Wiki & Marco [Semana Ecchi #5]

Não sei dizer até que ponto essa foi a arte que definiu a Semana Ecchi, mas é inegável a influência que o Diego Chinatsu teve na criação dela  e ele é nosso segundo convidado especial!

Quando as zoeiras com a Semana R16 rolavam soltas no Discord da Aliança, ninguém sabia ainda que eu e a Nyx estávamos planejando um retorno em segredo. Não lembro direito por quais motivos o China fez essa arte, mas pouquíssimo tempo depois eu mostrei a arte para a Nyx e ela por coincidência também estava preparando outras duas artes inéditas. Mostrei para ela o desenho e ela ficou super empolgada, é sempre legal vermos como o traço de nossos amigos evoluiu com o passar dos anos, vocês ainda podem encontrar algumas fanarts antigas do China.

E falou em Semana Ecchi, não pode faltar a nossa musa da sensualidade. Já é de praxe ter a Wiki enfiada em algum lugar quando o assunto é p*taria, dessa vez ela ainda teve o Marco só para ela! Vocês não fazem ideia de como sinto saudade desses olhos amarelos e cabelo rosado, além de ser minha personagem favorita na história, esse também é o meu casal! Um salve para o China que segue melhorando no seu traço a cada dia, me empresta essa chave secreta quando der!

Milady [Semana Ecchi #4]


A primeira convidada dessa edição da Semana Ecchi é a Star-chan! Na verdade eu recebi esse desenho já tem dois ou três meses, mas como já estávamos com planos de lançar uma nova remessa, decidi guardá-lo para esse momento especial. Fazia um tempão que ninguém enviava nenhuma arte nova para a nossa galeria, e mesmo que já faça 5 anos que a fanfic tenha sido concluída, ainda amo receber aquele e-mail inusitado com o título: "Sinnoh Fanart".

Uma das coisas mais legais foi acompanhar a Star na sua evolução do traço tradicional para o digital,  como vocês podem conferir neste desdenho de Fevereiro de 2014, "A Rainha do Gelo". Milady foi uma de suas primeiras artes com esse novo estilo e estamos muito orgulhosos dela! Aí embaixo vocês conferem um trechinho do que a Star escreveu, e olha que está valendo um bombom, hein! *risos*

"Ok, primeiro é uma honra fazer parte de um projeto que antigamente eu só ficava bobinha de observar.
Quando o Canas me desafiou a desenhar a Milady, eu comecei a buscar todas as referencias de Tsunderes na minha cabeça, e a Louise de Zero no Tsukaima foi a primeira reposta, tanto que que a pose escolhida foi inspirada justamente ela.
Milady é uma personagem incrível, lá em 2014 eu fiz minha primeira fanart dela, e agora, em 2020, é muito animador ❤
PS. Dou um bombom para quem acertar a referência na imagem."

Sophie [Semana Ecchi #3]

Chegamos na minha contribuição! Se você teve a impressão de que já viu esse desenho, é porque se trata de um remake lá de 2014. Sophie, a Gardevoir curandeira, dona de casa e mãe solteira sempre foi a absoluta MILF dos Fire Tales. Eu sinto que decepcionei a mãezona do grupo desde quando terminei correndo seu primeiro desenho para a Semana Ecchi, ela foi retratada de uma maneira deprimente e sem curvas, com objetos toscamene desenhados e uma cara de sei lá.

Depois de todos esses anos me amargurando, houve algo que eu posso dizer que aprimorei: como desenhar milfs. Consegui passar para a personagem todo aquela sensação sensual e ao mesmo tempo cotidiana que eu queria, sem que ela precise estar usando um fio dental como na versão antiga. Na questão de cenário, não mudei muita coisa, mas antes algo simples do que aquelas panelas e xícaras tortas. Estou muito contente com o resultado!

E sabe quem ficaria um espetáculo com essas curvas? Srta. Bonna Party, mas aí já é história para outra Semana Ecchi em outra década...

Mikau [Semana Ecchi #2]

O nosso Rei das Águas está de volta, o atirador número #1 de Sinnoh, o grande Kingdra! Essa foi uma das primeiras artes da Nyx para a Semana Ecchi, e vocês devem ter reparado que ela foi feita  inteira digitalmente. Na época do mangá da Liga Pokémon, a Nyx ainda fazia tudo à mão, eu a ajudava com algumas retículas e detalhes mais escuros, mas ela nunca tinha mexido com uma mesa digitalizadora. E pelo que me contou, está se divertindo muito! A velocidade dos desenhos aumentou, eu ainda adoro os desenhos tradicionais dela, mas reconheço que há muitos efeitos e detalhes que ficam infinitamente mais fáceis no digital.

Com o passar dos anos a arte digital se tornou cada vez mais acessível para as pessoas (e pensar que comecei a desenhar os Fire Tales com lápis de cor e vocês acompanharam esse progresso, que nostalgia). Eu ainda estou meio parado no tempo, de 2015 para cá sinto que não evoluí muito na minha pintura, mas todos os desenhos da Semana Ecchi foram feitos digitalmente e garanto que vocês ainda vão se surpreender com o quanto a galera evoluiu!

Aerus [Semana Ecchi #1]

Entre brincadeiras envolvendo a tão aguardada Sinnoh 2.0, sempre houveram pedidos e sugestões para o retorno da tão comentada Semana R16. Para quem não estava aqui lá em 2014, o projeto consistia em uma semana inteira de publicações envolvendo desenhos dos Fire Tales em situações, digamos assim, bem sensuais. Na época foi um estrondo, o blog estava bombando e as visitas dispararam! Todo mundo ficava curioso para ao menos acessá-las, pois as imagens consistiam de um aviso no início da postagem: "Recomendado para maiores de 16 anos".

Os anos foram se passando e hoje tanto o autor que vos fala quanto nossos leitores provavelmente já estão na casa dos vinte e poucos anos, calejados e experientes. Trazer a Semana R16 de volta foi extremamente divertido porque vemos a diferença entre o que era provocante naquela época e hoje em dia.

Nas palavras da própria Nyx (que ilustrou 5 das 8 ilustrações presentes), ela disse que os desenhos de hoje estão mais voltados para o erótico, até mais comportados, tanto que nem senti a necessidade de colocar o aviso no começo. Acho que naquela época todos tínhamos hormônios demais florescendo *risos* Conforme dito, a Nyx ilustrou 5 dos desenhos, temos outro dois convidados especiais e.... bem, o velho Canas Ominous decepcionou vocês, porque fez apenas um!

Mal posso esperar que vocês possam conferir o restante dos personagens. Sejam bem vindos de volta às gélidas terras de Sinnoh, vejo vocês em torno da semana!

10 anos de AES - Homenagem da Nyx

Maio pelo visto vai continuar sendo um mês de comemoração, porque além do aniversário de 10 a Aventuras em Sinnoh, no fim do mês já vai completar 1 ano desde que lancei meu livro Matéria - Espada de Madeira.

E é claro que as homenagens não acabaram! Ontem a Nyx me mandou uma mensagem e disse que precisou dar uma corrida para não deixar a data passar em branco, mas qual foi a minha surpresa ao me deparar com essa arte tão nostálgica.

Parece que foi ontem que desenhei a Titânia pela primeira vez. Estávamos discutindo a importância da personagem nas nossas vidas, porque ela nasceu bem no comecinho da fanfic quando eu ainda estava começando minha jornada como escritor, e 10 anos depois veja o quanto ela cresceu... A Titânia foi o primeiro Pokémon a falar com seu treinador na fic, foi a primeira captura, ela estava lá quando acenderam a primeira fogueira dos Fire Tales, foi a primeira arte de Gijinka e o último desafio antes do final.

Não faz nem muito tempo que a Nyx começou a mexer com arte digital e eu parei pra pensar se as coisas teriam sido diferentes naquela época  será que a Liga inteira teria sido feita assim? Isso me faz pensar que minha mesa digitalizadora está parada desde 2012, e ver o quanto todos estão se esforçando para melhorar suas técnicas me enche de determinação! Obrigado por essa homenagem, Nyx, ver esses personagens no seu traço sempre me enche de orgulho, porque é como se eles sempre tivessem sido seus também!

Colei aí embaixo um trechinho da mensagem dela, hihi. 


"Bom, mesmo atrasada, não podia deixar de comemorar este momento mais do que especial né (;w;) desculpa, eu fiz correndo hoje depois que vi a sua mensagem. Uma comemoração assim merecia algo mais caprichado, mas eu não podia deixar passar em branco sem fazer a minha homenagem!!!! 

Depois de muito pensar, decidi fazer a Titânia, porque é uma personagem, se não a mais, uma das mais importantes da Sinnoh com certeza! 

10 anos, como disse, é muito tempo e muuuuuita coisa aconteceu! Não só a gente mudou, mas os personagens também cresceram. 

Eu fiquei desenhando essa Tih, lembrando da Liga e deu muita boa nostalgia. E enquanto pensava em o que desenhar, fiquei vendo o seu blog, os personagens, os artbooks, e só traziam lembranças muito boas e preciosas. Sinnoh é uma parte de mim e muita coisa que sou hoje devo graças a ela. 

Só tenho de agradecer a você por ter trazido a Sinnoh até a minha vida, e parabéns pelos 10 anos!!!!"

A Jornada de 1 milhão de Palavras

Há alguns dias o Anan de Neo Sinnoh começou a calcular o número total de palavras das fics de sua equipe, mas por curiosidade acabou contabilizando os da Aliança Aventuras também. Eu mesmo sempre tive uma vontade enorme de saber esses números, mas como tenho o costume de escrever cada capítulo em arquivos separados não tive paciência de reunir tudo em um só documento e começar anotar. Não levo muito jeito com números, e sabendo que aqui em Sinnoh há um total de 256 capítulos escritos e postados, essa árdua tarefa acabaria levando um dia inteiro. Só de ver números e tabelas minha cabeça já começa a se embaralhar...

Segue abaixo os respectivos números separados de acordo com temporada e categoria de especial:
  • Capítulos da História Central | Total: 135 capítulos | Palavras: 638.104
  • Capítulos dos Fire Tales | Total: 45 capítulos | Palavras: 197.861
  • Support Conversation | Total: 57 capítulos | Palavras: 169.309
  • Capítulos Especiais | Total: 5 capítulos | Palavras: 13.745
  • Ex-Elite 4: O Fim de um Legado | Total: 5 capítulos | Palavras: 21.066
  • A Gym Leader's Life | Total:  4 capítulos | Palavras: 9.512
  • Sadness Orchestra | Total: 5 capítulos | Palavras:19.708
  • Saga Pérola | 131.930 palavras
  • Saga Diamante - Parte 1: Loucura e Sentimento  | 129.888 palavras
  • Saga Diamante - Parte 2: O Fim do Mundo | 111.438 palavras
  • Saga Platina - Parte 1 | 121.319 palavras 
  • Saga Platina - Parte 2: A Liga Pokémon | 148.097 palavras
256 capítulos - 1.091.761 palavras 

É uma loucura pensar que ultrapassei 1 milhão de palavras com essa história, o mesmo garotinho que na terceira série chorava porque não sabia escrever uma redação de quinze linhas.

Aventuras em Sinnoh foi escrito de 2010 à 2015, não é exagero dizer que minha adolescência inteira está retratada nessas páginas. Um fato curioso é que meus livros da Saga Matéria também possuem algo em torno de 130 mil e 150 mil palavras. Podemos observar que cada uma das temporadas também ficou nessa margem, então pode-se dizer que AeS é uma saga de 5 livros, um livro por ano.

Em termos de comparação, os 7 livros publicados de Harry Poter totalizam 1,1 milhão de palavras. Se computarmos as palavras não incluídas das páginas do mangá na Liga e outros trechos perdidos, há uma margem de erro que nos permite alcançar essa incrível marca de 1,1 milhão. Então, caros amigos, vocês leram 7 livros aqui.

Mais louco ainda é saber que muitos de vocês acompanharam essa jornada comigo, torceram, CRESCERAM, se alegraram com as conquistas, capturas e evoluções, mas também choraram e se emocionaram com os momentos finais. Vou repetir quantas vezes forem necessárias que nada disso existiria se não fosse por vocês, cada leitor e amigo que preencheu as peças que faltavam no meu quebra-cabeça. Carregarei pelo resto de minha vida essas memórias, e espero que vocês também lembrem com saudades das batatas gratinadas.

Meus sinceros agradecimentos ao Anan por esse presente de aniversário de 10 anos!
Seja você um leitor novato ou veterano das antigas, se em algum momento você sentir vontade de ler — ou reler — essa fanfic do começo, lembre-se que 1,1 milhão de palavras o separam de Twinleaf Town e a Liga Pokémon. Não é para os fracos! *risos*

Uma DÉCADA de Aventuras em Sinnoh

Eu jurava que até pouco tempo atrás eu tinha feito uma postagem para comemorar mais um aniversário do Aventuras em Sinnoh, mas quando fui olhar, a última vez foi em 2016... Não sei dizer com precisão onde estive nesses últimos 4 anos (provavelmente no meu quarto jogando vídeo game), mas é uma loucura pensar que já estamos em 2020 e o mundo está tão diferente do que era naquela época.

Vivemos uma pandemia global, coisa dos livros de ficção e distopia que líamos quando éramos adolescentes. As pessoas estão com medo, nervosas, ansiosas, entediadas, sem perspectiva de que as coisas vão melhorar e se recuperar tão cedo. Em meio à essa loucura dea crise, corrupção, pandemia e tragédias naturais, venho aqui deixar registrado essa humilde postagem atemporal, afinal, esse blog já se tornou um diário em minha vida.

Para quem caiu de paraquedas, comecei minha carreira de ficwriter com 15 anos, lá em 2010, escrevendo no Nyah! uma fanfic chamada Sinnoh Journey — mais especificamente, a história surgiu em 20 de Maio como uma parceria entre Canas Ominous e Little Celeby, este segundo tendo deixado o projeto apenas um ano depois. Retornei mais tarde em 2011 como representante da região de Sinnoh pela Aliança Aventuras, por isso comemoramos o aniversário no dia 17 de Maio. Logo, o blog em si está completando 9 anos, mas a história já tem 10, mas tudo bem, ano que vem a gente comemora 10 anos de novo.

De lá para cá nem preciso dizer quanta coisa mudou, saí do ensino médio para a faculdade, de estudante para desempregado, de designer gráfico para vendedor de miçangas. Meus sonhos foram de criar games para me tornar um escritor; passei pelo finalzinho da geração do Wii e seus incrivesis sensores de movimento para o fracasso do Wii U, e agora estou vendo a galera pagar até 4000 reais em um Nintendo Switch; minha coleção de amiibo foi de 0 para 158 bonequinhos, vi os três filmes do Hobbit serem lançados e não ganharem nenhum Oscar; consegui manter o cronograma de pelo menos um livro por mês desde que comecei meu desafio pessoal; o Homem de Ferro deu sua vida para salvar o mundo; me apaixonei e desapaixonei; me mudei de cidade e já voltei a morar com meus pais. É... uma década é tempo pra caramba na vida de uma pessoa, sonhos vêm e vão, mas certas coisas permanecem imutáveis como esse singelo blog que cresceu com tanta gente. Ainda ontem aqui tava cheio de molecada com 14 anos jogando Pokémon, e agora tenho certeza que muitos de vocês estão formados na faculdade e ainda jogando Pokémon.

10 anos depois ainda gosto de voltar para cá e me afogar nessa nostalgia saudável. Lembro-me dos leitores que por aqui passaram, das amizades que fiz. Eu gostaria de ter preparado uma arte especial com todos os personagens, mas me vi fazendo um meme com Hamtaro e reutilizando artes antigas. Pelo menos a data não passou em branco.

Espero que você esteja bem, caro leitor, onde quer que esteja.
Que se lembre dessa época com saudade, mas também se espelhe nas dificuldades que nossos protagonistas enfrentaram para salvar o mundo e atingir seus sonhos.
Que a arte possa continuar preenchendo nossos corações — seja escrevendo, lendo, desenhando, jogando seu jogo favorito, escutando música, estando ao lado sua família — que possamos enfrentar esse arco juntos, e assim como a Grande Criação, possamos lembrar no futuro dessa fase tão difícil entre risadas e dizer: Ah, 2020? Aquilo lá foi só um filler!

P.S. O dólar está valendo 5,86 reais.


Finalmente, Meu Livro: Matéria - Espada de Madeira

É, aqui estamos. Quem me acompanhou nessa trajetória sabe que foi uma aventura bem longa, com muitos obstáculos no caminho, estou ciente de que minha verdadeira jornada como escritor está apenas começando, mas me ofereço esses minutos de tranquilidade para curtir a realização de alcançar algo que venho buscando há tanto tempo.

Esses personagens surgiram lá em 2005, essa conquista serve para provar ao "eu" criança de 10 anos que é possível, sim, alcançar seus sonhos. E pensar que escrever fanfics de Pokémon me levaria a descobrir algo que amo, escrever me tornou uma pessoa melhor. Coloquei meu coração nessa história e mal posso esperar para compartilhá-la com vocês.

Há cerca de 7 anos, um leitor aqui do blog me mandou um e-mail dizendo o seguinte: "Cara, já pensou em publicar um livro infantil? Porque você tem muito talento! No dia em que você lançar, eu estarei lá para comprar".  A verdade é que não sei mais onde anda esse leitor, nem faço ideia se ele ainda frequenta esse blog ou se chegou a conferir a conclusão do Aventuras em Sinnoh em 2015, mas vocês não fazem ideia de como essas mensagens me motivaram a continuar seguindo em frente. Não se trata de uma só pessoa em especial, foram todos vocês, cada leitor desse blog amado que me ensinou a escrever, a lidar com críticas, me deu confiança e elevou minha criatividade ao nível máximo do que eu era capaz de oferecer.

Esse livro é para vocês. Obrigado por todo o carinho.
Matéria - Espada de Madeira, está disponível agora para compra. Que nossas aventuras nunca terminem!


Cortinas de Prata

Cortinas de Prata
Capítulo Especial - Sinnoh x Johto

Dez e vinte e quatro da manhã. Era uma terça-feira. O dia mais longo da minha vida.
O despertador tocou sete da manhã, minha mãe e eu estávamos hospedadas em Mahogany para visitar o vô Pryce que estava de cama. Já fazia alguns meses que comecei a visitá-lo todos os dias, ele estava meio fraco, mamãe dizia que era bom os netos estarem por perto o máximo de tempo possível.
A casa estava silenciosa, mas, como de costume, minha avó Katherine já estava na cozinha preparando o café da manhã. Cumprimentei-a com um beijo no rosto e olhei para o quebra-cabeça inacabado na mesa de sala — três mil peças, esse ia demorar um bocado.
— Vivian, sobe aqui, depressa! — minha mãe chamou com urgência.
Subi as escadas às pressas e me deparei com meu avô deitado em sua cama de bruços. Ele respirava com dificuldade, escorria baba de sua boca, seus olhos mal conseguiam se abrir; minha mãe sempre soube como lidar com situações adversas, eu não. Ela tomou o celular na mão e ligou para um tio médico, precisava descobrir o que estava acontecendo. Fiquei em choque, há pouco menos de duas semanas o vô Pryce parecia tão bem, estava rindo de meus comentários e resmungando com seu mau humor costumeiro... Do dia para a noite, foi como se ele tivesse envelhecido dez anos, seus cabelos sempre bem penteados estavam todos desgrenhados, a cama fedia a mijo, sua comida permanecia intocada na mesinha de canto.
Minha avó entrou no quarto trazendo um pratinho com pão e mortadela frito. Parecia que nem ela havia notado a súbita piora do meu avô.
Após receber as instruções do meu tio, mamãe começou a correr pela casa feita louca. Lembro dela ter me dito no dia seguinte: “Eu pedi pro universo me mandar alguém, qualquer pessoa, porque eu não conseguiria fazer aquilo sozinha”. Não demorou muito para que minha tia Neusa de Azalea chegasse — como um sinal divino —, e ela percebeu que a situação requeria urgência.
Deixei o quarto, porque eu não estava com cabeça para aquilo. Eu sabia que ia acontecer. Não quis negar, pois sabia das condições e da doença dele, mas encontrei dificuldades em compreender como a vida seria dali em diante. Subi e desci a escada mais vezes do que deveria, eu só não queria estar lá dentro, ficava repetindo a mim mesma: “Por favor, por favor, não deixa eu estar perto quando acontecer”. Observei cada quadro na estante, o meu favorito era um do vô bem novo carregando sua Swinub gorducha no colo, a primeira captura dele; cada objeto velho que trazia tantas histórias que eu ainda não conhecia; o tempo estava acabando, e por um breve instante fui assolada com a ideia de que não tinha aproveitado como deveria.
Minha mãe passou às pressas pelo corredor com os cobertores sujos. Enquanto ela estava ocupada, fui até o quarto e me sentei do lado do meu avô. Eu não sabia se ele estava me ouvindo, mas também não encontrei nenhuma palavra que oferecesse conforto, por isso só segurei sua mão, o que é curioso, não éramos de nos encostar muito. Fiquei acariciando-o de leve, como se tivesse a esperança de que minha presença o confortasse.
— Pai, pai. Você quer ir ao médico? — minha mãe falou com a voz solene. Era surpreendente o quão tranquila ela aparentava, dada a situação.
Meu vô mexeu a cabeça devagar — um sinal de que ele estava sim nos escutando —, mas fez que não com a cabeça. Decidimos deixá-lo tranquilo, enquanto minha mãe fazia conforme meu tio médico indicava pelo telefone.
Foi surpreendente como a notícia correu rápido. Em menos de duas horas, recebemos a visita de pelo menos seis parentes diferentes. Todos ajudavam com o que podiam, fiquei mais tranquila com a presença deles porque, sinceramente, eu não estava em condições de consolar a minha avó. Dona Katherine sempre foi uma mulher muito forte, mesmo que os dois nem fossem mais casados, quando ele começou a piorar, ela se mudou para Mahogany para cuidar do meu avô todo santo dia — preparava café, almoço e janta, aguentava os xingamentos (até porque gente velha é assim, gosta de xingar), limpava a casa, trocava os lençóis e no dia seguinte estava pronta para repetir a dose.
Eu estava sentada na varanda quando ouvi minha tia cochichar para minha mãe:
— Chegou a hora.
Respirei fundo e fechei os olhos. É, chegou a hora.
Quando subi para o quarto, me deparei com o corpo na cama. Vi minha avó sentada do ladinho dele, acariciando seu cabelo devagar. Eu digo que a mulher é forte, porque ela derramou uma lágrima, só uma. O homem da vida dela havia acabado de falecer, mas ela não fez estardalhaço, não perdeu o controle, nem demonstrou — era como se ela compreendesse que, frágeis como somos, um dia a morte chega para todos. Eu dei um abraço forte na minha mãe que também se permitiu chorar um pouquinho, mas havia muito a que se pensar: Onde seria o enterro? Como fazer o anúncio? O que fazer com o corpo? Qual o melhor velório? Quem ia assumir o ginásio?
É, morrer dá um trabalhão. O que mais doeu nessa primeira parte do dia foi ver o irmão mais novo do vô chegar. Ele é meio surdo, tadinho, e foi a última pessoa a conversar com ele em vida. Minha mãe disse que o vô estendeu o braço e sorriu, como se só o estivesse esperando chegar para enfim descansar. Eles eram em cinco irmãos, agora só sobrava um. Eu sou filha única, mas, cacete, deve doer ver todo mundo indo embora até só sobrar você.
— Vivian, querida, pode abrir a janela? — pediu minha avó.
Eu abri os vidros e, nossa. Que dia lindo pra morrer. Sério, a frase pode parecer sarcástica, mas estava um dia incrível mesmo, nada daquela chuva ralinha dos filmes e paleta de cores cinzenta que os cineastas costumam usar quando querem passar um clima mais tenso; estava fresco e ensolarado. Se eu tivesse que escolher uma forma de morrer, queria que fosse assim. Meu vô não queria que seus últimos momentos fossem enclausurados em um hospital, talvez entubado, lutando para sobreviver mesmo diante da derrota iminente, com gente estranha correndo no corredor e uma máquina apitando do lado; ele estava cercado das pessoas que amava, no conforto de sua própria cama e na segurança de seu lar.
A notícia da morte correu ainda mais depressa, logo começou a vir parente de tudo quanto é parte. A primeira a chegar foi a prima Katy, que por sorte havia acabado de voltar de Kalos para passar umas férias; ela me abraçou acanhada, meio que sem saber o que fazer, porque sabia o quanto eu era apegada com meu avô.
— Ei, Vi... como é que está?
— Ah, eu tô bem — respondi com sinceridade.
Nós nos sentamos na beirada da cama, o corpo do meu avô já havia sido retirado. Na mesinha de canto, vi o prato que minha avó havia preparado para ele — sua última refeição.
— Ele não comeu o pão com mortadela — falei.
E, pela primeira vez no dia, me permiti chorar, pois percebi que ele nunca mais ia tomar café da manhã comigo.
Comecei a mastigar o pão mesmo sem fome, eu não ia permitir que o último café da manhã dele fosse pro lixo. Céus, minha cabeça estava uma ameba. Katy me abraçou, e eu lembrei que o dia ainda nem havia começado.
O que veio a seguir foi uma sucessão de cenas esquisitas. Muita espera e correria, é como falei, morrer não é fácil. Mamãe precisou ser muito forte, perdi um vô, mas ela perdeu um PAI. Quando alguém morre, tem tanta burocracia envolvida que você pode ter certeza que pelo menos um mês inteiro você não vai ter tranquilidade; é caixão, cemitério, contas a acertar, termos e contratos, aposentadoria, muita coisa para passar adiante. Enquanto os adultos discutiam, eu me sentei na cadeira de rodas do vovô e comecei a ir para frente e para trás. Quis experimentar um pouco a sensação, saber como ele se sentia, eu nunca havia percebido como era desconfortável, por que ele nunca me contou? Quando uma tia me viu ali sentada, ela ficou em choque. Não sei se pensava que eu estava desonrando a memória dele, mas a cadeira agora era minha, pô.
Recebemos uma ligação por chamada de vídeo, e esta deve ter sido a parte mais doida do dia. Adivinha quem era? Irmão da minha mãe, um cara que se mudou para uma região distante para virar Mestre Pokémon e nunca deu satisfação a ninguém. Fazia uns quinze anos que eu não o via, ele nem era considerado parte da família; tinha sua própria vida longe de nós e, em todo esse tempo, ele nunca ligou para saber como estávamos.
“Como é que ele está?”, escutei a voz abafada do outro lado.
— Ele já morreu... — minha mãe respondeu.
“Posso vê-lo?”
Sério? Sério que ele queria ver um corpo morto? Por que ele não veio visitar quando enviamos uma carta, dizendo que a saúde do vô tinha piorado? Por que ele nunca visitou o pai nos últimos quarenta anos? Ou melhor, por que ele não volta AGORA? Seria um ótimo momento para se redimir, rever todos nós, contar sobre sua vida nova e depois voltar, ninguém estava pedindo para ele ficar para sempre. Minha mãe levou o celular até o quarto e mostrou o corpo lá parado, sei lá, vai que ele achava que era brincadeira.
“Tudo bem. Tchau”.
E essa foi a última vez que ouvi falar do meu tio. Mamãe já nem liga mais, ela diz que não devemos julgar a dor dos outros, mas... “Posso ver o corpo dele?” Fala sério, puta que pariu.

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Aqui começamos a segunda parte desse longo dia, vamos dar um pulo para o velório, porque aparece muita gente famosa e vocês vão gostar. Sabe, uma das maiores doenças que assola os idosos é a depressão — eles acham que já não são mais úteis para ninguém, um peso no mundo; palavras de amor e gestos de carinho se tornam cada vez mais raros e a fragilidade diante do que um dia foram piora ainda mais a situação. Meu avô fechou o ginásio há alguns anos, e isso acabou com ele. Batalhar era sua vida, mas é engraçado pensar que ele também tinha hobbies. Lembro quando ele me contava sobre a guerra, e me presenteou com uma medalha de sua participação! Desde então, comecei a chamá-lo de “capitão” em reconhecimento ao seu cargo como líder de ginásio. Pryce gostava também de pescar, atividades que seus colegas da Liga desconheciam. Na verdade, tem muita coisa sobre ele que nem eu sei.
Como ele morreu bem cedinho, o corpo só ficou pronto lá por volta do meio dia e o cemitério só ficaria aberto até as quatro. Minha mãe decidiu adiar o enterro para a manhã seguinte, dessa forma todo mundo que pegou um avião ou se juntou ao seu Pokémon voador para comparecer ao enterro teria tempo de chegar.
Só que isso significava passar a madrugada inteira ali, o que se revelou como uma experiência bem louca por si só.
Eu não me vesti de preto naquele dia, não dá pra imaginar uma Vivian de preto. Eu até que estava bem, me recuperando, achava que o pior já tinha passado.
— Vi, acha que pode postar uma mensagem no seu perfil, avisando todos do ocorrido? — perguntou minha mãe.
— Sim, claro — respondi. Ela não queria nada muito elaborado, só pediu para anotar o endereço e o horário do velório, para as pessoas se programarem. Passei uns trinta minutos pensando em como escrever até conseguir algo satisfatório, e enfim, postado.
Meu texto atingiu umas duzentas e cinquenta curtidas e mais de cem comentários. Uau. Nem minhas fotos de biquíni chegam a tanto.
Quando chegamos ao velório, vi gente de tudo quanto é canto, reencontrei amigos que não via há anos e recebi a visita de pessoas que eu menos esperava. O pessoal da Liga Pokémon garantiu o quarto mais chique, e nas primeiras horas da manhã não demorou para lotar; todos os líderes de ginásio da região de Johto compareceram, cada um trazendo uma mensagem motivadora ao seu próprio estilo.
— Que linda declaração de amor, Virginia! — encorajou Chuck, contendo uma ou duas lágrimas. Nem fiz questão de corrigir meu nome. — Ele foi um lutador, um verdadeiro capitão!
— Sei como é perder alguém querido, minhas orações estarão com você e toda sua família — falou Jasmine.
— Meus sentimentos — disse Clair.
— Seu avô foi um verdadeiro amigo de muitas histórias, ele era de uma sabedoria infinita. Que encontre a paz — continuou Morty. — Saiba que a morte nada mais é do que uma jornada que todos nós teremos que tomar.
Se eu disser que não sorri nesse dia, eu estaria mentindo. Que surpresa foi a minha ao me deparar com Ethan e Amy juntos; ele sem o boné, todo tímido e comovido; e ela com um par de óculos escuros maiores que o rosto para esconder os olhos inchados, sem perder a pose. Amy me abraçou forte, não perdi a oportunidade para brincar e dizer: “Tu ainda me deve uma bike”. Nós duas rimos muito, naquela hora eu estava realmente feliz por vê-los.
Junto de Ethan, era claro que tinha de vir todo o seu fã clube. Muitos velhinhos ali conheciam Pryce, alguns haviam estudado com ele quando pequenos, outros eram colegas de trabalho ou apenas espectadores que tinham tido a chance de assistir a uma das tantas batalhas incríveis que ele travara.
Um senhorzinho que eu não conhecia o nome chegou para mim e falou:
— Vivi, tenho sessenta e um anos e amaria ter uma neta como você. Um dia, quando eu partir, gostaria de receber uma homenagem como aquela que você escreveu. Esteja onde estiver, tenho certeza que ele está muito orgulhoso de ter convivido com você, que Arceus possa consolar os corações de todos que amam seu querido avô.
Sabe, ouvir aquilo de um estranho me deixou muito feliz. Eu, uma neta exemplar? Nunca fiz nada para merecer tal reconhecimento, só postei alguns pensamentos em uma rede social, mas parecia que todo mundo tinha lido. O velório estava lotado, meu avô estaria surpreso! Ele amava receber atenção, mas me entristece pensar que não está mais aqui para ver quanta gente se importava com ele. A vida é cheia dessas, quantas vezes nós só arranjamos tempo para visitar alguém depois de que ela já morreu? Sabe aquelas coroas de flores? Ele recebeu sete, todas lindas e bem decoradas, quase não tinha mais espaço do lado do caixão. E as visitas não paravam de chegar, o ambiente era preenchido por aquele burburinho baixo, uma risada ocasional irrompendo pelo aposento, uma fungada ou outra para esconder a choradeira.
A cena que mais doeu em mim — na verdade, em todo mundo que estava presente — foi quando chegou o irmão mais novo do meu vô. Como mencionei, ele é meio surdo. Eu o vi se aproximar do caixão, mas acho que não tinha noção de estar falando alto demais.
— Meu irmão! Meu irmão! Agora eu estou sozinho, e quem cuidará de mim?
Ele foi guiado por uma das netas, seu corpo tremendo e o nariz fungando, e nós ainda podíamos ouvi-lo repetir: “Agora só sobrou eu... me sinto tão só. Por que vocês me deixaram?”
Stanley, meu namorado, foi o próximo a chegar, quase comecei a chorar só de vê-lo na porta. Ele ficou ao meu lado até o fim, ouvindo, falando quando necessário. Sua mera presença me confortava, foi muito importante tê-lo por perto. Eu não estava esperando ver tanta gente vinda de Sinnoh, era uma viagem longa, até hoje não sei como eles fizeram para chegar tão rápido. De noitinha, Luke e Lukas chegaram com sua família, fiquei de boca aberta ao saber que até o pai deles, o famoso ex-campeão, Walter Wallers, também estava junto.
Lukas, meigo como sempre, quase me arrancou mais lágrimas. Luke, por outro lado, me fez rir quando eu achava que meu mundo não tinha mais cor.
— Vivian, você é uma das primeiras e únicas pessoas nesse mundo que tiveram a proeza de fazer meu pai chorar — disse Lukas. — Sério, quando ele leu aquele seu texto, mamãe me contou que o viu chorando bem baixinho, escondido no quarto.
Conversar com aqueles dois irmãos no meio madrugada me deu mais energia para aguentar as difíceis horas que se seguiram — afinal, o enterro só poderia ser feito às oito.
— Ei, Luke, acha que pode me emprestar os óculos escuros do seu Garchomp? — perguntei.
— Claro, por quê?
— Sei lá, só pra me prevenir. Depois eu devolvo.
Meus amigos de Sinnoh não pararam de chegar, acho que não consegui esconder minha cara de terror ao me deparar com Marley, minha rival de longa data dos tempos do Grande Festival. Ela só veste preto, naturalmente, então não estava muito diferente do que eu estava acostumada a vê-la, mas quando me abraçou, meu peito se apertou ao perceber que ela também chorava.
— Você precisa ser forte agora — disse Marley.
Dawn e Cynthia foram as últimas a chegar, quase às três da manhã, quando fazia mais frio. Em outros tempos, eu diria que aquele encontro teria sido muito feliz, meus amigos de jornada, todos reunidos. Quando eles souberam que eu passaria a madrugada toda no velório, eles prontamente se ofereceram para ficar lá comigo. E como eu poderia recusar? As horas passaram mais depressa na companhia deles, tínhamos tanto a discutir.
Quando o dia já ia amanhecendo, a maioria já havia adormecido como puderam nas desconfortáveis poltronas. Melyssa nos trouxera um bolo, e Cynthia saiu para comprar o café da manhã. Eu estava deitada no colo de Stanley, com os olhos pregados de tanto sono, quando senti que queria compartilhar uma experiência com ele.
— Eu me lembro do último ano novo que comemorei com meu avô.
— E o que vocês fizeram? — perguntou Stan.
— Quando bateu meia noite, ele começou a chorar. Eu fiquei sem reação, afinal, estava todo mundo comemorando o começo de um novo ciclo, se abraçando e brindando, enquanto eu fiquei lá parada do lado dele na cadeira de rodas, sem conseguir abraçá-lo.
— Mas você estava ao lado dele, Vi. E eu garanto que isso o deixava contente.
— Acho que ele sabia que havia chegado a hora. Gosto de dizer a mim mesma que, nesse momento, um anjinho chegou bem perto dele e falou: “Sr. Pryce, esse é seu último ano aqui na Terra, tá bem? Aproveite o máximo que puder”.
Oito horas da manhã, o céu clareou e o dia continuava lindo.
Olhei uma última vez para o rosto de meu avô antes de fecharem o caixão.
— Quem irá carregá-lo? — ouvi Dawn perguntar baixinho.
São necessárias seis pessoas para carregarem o caixão, é um percurso curto, mas muito significativo. Eu me enchi de orgulho ao saber que na frente iriam o tio Walter e o Lance, que chegara havia pouco de uma viagem de emergência, só para o enterro; os outros três foram o Chuck, Falkner e Ethan; normalmente eles preferem que apenas os homens façam isso, mas qual foi a minha surpresa ao saber que eu seria a última convidada.
Foram os doze metros mais longos da minha vida.
Fizemos a caminhada em silêncio até o cemitério, fui subindo de mãos dadas com Marley e Stanley de cada lado. Mesmo que a maioria das pessoas que compareçam no velório não fique até a hora do enterro, ainda devia haver umas sessenta pessoas, o suficiente para fechar a rua. Minha mãe sempre disse que velório não é lugar para a criança, por isso nenhuma das minhas primas de Azalea mais novas compareceram — o que foi um alívio, eu não teria suportado ver nenhuma delas chorando.
Nossa longa jornada estava quase chegando ao fim. Na pequena catedral, tivemos nossa última despedida do vovô, de um jeito mais particular. Fazia anos que eu não entrava em um cemitério, mas desde aquele dia eu tenho ido todo mês levar algumas flores, acender velas. Meu pai costumava dizer que não gostava de cemitérios, porque o que ele tinha para dizer aos vivos já havia sido dito, mas eu gosto dessa ideia de prestar as devidas homenagens aos mortos. É um ambiente sagrado, e muito belo se você souber reparar.
Os adultos levaram um tempão decidindo se o vovô seria enterrado do lado Azalea da família ou como um membro honorário da Liga, mas foi minha avó quem deu a palavra final:
— Ele sempre quis que fôssemos enterrados juntos — disse Katherine.
O túmulo da nossa família é bem grande, espero que o vovô goste. Eles destamparam o mármore e, enquanto dois homens desciam o caixão, nós ficamos lá, olhando.
Eu vi Lance tirar um papelzinho do bolso do paletó. Ninguém tinha me contado que ele havia preparado um discurso, imaginei que seria incrível um homem respeitado como ele dar as últimas palavras ao falecido. Com seu vozeirão, Lance começou a falar:
— Ontem a noite, me pediram para dizer algo bonito na hora do enterro, mas para ser sincero, eu não encontrei nada que chegasse nem aos pés dessas palavras tão lindas e honestas que eu lerei aqui para vocês.
Os homens continuavam cavando. Lance abriu o papel e começou a ler:
— “Hoje uma garota se despede de seu capitão”.
Ah. É o meu texto. Coloquei os óculos escuros, porque ia começar a chover.

“Hoje uma garota se despede de seu capitão. Meu avô encontrou a calmaria depois da tempestade. Fico a pensar em todas as lembranças dessa longa viagem, quando o conheci ele já tinha os cabelos branquinhos e, apesar de eu ter tido a chance de acompanhá-lo por um breve período de sua vida, sinto muito orgulho deste velho capitão — das caras engraçadas que ele fazia e dos momentos de lazer com quebra-cabeças, do eterno carinho pela minha avó que me faz acreditar no amor.
Oitenta e cinco anos de aventuras! Lembro quando ele me deu uma medalha que diz ter ganhado nos seus dezoito, de volta aos tempos da guerra. Será que ele lutou bravamente? Ele era um líder, um verdadeiro treinador; mas também um pai dedicado, um avô brincalhão, um amigo gentil. Ele amava andar com sua Swinub gordinha debaixo do braço, mas ela se foi antes. Hoje cedo ele também descansou em sua cama confortável e, veja só, estava um dia lindo! Muito bom para pescar, uma de suas atividades favoritas. Nós deveríamos ter pescado mais, só que eu sempre morri de nojo de pegar nos peixes, desculpe... Eu coloquei uma roupa bem bonita hoje, porque ele gostava de me ver chique, prendi a medalha no peito para me lembrar de todas suas conquistas e vitórias até aqui, mesmo as que conheci apenas através de breves histórias.
Hoje, as cortinas de prata abrem caminho para praias brancas. Independente da crença ou religião, espero que lá no futuro possamos nos encontrar de novo num barquinho, onde meu bom e velho capitão estará me esperando com sua Swinub gordinha do lado. Ele vai me olhar com aquele sorriso tão raro e espontâneo, do jeitinho como lembro, e vai dizer:
— Vivian, que bom que está aqui comigo!”
Saudades eternas, vovô. Me espere.



Em homenagem à Teruo Ikeoka.
14/10/1931 ~ 28/03/2017



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