Notas do Autor (Capítulo 51)

Nada de descanso àqueles de coração oprimido, tivemos uma longa semana para chorar pela partida de uma adorada personagem, mas hoje voltamos à rotina da aventura sem mais lamentar o passado. O Shadow Bellator mencionou algo interessante comigo no último comentário: Acho que os próximos capitulos vão ter um clima de luto e desanimação tão grande que dá até calafrios só de pensar. Não, meus caros leitores, se eu mantivesse esse clima por muito tempo nem eu gostaria de continuar lendo minha história, e por conta disso, os fatos aqui acontecem com tanta velocidade que não teremos tempo de olhar para trás e lamentar pelas perdas, pois serão muitas, e continuaremos seguindo nosso caminho; dessa vez rumo a um acontecimento ainda mais surpreendente dentro do Mundo Pokémon.
Algo extremamente difícil de se trabalhar com fics de Pokémon é um enredo que não esteja previsível. Ginásios são previsíveis. Competições são previsíveis. Os treinadores e coordenadores chegam, enfrentam os oponentes, ganham ou perdem, mas no fim alguém leva um prêmio, fato. Essa segunda parte do Arco de Canalave trará uma sensação que vocês nunca viram em Sinnoh até agora, a sensação de não saber o que vai acontecer no final, de esperar a próxima semana para descobrir quem será o vencedor de uma batalha em que não são insígnias que valem a vitória, e simm a vida, a honra de sair vitorioso, porque deixamos aqui o clichê das aventuras para entrar nas ideias que venho planejando desde antes das férias. Meus senhores, sejam bem vindos à segunda parte de Canalave, a Iron Island.
Rockets e Wilson
Os Rockets estão presentes em praticamente todas as nossas fics da Aliança. Eles estrearam em Kanto, Ilhas Laranja, Johto, Hoenn e Sinnoh, ou pelo menos já foram citados em algum momento das fics com seus planos. Vou explicar mais detalhadamente como ocorrem as coisas em nossas histórias. As fics da equipe têm uma transição de um ano para cada, logo, o que aconteceu em Kanto ocorreu 4 anos antes do que acontece agora em Sinnoh, o que ocorre nas Ilhas foi há 3 anos, em Johto 2, e em Hoenn apenas 1 ano. Isso explica o fato dos mesmos personagens aparecerem em nossas histórias ao mesmo tempo, ou até mesmo no caso da Cynthia conhecer o Steven na fic de Hoenn, e em Sinnoh eles estarem juntos. De certa forma essa foi uma das ideias mais bem elaboradas da equipe, há muito tempo o Jean bolou a ideia mirabolante de Clonagem Pokémon, abrindo assim um leque de oportunidades para o restante da equipe; o próprio Shadow Zangoose utilizou isso na história dele, como no caso do Torchic da May que foi uma criatura vítima de experiências dos Rockets.
Agora, em Sinnoh eu sou o responsável por finalizar esse ciclo. Unova é como um novo mundo, mas Sinnoh é o final de Kanto e de todas as outras que vieram nesse meio tempo, portanto, é aqui que as aparições dos Rockets desaparecerão de vez no universo da Aliança Aventuras; vocês podem esperar muito do Archer, do Proton, de vilões novos e de criaturas que finalmente mostrarão o motivo desses caras serem tão temíveis, não sendo apenas um par de recrutas atrapalhados que não conseguem vencer três moleques. O Wilson foi o primeiro deles, para quem se lembra é o mesmo homem que apareceu no Capítulo 49.5, agora explicando todos os seus planos por trás do que fez com a Vivian e o Stanley. Está na hora de criar vilões de verdade.
Uma História Interligada
É a primeira vez que trarei em Sinnoh fatos que se interligam diretamente como um todo por tanto tempo. O que estou querendo dizer é que durante cerca de 8 Capítulos ficaremos aprisionados nas longínquas ilhas de ferro, e cada capítulo se interligará com o último postado sendo essencial para o entendimento de tudo, é por isso que venho dizendo que é o "todo" que torna esse Arco surpreendente. Até hoje nenhum capítulo foi assim tão interligado, normalmente cada novo episódio apresenta um começo, meio e fim; terminando nesse ponto o enredo. Mas agora tentarei fazer um esquema como se fossem partes, seria como uma Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4... A única vez que fiz isso foi no ginásio de Veilstone, e também no Hotel Deluxe Heart, mas ambos com apenas dois capítulos. E agora, garanto que mais uma vez prenderei os leitores na história de modo que vocês mal possam esperar pelo capítulo da próxima semana.
Lembram a primeira vez que o Proton apareceu no Capítulo 7? Naquela época ninguém entendia o que os Rockets faziam na região. E quem se lembra do Capítulo 32 em que o Riley já falava de ter vendido a Iron Island para o Ike? E do Interlúdio, aquelas estranhas conversas entre o Marshall e o Proton? Sim, meus senhores, é nesse arco onde tudo que venho construindo desde a Saga Pérola será explicado.
O Arco
"De que adianta proteger os portões quando há muralhas?" — Acho que essa frase retrata perfeitamente o que ocorreu com o Luke, e sem a Titânia toda a defesa da muralha dele se esvaiu, abrindo uma enorme brecha para que o pior acontecesse. Com a saída do Titânia uma enorme quantidade de oportunidades se abriram para mim, e com isso posso focar minha atenção em personagens esquecidos das equipes, como o Piplup, o Mothim, a Froslass e o Lairon. Este Arco será essencialmente dos Pokémons De certa forma quero dar atenção para todos, e todos lutarão pelo menos uma vez. O arco é longo pelas batalhas, mas nada daquela dinâmica lenta e cansativa dos RPGs, quem leu o Fire Tales 22 sabe bem o que estou planejando, e com isso trarei descrições do melhor nível sobre os Pokémons em sua forma Gijinka batalhando como verdadeiros guerreiros. Teremos o Marshall, o Roark, o Byron, o Ike, a Dawn, o Wilson, o Proton, o Archer... Enfim, inúmeros personagens que tornarão as próximas semanas de monotonia em uma verdadeira guerra nas ilhas de ferro. Que comece a batalha.
EDIT: A página Criminal Organization foi atualizada com a ficha de Archer e Wilson.
Capítulo 51

Uma semana antes da batalha de ginásio em Canalave...

Em uma sala escura um homem aguardava o início de uma reunião que jamais começaria. Cinco eram as cadeiras dispostas na mesa circular, e quatro delas estavam vagas; a principal de todas, adornada em cores avermelhadas e detalhes dourados, estava vazia e praticamente empoeirada, uma vez que mais ninguém se dava no trabalho de limpá-la. Do outro lado da mesa jazia um homem com uma taça de vinho na mão a observar uma vasta janela que dava visão para a imensidão do mar bravio daquela região.
Não se ouvia nada além do tilintar emitido pelo vidro ao tocar a madeira rústica da mesa de reuniões. Pouco depois entraram dois sujeitos na sala, ambos trajavam uniformes negros com a letra “R” estampada em evidência na cor vermelha. Os soldados bateram continência, mas o sujeito que encarava a janela de vidro não fez nem questão de virar-se. O silêncio dominou a sala por alguns segundos, então, um dos oficiais prontificou-se:
— Senhor Archer, não fomos capazes de localizar o Executivo Proton. Petrel encontra-se sob custódia da Polícia Internacional da região, e quanto à Ariana... Bem, não se ouviu mais nada dela desde o incidente nas Ilhas Laranja.
Archer esboçava uma feição pensativa ao observar o reflexo perfeito de seu rosto estampado no vidro de cristal de sua taça. O homem permaneceu sério, tomou mais um gole de seu vinho, e então disse em voz baixa:
— É uma pena. — sua voz soava traiçoeira e não era possível dizer se aquela frase ecoara como uma lástima ou uma ironia. Era como uma serpente tentadora envolta de uma árvore, pronta a oferecer um fruto condenado aos desatentos. Os soldados ainda se mantiveram em posição de continência até que o homem voltou-se para eles e sorriu.
— Não preciso mais deles. De nenhum deles. — ao terminar sua frase, jogou o copo de vinho no chão e começou a observar o líquido escarlate escorrer por entre as frestas do piso de mármore. Archer ficou ali a observar o estrago propositalmente causado, parecia ter alguma malícia escondida em seus movimentos ao ver a destruição do próprio domínio, afinal, há muitos anos os Rockets andavam falidos.
O Executivo ficou a encarar o vinho escorrer, os oficiais permanecem em completo silêncio ao ver o homem fitar o líquido vermelho, estático e com atenção, mas a um dado momento um sussurro de indagação pôde ser ouvido vindo de um dos soldados:
— Nem do Senhor Giovanni?
Giovanni era o líder e fundador da facção dos Rockets, desaparecido desde os tempos de Kanto os criminosos passaram cada vez mais a perder sua reputação, até chegarem ao fundo do poço em que estavam atualmente. Archer levantou-se e lançou um olhar assustador para o soldado que fez a pergunta, caminhou em sua direção como se o ameaçasse, mas as outras palavras soaram quase que como um lamento de desolação:
— Não, nem do Giovanni, meu caro soldado. Estamos aqui por minha causa, não? Enviamos uma mensagem há cada um dos representantes da facção, e nenhum deles compareceu à esta reunião. Seguirei com este meu último plano sem eles. Nada vai mudar. Absolutamente, nada. — disse Archer, chegando tão próximo que o sujeito até mesmo chegou a assustar-se — Agora, podem ir embora. Avise todos para iniciarmos nosso plano.
Os soldados fizeram continência e se prepararam para sair, mas antes, Archer chamou pelos dois novamente que retornaram com pressa.
— Eu derrubei um pouco de vinho no chão. — disse o Executivo.
— Estarei pedindo para que limpem urgentemente. — respondeu um dos oficiais.
Nesse instante Archer sacou uma arma de dentro de seu uniforme branco e atirou no peito do mesmo soldado que o indagara se a presença de Giovanni era importante. O companheiro ao lado assustou-se, mas não correu para auxílio por ver a assustadora figura de seu superior com uma arma na mão. Archer guardou-a novamente e tornou a falar com enorme calma:
— Peça para darem uma limpeza nisso aí também.
O outro saiu da sala correndo, deixando Archer a sós com o corpo estendido na sala. O homem foi pisando por cima do sujeito até sair de sua sala onde tinha vista para o mar. Aquilo era tudo que restara do que outrora já fora uma das maiores bases secretas dos Rockets, pelo menos o vento que lhe batia no rosto dava a sensação de quem nem tudo estava perdido, e ainda havia a esperança de que suas últimas conspirações dessem certo. Foi então que um garçom chegou para trazer-lhe mais vinho, Archer pediu para que o homem se aproximasse e sorriu ao vê-lo de perto.
— Por favor, venha até aqui.
— Senhor? Precisa de algo? — indagou o garçom.
— Quero contar-lhe todos os meus planos para nosso futuro. É importante que você, como um bom servente, saiba de nossos planos, afinal, garçons são peças muito importantes no andamento de uma empresa, não?
O homem esboçou uma feição de desentendimento, aquilo que Archer dissera não fazia sentido algum. Não sabendo ao certo o que ele tinha haver com os planos de seu superior, pensou apenas que ele era como a típica figura de um empresário falido que enlouquece ao perder todo seu império.
— Coloque um pouco de vinho em duas taças. Venha beber junto comigo.
O garçom serviu o vinho requintado ao chefe, em seguida colocando um pouco para si mesmo. Sentou-se na varanda e ficou a aguardar o que seu superior tinha a dizer naquela estranha situação.
— Diga-me seu nome.
—Wilson, senhor. — afirmou o garçom.
— Fascinante. Então diga-me, Wilson, como é trabalhar para os Rockets? Quero dizer, como andam as coisas lá embaixo? Meio vazias, não? Pelo menos creio eu que os cientistas remanescentes seguiram com aqueles projetos de clonagem, os salões inferiores devem ter virado uma bagunça cheia de Pokémons idênticos para todos os lados!
— Na realidade eles são bem obedientes, senhor. O projeto de clonagem dos Rockets requereu milhões de dólares para ser concluído, mas parece ter rendido um resultado inesperado. Qual seria o motivo exato de criar um exército de Pokémons, meu senhor?
Archer nada disse, parecia não star disposto a responder perguntas, apenas a fazê-las. O homem confirmava as indagações de seu chefe que teimava em prendê-lo naquela situação, e o assunto de Archer parecia não ter fim.
— Agora, não temos nada além de laboratórios abandonados e fugitivos pouco experientes que nada mais faziam além de roubar Pokémons de crianças. O que acha disso? Roubar Pokémons de crianças?
— É a nossa função, senhor.
— Nossa função... Interessante. Você é de Sinnoh mesmo, estou certo? Percebi pelo sotaque. Agora deixe-me perguntar, presumo que conheça uma notável figura do passado desta região, seu nome é Walter Wallers.
— Sim, era o campeão da Liga Pokémon — continuou o garçom.
— E ele tem filhos, não é? — indagou Archer como se perguntasse aquilo afirmando estar correto. O Executivo então tomou um gole de seu vinho e voltou a falar — Vou sequestrar o filho desse homem. Roubar Pokémons é coisa de crianças mesmo, gostou da minha comparação?
O garçom fez uma expressão de surpresa apreciando profundamente a ideia que seu superior tivera. Archer levantou-se e então falou para Wilson tocando em seu ombro:
— E quero que você esteja no comando.
— Perdão? Senhor, mas não tenho qualificações de espionagem, não tenho condições de realizar um sequestro sem que descubram minha identidade, e...
— Exatamente! Você é perfeito para o cargo — disse Archer colocando a mão no ombro do garçom e levando-o para a sala de reuniões — É simples, você deverá sequestrá-lo e trazê-lo até aqui chamando o máximo de atenção que conseguir. Quero todos eles aqui, toda a polícia internacional e toda a mídia que desejar.
— Mas, Senhor, você está disposto a revelar nossa localização? O Homem de Ferro, Ike, da Elite dos 4, já imagina onde estamos alojados, tanto que até mesmo comprou a Iron Island que servia como um refúgio para que nos escondêssemos. Nos tornaríamos uma presa fácil para que eles nos atacassem.
— Você pergunta coisas demais... — disse Archer, mostrando o corpo do oficial morto na sala ao lado que fez com que o pobre garçom quase congelasse — O que foi? Você tem medo de morrer? Basta responder minha pergunta, é simples, aceita ou não?
O garçom suava, mas confirmou a pergunta várias vezes. Wilson saiu correndo da sala deixando o Archer para trás, prometendo que faria de tudo para que cumprisse seu dever na facção. E então, Archer despediu-se de seu mais novo executivo com um breve sussurro:
— Por que será que temem a morte? O final de todos nós é o mesmo de qualquer maneira...

A brisa suave passava por entre a cidade portuária de Canalave guiando as ondas e os barcos para o horizonte até onde os olhos alcançavam na imensidão azul dos oceanos. Veleiros cortavam o céu com suas bandeiras brancas ao lado de pesqueiros que garantiam sua refeição de cada dia com o esforço e o trabalho das manhãs de pesca atrás de cardumes de Magikarps. Havia uma ponte de madeira que estendia-se sobre o mar guiando aqueles que ficavam para trás com seu último adeus àqueles que partiam, e por isso, a presença de um jovem garoto sobre ela lamentava a partida de alguém que amava, mas havia deixado-o.
Luke estava sentado em uma das beiras com as pernas aéreas e suas mãos entrelaçadas. O vento que lhe percorria o rosto mal podia ser sentido, pois sua mente estava tão perdida e desatenta, com tantas dúvidas, que o que acontecia ao seu redor era de menor importância. Não sabia ao certo qual rumo tomar a partir daquele ponto, pois sentia falta dos conselhos de sua protetora.
Já está pronto para o próximo ginásio?
Luke virou-se para trás no mesmo instante como se sentisse que Titânia ainda estivesse ali presente para consolá-lo e guiá-lo em sua aventura, mas não havia nada. A serpente de pedra havia deixado-o para que o jovem seguisse seu próprio caminho, afinal, todas as mães precisam deixar suas crias a um determinado ponto da vida. Luke compreendia aquilo, mas ainda assim não deixava de sentir um enorme vazio em seu coração
— Por que você tinha que ir? — indagava para si mesmo.

Enquanto Luke permanecia sozinho no píer seu irmão continuava no Centro Pokémon ao lado de seus amigos. O treinador estava feliz por seu Pachirisu já ter se recuperado, e agora apenas ficava no local preparando-se para uma competição que haveria naquele fim de semana, almejando assim conquistar sua quarta fita. De hora em hora Dawn ia para a janela ver seu Luke voltara, mas não tinha resposta do retorno do amado. Roark estava na companhia dos amigos aguardando que seus Pokémons se recuperassem da mesma forma, e ficara sabendo por intermédio de Lukas da partida de Titânia.
O líder retirou o capacete e lamentou em sua tristeza:
— É uma pena que ela o tenha deixado, era um Pokémon fenomenal. — disse Roark.
— Mas não há nada que possamos fazer quanto ao destino de um Pokémon que decidi como traçá-lo. — continuou Lukas — Por mais que haja aquele conceito de que quando um Pokémon é capturado ele deve servir seu treinador para sempre, não é assim que as coisas funcionam para nós. Damos o livre arbítrio para que fiquem ou não ao nosso lado como desejarem.
— Chegou a pensar neste conceito sozinho, meu jovem? — indagou Byron, que ouvia a conversa — O Senhor Ike, da Elite dos 4, é um treinador que também trabalha com esse código. Seus Pokémons o seguem por opção, e isso os torna tão fieis que é como se ambos lutassem com suas mentes conectadas. É uma técnica incrível.
Lukas sorriu, surpreso por ouvir aquilo vindo de um veterano em batalhas como o líder de ginásio metálico. O jovem afagou a cabeça de seu Pachirisu que estava todo enfaixado, mas já se recuperava dos danos que recebera em batalha. O próprio garoto sentia como se estivesse em harmonia com seus Pokémons, e sentia-se feliz em ver que seu irmão tinha o mesmo respeito.
Gabite estava do lado de fora em uma zona reservada para os Pokémons. Se alguém havia sofrido mais pela partida de Titânia, então esse indivíduo era o dragão. Parou de falar com seus companheiros de equipe por um tempo e preferia manter-se isolado assim como seu treinador. Dawn ficava a observar os atos do dragão pela janela, Gabite permanecia em cima de uma pedra em profunda reflexão, e quando perdia a concentração destruía qualquer coisa que estivesse a sua volta com enorme fúria. Por mais que nenhum humano entendesse a língua dos Pokémons, o rugido do dragão dava claros sinais de lamento e ódio, amaldiçoando os céus e também aquela que julgara ser a pessoa mais importante de sua vida, mas agora o abandonara.
Dawn observara a cena em silênio, e então, por um momento um pensamento lhe cobriu a mente:
— Não acha melhor irmos ver o Luke?
— Há momentos em que apenas a solidão pode nos dar o conforto da liberdade. — disse Roark, repetindo as palavras que vira em livro.
Dawn compreendeu, mas voltou seu olhar para a janela e comentou:
— É que todos os Pokémons dele estão aqui descansando. E não sei quanto a vocês, mas me sinto tão desprotegida sem a Titânia... É como se as paredes que envolviam nossa equipe tivessem aberto uma fenda.
Certamente, o que Dawn dizia era verdade. Os irmãos Wallers haviam ganhado nome pela força e potência de uma Onix que caminhava ao lado da equipe, mas agora que Titânia havia partido a notícia logo correria toda a região, e notícias daquele nível poderiam facilmente cair em mãos erradas.
De volta ao píer, Luke estava tão desatento que sequer dera conta de três homens que caminhavam pela ponte, todos vestidos de negro. O garoto estava mais preocupado em observar os Wingulls voarem do que notar se alguém chegava por perto, principalmente se fossem treinadores. Não estava nem um pouco disposto a batalhar, e certamente, queria manter-se longe delas por alguns dias. Os homens pararam, e então, um deles falou:
— Lukas Wallers? — indagou, como se fosse uma afirmação.
Luke virou-se notando imediatamente o uniforme que os Rockets trajavam, vestes já bem conhecidas de suas aventuras. Encarou aqueles três sujeitos de forma tão desinteressada que faria com que os supostos criminosos até se sentissem ofendidos.
— O que foi?
Encontrar Rockets parecia ter se tornado algo tão normal que não havia o que temer. Luke não tinha nenhum Pokémon consigo, logo, eles não tinham o que roubar. E de forma geral eles não seriam capazes, afinal, soldados inúteis como aqueles sempre eram derrotados no final.
Porém, daquela vez ele estava enganado. Não eram Pokémons o que buscavam, e nem mesmo dinheiro, relógios, jóias ou roupas de marca. Um dos homens retirou um pano branco e cobriu o rosto de Luke que tomou tamanho susto que não foi capaz de gritar. O pano continha uma mistura de clorofórmio entre outras composições químicas que fizeram o garoto perder a consciência em poucos segundos. Um carro estava estacionado ali perto, Luke não tivera nem como reagir, os três agarraram o jovem e o colocaram dentro do carro que saiu em disparada. Ninguém estava presente, ninguém ficou sabendo. Não se ouviu mais nada.
• • •
Em uma tarde de junho um telefonema logo chegou à Polícia Internacional. Marshall estava em seu escritório acertando algumas informações de um corpo encontrado no meio do mar, uma vítima que parecia ter sido morta há algumas semanas, trajando uniformes de uma perigosa facção criminosa na ativa. De repente um oficial entrou em sua sala com uma feição espantada de desespero, Marshall até mesmo estranhou aquilo vindo de um de seus melhores homens, e atentou-se à um Pokegear que estava nas mãos do homem, que entregou-o diretamente para o chefe do departamento.
— Vai querer ouvir isso pessoalmente. — disse o policial.
Marshall estranhou, atendendo o celular na sequência. Começou a ouvir vozes ameaçadoras, pediu um bloco de notas e segurou a caneta com firmeza ao ouvir tais palavras:
— Lukas Wallers. Esse nome lhe é bem familiar, doutor Marshall? Nós estamos com este jovem sob nossa posse, sou da corporação dos Rockets, e procuro seu responsável.
Marshall virou-se e pediu imediatamente que grampeassem a ligação e marcassem de onde estava sendo feita. A voz continuou a falar, enquanto o delegado continuou ouvindo tudo atentamente.
— Boina púrpura, blusão azulado, cachecol branco e olhos esverdeados. Confere?
— Boina púrpura, blusão azulado, cachecol branco e olhos esverdeados. Confere?
— Eu sou o responsável pela criança. — disse Marshall com uma voz grave — O que querem?
— Garanto que não faremos nada ao garoto, mas peço que compareçam ao local indicado.
Marshall ouvia tudo atentamente procurando manter a calma, ainda que suas mãos suassem frias e preocupadas. Lidava com aquilo todos os dias, mas agora haviam sequestrado alguém de sua família, e pior, o filho de seu maior amigo. No mesmo instante pediu também que seus homens localizassem Lukas, para terem certeza se aquilo que os sequestradores diziam era verdade. A grampeação chegaria em poucos minutos, mas as vozes do outro lado pareciam manter total controle da situação tendo em mente cada passo e fala pré-determinados.
— Presumo que conheçam a localização das Ilhas de Ferro.
— Posse de Ike Smithsonian, o homem mais rico de Sinnoh. O que procuram? Dinheiro? Pokémons? — continuou Marshall, mas a voz do outro lado mantinha-se calma e cheia de malícia.
— Somos profissionais, senhor. Não procuramos nada que tenham neste presente momento. — interrompeu — Pedimos apenas para que você vá até a Ilha de Ferro.
— O que devo levar?
— O que julgar certo. Para o garoto. Apenas apareça, mas leve o lendário campeão se desejar.
A voz apagou, a última frase soara quase como uma ameaça. Marshall ficou estático do outro lado da linha por um tempo. Esboçou uma feição de ódio e receio por um momento, ficou com a mente perdida por poucos segundos, mas logo organizou todas as suas ideias e experiência lidando com a mesma convicção e interesse que qualquer outro caso de extrema importância. Antes mesmo de ligar para o pai do garoto seguiu até uma sala que funcionava como uma zona de espera, era um interrogatório. Em uma das cadeiras estava um homem de boina negra e cabelos esverdeados, Marshall segurou-o pela gola e quase arrancou-o do chão encoberto por sua fúria.
— Qual é o plano ridículo que este paranoico do Archer tem em mente agora, Executivo Proton? Que tipo de facção é esta que sequestra crianças?!
— Devo admitir, essa me surpreendeu. — afirmou Proton, afastando as mãos como se insinuasse que não tinha nada haver com aquilo.
Marshall soltou-o, acalmando-se um pouco. Ajeitou o chapéu na cabeça e ficou encarando o criminoso que naquela situação também parecia surpreendido refletindo profundamente sobre quais eram os planos que seu antigo companheiro de trabalho planejara. Proton ajeitou o blusão negro, foi caminhando pela sala interrogatória da polícia e examinou um mapa da região de Sinnoh, atentando-se à Ilha de Ferro, excluída no noroeste dos mares bravios; o homem voltou-se para Marshall com uma feição risonha e descontraída.— Posso dar apenas um aviso para o doutor. Não leve o pai, não leve a mãe. Leve o menor número de pessoas possível, e mantenha suas tropas afastadas da ilha.
— Afastar-se da ilha? — indagou Marshall.
— Esta área foi comprada por um grande magnata há pouco tempo, não é? E antes disso, como a ilha estava?
— Abandonada. Há pelo menos quatro anos.
— Quatro anos, doutor. O tempo que viemos para cá e começamos a iniciar um plano com nossos subordinados. — Proton explicava minunciosamente parecendo revelar tudo que sabia — A ilha abandonada tornou-se nossa base, seguindo para o norte dela, na área rochosa, encontrarão uma base dentre as pedras, inacessível via barcos e perfeitamente ocultada, mas presumo que a polícia já tivesse suspeitas disso. Agora, um centro que não recebe atenção é o local perfeito para que se criem todo o tipo de armadilhas, não acha?
— Armadilha? Que tipo de armadilha?
— Ainda não percebeu, doutor Marshall? Neste ponto, devo dizer que o homem da Elite, este tal de Ike, foi mais rápido do que o senhor. Ele comprou a ilha com o intuito de destruí-la antes que ela destrua toda a região, como um núcleo. Milhões de partículas juntas, e de repente, “BOOM!”
Talvez pelo fato da mente de Marshall estar tão dispersa e ocupada ultimamente com o caso do roubo das Orbs sagradas dos lendários ele nem fora capaz de pensar no motivo pelo qual os Rockets se concentravam na região. Vingança, era o motivo pelo qual Proton dissera pela primeira vez que Archer queria acabar com tudo a sua volta. Agora tudo parecia fazer sentido, ele pretendia explodir a ilha levando o maior número de audiência possível, e de quebra, concentrar todo o governo e a mídia para o profundo abismo nos mares de Sinnoh.
A teoria de Proton tinha uma única falha: Não havia um motivo para os Rockets roubarem a Lustrous Orb, pois eles almejavam apenas explodir uma parte da região, e não criar um colapso entre as duas dimensões. Marshall presumiu duas coisas, ou o Executivo mentira sobre as bombas, ou Proton roubara aquela Orb visando algo diferente, talvez para benefício próprio. Ele não tinha outra alternativa senão confiar no Executivo que até então se mostrara leal revelando todos os planos de sua facção. Imediatamente deixou a sala procurando realizar um telefonema para Lukas, torcendo que o jovem estivesse a salvo com todas as energias que lhe restavam.
• • •
O céu começava a ficar acinzentado, anunciando a possível chegada de uma chuva. Dawn sentiu seu pokégear vibrar, e estranhou o número intitulado como “Restrito” que ligava para ela pela terceira vez. Dawn atendeu ainda muito que contra sua vontade, e a voz do outro lado fora mais rápida que as dúvidas na mente da menina.
— Seu nome é Dawn Manson, você é atendente do Professor Rowan e é a acompanhante de viagem dos Irmãos Wallers. Meu nome é Marshall, sou da polícia internacional, e sei do seu envolvimento com os Galactics ao lado do detetive Observador.
Dawn virou-se para trás para ver se alguém a observava, viu que Lukas a olhava com um semblante surpreso, mas aquilo não a impediu de afastar-se com uma feição um tanto quanto hesitante. A menina não respondeu, estava surpresa com todas aquelas informações reveladas sobre sua vida em questão de segundos, estava completamente sem falas. Marshall continuou:
— Tive conhecimento de você após uma ligação confidencial com o professor Rowan, e ele me indicou você como a acompanhante dos irmãos. Necessito de sua colaboração com este caso, e por isso peço para que me diga se Lukas Wallers encontra-se com você neste exato momento?
— S-Sim, ele está aqui comigo, senhor Marshall... Deseja que eu passe o telefone para ele?
Marshall confirmou. Dawn apareceu na janela do Centro Pokémon e apontou para seu Pokégear, em seguida fazendo um sinal de que a ligação era para o próprio Lukas. O garoto aproximou-se surpreso, indagando na sequência:
— Quem é?
— O nome dele é Marshall, é da Polícia Internacional. — disse Dawn não escondendo certa surpresa.
— Tio Marshall? — continuou Lukas extremamente animado. O garoto segurou o celular e pôde ouvir a voz preocupada de seu tio, e também um tanto aliviada ao saber que o garoto estava bem.
— Lukas? Minha criança, estou muito feliz em saber que está bem...
— Tio Marshall! Como é bom revê-lo, eu gostaria de poder estar com você e contar todas as aventuras que tivemos até então... Puxa, como conseguiu o celular da Dawn? Fez isso somente para conversar comigo?
— Meu jovem, sei que está animado, mas preciso que preste atenção no que estou a lhe dizer. Sabe onde está o seu irmão?
— No momento, não. Ele saiu hoje à tarde, já fazem umas duas horas. Ele foi para próximo do cais alegando precisar de um tempo sozinho, deixou até os Pokémons. — explicou Lukas com certa relutância — Admito que ele está demorando para voltar... Mas, tio Marshall, o que aconteceu? Sua voz parece assustada...
O homem hesitou.
— Lukas, não sei como lhe dizer isso... — ele relutou — Mas creio que o seu irmão foi sequestrado.
O garoto ficou estática. Completamente sem reação não sabendo se era uma brincadeira, mas tratando-se de Marshall ele jamais brincaria daquela maneira. Sua mão tremeu, o pokégear quase veio ao chão, mas Marshall pediu para que ele fosse firme especialmente naquele instante.
— Ouça, Lukas. Lukas! Está me ouvindo?
— E-Estou... — gaguejou a criança.
— Conversei com o pai de vocês, e garanto que tudo estará sob controle. Sua mãe ficou bem preocupada, mas deixe isso para a polícia, e peço apenas que tome o máximo de cuidado e não saia da cidade. Está me ouvindo?
Lukas colocou a mão em seu rosto como se tentasse evitar um soluço pela notícia surpreendente que recebera. Não podia acreditar naquilo e nem compreendia como havia acontecido, sabia apenas que agora encontrava-se preso nela, de modo que a longa ausência de seu irmão agora tivesse uma explicação. Marshall precisava dar forças para a criança, aquela era uma notícia devastadora que alguém como Lukas jamais tinha experienciado. Por mais que eles estivesse distantes um do outro, o homem precisaria mais uma vez agir como seu protetor absoluto evitando que o pior acontecesse.
— Você tem que ser forte neste instante, está me ouvindo? Muito forte. Saiba que farei de tudo para trazê-lo de volta são e salvo, e neste momento também estou preocupando-me especialmente com você.
Lukas acenou positivamente.
— E-Eu... Eu vou tentar, tio Marshall. Serei forte...
— Vou falar com o Glenn, tenho dois dos membros da corporação dos Rockets sob minha custódia, e tratarei tudo com eles com muita cautela e precaução, podemos muito bem negociar. Estaremos indo até a Iron Island resolver isto de uma vez por todas. Tome cuidado, meu pequeno. A sombra se ergue sobre nós.
Nenhuma lágrima caiu de seu rosto, pois Lukas estava espantado demais. Lukas desligou o celular permanecendo na mesma posição por vários minutos, voltou-se para o Centro, e então, explicou o ocorrido para seus companheiros. Dawn de ficara perplexa ao saber do acontecido.
— Você... Não está falando sério. — afirmou a moça.
Lukas ficou quieto, mordeu o beiço inferior sem ter uma reação certa. Dawn sentiu seu coração tão apertado a ponto de explodir, seu mundo desabou. Teve a sensação de que algo ruim acontecia ao garoto, e estava certa. Se naquele instante ela tivesse se certificado de ir ver como o jovem estava nada daquilo teria acontecido. Inúmeras lágrimas começaram a rolar em seu rosto e Dawn foi ao chão perdida em alucinações e desespero
— É culpa minha!! Como pude deixar isso acontecer?! Nós estávamos ao lado dele esse tempo todo, e o Luke nos protegia todos os dias, e nem mesmo agora fui capaz de dar o devido apoio à ele!
— Dawn, não se culpe! — pediu Lukas, abraçando a moça que tentou aconchegar-se nos braços do amigo. Pouco depois Roark chegou espantado.
— O que houve? — perguntou o líder.
A resposta soou rápida e sem emoção.
— O Luke foi sequestrado.
A notícia correu tão depressa quanto o vento. Roark imediatamente avisou seu pai, embora eles não tivessem muito o que fazer naquela situação. Marshall havia pedido apenas para que Lukas se protegesse, mas como um irmão poderia sentar-se e esperar enquanto o outro sofre nas mãos de criminosos? Lukas não chorava, lutava contra as lágrimas ao lembrar-se da promessa em que dissera ser forte, não conseguia acreditar que aquilo havia acontecido; Dawn desaguava em lágrimas, sentia-se inteiramente culpada, Roark apenas tentava consolá-la.
— Que tipo de situação para o Doutor Walter... — comentou Byron — Eu não teria reação se meu filho fosse sequestrado.
— Ei, Lukas. Você tem que manter a calma agora. O homem da polícia é seu tio, não? Diga-me uma coisa, você confia nele?
— É claro que confio. Mais do que qualquer pessoa.
— Então deixe o resto nas mãos dele. — afirmou Roark.
Lukas ergueu-se esticando as mãos para os lados mostrando sua injúria perdida em um mesclado de dúvida e tristeza que aprisionava seu coração como se fosse uma prisão.
— E pretende que eu apenas fique aqui sentado, aguardando tudo terminar bem ou mal? Que tipo de treinador eu seria se fujo aos meus desafios e não sou capaz de enfrentá-los? O Luke é o meu irmão! — gritou ele.
— E é o meu melhor amigo. E também a pessoa mais importante na vida da Dawn. — completou Roark de forma calma — Entenda, Lukas, não há nada que possamos fazer.
Roark não tinha outra maneira de fazê-lo acalmar-se. Lukas sentou em dos sofás com as mãos em seu rosto. Estava completamente arrasado. O garoto levantou-se e saiu correndo do Centro. Seu Pachirisu correu para acompanhá-lo, mas não teve tempo. Gabite imediatamente notou o jovem correr e ficou sem entender por um instante. Lukas parou por e sentiu o esquilinho puxar a barra de sua calça, voltou-se para trás encarando os olhos brilhantes da criatura sem saber ao certo como reagir à situação.
— O Luke... Eu não posso acreditar que foi sequestrado.
Os olhinhos do Pokémon se abriram ao ouvir a notícia, ele virou-se e imediatamente correu em direção do Gabite que descansava em cima de uma pedra nas redondezas. Com a notícia que Pachirisu dera para seu amigo aos poucos o semblante do dragão começou a alterar-se. Ele rugiu com imenso ódio, um grito que a cidade inteira teria ouvido. Gabite saltou da pedra e correu para dentro do Centro Pokémon à procura de seus companheiros. Luke estava com seis Pokémons naquele dia, eram eles sua própria elite; Gabite, o General Duskull, sua Porygon-Z, Mikau, Froslass e o novo integrante, Beldum. Quando os seis Pokémons souberam da notícia quase não puderam conter-se. Seriam capazes de destruir o Centro se não fossem acalmados. Sem um treinador e fora de suas pokébolas ficariam desatentos e desunidos.
Gabite correu em direção do irmão de seu Mestre implorando para que explicasse o que havia acontecido mais detalhadamente, mas Lukas não entendia sua linguagem e limitava-se a dizer sobre o que tinha conhecimento até então.
— Eu não sei, eu não sei! — lamentava ele — O tio Marshall disse para que eu mantivesse a calma, e que eles dariam conta do recado na Ilha de Ferro, mas não sei o que fazer, Gabite! Estou completamente perdido!
O dragão abaixou a cabeça e olhou para suas garras. Ele não havia sido capaz de proteger seu próprio treinador, mais uma vez perdia alguém que amava, mas dessa vez não faria questão de baixar a fronte e aguardar as lágrimas jorrarem como uma cachoeira sem fim. Começou a caminhar em direção do porto com os olhos fixos no horizonte onde sua percepção dizia-lhe situar-se a abandonada ilha do ferro. Lukas viu o Pokémon de Luke se afastando, logo, os outros cinco da equipe de seu irmão também seguiam Gabite unindo-se com um único desejo. Lukas gritou:
— Aonde está indo?
Por mais que soubesse que não receberia uma resposta gritou da mesma maneira, porém, o dragão parou. Gabite não voltou-se para o jovem e mesmo que tais palavras tivessem sido ditas na linguagem dos Pokémons, Lukas sentiu como se fossem proferidas em sua própria língua.

Fire Tales 22

A guilda não estava em seus melhores dias. Trabalhadores dispersos, ninguém conseguia sequer cumprir seus deveres cotidianos com a mesma atenção de antigamente, era como se faltasse algo, faltasse a peça que colocava ordem na equipe guiando-a para que seguisse seu caminho contínuo de crescimento. Porém, essa pessoa havia ido embora. Desde a partida de Titânia muitos dos componentes se afastaram, Gabite permanecia perdido em devaneios sem buscar conversa com mais ninguém, nem mesmo com Pachirisu, e por conta disso, a guilda se encontrava no caos alarmante que estava.
Wiki cambaleava ao caminhar pelo pátio da base. A fogueira estava apagada, e as cinzas da noite passada ainda nem tinham sido retiradas. A moça passou reto e foi diretamente em direção do bar que era uma das poucas estruturas que mantinham-se na ativa. Quando entrou no local avistou Gardevoir encostada no balcão limpando uma taça. Togetic estava sentado em uma banqueta mas também permanecia em silêncio, e o bar que era conhecido por ser um local de festa e animação caía no mutismo total. Wiki caminhou até o balcão e sentou-se em uma banqueta ao lado do loiro, esticou as pernas e depositou a cabeça sobre a mesa com pesar e completo desinteresse. Gardevoir soltou um suspiro, apoiando o cotovelo enquanto observava uma janela.
— Nem parece a mesma guilda de sempre, não? — indagou Sophie.
— Nem me fale, depois que a Titânia foi embora tudo caiu nessa depressão maluca. — respondeu a voz abafada de Wiki — Ninguém mais está empolgado para nada, nem mesmo o Aerus tem aquela animação de antes para se divertir comigo. Agora ele fica trancado no salão central, destruindo aquilo que ele próprio construiu.
— Mas deve ser mesmo uma situação ruim, não acha? Ver aqueles que sempre te apoiaram... Partirem assim de repente... — comentou Sophie em voz baixa.
— Os guerreiros tem seus códigos, seus ideais. Não há o que se possa fazer quando alguém decide como traçar seu destino. — disse Wiki recitando uma frase clássica das guildas, soltando um suspiro na sequência — Ah... Mas agora quem sofre somos nós. Ninguém mais está disposto a fazer nada, eu estava precisando me divertir um pouco.
— Mina, como você consegue pensar em se divertir numa hora dessas? — indagou Karl com a cabeça deitada sobre a mesa enquanto encarava a moça ao seu lado.
— É a minha natureza, há momentos em que preciso de algo assim para me distrair do cotidiano! Quer ajudar? ♥ — disse ela com uma risada, não escondendo uma piscadela para Sophie demonstrando que estava apenas brincando. A garçonete limpava uma taça quando voltou a falar:
— E quanto ao Marco? Fiquei sabendo que você estava conversando com ele outro dia, e vocês dois inclusive saíram juntos. E então? Rolou alguma coisa? — perguntou Sophie, mas Wiki apenas soltou uma risada abanando a mão como se insinuasse para a amiga abafar o caso.
— Ah, querida, há momentos em que acho que sou muito gentil, mas isso não faz meu estilo. Sai com o Marco porque ele realmente precisava de alguém, mas esse estilo de garoto não faz meu tipo, sabe? Esse jeito certinho e centrado demais, acho que sou mais chegada em um cara com pegada.
— Que nem uma certa pessoa, né, Karl? — sorriu a atendente.
— Sua indireta quase atravessou meu peito, Sophie. — respondeu ele com a cabeça apoiada no balcão e o boné tampando o rosto.
Sophie riu com a cena, e logo Wiki voltou a debruçar-se sobre o balcão imitando a posição de Togetic assim que a conversa terminou. Na sequência, a moça pediu uma bebida.
— Desculpa, às vezes eu fico pensando em muita bobeira e não consigo me controlar. Me traga algo forte, preciso esfriar a cabeça e deixar esses problemas de lado...
Sophie trouxe uma bebida de berries armazenada em belos barris por vários anos, a bebida era fermentada e destilada, sendo uma das especialidades da casa. Wiki tomava uma golada ou outra enquanto Karl encarava tudo entediado e carrancudo como sempre. Gardevoir foi aproximando-se da amiga que já repetia a dose, e então, apontou para uma mesa no fundo.
— Você ficou sabendo do novato? O pessoal andou dizendo que ninguém conseguiu conhecê-lo.
— Novato? Entrou gente nova? — indagou Wiki com um dos dedos a desenhar círculos em seu cabelos. As bochechas da moça já estavam levemente coradas, e aos poucos o gosto da bebida parecia subir-lhe os pensamentos. Sophie apontou para a mesa onde o novo guerreiro se encontrava, de forma que as duas pudessem avistar a figura sinistra de um cavalero encapuzado em uma mesa solitária.
— Acho que o nome dele é Vista. — afirmou a atendente — O Al Capone tentou conhecê-lo, até mesmo o Isaac tentou ser cortês e gentil, mas alegaram que ele não parece procurar conversa com ninguém da guilda.
— Então porque esse tipo de gente entra na equipe? Cada figura estranha que vêm aparecendo ultimamente... — alegou Wiki.
— Você não teria interesse em conhecê-lo? Moça solteira, bonita, de repente você consegue diverti-lo, e quem sabe o cara acaba se revelando como esse perfil de homem másculo que você procura. E é melhor procurar o seu antes que acabe.
— Ora, você está desafiando a expert da sedução, querida Sophie? Me dê alguns minutos que eu faço esse novo guerreiro beijar os meus pés.
Wiki levantou-se da banqueta, tomou mais um gole e foi cambaleando em direção da mesa mais afastada do bar. Sophie e Karl apenas a observavam para ver no que aquilo iria dar. Wiki foi até a mesa onde a figura do cavaleiro estava, deitou-se sobre o encosto de uma das cadeiras lançando um olhar triste e desamparado para o homem encapuzado que permanecia sério.
— Oi. Será que eu poderia acompanhá-lo por um momento? ♥
O homem de capuz não respondeu, apenas virou a cara. Wiki lançou um olhar de relance para Sophie deu uma piscadela, assim, sentando-se em frente ao guerreiro. Ela apoiou os cotovelos enquanto o encarava utilizando todas suas técnicas de sedução para conquistá-lo, mas até então não parecia ter obtido muito sucesso.
— Então, seu nome é Vista, estou certa disso? Você é o novato que entrou em nossa guilda.
— Ei, mulher. Não me chame de novato, eu acabo com qualquer integrante dessa guildazinha repugnante se for este o meu intuito. — respondeu Vista de forma rude.
— Ora, que garoto mal educado. Sorte a minha que eu gosto de caras com determinação, acho que devíamos conversar mais.
Vista levantou-se derrubando a cadeira e encarando Wiki com seu capuz negro. Nada podia ser visto debaixo daquele véu, exceto por um olhar vermelho e uma voz mecânica emergindo como uma espada ao ser forjada.
— Não refira-se à minha pessoa como se soubesse quem eu sou, bitch.
Wiki levantou-se da mesma maneira extremamente zangada.
— Ei, estou tentando apenas ser gentil, quem você pensa que é para chamar as pessoas dessa forma? Você tem sorte por eu não me importar.
— Eu chamo aqueles inferiores à mim da maneira que eu bem entender, especialmente vindo de uma mulher como você.
Vista partiu a mesa do bar ao meio com um soco vindo de um braço mecânico capaz de estilhaçar a mais poderosa armadura, ele avançou contra Wiki numa velocidade que fez Gardevoir soltar um grito e Togetic colocar-se em posição de batalha, mas quando a poeira baixou o braço do Beldum estava no ar sendo segurado pelos braços definidos de um homem que o encarava de forma severa e irritada.
— Então você pensa que eu sou fraco só porque sou uma mulher? — indagou Mozilla. Vista permaneceu quieto, demonstrando somente pela força que aquele soco fora desferido para machucar. — Eu poderia muito bem demonstrar meu lado masculino, mas eu quis deixar bem explícito que não é por menos que as mulheres dessas guildas são as mais poderosas de Sinnoh. Tome cuidado com o que diz, você pode arrumar encrenca com a pessoa errada.
Então, Mozilla apertou o braço de Vista com tanta força que o metal rangeu até explodir em um amontoado de fios soltos e faíscas. O Beldum recuou sem relutar, não sentia dor ao ter seu braço danificado, mas aquilo o surpreendera. Mozilla lançou um olhar de relance tentando manter a calma, e então, sentou-se em uma mesa ao lado pedindo para que o guerreiro encapuzado o acompanhasse da mesma forma. Esticou a mão para a outra cadeira e ergueu uma das sobrancelhas.
— Agora faça o favor de sentar aqui e conversar comigo educadamente.
Vista foi caminhando até a mesa e sentou-se de forma pacífica. Parecia ter se acalmado, o espectro mecânico cruzou os braços e então apoiou-se no encosto.
— Você me surpreendeu. Devo dizer que esta guilda até pode possuir alguns méritos dentre seus guerreiros.
— É, depois dessa você teria que pagar a mesa destruída do bar, mas vou colocar na minha conta, dessa vez. — o guerreiro cibernético ajeitou os cabelos para trás, e então toda sua fisionomia voltou a alterar-se assumindo a feição meiga e delicada de Wiki — Mas olha que eu vou cobrar hein, e não me importa a forma como você irá pagar, aceito qualquer coisa. ♥ Oe, Sophie! Traga duas rodadas da Durin Berry para mim e este cavalheiro! — disse Wiki animada.
— Erm... você tem certeza? Agora a pouco eu pensei que vocês dois iriam se matar... — disse a atenndente um pouco sem graça.
— Não esquenta, já consegui controlar a situação. — ela respondeu com uma piscadela, voltando-se para o homem encapuzado em sua frente — Então, senhor cavaleiro negro, o que exatamente é você?
O homem encapuzado levantou-se novamente, mas dessa vez começou a fazer gestos com as mãos iniciando uma apresentação verbal ensaiada:
— À sua vista um humilde veterano de visitação, trajado com vestes de vitima e vilão pelas vicissitudes do destino. Uma violação violenta, depravada e voraz da vontade. Permita-me que eu acrescente que é uma grande honra para mim conhecê-la, pode me chamar de Vista.
A moça permaneceu com o copo na mão encarando a estranha posição que Vista fazia, não escondendo uma risada rasteira.
— Isso foi... muito esquisito. Você é engraçado, mesmo não querendo ser. — respondeu Wiki que parecia divertir-se com o jeito daquele sujeito — É um prazer conhecê-lo também, pode me chamar de Wiki, ou Mozilla dependendo da situação.
— Ah, uma androide! Fascinante, fascinante, contruída pelo conhecimento limitado dos humanos da empresa intitulada como Silph Co.
Vista voltou a sentar-se na mesa, retirando com a mão esquerda alguns equipamentos de dentro de seu véu, reconstruindo aquele seu braço mecânico em questão de segundos como se fosse a atividade mais simplória do mundo. Wiki atentava-se claramente à capacidade do guerreiro no ramo de engenheira, o que revelava que ele era extremamente inteligente sendo capaz de reconstruir seu próprio corpo com o que estivesse disponível. Vista terminou o braço e ergueu para o alto como num ataque veloz, parecia esboçar uma clara risada por trás de seus panos dizendo de forma fria e calculista
— A ciência dos seres vivos... Fools, fools. Fajuta, antiquada, depravada e insignificante!!! É tudo que os humanos conseguem atingir. — Beldum fez uma pausa balançando o gorro para os lados de forma negativa — Those mortal humans, eles nunca serão capazes de alcançar o mesmo nível de reconhecimento e excelência das máquinas; os grandes gênios estão um passo à frente, como eu.
— Sabe falar mais sobre os humanos que me construíram? — perguntou Wiki entusiasmada.
— Posso fazer inclusive melhor.
Wiki foi aproximando-se de Vista e escorregou sua mão até o rosto do espectro mecânico para tentar descobrir como era sua aparência, porém, Vista imediatamente recuou e segurou no braço da moça com ferocidade. Wiki sentiu uma leve dor, mas logo voltou-se para trás e lançou uma risada tentadora.
— Ora, ora, ora. Mecha Boy*, você tem vergonha de mostrar esse seu rostinho? O que tem escondido por baixo desse manto, hein? ♥ — perguntou ela sem esconder uma certa safadesa, mas Vista dirigia-se à moça com enorme seriedade.
— Don’t. Do. That. Para a sua segurança. — ele respondeu, segurando o braço da moça e recuando como se temesse por algo — Eu posso ser uma criatura muito pior do que você imagina. Não quero machucar ninguém.
— Machucar? Machucar por quê? Qual o seu problema, Mecha Boy?
— Killing things clear my head. — bradou ele como se rangesse os dentes de raiva e se dirigisse à Wiki de forma ameaçadora e superior. A moça inclinou a cabeça e então continuou:
— Conhece línguas que nenhum outro Pokémon conheceria, tem conhecimento avançado até mesmo para os humanos e sua ciência. Fica ocultado por baixo desse manto... O que é você? Por quê está aqui nessa guilda?
— Você cresceu com seus amigos, aprendeu a amar e ser amada, e aprendeu muito bem, senhorita Wiki. Mas eu cresci com soldados. Aprendi a matar e esquecer há muito tempo.
Ela virou-se como se estivesse para dizer algo, mas preferiu ficar quieta. Tomou um gole de seu drink e sorriu, esboçando aquela feição adorável com um olhar sedutor esbanjando curiosidade e sedução em adentrar cada vez mais nos mistérios daquele estranho espectro.
— Você é uma figura curiosa, Mecha Boy. — disse cruzando as pernas.
De repente, pôde-se ouvir uma explosão vinda de fora na direção do bar. Wiki levantou-se colocando-se em posição de batalha no mesmo instante, mas Vista nem se mexeu. Parecia que a guilda estava sendo atacada, mas eles não faziam ideia de onde aquilo acontecera. Wiki foi em direção de Beldum e deu um chute na cadeira pedindo para que se levantasse.
— Oe, oe! Mecha Boy, será que você pode levantar a bunda daí e fazer alguma coisa? Não percebe que estamos sendo atacados?!
— Não é problema meu. — ele respondeu, tomando calmamente um gole de sua bebida enquanto ignorava o fato de tudo ao seu redor começar a ser destruido.
Certamente, Vista parecia estar acostumado com aquilo. Ele era um tipo de soldado que nenhum membro dos Fire Tales ali conheceriam, um tipo de guerreiro que já passara pelas piores dificuldades e saberia dizer o terror de uma guerra de verdade. Para ele, aquilo não passava de uma simples invasão, e gastar suas armas com meros oponentes insignificantes era perda de tempo.
Wiki saiu correndo do bar na companhia de Sophie e Karl, então puderam ver que vários outros Pokémons atacavam a guilda, alguns guerreiros estavam no pátio travando batalhas contra os invasores que pareciam que estavam em um número realmente considerável. Wiki sacou o disco em suas costas e lançou-o contra um Carnivine que atacava Mothim. O guerreiro enraizado quase teve a boca cortada pelo golpe certeiro, e no momento de desatenção foi surpreendido por um golpe de Marco que o nocauteou. O pequeno rapaz olhou para cima e soltou um suspiro de gratificação ao ver que era uma figura conhecida.
— W-Wiki!! Que bom que você veio!! — disse Mothim entusiasmado.
— Marco, o que está acontecendo aqui? — indagou Sophie que estava ao lado.
— Uma guilda, uma guilda adversária nos invadiu! O Senhor Atros avisou-nos precipitadamente, mas eles eram muitos e mesmo que o vigilante tenha derrotado grande parte eles ainda foram capazes de nos atacar, agora estamos cercados!
Karl levantou o blusão e viu mais três oponentes se aproximando, utilizou o Ancientpower para derrubar pedras sobre os adversários que se aproximavam iniciando assim mais uma batalha. Sophie também prontificou-se a ajudar seus parceiros conforme o necessário enquanto Wiki encarava toda aquela farra extremametne frustrada.
— Sinceramente, o que tem acontecido com essa guilda? Onde está o Aerus? Onde estão os demais guerreiros?
De frente ao Salão Central estava o General Duskull, Glaciallis e Fua. Os três encaravam alguns Pokémons que iam se aproximando e abrindo espaço para uma outra figura que vinha logo atrás. Este era um Luxray, o líder da guilda que invadia o território dos Fire Tales. O homem carregava uma risada debochada enquanto era acompanhado por sua proteção particular. Ele era alto, tinha diversas vestes com pelos negros e cabelos loiros voltados para trás, seu porte físico era impressionante, sem contar a fisionomia bem característica da espécie que buscava sempre manter-se no topo julgando-se superior à qualquer outro O Luxray olhou para um lado, olhou para o outro; e só via chamas e destruição naquela guilda miserável. Soltou uma longa risada, e então voltou-se para Castelo.
— Senhor, à que devo sua invasão oportuna aos domínios de meu povo? — indagou o General, tentando manter sua compsotura.
— Eu sou Dom Alexay, Faísca Negra, o boníssimo, benevolentíssimo e ferocíssimo exemplar dos burgueses! Certamente ouvirão esse nome muitíssimas vezes nos próximos meses. — ele disse com arrogância e sem dirigir-se ao militar com o mínimo de dignidade — O que houve com toda a glória daqueles que se intitulam os Fire Tales? A guilda que tem chegado aos ouvidos dos lendários Pokémons, guardiões de nossa região? — rugiu o Luxray, soltando outra longa risada — Eu pensei que fossem vocês, mas acho que me enganei! Aqui não vejo nada além de um bando de guerreiros pobríssimos de força, perdidos e desnorteados!
— Me desculpe, senhor Alexay, mas passamos por um momento de recuperação... — disse Pachirisu ao lado, um pouco entristecido — Nossa amiga partiu recentemente, não estamos em condições de batalhar...
O Luxray não pôde conter-se.
— E quem seria você? O que uma criança faz no meio de uma guerra? Guildas não são lugares para perdedores insensatos!
— Você se dirige ao primeiro imediato no comando desta organização. — respondeu o General, o que fez Luxray recuar.
— Quem? O esquilo? Oh, então você é Watt Fuarrint! Miserabilíssimo! — ele apontou com imenso nojo e desprezo em sua voz — Então eu o desafio para uma batalha elétrica! Veremos quem é o maior guerreiro eletrificante deste reino, e com isso mediremos nossos níveis em uma disputa!
— Não quero, senhor. Não estou em condições... — respondeu Watt com a voz cansada, fazendo seu adversário debochar de toda a guilda em sua frente — Meu irmão mais velho encontra-se aprisionado em uma depressão sem fim, todos os meus companheiros estão dispersos e desamparados, e eu acabo de perder a minha melhor amiga. Tenho coisas mais importantes a me preocupar, senhor Alexay.
— É disso que os Fire Tales são feitos? De crianças e jovens sem instrução que fogem da vida para brincar? É esta a reputação que vocês vêm construindo com o passar dos meses? Hah, incredibilíssimo! E pensar que todos passaram a temê-los, há sequer algum feito que os coloquem na história? E eu pensei encontrar guerreiros notabilíssimos!
O General deixou Froslass por um rápido momento em que caminhou em direção do Luxray e o puxou pela gola guiado pela cólera. O olho fúnebre do fantasma brilhava como um espírito nefasto, e Alexay não pôde esconder o medo que assentiu naquele instante.
— Desapareças destes domínios antes que liquidemos seus componentes e deixemos a educação para um momento de confraternização tardio. — disse o General.
O Luxray engoliu seco, não contendo-se em segurar por mais tempo as palavras que guardava:
— E o que vocês podem fazer agora que a Serpente de Pedra partiu? Sinceramente, não percebem que foi esta guerreira quem fez a fama dessa guilda? Sem ela vocês não passam de um bando de Pokémons inúteis guiados por um insignificante juveníssimo detestável!
Certamente, de que adianta proteger os portões quando não há muralhas? Sem o poderio de Titânia na equipe era como se todas as paredes que protegiam a guilda desaparecessem, mas nem por isso ela permanecia isenta de seus canhões. O punho do General soou tão rápido que nem mesmo os mais velozes membros da guilda poderiam ver o momento em que ele socou a face do mestre da equipe adversária. O militar permaneceu ali parado, Froslass soltou um leve grito ao notar a cena. Luxray caiu atordoado, e imediatamente anunciou para que seus guerreiros iniciassem o ataque.
— Acabem com eles! Vamos mostrar a força da Thunder Fang Guild!
Duskull manteve a postura ereta com as mãos para trás, apenas fez um aceno com a cabeça insinuando para que eles viessem.
De cima de uma das casas uma explosão de água pôde ser vista. A figura sinistra de um guerreiro apontava o indicador como se fosse uma arma brincando com cada adversário e atirando tiros d’água tão precisos que cortavam a pele e faziam com que os soldados atingidos caíssem remoendo-se em dor e lamento. Mikau deu um pulo de cima do telhado e foi andando derrubando cada oponente ainda sem esconder um sorriso sarcástico em seu rosto.
— Eu já não estava conseguindo me segurar. Muitos guerreiros deprimentes em um só local, deixe-me fazer uma lavagem completa destes soldados vulgares que mancham o nome de nossa espécie. — disse Mikau.
Diversos outros guerreiros da Fire Tales também surgiram. Al Capone saiu das sombras guiado por brasas que queimavam tudo ao seu redor na companhia de Lyndis. Panetto atingiu seus oponentes com bombas de lama que em seguida eram arremessadas por Akebia que ainda lançava um beijo ao derrotar cada adversário da Thunder Fang Guild.
— Ohh, quebrei minha unha. — afirmou Akebia.
— Não esquenta, podemos emendar com um pouco de cola quente e tudo estará resolvido! — respondeu o Gastrodon obeso, que em seguida foi surpreendido por um ataque elétrico que não surtira efeito algum. Parecia que os golpes eram repelidos por sua camada adiposa de pele. O imenso homem lançou um olhar para trás, mas antes que desse conta o inimigo já havia sido destruído por sua companheira Roserade.
— Hm? Eu podia jurar que alguém me atacava.
— Oh, aquilo? Não era nada! Sobre o que falávamos mesmo? Ohh, verdade, eu quebrei a minha unha! Pode dar um beijinho pra sarar?
A indiferença com que os Fire Tales lutavam contra seus adversários era tanto que pouco a pouco eles começaram a se dispersar, alguns caíam em batalha enquanto outros fugiam para o mais longe que pudessem. Wiki utilizava alguns movimentos com as pernas para derrubar os adversários, mas acabara por ser surpreendida quando um Skutank que a atacou pelas costas colocando uma faca em seu pescoço, lanbendo seu pescoço até a ponta da orelha.
— Skah, hah, hah, hah! Mas que gracinha eu encontrei aqui! — disse o Skutank.
Antes que Wiki pudesse revidar um tiro certeiro atingiu aqueala criatura repugnante que foi lançada para longe, gemendo em espasmos pela dor que sentia até sucumbir. Quando Wiki virou-se pôde notar Vista com uma arma no lugar do que antes estava o braço mecânico. A moça deu uma risada colocando as mãos na cintura.
— Ei, Mecha Boy! Desse jeito você fica espantando os homens que eu consigo. Vai ter que compensar de alguma maneira, hein! — disse ela com uma risada sedutora.
— Killing is the sweetest thing there is. — ele respondeu roçando as garras em seu punho de ferro criando um barulho aterrorizante de metal de prazer e gozo — E trate de agir com mais consciência, não é sempre que eu estarei aqui para livrar-te do perigo eminente. E leve isso como o pagamento pela mesa quebrada, eu odiaria tê-la cobrando-me os custos em minha estadia na guilda.
— Não esquenta, eu arrumo alguma outra coisa para te perseguir! ♥ Agora vamos dar um jeito nessa bagunça.
Do outro lado o Lairon utilizava seus equipamentos para impedir a saída daqueles que tentavam fugir cercando todos os oponentes, porém, o imenso protetor mostrava clemência em não destruir aqueles que se rendiam, mas as tristes almas que o enfrentavam tinham um lamentável destino que servia de exemplo. Al Capone, Lyndis, Milena, Sly, Yoshiki, Jade, Panetto, Akebia, todos os guerreiros da Fire Tales estavam ali derrubando cada adversário até que não sobrasse nenhum. O próprio General derrubara o sub-líder da guilda adversária com tanta facilidade que os soldados do inimigo ficavam perdidos sem um líder a ser seguida. Quando o Luxray notou que todos seus companheiros estavam caídos, ele era o único de pé. O General caminhou em direção do felino elétrico e então disse:
— Não ouse dizer que nossa guilda depende exclusivamente da força de Um para torná-la forte. Sofremos pela partida de um ente querido, mas não há nada que possamos fazer quanto à decisão de um guerreiro que decide como traçar seu futuro.
— O q-que vocês são? De onde tiram tanta força?!
— Jamais cruze os territórios de nossas fronteiras. Não refira-se ao nome da Senhorita Titânia com descaso, ou não haverá uma próxima oportunidade para que meu exército demonstre-lhe clemência. — respondeu o General.
— Não é para vocês e nem para ninguém que me subjulgarei! — bradou Alexay — Eu sou o líder de minha guilda, e ainda estou aqui de pé, posso derrubar cada um de vocês, um por um, até que implorem por perdão! Sou o superlativo máximo do cruel, crudelíssimo! Vocês não passam de fracassados, e essa Titânia não passava de uma dissimulada, enganosa, errônea e hipócrita guerreira que deixou todos vocês para trás, como se fossem lixo. Horibilíssimo!
Um silêncio tomou os arredores da guilda. De repente o ranger de um único portão pôde ser ouvido fazendo com que todos se virassem e o Luxray permanecesse parado encarando a sombra que se aproximava. A figura de um rapaz caminhava com peso e as mãos no bolso. Tinha marcas de sangue em todo o braço e espirros em seu rosto manchado pela dor e lamento. O olhar estava baixo e desamparado, naquele sentimento de fúria até mesmo o General Duskull abriu espaço para que o líder da própria Fire Tales fizesse o que julgasse necessário. Gabite permaneceu de cabeça baixa sem encarar o inimigo, mas perguntou de forma séria:
— O que você disse sobre a Titânia?
O Luxray não recuou, muito pelo contrário, sentiu que queria enfrentar o líder de sua guilda rival para mostrar sua verdadeira força. Fez um movimento com os braços convidando-o para uma disputa, mas o rapaz sequer se moveu.
— Aerus Draconeon, o dragão da guilda do fogo! À que se deve sua reputação, se você é apenas um terribilíssimo ditador escondido embaixo da armadura do verdadeiro brilho desta guilda? Você é um líder repugnante, nunca fez, e nunca fará nada para sua equipe!
Gabite permaneceu sério, mas dessa vez levantou o rosto para encararar o adversário. Seu olhar ainda permanecia oculto pelos óculos escuros, de forma que a frase seguinte soasse mais como uma ameaça do que uma indagação:
— Eu não perguntei o que você acha de mim, perguntei o que você disse da Titânia.
— Huh? Quer que eu repita?
Luxray era veloz como um relâmpago, mas quando piscou pôde ver a sombra de um dragão erguer-se com imponência na mesma velocidade que um torpedo e ferocidade de uma criatura mitológica criada para a destruição descomunal. Gabite utilizava lâminas em seus braços quando entrava em batalhas, desferiu um único golpe que cortou dos dois lados o peito de Luxray que soltou um grito ensurdecedor, calando-se aos poucos no céu escuro daquela noite. Alexay caiu para trás sem reação, Gabite ajeitou suas lâminas e voltou a colocar a mão no bolso enquanto estava parado no centro de sua toda sua equipe. Os outros o observavam com atenção, e agora nenhum oponente continuaria a lutar após ver seu líder ser derrotado.
Lairon abriu espaço para que aqueles invasores resgatassem o corpo de seu mandante e assim saíssem de lá o quanto antes. Alguns estragos ficaram para trás na guilda, mas era apenas uma questão de tempo até que os membros da Fire Tales fizessem as reparações necessárias. Gabite foi caminhando de volta para o salão central para trancar-se em sua depressão contínua, e então, pôde sentir o toque de Pachirisu em seu braço.
— Gabite, você... Não se culpe pela Titânia ter ido embora. — emendou Pachirisu.
— Ela nos traiu. Nos abandonou. — respondeu Aerus com enorme fúria.
— Ela fez isso porque nos amava. — acrescentou.
— Como alguém pode demonstrar amor com um ato desses, Watt?!
— Por compaixão. Para que nós deixássemos de nos esconder na sombra da Grande Árvore e passássemos a criar nossas próprias raízes. Ela fez isso pelo mestre Luke, pela guilda, por todos nós...
Gabite soltou um suspiro não sabendo ao certo como responder aquilo. Adentrou as portas do salão central e por lá permaneceu até que o dia clareasse e em breve anunciasse a chegada da verdadeira batalha a ser travada. Ainda permaneceu perdido em pensamentos lamentando cada segundo que perdera ao lado da serpente, cada segundo que ele daria de tudo para voltar no tempo e torná-los mais longos e prazerosos ao lado daquela que ele realmente amava, mas agora, havia perdido.
Flashback On
Era a primeira vez que uma linda moça adentrava aquele território desconhecido. Pequeno, fajuto, simplório e inofensivo, parecia mais um parquinho de diversões que mais tarde viria a tornar-se uma das guildas mais poderosas de Sinnoh. A moça estava com algumas malas contendo seus poucos equipamentos de batalha, suas vestes e apetrechos diários, a típica bagagem de uma guerreira nômade que vive perambulando pelas terras desconhecidas.
Era o primeiro dia de Titânia na equipe de Luke. A moça adentrou a área indiferente, um tanto quanto curiosa, e foi surpreendida por uma pedra arremessada em sua armadura que fez um pequeno estalo, caindo no chão. Em seguida outras pedrinhas foram atiradas como uma chuva de lampejos, uma foi em direção de seu rosto, mas a moça fora mais ágil, apanhou-a pelo reflexo e esmigalhou até que virasse poeira. Atentou-se ao ambiente hostil que se encontrava e avistou duas crianças escondidas atrás de uma pedra. Aquelas curiosas figuras riam e se divertiam sem nem notar que eram observadas.
— Tu viu isso, Fua? A mulher peituda detonou a pedra que eu joguei nela!! — afirmou um deles que tinha traços da raça dos dragões e vestia um par de óculos escuros que mal cabiam em seu rosto. O esquilinho ao lado, quase da mesma idade, apenas concordava.
— Eu vi si, nii-san! Eu vi!! Hm... Pra falar a verdade, não vi, não...Foi tão rápido que mal tive tempo de notar o que acontecia. Mas, por que é que você jogou uma pedra na nova integrante da equipe? — questionou o esquilo.
O Gible deu uma longa risada ajeitando os óculos e preparando-se para atirar outra pedra, mas quando olhou para frente não havia mais nada. Aquela serpente havia desaparecido, e quando voltou-se para trás pôde sentir alguém puxá-los pela gola da blusa não parecendo ter boas intenções. Aerus esperneava enquanto Fua choramingava, mas a serpente mantinha-se séria em sua posição como veterana de batalhas.
— Qual é a sua, garoto? — indagou Titânia.
— Woaaaaaaah, olha só o tamanho dela! — afirmou Aerus, lançando um rápido olhar para os peitos da moça — E também para o tamanho... deles. Caraca, nunca vi outra igual nas cavernas da Wayward Cave! E que baita fêmea o humano de boina foi capturar. Já estava na hora, né!
Enquanto isso, Pachirisu chorava ao lado.
— D-D-D-Desculpa, moça! Não foi nossa intenção, foi ideia dele!!
— Oe, Fua! Vai jogando a culpa toda assim ni mim?! Nada tema meu parceiro felpudo, porque você está ao lado de Aerus, o maior Gible dessa história! Saca só meus dentes, são quase do tamanho dos seus peitos, tia.
— Tia? — a moça indagou com certo espanto — Não tenho nem idade para essas coisas. Com quem você pensa que está falando?
— Com meu servo. Eu sou o inicial então eu sou o líder dessa equipe!
— Meu nome é Titânia. — respondeu ela soltando uma leve risada, mas em seguida sentiu o dragãozinho tentar apanhar seus peitos e com isso arremessou no chão com enorme força. Pachirisu ficou pasmo, mas Aerus logo surgia novamente; rindo e com alguns dentes quebrados como sempre, mas ainda assim algo nos olhos do dragãozinho atingiu os profundos pensamentos da serpente.
— Olha aí, até que cheguei perto. Titânia, Tia, Tih, é tudo a mesma coisa. De qualquer maneira, é um prazer te conhecer querida criada, agora bora brincar e detonar geral!! Quer fazer parte da minha equipe? Nós somos da guilda Dente Grande, curtiu o nome né, fui eu que dei.
— Desculpe, eu não vou perder meu tempo com crianças, agora, se me derem licença...
Titânia largou o dragãozinho que caiu no chão batendo o rosto e rindo do tombo que levara. Pachirisu também ria, mas agora encontrava-se estranhamente atraído pela nova integrante da equipe que parecia tão misteriosa e autoritária ao mesmo tempo. O Gible levantou-se, apontou para a serpente e gritou seu nome em alto e bom tom:
— Oe, Tih! Chega mais!!
— Meu nome não é Tih, é Titânia. E trate de não chamar-me por um apelido como se me conhecesse muito bem. — ela respondeu de forma rude, mas a criança apenas riu apoiando as mãos atrás da cabeça.
— Okay, Tih! Vamos ter muito tempo para brincar e seremos grandes amigos depois de um tempo! Fique sabendo que vou ser tão forte quanto você, ouviu?
Titânia parou, voltou-se para trás atentando-se àquela pequena figura sonhadora que a encarava e dizia com enorme devoção um dia tornar-se melhor do que ela. Ela riu, fez um aceno e concordou, e por mais que soubesse que aquilo nunca fosse acontecer ainda cedeu com um sorriso inspirador, prometendo também dar tudo de si quando eles se enfrentassem em um futuro muito distante.
— Tudo bem, tudo bem. Quando você crescer, então travaremos uma intensa batalha até que o último caia, assim está bom?
O pequeno Gible colocou-se em posição de ataque e sorriu com determinação.
— Vou treinar para chegar no seu nível, me aguarde.
Flashback Off
PS: Mecha
Boy: Lê-se “Meka”, soa algo como “Garoto
Mecânico”.






































