disse Marley.
Dawn e Cynthia foram as últimas a chegar, quase às três da manhã, quando fazia mais frio. Em outros tempos, eu diria que aquele encontro teria sido muito feliz, meus amigos de jornada, todos reunidos. Quando eles souberam que eu passaria a madrugada toda no velório, eles prontamente se ofereceram para ficar lá comigo. E como eu poderia recusar? As horas passaram mais depressa na companhia deles, tínhamos tanto a discutir.
Quando o dia já ia amanhecendo, a maioria já havia adormecido como puderam nas desconfortáveis poltronas. Melyssa nos trouxera um bolo, e Cynthia saiu para comprar o café da manhã. Eu estava deitada no colo de Stanley, com os olhos pregados de tanto sono, quando senti que queria compartilhar uma experiência com ele.
— Eu me lembro do último ano novo que comemorei com meu avô.
— E o que vocês fizeram? — perguntou Stan.
— Quando bateu meia noite, ele começou a chorar. Eu fiquei sem reação, afinal, estava todo mundo comemorando o começo de um novo ciclo, se abraçando e brindando, enquanto eu fiquei lá parada do lado dele na cadeira de rodas, sem conseguir abraçá-lo.
— Mas você estava ao lado dele, Vi. E eu garanto que isso o deixava contente.
— Acho que ele sabia que havia chegado a hora. Gosto de dizer a mim mesma que, nesse momento, um anjinho chegou bem perto dele e falou: “Sr. Pryce, esse é seu último ano aqui na Terra, tá bem? Aproveite o máximo que puder”.
Oito horas da manhã, o céu clareou e o dia continuava lindo.
Olhei uma última vez para o rosto de meu avô antes de fecharem o caixão.
— Quem irá carregá-lo? — ouvi Dawn perguntar baixinho.
São necessárias seis pessoas para carregarem o caixão, é um percurso curto, mas muito significativo. Eu me enchi de orgulho ao saber que na frente iriam o tio Walter e o Lance, que chegara havia pouco de uma viagem de emergência, só para o enterro; os outros três foram o Chuck, Falkner e Ethan; normalmente eles preferem que apenas os homens façam isso, mas qual foi a minha surpresa ao saber que eu seria a última convidada.
Foram os doze metros mais longos da minha vida.
Fizemos a caminhada em silêncio até o cemitério, fui subindo de mãos dadas com Marley e Stanley de cada lado. Mesmo que a maioria das pessoas que compareçam no velório não fique até a hora do enterro, ainda devia haver umas sessenta pessoas, o suficiente para fechar a rua. Minha mãe sempre disse que velório não é lugar para a criança, por isso nenhuma das minhas primas de Azalea mais novas compareceram — o que foi um alívio, eu não teria suportado ver nenhuma delas chorando.
Nossa longa jornada estava quase chegando ao fim. Na pequena catedral, tivemos nossa última despedida do vovô, de um jeito mais particular. Fazia anos que eu não entrava em um cemitério, mas desde aquele dia eu tenho ido todo mês levar algumas flores, acender velas. Meu pai costumava dizer que não gostava de cemitérios, porque o que ele tinha para dizer aos vivos já havia sido dito, mas eu gosto dessa ideia de prestar as devidas homenagens aos mortos. É um ambiente sagrado, e muito belo se você souber reparar.
Os adultos levaram um tempão decidindo se o vovô seria enterrado do lado Azalea da família ou como um membro honorário da Liga, mas foi minha avó quem deu a palavra final:
— Ele sempre quis que fôssemos enterrados juntos — disse Katherine.
O túmulo da nossa família é bem grande, espero que o vovô goste. Eles destamparam o mármore e, enquanto dois homens desciam o caixão, nós ficamos lá, olhando.
Eu vi Lance tirar um papelzinho do bolso do paletó. Ninguém tinha me contado que ele havia preparado um discurso, imaginei que seria incrível um homem respeitado como ele dar as últimas palavras ao falecido. Com seu vozeirão, Lance começou a falar:
— Ontem a noite, me pediram para dizer algo bonito na hora do enterro, mas para ser sincero, eu não encontrei nada que chegasse nem aos pés dessas palavras tão lindas e honestas que eu lerei aqui para vocês.
Os homens continuavam cavando. Lance abriu o papel e começou a ler:
— “Hoje uma garota se despede de seu capitão”.
Ah. É o meu texto. Coloquei os óculos escuros, porque ia começar a chover.

“Hoje uma garota se despede de seu capitão. Meu avô encontrou a calmaria depois da tempestade. Fico a pensar em todas as lembranças dessa longa viagem, quando o conheci ele já tinha os cabelos branquinhos e, apesar de eu ter tido a chance de acompanhá-lo por um breve período de sua vida, sinto muito orgulho deste velho capitão — das caras engraçadas que ele fazia e dos momentos de lazer com quebra-cabeças, do eterno carinho pela minha avó que me faz acreditar no amor.
Oitenta e cinco anos de aventuras! Lembro quando ele me deu uma medalha que diz ter ganhado nos seus dezoito, de volta aos tempos da guerra. Será que ele lutou bravamente? Ele era um líder, um verdadeiro treinador; mas também um pai dedicado, um avô brincalhão, um amigo gentil. Ele amava andar com sua Swinub gordinha debaixo do braço, mas ela se foi antes. Hoje cedo ele também descansou em sua cama confortável e, veja só, estava um dia lindo! Muito bom para pescar, uma de suas atividades favoritas. Nós deveríamos ter pescado mais, só que eu sempre morri de nojo de pegar nos peixes, desculpe... Eu coloquei uma roupa bem bonita hoje, porque ele gostava de me ver chique, prendi a medalha no peito para me lembrar de todas suas conquistas e vitórias até aqui, mesmo as que conheci apenas através de breves histórias.
Hoje, as cortinas de prata abrem caminho para praias brancas. Independente da crença ou religião, espero que lá no futuro possamos nos encontrar de novo num barquinho, onde meu bom e velho capitão estará me esperando com sua Swinub gordinha do lado. Ele vai me olhar com aquele sorriso tão raro e espontâneo, do jeitinho como lembro, e vai dizer:
— Vivian, que bom que está aqui comigo!”
Saudades eternas, vovô. Me espere.



Em homenagem à Teruo Ikeoka.
14/10/1931 ~ 28/03/2017



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