Posted by : CanasOminous Aug 29, 2014

(Com participação  da região de Kalos,
e Haos Cyndaquil como convidado especial!)

Akebia caminhava pelos corredores com os pés firmes, testa franzida, sobrancelhas cerradas e uma expressão nada agradável. Aquela convocação não parecia ter sido feito em uma das melhores ocasiões.
Os estúdios da Sinnoh Produções mantinham-se sempre movimentados e cheios de personagens que estavam o tempo todo gravando suas cenas, tendo novas ideias, fazendo a devida manutenção no cenário dentre tantos preparativos necessários para a fase final da história. Passou ligeiramente por General e Glaciallis que se preparavam para uma de suas aparições mais importantes nos capítulos, mas nem teve tempo para cumprimentá-los como gostaria, pois fazia muito tempo que não os via.
Akebia fora convocada para a sala do chefe, precisava apressar-se. Uma secretária morena a guiava até o escritório principal, sempre tão ocupada e cheia de tarefas. Ela virou-se para Akebia e acenou em direção de uma porta com uma placa de metal sob uma estrela azul, onde jazia escrito com letras garrafais: Sala da Diretoria. NÃO PERMITIDA A ENTRADA SEM SER AUTORIZADO. E em letras miudinhas no canto: "Zuera, entra aí se quiser :v" acompanhado de um emoticon de facebook.
— O Canas está aí dentro, esteja à vontade — disse Sinnoh, toda cordial.
— Obrigada, querida — Akebia respondeu indiferente, com os olhos fixos na placa de entrada da sala enquanto pensava: Faz realmente um bom tempo que não sou chamada aqui.
Entrando nos aposentos, livros e folhas de papel com rascunhos forravam a mesa junto de um notebook ligado. Agendas riscadas e frases eram jogadas para todos os lados. Nos armários havia algumas action figurines exclusivas, e Akebia conseguiu reparar que Wiki e Titânia tinham uma versão sua em miniatura em um lugar em evidência, quase um autor. Não havia sinal de  nenhuma mini-Akebia.
Aquela era a sala do chefe, o administrador da página. Tudo que acontecia na Sinnoh Produções passava por sua intensa vigilância. Muitos cronogramas, datas e horários tudo ali era planejado, desempenhando múltiplas tarefas ao mesmo tempo.
O rapaz que estava sentado na mesa olhou para a visita que acabara de entrar. Sua secretária ficou de fora, mas fechou a porta com uma clara expressão de que algo ruim poderia acontecer. O diretor retirou os óculos e coçou a cabeça, tirando a atenção dos rascunhos por um instante.
— Olá, Akebia — ele apontou para a cadeira, gentilmente. — Sente-se, por favor.
— Valeu, chefia — respondeu ela praticamente já sentada, abrindo um pacote de chocolates que estava em cima da mesa, e que provavelmente fora dado de presente por alguém especial sem nem ter tido tempo de ser aberto. As boas maneiras e a maneira artística que Akebia sempre adotara em suas atuações tinha praticamente desaparecido. — Precisa de alguma coisa? Vou te contar, fazia um tempão que eu não vinha pra cá, pensei até que tivesse me esquecido lá na triste Sala dos Esquecidos!
— Você sabe muito bem que esse nome não existe, foram vocês que colaram aquela placa ali...
— Ah, o Setor Terciário! Me surpreende que você ainda não tenha nos trancado ali dentro e jogado a chave fora — disse a mulher com desdém, tirando uma lixa e começando a fazer as unhas. — Quase que esqueço o que é a luz do sol, isso não faz bem para um Pokémon Planta, sabia?
O diretor passou a mão sobre o rosto, já imaginava que teria de ter muita paciência com ela.
— Bem, mas por que o senhor me convocou aqui mesmo? — Akebia perguntou, por fim.
— Eu gostaria de falar sobre sua atuação no último evento que realizamos, a Copa dos Fire Tales, e...
Akebia esticou o indicador para ele.
— Não. Por favor, não diga nada. Apenas prossiga.
— Então, eu... Venho pedir gentilmente minhas desculpas por ter dado o seu papel à Bonna Party, mas a questão é que os leitores queriam alguém mais capacitado, e com a correria da Liga Pokémon, você sabe como é... Todo mundo só pensa nisso! — disse o diretor com uma risada ligeira, mas sua visita apenas balançou a cabeça, incrédula.
— Hm, bacana. Aí você me lançou para escanteio como se fosse pior do que o Duke — Akebia concluiu, compreensiva. — Até mesmo o desnecessário do Duke já passou para a área dos personagens secundários, tem gente que adora aquele carinha, mas e euuuu?! Nãooo, Akebia não consegue agradar os fãs, só recebe críticas cada vez que tenta mudar, só despenca no gráfico de aceitação!
O diretor acessou seu banco de dados e conferiu os gráficos e estatísticas dos últimos meses. Os números comprovavam: Akebia não se saíra nada bem mesmo.


— Minha querida... Eu a considero muito pelo fato de ter sido recomendada por um velho amigo meu, e principalmente por ser uma das primeiras atrizes a ingressarem no estúdio.
Akebia cruzou os braços, frustrada.
— Eu tive chances para ser uma das melhores personagens de toda a história, a mais adorada, a mais respeitada e poderosa, mas... — Ela balançou a cabeça negativamente, parecia ter de segurar o choro. Levou a mão até o rosto e começou a enrolar as pontas do cabelo como fazia quando estava apreensiva. — Me desculpa, chefe. Eu simplesmente não consigo...
Era difícil dizer se aquela mulher estava realmente entristecida ou apenas fingia. Quando lhe era conveniente, Akebia sabia bem como atuar. O diretor relaxou na cadeira em sua frente, fechando os gráficos, ignorando os números. Sabia como era difícil para alguns personagens se destacarem, e como era triste para alguém como Akebia estar presente praticamente desde quando a o Aventuras em Sinnoh começou, e ver sua presença ser eclipsada cada vez mais pelos novatos.
Ele respirou fundo antes de continuar.
— Akebia, eu a chamei aqui justamente para me desculpar. Foi um erro meu tirá-la dos jogos da Copa FT como fiz.
Ela forçou um sorriso em meio aos choros, limpando a maquiagem já borrada.
— Foi bom enquanto durou, foram alguns minutinhos de fama que colocaram toda a atenção e os holofotes em mim, eu sentia falta disso...
— Você derrubou campeões, isso teria sido bacana se fosse refletido na sua atuação nos capítulos. Já pensou em você garantindo seu espaço na Elite, combatendo os Remarkable Five e fãs que comentam especialmente para consagrá-la?
Os olhos de Akebia brilharam.
— Você faria mesmo isso por mim?
— Claro que não, já está tudo escrito e em andamento, não posso mudar — respondeu o diretor, andando pela sala e observando algumas de suas coleções. Akebia devia estar com ódio mortal dele. Desgraçado!
— M-m-mas você é o autor da história! Se quisesse poderia me colocar em uma função mais importante, é só você mudar meia dúzia de palavras! Vamos lá, chefia... O Setor Terciário é tão triste, eu sou uma mulher capacitada, posso ser tudo que você quiser!
— É aí que está o problema, Akebia. Você é um mesclado de tudo, e ao mesmo tempo sem ser nada. A Wiki tem toda a sedução que você não consegue ter, a Titânia tem uma força muito mais intensa... — disse o diretor. Talvez ele tivesse o poder de saber exatamente no que ela estava pensando quando entrou na sala. — Aceita um café?
— Ah, excelente. Muito obrigada — agradeceu com um sorriso. — E a propósito, o Panetto pediu para providenciar uma máquina de café lá nos aposentos da discórdia. Alexay manda lembranças, pediu para você revivê-lo na história.
— Não há nada que eu possa fazer para melhorar esse desempenho, é como eu lhe disse, depende exclusivamente de vocês — explicou o diretor. — Olhe só para o pequeno Marco, quanto tempo ele ficou esquecido? Veja aonde o garoto chegou, ele se destaca nos secundários e já recebeu papéis de peso até mesmo como protagonista. Só para fechar com chave de ouro, ele será nomeado ao The Omascar desse ano, com grandes chances de levar a vitória.
— Eu também fui nomeada (em uma categoria completamente infeliz, ugh!), mas pelo menos eu fui. Ele ganhou a proteção sua, da sua irmã, da Wiki, do Mozilla, do Vista, de um monte de leitores que adoram casais exóticos; e tem mais, ele é F-O-F-O. E eu, o que tenho de diferencial? Peitos? Até o Duke já passou pelo setor terciário e conseguiu sair dele, por que só eu não consigo?!
— O Duke tem até o fã clube dele. Ele já recebeu pedidos de casamento, quem me dera. — O diretor comentou discreto, logo retomando sua linha de raciocínio. — Enfim, ainda não lhe falei por que eu a trouxe aqui.
— Provavelmente para me esculachar e me mandar de volta para minha sala vazia, triste, fria e solitária... Tudo bem, eu entendo. — Akebia encenou com os braços, com ares teatrais e forçando o drama naquele instante de tristeza.
O diretor balançou a cabeça e chamou por sua secretária.
— Sinnoh, pode vir aqui um instante? Traga os convites para mim.
Akebia olhou para os lados e estranhou a situação.
— Convites?
— Sim, você e seus amigos ganharam uma passagem para Kalos por sua performance no último evento da Copa dos Fire Tales — Sinnoh parabenizou-a com um sorriso encantador. — Kalos, casa da 6º Geração, domínios do Haos e da guilda Royal Emperium, a maior febre do momento antes da chegada dos Remakes de Hoenn que roubaram toda a audiência!
— A passagem para Hoenn estava meio cara... — respondeu Canas. — Mas não pense que você só vai lá pra fazer festa e aproveitar. Seu objetivo é reunir seus companheiros para que possam escrever um roteiro que conquiste novos fãs, que prove a capacidade de vocês e seja cativante. Será uma viagem a trabalho, mas com os parceiros certos, sei que você fará bem.
Akebia quase arrancou os convites das mãos da secretária.
— NOOOOOOOOSSAAA! Olha só pra isso, tá valendo mais do que o convite para as finais de Brasil e Argentina que nunca aconteceram! Tá dizendo que eu ganhei isso tipo como prêmio? Por Arceus, eu nunca ganhei nada em toda a minha carreira aqui na Sinnoh Produções! E KALOOOOOS! Região linda, cidade das luzes, amor e da paixão! E vocês ainda me dão quatro convites, vou poder chamar meus amigos para ir junto e aproveitar de montão!
Canas estava contente coma felicidade da mulher, mas Akebia nem sabia como esconder sua agitação.
— Quem devo chamar agora? Será que o lindão do Aerus, o gostoso do Seth e o perfeito do General estarão ocupados? Maldição, se eu tivesse mais convites tem tantos homens bonitões que eu gostaria de chamar...
— AKEBIA! Esses convites são para seus amigos do Setor Terciári... Q-quero dizer, para seus amigos de verdade, aqueles que a acompanharam mesmo na pior das situações — disfarçou Sinnoh.
— Ah, eles? Panetto, Alexay e o outro que não lembro o nome? Tenho a opção de vender os convites?
Akebia recebeu um olhar desaprovador de ambos.
— Tudo bem, tudo bem... Hm, pode ser uma boa ideia chama-los, acho que sair daquela escuridão pode fazer bem para eles. Antes que eu me vá, chefe, tenho alguns pedidos... Acha que pode reviver o Alexay? O Panetto também está precisando de um barbeador, o cabelo dele até cresceu. E poderia considerar colocar uma cafeteira lá na nossa sala?
— Eu pensarei no assunto... — Canas respondeu amistoso. — Agora pegue o avião para a próxima página e não perca tempo, Akebia! Tenho bastante conteúdo para planejar, então se cuide, e tenha uma boa viagem.
Akebia apanhou os convites e saiu correndo dali no mesmo instante.
Au revoir, meus queridos! Voltarei com o melhor roteiro que a Sinnoh Produções já viu em mãos!

• • •

Kalos, cidade maravilhosa. Com ares parisienses e uma arquitetura que não se encontra em nenhum outro lugar do Mundo Pokémon, a Prism Tower brilhava com força no centro da cidade de Lumiose. Humanos e criaturas perambulam encantados com todas as especiarias e restaurantes caros, eventos por todas as partes, refinarias raras e gente educada. Aquele era um dos lugares mais lindos que Akebia já vira.
— Gente, estou chocada. Por que não nasci em Kalos? — disse Akebia maravilhada com tudo aquilo.
— Ouvi dizer que alguns dos melhores chefs de cozinha e gastrônomos vêm daqui. Estou ansioso para aprender um pouco mais desse toque exótico! — contou Panetto.
— E veja só quanto estilo têm as pessoas nas ruas. Todas de cartola, tão elegantes e bem acompanhadas. Ah, a cidade das luzes e do amor, sou capaz de viver para sempre no alto da torre prisma! É tudo tão... Belíssimo — Alexay apreciava cada detalhe.
Foi quando Sly aproximou-se do grupo para ver o que eles faziam.
— Gente, vamos ficar parados aqui mesmo no corredor do aeroporto? Não tem nem cadeira pra gente sentar? E isso é só um cartão postal, ainda nem chegamos à cidade...
Akebia devolveu-lhe um olhar fuzilante. Estava contente pelo fato de ter ganhado quatro convites para ir à cidade dos sonhos, só não queria exatamente que seus companheiros fossem os mesmos que compartilhavam horas de tédio no Setor Terciário, jogando pôquer sem ficha. E falando em Setor Terciário, foi ainda mais gratificante quando ela descobriu que as passagens eram da terceira classe. Pelo visto, o número 3 a perseguia por todos os cantos.
— Três amigos imprestáveis, três horas de espera, terceira classe, personagem terciária... O que eu fiz para merecer tudo isso?
— Ora essa, não reclame, estávamos praticamente mortos no roteiro, tivemos sorte do senhor Canas dar-nos uma chance de tentarmos mais alguma aparição relevante, ou seria o nosso fim! — argumentou Alexay, ajeitando sua cartola e verificando se tinha alguns trocados para comprar um cafezinho no Pizza Hut.
Akebia continuava sentada em cima de suas malas nem um pouco chamativas. Somente agora começava a arrepender-se amargamente de aceitar a viagem. Pensara que haveriam seguranças para carregar suas bagagens, então trouxera três o quatro bolsas enormes. Por sorte, seus bons amigos eram cavalheiros o suficiente para auxiliar uma dama em apuros, compartilhando o peso hora ou outra.
Em sua mão direita havia um caderninho cheio de folhas rabiscadas e papéis colados, e na outra, uma caneta de tinta azul.
— Um roteiro, um roteiro... Gente, vocês têm alguma ideia?
— Deixe-me ver o que você está escrevendo — disse-lhe Panetto, dando uma breve olhada no caderno e arregalando os olhos. — Hm... Você desenha bem.
— Ah, obrigada. Mas sempre é tão difícil pensar em algo quando sua vida depende disso... — respondeu Akebia, um pouco encabulada. — Não sou roteirista de história e nem nada, mas tento me espelhar nas aventuras que nossos amigos tiveram na Fire Tales.
— Estes sim eram bons tempos — comentou Sly, tendo suas lembranças direcionadas para quando fora chamado para o Aventuras em Sinnoh, assumindo seu posto na guilda, mesmo que como figurante.
— Tenho apenas uma chance... — Akebia murmurou para si mesma. — Vou impressionar o chefe com uma história incrível, repleta de explosões e batalhas de tirar o fôlego, onde nós seremos os principais, derrotando tudo ao nosso redor!
Alexay, Panetto e Sly se entreolharam, não sendo capazes de sentir a mesma empolgação que a companheira.
— Acha mesmo que conseguiríamos? — indagou Panetto.
— Claro que sim, não acreditam no potencial de vocês? Vamos lá, eu poderia facilmente ocupar o lugar da Titânia como uma guerreira poderosa, ou até mesmo a protagonista! Posso ser sexy sem vulgar como a Wiki, ou então, acho que o que eu realmente precisava era de um parzinho romântico, isso me traria bons votos com o público.
Panetto respirou fundo. Sabia que sua amiga não entenderia aquilo. Sentou-se ao lado dela, colocando a mão em seu ombro enquanto procurava as palavras certas.
— Minha querida, você está fazendo aquilo de novo...
— Aquilo o quê? — indagou.
— Tentando ser como os outros. Não sendo você mesma — explicou Panetto. — Este é o seu maior problema, sempre tentando se espelhar, não tendo uma personalidade própria. Foi isso que a distanciou dos holofotes, que fez todos nossos amigos se destacarem, e você não.
— É — concordou Sly. — Você é tipo... Um clone. Uma skin alternativa de um personagem já usado, é por isso que ninguém gosta de você.
Alexay deu um cutucão forte no companheiro, fazendo-o tossir com o golpe inesperado nas costelas. Akebia não desviava os olhos do chão.
— E-eu sou... uma cópia?
— Claro que não. Você só está confusa, tentando sempre agradar os outros e esquecendo de ser você mesma — Panetto explicou com toda a calma e paciência do mundo. — Consegue compreender? Para mim e tantos outros você é uma mulher incrível, mas desde que vêm tentando ser algo mais, acabou só decepcionando.
Ela olhou para seu caderninho com rascunhos de roteiro para o fim de semana. Sentiu vontade de larga-lo e sumir dali, ir embora, desaparecer. Para uma personagem como ela aquilo não era difícil. Era mais fácil do que se podia imaginar.
— Eu queria desaparecer mesmo — sussurrou Akebia com os olhos fixos no saguão do aeroporto.
Panetto arregalou os olhos ao ouvir aquilo. Muitas pessoas e outros passageiros andavam pelo saguão o tempo todo, mas, realmente, ninguém reparava nos quatro viajantes ali. Eles nada mais eram do que coadjuvantes na vida do próximo, assim como qualquer outro.
— Ei, ei — disse Sly com a voz firme, segurando nos ombros da mulher. — Nunca diga isso, ouviu? Nunca pense em desaparecer, ou você realmente desaparece!
— Este é o ciclo de vida de um personagem. O triste e finito ciclo de vida — emendou Alexay, apoiado em sua bengala clássica, encarando a vastidão de pessoas de todos os cantos do mundo. — Se nós somos esquecidos, deixamos de existir. Acho que já lhe contaram isso.
— Sim... — comentou Panetto. — Quase aconteceu comigo. Mas agora olhe só para mim, estou aqui, firme e forte, junto com três amigos incríveis que aprendi a conviver e aguentar. Não é esplêndido?
Akebia revirou os olhos, enterrando o rosto em sua amargura.
— Eu preferia desaparecer de vez...
E a resposta foi um tremendo “NÃO” em uníssono dos outros três. Alexay olhou para seu relógio de bolso, verificando o horário.
— O jovem Haos irá receber-nos dentro de meia hora. Logo embarcaremos para Kalos, e você poderá escrever o seu roteiro a viagem de toda — explicou o Luxray. — E você vai falar sobre seus feitos, suas conquistas, e tudo o que precisar para vangloriar-se. Não é bom?
— Para ser bem sincera, agora tenho as minhas dúvidas.
Akebia levantou-se, caminhando em direção de uma vitrine de livros onde pôde ver os mais vendidos e as últimas notícias. Mesmo contra sua vontade, em todo lugar via o nome de algum conhecido. Aerus Draconeon. Watt Fuarrint. General Castelo Branco. Titânia. Wiki. Maro. Mikau. Milena... Todos eles, enquanto o seu permanecia escondido nas sombras. Vivia dizendo para seus amigos que era uma figura famosa e cheia de obrigações, quando na verdade, nada mais fazia além de sentar e ver o tempo passar.
Foi quando uma pequena criança parou ao seu lado. Tinha o cabelo esverdeado, e um olho de cada cor, exatamente como o seu. Akebia preferiu nem virar, não queria fazer contato visual com a menina e ser obrigada a conversar, mas ela continuava a encarando descaradamente.
— Você é a Akebia? — perguntou a menina.
Akebia soltou um suspiro cansado e virou-se para cumprimenta-la.
— Oi, garotinha. Sou eu sim, como se chama?
— Akebia também — ela respondeu. — Mas acho que você não deve lembrar de mim.
Sua expressão embaçou, e agora nada daquilo parecia fazer sentido.
— O que é você, afinal? Uma espécie de Akebia vinda do passado só para assombrar? Como se já não bastasse todo mundo ignorar a minha presença!
— M-m-mas eu sou a Akebia sim, eu juro!!
Por sorte Panetto e os demais ouviram o movimento e logo foram ver do que se tratava. A Akebia mais velha puxava a Akebia menor pelo colarinho.
— O que está acontecendo aqui?
— Essa menininha está dizendo que sou eu.
— E-Eu sou e não sou você! — gritou a pequena. — Eu era sua versão como Roselia, não percebe que temos um olho de cada cor, exatamente do mesmo jeito?!
A Roserade percebeu que era verdade. Então, a menininha realmente era uma versão sua mais nova que participou do roteiro quando o Aventuras em Sinnoh estava apenas começando. Ela a largou no chão para que pudesse entender melhor a situação.
— Então você interpretou a minha personagem antes de eu entrar...
— Foi sim, e eu adorava. Acho a Akebia uma das mulheres mais lindas da história! Ela sempre era tão carismática e divertida, compreensiva...
— Ihh, acho que ela não viu os capítulos recentes... — comentou Sly, recebendo outra cotovelada de Alexay.
Akebia cruzou os braços, vendo as peças se encaixarem aos poucos em sua frente.
— Agora que você comentou, eu me lembro mesmo de quando você atuava. Todos adoravam a pequena Budew que tornou-se uma linda Roselia.
— Sim, sim! Eu era protegida, a queridinha de todo mundo. E você, tia Akebia?
— Ughhh... Chamar de tia foi uma facada no meu peito... — ela murmurou, sombria. — Mas o que tem eu?
— Gosta do seu papel como Akebia?
— Olha, menina, pra ser bem sincera, eu...  Acho que ainda não me encontrei.
A pequena Roselia caminhou perto dos estandes de livros atrás do vidro, examinando as capas de algumas das tantas obras que ainda queria ler. Infelizmente não tinha tempo para todas, então precisava dividir-se.
— Preciso voltar a acompanhar o Aventuras em Sinnoh, eu gostaria muito de saber como andam as coisas, ouvi dizer que está pertinho do final... Mas eu queria mesmo é saber o que me tornei, né! — disse a menininha. — Ei, acha que podemos ficar mais um tempo juntas? Vou viajar com minha mamãe para uma ilha distante, bem rural e tranquila, longe de tudo, mas é divertido porque lá todo mundo se conhece e é bem simples, como uma família unida. Você seria bem vinda!
Akebia não pensou duas vezes antes de responder:
— Desculpa, garota, mas tenho a agenda um pouco cheia. Fica para outra hora.
O que estava dizendo? Não tinha absolutamente nada, sua ideia de viajar para Kalos seria fajuta, não encontraria nenhuma inspiração lá, seria um desastre! O problema não estava no lugar ou nas pessoas ao redor, e sim, com ela.
Alexay olhou o horário em seu relógio de bolso, indicando que o encontro com Haos Cyndaquil e o embarque havia chegado.
— Senhorita Akebia, precisamos ir. Não é todo dia que se viaja para Kalos — disse o Luxray.
— Tudo bem, vamos andando.
Mas antes de ir, ela percebeu que a Roselia continuou parada, como uma criança que se decepciona ao descobrir que seu super-herói favorito na verdade não têm poderes. A mulher voltou agachou para ficar na altura da menina.
— Eu queria mesmo viajar com você, mas não posso. Quem sabe algum outro dia?
— Espero que sim... — a pequena respondeu, ainda meio entristecida.
— De Akebia para Akebia — ela fez um sinal em seu peito, na região do coração, insinuando que aquilo era uma promessa. — Quando eu voltar do meu trabalho, terei uma história e tanto para te contar, de como a Akebia cresceu e tornou-se poderosa! Se cuida, anjinho.
Quando preparava-se para ir embora, a Roserade desejou que pudesse ter tido mais tempo de ficar com aquela versão mais nova dela. Lembrava tanto a si mesma quando criança, tão enérgica, linda e de bem com a vida! Alexay e Sly conversavam sobre como Haos deveria aparentar, se ele realmente era um Cyndaquil ou se não passavam de boatos, mas Panetto havia percebido que sua companheira permanecia pensativa com toda aquela história.
— Que maluquice, não é? Encontrar-se com você mesma em uma versão mais jovem... De onde saem essas ideias malucas? — o velho riu, alisando seu bigode.
— Não faço ideia, mas depois de hoje concluí que nada nessa minha vida faz sentido — respondeu Akebia, lutando para levar suas bagagens enormes com uma má vontade ainda maior.
— Já pensou na história que vai contar?
Ela respirou fundo.
— Acho que vou falar sobre Akebia, a heroína, matadora de dragões, linda, poderosa, formosa, e... que nunca mais vai existir fora das lembranças de um passado já esquecido.
— Mas você sabe que aquela criança ainda acha que você é tudo isso e muito mais, não é?
Akebia respirou fundo e concordou com a cabeça. Deixou suas malas no chão para descansar um pouco e olhou para trás, só para ter certeza de que aquela menininha ainda esperava por ela.
— Acha que vou ter outra chance de ir à Kalos?
— Você teria uma história ou outra para se gabar quando voltasse — respondeu Panetto.
— E se eu fosse atrás daquela menina?
O velho riu de maneira inspiradora.
— Então creio que você teria uma vida inteira a aproveitar.
Estava decidido. Akebia imediatamente largou suas bagagens pesadas, pegou apenas a bolsa que conteria tudo que precisasse por alguns dias e saiu correndo. Alexay virou-se para ela surpreso e gritou de longe:
— Ei, senhorita! Mas a entrada do embarque não fica por aí!
— Desculpa, rapazes, mas Kalos vai ficar para outro dia! Não quero escrever um roteiro para dois dias de trabalho, e sim, para a minha vida toda! E dê ao Canas meus cumprimentos, mandarei essa mensagem linda em forma de carta: EU ME DEMITO.
Ela saiu correndo dali em direção à pequena Akebia que devia estar em algum lugar do saguão, ainda esperando sua maior inspiração voltar. Alexay coçou o bigode e Panetto riu.
— Acha que ela vai voltar? — perguntou Sly.
— Quem sabe? Pode ser que tenhamos a sorte de conhecer um lado diferente da história de Akebia, longe dos holofotes, longe de batalhas e de tudo que ela conhecia e pensava ser o seu mundo. Acho que conheceremos uma nova, e muito melhor, versão da Akebia.
Eles a observaram distanciar-se aos pouquinhos, perdendo-se na multidão. A mulher desdeu do salto e carregou-os nas mãos, em seu rosto tinha um sorriso que se ela o usasse com mais frequência seria a mulher mais adorada de toda a Sinnoh. Ela correu e correu, até que fez uma curva para uma passagem onde seus amigos a perderam de vista, escondendo-se atrás de muros e pessoas.
Aquela provavelmente seria a última imagem que teriam da doce Akebia em suas mentes
— Bom... A gente ainda vai pra Kalos? — perguntou Sly.
Panetto e Alexay se viraram para o companheiro e caíram na risada.
— Tá brincando? Só admito voltar dessa viagem depois de tirar uma selfie no topo da Prism Tower e conhecer a equipe inteira da Royal Emperium!
— E eu quero saber se o Haos realmente é um Cyndaquil! Cara, essa vai ser a coisa mais legal que já fiz na história desde que me chamaram para o participar desse projeto! — gritou Sly entusiasmado. — Kalos, aí vamos nós!!

• • •

Sinnoh trouxera um cronograma com todas as tarefas do dia para o diretor. O rapaz continuava sentado em sua mesa, com a mente longe de um envelope que recebera fazia alguns dias. A secretária perguntou:
— É o roteiro da Akebia?
— Sim. Agora, acho que ela está aproveitando bastante em algum lugar desconhecido, longe de tudo que ela conhecia. Mas duvido muito que essa seja a nossa despedida da tão amada e odiada Akebia, ao menos, creio eu que ela finalmente tenha encontrado sua identidade. E se ainda não encontrou, uma hora finalmente irá — contou o rapaz, andando pela sala.
Sinnoh sentou-se na mesa e começou a folhear os manuscritos.
— Ela escreveu uma história onde encontrou-se com a versão mais nova dela? Quanta criatividade!
— Eu adorei. É uma pena que depois disso tudo ela também tenha pedido as contas, e por isso partiu para alguma ilha desconhecida, longe de onde minha imaginação possa alcançar.
— O Setor Terciário agora está vazio. Quer fazer uma reforma?
— Aproveite para desmontar a sala que eles chamam do Setor Terciário. Tranque-a, e não deixe que mais ninguém entre. Chame o Panetto, Alexay e Sly quando voltarem de viagem, tenho algumas propostas novas para eles... Eu só não quero que eles sintam-se excluídos, que sejam personagens ignorados, que desapareçam por minha causa. Deixe-os junto com todos os demais, no mesmo pódio, com o mesmo merecimento por toda a colaboração que deram para nossa história até hoje. Convenhamos, Sinnoh... Eles merecem.
A mulher desviou o olhar, ajustando seus papéis na mesa.
— Concordo. Espero sinceramente que a Akebia encontre uma resposta para tudo que ela procura nessa ilha distante.
— Nunca é tarde para começar a tentar de novo — ele concordou.
— O que fazemos com esse roteiro que ela trouxe?
— Publique. O público pode gostar, e independente de ter uma aprovação ou não, pelo menos saberão que a Akebia está em um lugar melhor, cultivando girassóis e ouvindo o barulho de cigarras.
— Ela deve ter encontrado a paz plena — comentou Sinnoh. — Uma felicidade que muitos nunca encontraram.
— E quanto a nós, retomamos o nosso trabalho. Falta pouco, Sinnoh, mas estamos quase lá, ainda não é hora de desistir, certo?
— Absoluta!
— Um dia sei que encontrarei a minha ilha solitária, onde habitarei apenas eu e minhas histórias, uma versão mais nova daquilo que eu sou, longe de todas as preocupações do mundo, onde mais ninguém possa alcançar.
— E você vai me levar junto, chefe?
O rapaz sorriu de relance, ligando seu notebook para continuar planejando o roteiro.
— Traga um cafezinho para mim, fazendo o favor.

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