Showing posts with label Episodios Fire Tales. Show all posts

As Férias dos Fire Tales em Alola

A visão era de um verdadeiro paraíso. Quatro ilhas se projetavam em meio a um infindo manto azul, sem sinal de que haveria terra há algumas milhas de distância nos arredores. As praias mais lindas do mundo Pokémon, a fauna mais exótica, as comidas tropicais mais desejadas e apetitosas — Alola seria uma experiência inteiramente única para os membros da Fire Tales.
Dava para enxergar a região inteira lá de cima, Aerus havia trocado de lugar com Watt só para que pudesse ficar do lado da janela no avião. Para o Garchomp, enxergar o mundo dos céus ia além do que qualquer dragão do tipo terrestre poderia sonhar.
— Sinto como se eu tivesse frequentado esse lugar a vida inteira — disse Mikau no banco de trás, surpreso com a visão panorâmica oferecida pelo avião. — Eu estava mesmo começando a enjoar de toda a neve e o clima frio de Sinnoh, esse lugar é o mais próximo que tenho de minha terra natal.
— Quem precisa de Hoenn quando se tem Alola, cara? — Aerus falou só para causar. A revolta logo se espalhou na primeira classe do Skyla Airline 1705, afinal, grande parte da equipe nascera nas distantes terras da terceira geração, especialmente a família de Milady que, por sinal, financiara toda a viagem.
Milady levantou-se e esperou que seus colegas fizessem silêncio, mas se a Fire Tales fora capaz de tagarelar e rir mais alto que as turbinas pelas últimas vinte e quatro horas que se seguiram dentro do avião, não era uma simples Glaceon que conseguiria fazê-los parar.
— Senhor Atros, eu gostaria de não precisar elevar o tom de minha voz— ela disse com nariz empinado. Não precisaria repetir duas vezes. O enorme Aggron retirou o cinto de segurança e ficou de pé, praticamente batendo a cabeça no teto. Ele não precisou olhar para ninguém para que notassem sua feição zangada.
— Vossa alteza pede um minuto de sua atenção — ele enfim sentou-se e devolveu a palavra para Milady que agradeceu com um aceno gentil.
— Primeiramente, eu os parabenizo pelo incrível trabalho que viemos fazendo com a guilda nos últimos anos. Apesar de vocês não terem feito mais do que sua obrigação — disse a matriarca, o que causou grande comoção entre os demais membros. — Mas a questão é que agora vamos dar um tempo dos afazeres da Liga Pokémon e, simplesmente, aproveitar. Se olharem pela janela, poderão ter um vislumbre do Hano Grand Resort, o hotel cinco-estrelas mais requisitado e luxuoso de Alola.
— Você alugou um hotel inteiro para a gente? — perguntou Marco, encantado.
— Claro que não, aluguei para minha família. Vocês ficarão hospedados no albergue vizinho — respondeu Milady com uma risada maléfica. — Ah, acho que devo estar ficando velha e com o coração mole. Sim, o hotel inteiro é nosso.
Ouve muita gritaria na primeira classe. A Fire Tales mal podia esperar para aterrissar e aproveitar o melhor que Alola tinha a oferecer. General Castelo Branco era um dos que mais demonstrava ansiedade por chegar em terra firme.
— Querido, há tempos eu não o vejo assim — disse Glaciallis, retirando um lencinho branco para limpar uma gota de suor que escorria pela testa de seu amado. — Está tudo bem?
— É que eu não me dou muito bem com alturas[1] — respondeu o Dusknoir. — Eu enfrentaria a Elite dos 4 inteira novamente para não ter que passar por isso de novo. (Por vias de curiosidade, Humberto de Alencar Castelo Branco, o vigésimo sexto presidente do Brasil que emprestou o nome para o General de nossa história morreu em um acidente de avião. Explicado porque o General tem tanto medo de altura?)
[1] Humberto de Alencar Castelo Branco, o vigésimo sexto presidente do Brasil que emprestou o nome para o General de nossa história morreu em um acidente de avião. Isso explicaria porque o General tem tanto medo de altura, não?

A porta dos passageiros mal havia sido aberta quando o mormaço e o calor litorâneo os atingiu em cheio. Mikau já estava de chinelo e sem camisa, Milena desfilava como se tivesse nascido para o mar, e mesmo os Pokémons que não se davam tão bem com água decidiram que tentariam curtir. Não demorou para que o paparazzi os recebessem na entrada, os campeões de Sinnoh eram a verdadeira atração naquele fim de semana.
Marco apareceu somente de relance para depois esconder-se no interior do avião.
— Eu não vou sair assim — disse o pequeno Mothim.
— Qual o problema? — perguntou Mozilla. — Eu fiz questão de escolher o modelo que mais combinava com você, a sua sunga laranja vai ficar divina perto da minha vermelha. Juntos, nós brilhamos mais que um pôr-do-sol romântico!
— Desculpe, crianças, mas hoje ninguém brilha mais do que eu. Estou louca pra ficar morena e com marquinhas de biquíni — comentou Wiki, ajeitando o fio dental por baixo de sua tanga para ter certeza de que estaria impecável na hora certa. — Gente, precisamos logo buscar o Vista, o coitadinho já deve estar de saco cheio de ficar junto com as bagagens.
Ouviu-se uma explosão vinda da região traseira do avião, um enorme Metagross disparava mais rápido do que um foguete, assustando os fotógrafos e pousando exatamente em frente aos seus companheiros.
What is happening? Where are our enemies? — indagou Vista. — Vocês me disseram que estávamos indo enfrentar a Liga Pokémon e o Campeão de Alola, por que estão todos trajados de maneira tão informal? Se for mesmo uma nova armadura de batalha, não deve proteger muita coisa.
— Acho que Alola ainda nem tem uma Liga oficial — respondeu Marco, dando graças à Arceus de não precisar passar por toda aquela tensão novamente. Uma vez já fora o suficiente.
— Nós estamos saindo de férias, mecha-boy — disse Wiki. — Mas como você é exageradamente workaholic e não iria topar, inventamos uma história para que você participasse com a gente.
Vista desativou seus canhões muito contra sua vontade.
I knew it.
Quatro lindas Oricorios chegaram ao aeroporto com direito à dança e música. Elas rodearam os membros da Fire Tales e distribuíram colares de flores, desejando-lhes as boas vindas. Um velho Drampa — que aparentemente era o ancião da ilha — foi cumprimenta-los de braços abertos.
Aloha!
Karl o acertou no meio do nariz.
Aloha é a tua mãe!
— Filho, aloha é um cumprimento na língua deles — desculpou-se Sophie, ajudando desesperadoramente o ancião. Lyndis não conseguia parar de rir. — Está tudo bem?
— Perfeitamente bem, agora posso ver a força que os levou à vitória — disse o Drampa, recompondo-se no mesmo instante. — Sejam bem vindos à nossa região! Vocês fizeram uma viagem muito longa, peço que me acompanhem para que eu lhes mostre seus aposentos no Hotel Hano, na cidade Heahea, localizada na ilha Akala.
— Saúde — falou Jade.
— E depois dizem que o meu nome é esquisito — comentou Yoshiki, afiando um canivete. — Posso... matar todos?
— Pessoal, vamos nos comportar feito gente e pelo menos chegarmos ao hotel? Vocês parecem um bando de caipiras que nunca visitaram uma praia na vida — comentou Duke, que para a surpresa de todos, ainda existia. Muitos desconheciam (ou simplesmente esqueceram) sua história, mas Duke tivera uma vida simples em Sandgem Town muito antes de ser adotado pela família de Milady. Seu lado caiçara era muito predominante.
— Caraca, olha só o pinguim dando lição de moral em todo mundo! — falou Aerus. — Essas férias entrarão para a história.

i

Milady não poupara nos esforços para conseguir os melhores quartos para seus ilustres convidados. Após o trabalho duro que a Fire Tales vinha fazendo nos últimos anos, o mínimo que ela poderia contribuir era financiando seus projetos e viagens. Sinnoh passava por dias vindouros sob a supervisão de Ereon e Renée Whitecloud, os pais adotivos de Watt e Aerus que assumiram o posto do comando e demonstravam verdadeira experiência em administrar uma região inteira. Apesar de ter se livrado das obrigações, Aerus ainda era uma presença requisitada em muitas reuniões e negócios. Ele só apareceria para dar “oi” e logo desaparecia.
— Graças à Arceus não vou precisar assinar nenhuma papelada por alguns dias. Sorte que o Ereon é bom em resolver essas coisas, porque essa parte da liderança é um saco — falou Aerus, esparramando-se na cama. — Pra mim, liderar de verdade é descer a porrada nos outros, não ficar trocando ideia numa sala fechada enquanto bebo café amargo.
— Interessante. Gostaria de assinar esse papel então, senhor? — perguntou Mikau num tom de risada.
— Vá se ferrar.
— Estou brincando. Esse papel é um convite exclusivo de participação da Battle Tree que recebi antes de embarcarmos para cá, você deve ter recebido também. Funciona como a Battle Tower de Sinnoh e Hoenn, então já estamos bem acostumados com sua mecânica. Nossas viagens pelo mundo estão rendendo uma boa experiência — afirmou Mikau enquanto ajeitava seu cabelo no banheiro. — Ouvi falar que alguns velhos conhecidos nossos também vieram participar... sentiu saudades dos Remarkable Five?
— Eles são gente boa quando não precisamos nos matar. O Seth saiu às pressas assim que pisamos em Alola, ele ouviu que dois dos maiores guerreiros de Kanto estão participando dessa tal de Árvore e acredita ser uma boa oportunidade para saber mais de seu passado. Afinal, ele foi criado baseado num dos dragões mais poderosos daquela região.
— Recebi um desafio da Bonna Party. Ela insiste em recuperar o posto de melhor atirador do mundo, o que será bem difícil — Mikau gabava-se de seus méritos, apesar de Aerus nem ouvi-lo mais. — Mas a questão é que eu já tenho um programa com a Milena. Sabe como é, chega uma hora que precisamos criar responsabilidade e nos estabilizar, nós não somos mais crianças, tanto que a Milena tem me aparecido com a ideia louca de ter filhos, e... você está me ouvindo?
Aerus estava inerte, havia parado de desarrumar sua mala para perder-se no infinito azul que dava para a janela do quarto. Uma brisa leve entrou, seus pensamentos estavam todos direcionados para uma pessoa.
— Não consegue parar de pensar na sua mulher, não é? — Mikau perguntou com um longo suspiro enquanto ajeitava seu brinco direito. — Eu ia convidá-lo para participar da Árvore de Batalha e ser minha dupla no domingo, mas pelo visto você arranjou um compromisso. Vou chamar o Vista, ele nunca perde a oportunidade de bater nos outros.
— Foi mal furar com nosso programa de fim de semana cara, sei que sempre tiro um tempo para uma boa batalha, mas é que... é a Titânia!
— Se ficar de saco cheio de namorar, me dá um toque para nos divertirmos de forma decente — disse Mikau com uma risada, dando um soco de leve no ombro de seu amigo antes de deixar o quarto. — Corre logo para não deixar sua garota esperando.
A Fire Tales alugou o décimo sétimo andar inteiro do resort, era como se revivessem os tempos no maravilhoso Hotel Deluxe Heart, em Hearthome, uma de suas estadias mais marcantes na vida. O quarto 25, que servia como o maior de todos, trazia seis suítes com direito a café da manhã, almoço e janta na cama, frigobar com treze tipos de bebidas diferentes e uma sala com televisão de sessenta polegadas.
Se a ideia era fazer com que cada membro ficasse em quartos separados, então eles falharam miseravelmente.
— Gente, eu vou reunir todos os colchões e travesseiros desse quarto, jogá-los num monte e pular em cima deles — falou Eva. — Não quero nem ouvir essa história de que homem e mulher devem dormir em quartos separados, essas são as nossas férias e todo mundo tem que ficar junto!
— Yeeeeha! Ô, trem bão! Parece que essa cama é feita de água, sô! — berrou Tom Sawyer, pulando só de meias no colchão flácido.
— Mal posso esperar para quando anoitecer e podermos dormir todos juntinhos — disse Wiki, cheia de segundas intenções.
Não demorou para que Aerus entrasse no quarto à procura de Watt.
— Bom dia, chefe. Vai pegar um bronzeado? — perguntou Mozilla, vestindo a camisa.
— Mais tarde encontro vocês, mas agora tenho compromisso! Alguém viu o Bola de Pêlos?
— Oh, eu o convidei para ir a um restaurante e comer malasada — falou General, em uma rara ocasião que era possível vê-lo sem sua farda, vestindo uma camisa branca com estampa florida. — Ideia da Glaciallis. Eu não sei o que é malasada, mas parece bom.
— Ah, então ele vai estar com vocês?
— Sim, o jovem Watt me contou sobre seu encontro com a senhorita Titânia e preferiu não atrapalhar. Sei que vocês estão sempre juntos, ele é seu braço direito, mas fez questão de que hoje vocês tenham uma tarde especial, contanto que os outros dias da semana sejam dele.
— Todo dia é dia de Watt — disse Aerus com uma risada, acenando antes de ir embora. — Depois guarda uma malasada para mim, hein?
Aerus desceu as escadas às pressas. Ver todos seus amigos caminhando por aí livremente lhe trazia uma sensação boa. Duke estava com a mochila pronta para ir pescar, por um milagre divino, convencera Milady a acompanha-lo, contanto que os peixes nojentos não encostassem em sua pele. Lyndis já garantira ingressos para todos no luau que seria feito na praia oeste às oito da noite, Karl alugara pranchas de surfe, havia tanto a se fazer que sua agenda estava lotada. Aerus precisaria separar-se em cinco para dar conta de tudo.
Enquanto descia a escadaria do salão principal, pôde vê-la de longe na recepção. Vestido branco e corpo escultural, cabelos negros amarrados em uma longa trança, o semblante sempre atento e observador, como se estivesse no meio do campo de batalha. Ela era inconfundível.
Aerus aproximou-se bem devagar e cobriu seus olhos por trás, sussurrando de forma galanteadora:
— Adivinha quem é?
A mulher segurou as duas mãos do rapaz, puxou-o para frente com impulso e o arremessou do outro lado do balcão, imobilizando seu braço antes que tivesse reação.
— Eu sabia que era você
— Caramba, Tih! Por que você sempre faz isso?!
— Ninguém mandou ficar com essas brincadeiras bobas. Sabe que não gosto que tampem meus olhos — disse Titânia, dando-lhe um beijo suave no rosto logo em seguida. — Porque quando você faz isso, não consigo enxergar todo o seu brilho.
Aerus percebeu que estava mais corado do que gostaria. O dia na praia seria incrível ao lado dela.

ii

Pela primeira vez na vida, Aerus percebeu que realmente precisava de seus óculos escuros. O sol brilhava com louvor, muitas pessoas que passavam ao seu lado na calçada o reconheciam da televisão. A Fire Tales deixara de ser apenas uma guilda predominante de Sinnoh para tornar-se uma verdadeira celebridade no mundo inteiro.
Titânia tomava um sorvete de baunilha com leite condensado. Seu parceiro caminhava a passos lentos, não queria apressá-la, mas também não poderia ficar olhando para ela descaradamente. O vestido branco era quase transparente, dava para enxergar os contornos de seu maiô, e nada tirava a imagem de seu belo corpo de sua mente. O som das ondas na costa eram como uma melodia suave para sua caminhada matinal.
— No que está pensando? — perguntou Titânia, lambendo a ponta do polegar após terminar o sorvete.
— Em você. Em nós dois — respondeu Aerus meio sem graça. Ele nem deveria estar falando isso em voz alta, parecia um meninão apaixonado.
— Que papo de casalzinho apaixonado — ela soltou uma risada gostosa, cheia de segundas intenções. — Acho que já passamos dessa fase. Nosso tempo juntos tem sido muito bom, não?
— Se eu disser que não, você acabaria comigo — Aerus caiu na risada. — E como poderia ser ruim? Estou junto com a mulher da minha vida!
Ele a amava demais.
A serpente subitamente parou e encarou o oceano.
— Eu preciso te contar uma coisa, Aerus...
— Meu Arceus, eu fiz algo de errado? Dei alguma resposta idiota agora? Eu não deveria ter ficado falando merda, me desculpa, me perdoa!
— C-calma, é só... é uma surpresa boa! Mas só vou te contar no fim do dia, se você se comportar.
— O quê? Agora eu preciso me comportar pra merecer recompensa? Você está ficando muito mal acostumada, Tih.
— Claro. É um trabalho mútuo — Titânia riu. — Você tem que fazer por merecer.
— Vou mesmo ficar curioso até o fim do dia?
— Eu vou leva-lo para fazer tantas coisas que você nem terá tempo para pensar — disse a Steelix, abrindo o mapa que pegará na recepção do hotel. — Eu estava pensando em almoçar num restaurante à beira mar, eles servem algumas porções de camarão picantes que devem ser uma delícia.

Numa lanchonete perto dali, General, Glaciallis e Watt compravam malasadas para provar uma das iguarias mais famosas de Alola. O esquilo adorava doces, mesmo o Dusknoir que preferia comidas exóticas e bem temperadas, aquele estranho pão coberto de açúcar e creme era um deleite para seu paladar. Na mesa ao lado, Chaud trouxera Eva e Tom Sawyer para experimentarem também.
— É tão gostoso — falou Glaciallis. — Será que vou parecer muito esfomeada se eu pedir mais um?
— Oxi, esse aqui é o meu quinto — disse Tommy. — Quem é que tá pagando mesmo?
— A mamis, então pode comer quantos quiserem — respondeu Eva.
Enquanto comiam, Aerus e Titânia passaram pela janela de passagem, aparentemente estavam indo almoçar no restaurante ao lado. Watt acenou para eles quando General decidiu perguntar:
— Por que não se junta a eles, jovem Fuarrint?
— A Tih precisa ter uma conversa com meu irmão... só que é coisa séria — falou Watt. — Ela pediu alguns conselhos para mim, fiz o possível para deixa-los um tempo a sós hoje, só que ela pediu para manter segredo.
General meneou a cabeça, compreensivo. Ele era discreto e não se intrometeria na vida do casal, mas esperava que tudo terminasse bem.
— M-mas não se preocupem, eles não vão terminar o namoro nem nada! Depois de tudo que passamos, seria muita sacanagem o casal favorito da Fire Tales acabar! Eu tenho certeza que os dois vão dar um jeito.
— Os dois são adultos hoje, não se comparam em nada com o pequeno Gible e a Onix orgulhosa que conhecemos há tanto tempo. Eles vão dar um jeito — respondeu Chaud.
Enquanto falava, Eva balançava uma malasada na frente de seu rosto.
— Ei, ei, ei! Tem certeza que não quer? Eu adoro quando você tira a máscara, Chaud, você consegue ser sexy até quando está de boca cheia.
— Devo concordar que o sabor é espetacular, meu amigo — frisou General.
Chaud respirou fundo, não poderia lutar contra sua vontade de provar aquela iguaria. Ele retirou sua máscara de forma discreta e abocanhou um pedaço.
— Bom — foram suas palavras.
— Bom?! Isso aqui tá uma delícia, sô! Nunca vi nada parecido lá na terrinha! Vou ter que pedir pra dona Sophie aprender a preparar uns pratos do tipo — disse Tom. — Nossos amigos devem estar surfando a uma hora dessas, depois que fizer a digestão, vamos nos juntar a eles?

Lyndis e Karl já aproveitavam o dia de sol. Al Capone encomendara uma barraca de cinco metros quadrados para proporcionar-lhes sombra, contratara dois empregados para servir-lhes água fresca e petisco enquanto degustava um bom vinho acompanhado de lula à dorê e camarões.
— Salute — disse o corvo ao brindar com Sophie.
— Querido, você pode passar um pouco de protetor nos meus ombros? Vou tirar a parte de cima porque não quero ficar com marquinhas.
Mamma mia — Al Capone deu um sorriso travesso. — Que bom que as crianças estão brincando lá longe.
Seus filhotes aproveitavam as ondas mais iradas no mar. Pokémons aquáticos do mundo inteiro iam para Alola para treinarem suas habilidades e participar dos campeonatos em Dewford, mas ocasionalmente criaturas de tipos inusitados também tentavam se divertir. Lyndis podia ser um Infernape, mas não perderia aquela oportunidade por nada. Ela levava muito mais jeito do que Karl para ficar em cima de uma prancha.
— Você é mesmo um mané em qualquer esporte radical, hein! — disse-lhe Lyndis.
— Na verdade você que é boa em tudo, eu sou só um cara normal — respondeu Karl.
Enquanto esperavam pela próxima onda, Lyndis percebeu que Beliel estava sozinho, sentado próxima à areia na área mais afastada do mar. Não sabia exatamente qual dos dois tivera aquela ideia, mas eles se aproximaram sorrateiros do Houndoom com o intuito de jogar-lhe um balde cheio d’água. Beliel pressentiu o plano antes mesmo que eles saíssem do mar.
— Eu espero que não estejam planejando nada agravante — disse o cão cego.
— Qual é, não se pode vir para a praia sem tomar um bom banho! — disse Lyndis.
— Posso tomar um banho de sol aqui, sentado.
— Pena que você não pode ver a Lyndis. Ela fica bonitona quando está morena — respondeu Karl, levando um tapa na cabeça. — Ai, poxa! Doeu.
— Sem piadas de mau gosto para cima do Belielzinho.
— Mas eu não... tá, foi mal.
Lyndis sentou-se na frente de pernas abertas e começou a mexer na areia.
— O que você está fazendo? — perguntou Beliel.
— Um castelinho. Já que você não vai se divertir com a gente, nós viemos nos divertir com você.
Lyndis segurou nas mãos de Beliel e começou a moldar a areia. Ele ficou quieto a princípio, mas dava para sentir o sorriso quente da garota. Karl também se sentou e começou a ajuda-los na construção da fortaleza, a ideia era recriar a Fire Tales inteira em versão costeira, com direito a uma lagoa de água e enfeites de concha.
— Ei, Jade, pode buscar mais algumas conchas pra gente? — perguntou Lyndis.
— Deixa comigo! — respondeu a garota, correndo descalça até a beira da praia onde seu companheiro Toxicroak estava.
Yoshiki retirara seu kimono para não molhá-lo. Ele caminhava descalço, dava para enxergar as cicatrizes que Jade tanto adorava em seu corpo. Quando ela o alcançou, seu pé acabou ficando preso em um buraco e ela quase caiu no chão, se não fosse por alguém segurá-la.
— Vai se machucar desse jeito — disse Yoshiki.
— D-desculpa, acho que cortei o pé em um pedaço de concha quebrada... — comentou Jade, sentando-se na areia molhada. Ela sentia uma pintada de dor agora que a água salgada limpava sua ferida, mas não passava de um corte superficial na sola do pé. — Poxa, essa concha ia ficar tão bonita no castelinho de areia dos nossos amigos...
— Venha — Yoshiki aproximou-se dela e a segurou no colo. — Chega de brincadeiras por hoje.
— O que vai fazer comigo?
— Vou arrancar seu pé antes que comece a apodrecer e necrose.
Ela o abraçou e sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
— Eu adoro quando você me assusta.
O castelinho de areia ficou sem conchas para decorá-lo, mas o trabalho foi interrompido assim que Lyndis teve a brilhante ideia de enterrar Karl na areia até que só sobrasse sua cabeça.
— O que acha de fazermos um corpo de sereia nele? — perguntou Beliel.
— Essa é a fusão mais bizarra que eu já vi — respondeu Lyndis com uma risada.
— Caramba, saca só a Wiki! — disse a cabeça de Karl, que agora estava enterrado na areia e incapaz de se mexer. — Olha só aquele biquíni, é do jeito que eu gosto.
Karl levou outro tapa de Lyndis, mas dessa vez não entendeu o motivo.
— Não fale de “olhar outras garotas” perto do Beliel!
— Eu não preciso olhar para outras garotas — respondeu o Houndoom, desviando os olhos cobertos pelo manto. — Se eu tivesse olhos, seria só para uma.

Wiki retirara sua tanga como se se despisse em uma noite de núpcias. Homens e mulheres caíram aos seus pés, se eles não fechassem a boca logo o oceano aumentaria de nível de tanta saliva.
— Olhar não tira pedaço, rapazes, mas eu já tenho dono, que por sinal são três — disse Wiki. — Não é fácil me satisfazer.
— Garota, você está divina, uma deusa — falou Mozilla, movendo as mãos como se tirasse uma foto imaginária de sua companheira. — Marco, venha logo aqui, por que está com vergonha de andar com a gente?
— É que vocês chamam tanta atenção que chega a ser exagero! — disse o garoto enciumado. — Custava vocês serem um pouco mais discretos?
— Oh, ele está com ciuminho! — falou Wiki. — Acho que ele nos quer só para ele.
— Talvez seja melhor tirarmos tudo — respondeu Mozilla, levando a mão até sua sunga. — Pode ser... agora?
— Claro que não! Vocês estão tentando transformar essa praia em uma versão para nudismo?!
Wiki e Mozilla adoraram a ideia, mas não tiveram a oportunidade de coloca-la em prática.

E por sinal, alguém que chamava mais atenção do que devia era Milena. Ela era uma beldade e estava em seu habitat natural, uma Milotic naturalmente nasce para dominar as águas e ser o Pokémon mais belo de todos. Mikau não estava gostando nada da atenção descarada que alguns sujeitos davam para sua parceira.
— Por que não vai surfar com seus amigos? — perguntou Milena.
— Não quero deixa-la sozinha.
— Mikau... Acha que eu vou sair correndo? Você sabe que sou apenas sua.
— É impossível esconder seu brilho. Juntos, somos mais vistos do que estrelas.
— Convencido — disse a mulher com uma risadinha. — Para onde pretende me levar essa noite?
— Eu estava pensando em ficarmos no quarto, só nós dois. Podemos pedir um bom vinho, ligar a banheira e enchê-la de espuma enquanto ouvimos uma canção tropical direto de nossa sacada.
— Eu acho um plano esplêndido.
Quando Mikau e Milena estavam para selar um beijo discreto, eles puderam ouvir um assovio de longe vindo de um Crabrawler troncudo e seus amigos Krabbys. Ele só não sabia a enrascada que estava se metendo. Mikau apontou a mão para ele como se fosse uma arma e disparou, mas nenhum poder saiu. Só para provocar.
— Você está conseguindo se controlar mais, estou orgulhosa — disse Milena. — De noite, vou recompensá-lo com a melhor das surpresas de todas, está bem?
— Vou aguardar... ansiosamente.
Mikau contou as horas para o dia terminar. De volta ao hotel, ele desceu rumo à recepção para garantir duas taças e o melhor vinho que tivessem. Nunca fora um apreciador de bebidas do tipo, mas aprendera a degustar com Al Capone e Milena se encantava com o sabor adocicado. Quando subia as escadas, viu que Aerus e Titânia também voltavam de sua tarde.
— Opa, a noite vai ser boa — disse o Garchomp para o Kingdra.
— É que eu fui um bom garoto — respondeu Mikau com uma risada.
— Viu, Aerus? Já que você se comportou direitinho também vai ganhar uma recompensa! — continuou Titânia.
— Mas e a Árvore de Batalha?
— Eu já alcancei o Nível 100 em batalhas, caro amigo — respondeu Mikau —, agora existem outras áreas que requerem minha atenção.
Assim que Mikau entrou no quarto, não havia sinal de Milena. Ele procurou por ela na varanda e só parou quando sentiu seus pés molhados, o carpete estava ensopado. Podia ouvir o som de cascata vindo do banheiro, a porta levemente entreaberta. Um sorriso malicioso formou-se em seu rosto, ele encheu as duas taças de vinho e, assim que empurrou a porta com um dos pés, foi surpreendido por um pinguim que corria pelado pelo corredor.
— Duke, volta aqui, eu prometo que não brinco mais com isso! — gritou Eva, mergulhada na banheira cheia de espuma.
— Ô, lasquera. Tu pegou pesado, Evinha... — disse Tom Sawyer ao seu lado.
— Eu não faço ideia porque estou aqui — disse Chaud de braços cruzados ao seu lado, vestindo apenas uma toalha.
Mikau quase derrubou as taças quando foi recebido por General e Glaciallis, trajados em suas vestes de banho e aparentemente prontos para entrarem na banheira também. Glaciallis usava um roupão branco e estava com o cabelo solto, ela cortara na altura dos ombros só para aproveitar as férias de verão.
— Oh, veio participar de nossa festa, Mikau? — perguntou Castelo.
— Que. Porra. É. Essa. — O atirador não estava nada contente. — Cadê a Milena?
A Milotic estava também vestia um roupão, mas estava do lado de fora do banheiro na companhia de Wiki, Mozilla e Marco que agora se uniriam à festa. Praticamente a guilda inteira estava lá.
— Oi, Mimi — disse Milena.
— Mimi? Você me fez me sentir um Horsea de novo — disse Mikau com um sorriso.
— Não fique bravo, meu fofo. Quando eu estava enchendo a banheira de espuma, as crianças me olharam com um olhar tão maravilhado que e eu fiquei sem reação! Tive que deixa-las entrar — Milena começou a massageá-lo pelas costas. — Não esquenta, nos divertimos outra hora. A surpresa foi boa, não acha?
— Vocês transformaram o banheiro do hotel em uma piscina pública. O Aerus sabe disso?
— Não se preocupe, ninguém está estragando nada. Nós não somos um bando de desorganizados sem educação que saem quebrando paredes, e...
Nesse momento, uma das paredes explodiu e Vista apareceu no banheiro trajado em sua armadura de combate, lançando destroços e poeira para todo lado enquanto Eva, Tommy e Duke corriam desesperados.
— Mikau! Where are you, you little bastard?! Eu fiquei esperando a tarde toda naquela Árvore de merda, minhas juntas devem ter enferrujado!
Vista olhou atentamente a cena e calou-se por completo.
I can’t believe that. Não fui convidado para a festa? Eu... eu... eu pensei que vocês me amavam. Temo em dizer que agora serei obrigado a... DESTROY EVERYTHING.
Vista ativou dois de seus canhões. Wiki e Mozilla preparavam-se para contê-lo, mas seria difícil visto que não vestiam roupa alguma. General e Glaciallis riam de seus amigos, Sophie comprara vinte pistolas d’água na lojinha do hotel e agora eles iniciavam a ideia de um combate em grupos onde deveriam eliminar seus inimigos atirando água neles. Valendo o prédio inteiro.
Mikau recuou lentamente, fechou a porta do banheiro e saiu de fininho. Torcia para que Duke ainda quisesse pescar.

iii

Aerus tomara uma ducha rápida para tirar o sal do corpo após o passeio. Quando voltou para o quarto, encontrou-se com Titânia sentada na varanda do quarto, encarando o horizonte distante. Ele sentou-se ao seu lado e Tih automaticamente esticou as pernas sobre o colo dele.
— Eu adoro quando você faz isso — disse a serpente, soltando um gemido de prazer. Por mais rígida que fosse, ela jamais resistia a uma massagem nos pés.
— O que vamos fazer hoje à noite? — perguntou Aerus.
— Depende. O que você quer fazer? — ela repetiu a pergunta, cheia de segundas intenções.
— Tô doido pra brincar de pistola d'água com os outros membros da guilda!
— Heh, heh. Te conheço bem até demais, Aerus Draconeon.
Aerus esperava que ela também se juntasse à batalha, mas sentiu-a segurar sua mão.
— Fique só mais um pouco. Eu... preciso te contar uma coisa. Aquela coisa.
— Ah — Aerus voltou, agachou-se em sua frente e apoiou a cabeça num dos joelhos dela. — Pode falar.
Era a primeira vez que ele via Titânia evitar olhá-lo de frente. O que estava acontecendo? Era sempre ela quem segurava seu rosto, arrancava seus óculos e o encarava como uma serpente hipnotizante prestes a engoli-lo. A mulher mordia os lábios com claros sinais de nervosismo, com uma das mãos ela segurava a barra do vestido por estar suando e a outra ela usava para ajeitar o cabelo que lhe caía pelo rosto.
— Eu... eu... é complicado.
— Pode falar.
— É super complicado. Tipo, muito mesmo.
Aerus segurou a mão dela com o intuito de passar-lhe segurança.
— Vamos lá, existe algo nesse mundo que a poderosa Titânia não possa enfrentar?
Ela soltou um longo e carregado suspiro.
— Eu estou grávida.
Aerus parou de falar. Nessas horas ela odiava seus óculos escuros, porque não conseguia compreender o que passava pela sua cabeça. O dragão levantou-se e andou três vezes em volta da varanda, de lá para cá.
— Você está zangado? — perguntou Titânia, claramente aflita. — Eu sei que é muito súbito e não foi nada planejado, mas...
— Essa era a surpresa? Era isso que você ia me contar hoje de manhã?
A mulher encolheu os ombros e fez que sim com a cabeça. Aerus não parava de andar de um lado para o outro. Ele apontou para sua companheira, mas não disse nada, deixando-a no quarto sozinha.
Titânia não sabia se aquele fora um sinal de fúria ou desespero, seu coração batia depressa e quase saltou para fora no instante em que pôde ouvir a voz de seu amado:
— EU VOU SER PAPAI, CARALHOOOOOOOOOOOO!
Em questão de instantes, todas as mulheres da guilda entraram no quarto para desejar-lhes as devidas felicitações. Seus amigos vestiam apenas roupas de banho e estavam encharcados de água, mas tiveram que parar tudo que estavam fazendo para comemorar a notícia. Aerus estava na entrada recebendo apertos de mão e tapinhas no ombro de seus amigos, Al Capone e General o recebiam de braços abertos para o lado dos “casados, mas solteiros”.
Aos pés de Titânia, Wiki se debruçava em lágrimas:
— Eu não acreditooooo!! A primeira mamãe decente dessa guilda, nós ainda temos salvação!
— Quando vai ser o chá de bebê? Já comprou fraldas? — Sophie a enchia de perguntas precoces.
— Devo admitir que você está se saindo muito bem, parece que nem ganhou peso! — continuou Milena. — E eu achando que eu seria a primeira mamãe da guilda, vou ter que pedir para o Mikau se apressar logo!
— É menino ou menina, tia? — Eva repetia a pergunta incessantemente.
Titânia não sabia como corresponder a tanta atenção, mas sabia como responder ao menos uma daquelas perguntas:
— Eu tenho a impressão de que vai ser uma garota...
— Por que eu tenho a impressão de que eu já sabia dessa notícia? — perguntou Vista.
— AAAAAAAAAAH, MEU DEEEEUS, QUE COISA FOFA! Eu vivi para esse momento — berrou Lyndis.
— Acho ela já vai nascer com uma armadura — continuou Yoshiki.
— Só espero que puxe a mãe, porque ninguém merece outro mini Aerus correndo pela guilda — disse Mikau.
— E-eu posso ser madrinha? — perguntou Glaciallis.
Pelo visto, aquele seria o assunto até o fim das férias dos Fire Tales.
— E eu, galera? — perguntou o Garchomp. — Cadê os parabéns pro paizão aqui?
Todos olharam com cara feia para Aerus.
— O que importa é a mãe, o pai não faz nada — respondeu Wiki.
— Hah, hah. Podem me zoar a vontade, hoje nada vai me tirar do sério.
— Estou tão aliviada... eu não sabia o que você iria sentir — falou Titânia. — Foi tão inesperado, você tem tantas obrigações com a guilda e a última coisa que eu gostaria era atrapalhá-lo, você está no seu auge! Eu já estava me preparando para cuidar dessa criança sozinha, sei que na maior parte do tempo estou carregando uma espada e destruindo os inimigos, mas estou pronta para assumir a missão de ser mãe pela primeira vez.
Aerus aproximou-se de sua mulher e ajoelhou-se em sua frente.
— E você achou mesmo que eu deixaria a mulher da minha vida aceitar essa missão sem mim? Posso parecer o mesmo garotão do dia que nos conhecemos, mas aprendi com a maior guerreira do mundo que devo ser forte para enfrentar os desafios que a vida colocar. E não há nenhuma batalha que a Fire Tales não possa enfrentar.
— Eu vou ser tio... Mal posso esperar para ensinar tudo para ela — sussurrou Watt, que sabia da noticia desde o começo e confiava que seu irmão a receberia da melhor maneira possível. — Estou orgulhoso de você, irmãozão.
Titânia estava corada como uma garotinha que se encontra com seu par perfeito nos tempos da escola. Aerus aproximou-se da barriga da mulher e encostou sua bochecha nela, como se fosse capaz de ouvir e sentir o pequeno ser que já habitava ali.
— Vou ser papai... — ele sussurrou bem baixinho. — Nunca fui de planejar os próximos passos de minha vida, mas, com certeza, esse foi o melhor deles. Quero compartilhar cada momento ao lado de você. Quando julgar que estiver pronta para vir a esse mundo, estaremos esperando por você, Platina.

Fire Tales 44


Esta é a história da última aventura do dragão guerreiro...
A gente já sabe, Aerus... Você já repetiu isso no título.
— Que saco, Mikau! Eu odeio quando vocês me interrompem, e toda vez que eu tento começar minha história algum infeliz sempre tem que me interromper...
Alguém quer pipoca?!
Aerus nem conseguiu diferenciar de quem era aquela voz quando recebeu uma enxurrada de pipocas em sua direção. Teve de se desviar e fazer como fazia quando estava prestes a entrar em uma batalha, usava de sua agilidade para impedir que as pipocas o acertassem na medida que cortava todas em pequenos pontinhos brancos sortidos, utilizando suas lâminas afiadas. Uma pipoca escapou então e acertou bem no meio de sua garganta. Ele caiu no chão, debatendo-se histericamente.
Augh! Gaaah, ugh... Quase engasguei, cara. Fui derrotado por uma pipocada na cara — grunhiu o dragão, remoendo-se. — É o fim, nós fomos derrotados... E justo quando estávamos tão perto da vitória!
— Chega de drama, parceiro — Mikau reclamou, puxando-o pela gola e dando alguns tapas em suas costas para ver se a pipoca saía, ou só pelo gosto de bater nele. Aerus voltou a sentar-se ao seu lado. Em seguida, recebeu uma taça de vidro requintada com uma agradável coloração azulada, especiaria preparada pelo próprio Kingdra com um sabor de framboesa.
— Qual o teor alcóolico? — perguntou Aerus.
— Para alguém que terminou sendo derrotado por pipocas, irrelevante — o atirador respondeu, cruzando as pernas e esticando os braços enquanto apreciava a vista daquela noite estrelada.
A lua brilhava lá em cima, e nenhuma nuvem os impedia de vislumbrar as obras da galáxia de Arceus. Este era um evento especial para a Fire Tales, um luar que era festejado todo fim de ano, embora dessa vez fosse comemorado por conta de uma certa ocasião especial. Sua vitória! Não apenas os membros das guildas, mas amigos próximos e conhecidos foram convidados. A Fire Tales tinha motivos de sobra para comemorar depois de tudo que haviam passado.
Aerus virou o drink de uma vez, subiu em cima da mesa de forma meio desengonçada, bateu palmas e falou alto para que todos o ouvissem.
— Ei, ei! Eu exijo um minuto de atenção, fui eu que convidei todo mundo para ouvir a minha história, e ninguém quer me deixar terminar!
— Acho que a memória dos nossos amigos ainda está fresca, porque da última vez que você tentou contar uma história ela não recebeu a maior das aprovações... — comentou Watt, discreto.
— Galera, galera, atenção! É o líder de vocês falando aqui! — Aerus continuou, mas a barulheira era tanta que as conversas só cessaram quando um homem de capa e cavanhaque levantou-se e deu um berro, batendo com o punho forte na mesa.
— SILÊNCIO!
A voz austera ouvida partiu diretamente de Ereon, um dos dragões mais poderosos e respeitados da região. Ele e sua esposa haviam sido convidados pelo próprio Aerus que muito os estimava, e quando o Salamence falava, os demais demonstravam respeito e se calavam. O Garchomp estava com as mãos unidas, observando tudo contente e ao mesmo tempo amedrontado. Imaginou se algum dia seria temido e respeitado o bastante para que conseguisse fazer aquilo.
Caham... Pois bem. Dessa vez pretendo seguir com a minha história sem interrupções, se me permitirem... — Aerus falou meio sem jeito. Pelo menos não o interromperam mais. — Então, ela começa agora.
Esta é a história da última aventura do dragão guerreiro.
Em terras ermas e de calor insuportável, surgiu a criatura mais poderosa do mundo. O corajoso, astuto, sublime, incrível, o mais foda personagem que já foi lembrado em qualquer livro ou história milenar... O Dragão Guerreiro.
— Dragão Guerreiro não é o nome do Kung Fu Panda? — perguntou Sly, o Machamp, que geralmente só era visto de boca fechada e quando abria era para fazer algum comentário desnecessário como aquele.
Aerus não deu trégua e logo continuou.
O Dragão Guerreiro era uma criatura solitária que já passara por tudo na sua vida. Vira as montanhas mais altas e explorara os oceanos mais profundos do mundo, mas nunca encontrou a paz que procurava... Pelo menos, não sozinho.
Certo dia ele percebeu que chegava a hora de expandir seu legado, e assim, passar todo seu aprendizado para um filho ou herdeiro. Andou procurando por princesas desaparecidas no buscapé, e achou uma de aparência bem aceitável num lugar não muito longe dali, perto da praia, então ainda teria tempo de pegar um bronzeado antes de salvá-la. Estava disposto a resgatar a doce princesa que vivia aprisionada em uma torre bem alta, muito além das nuvens, onde aguardava a chegada não de seu príncipe encantado, mas de alguém capaz de fazê-la feliz para sempre, que nem os contos de fada e toda a viadagem que possuem.
— Cara, isso foi grosseiro... — comentou Marco.
— Verdade — acompanhou Mozilla. — Por que sempre tem que ser uma donzela em perigo? Por que não invertemos os papéis e colocamos um príncipe meigo preso na torre, enquanto uma feiticeira das trevas segue junto de seu exército sombrio para uma batalha interminável para roubar o coração do príncipe da princesa esnobe que de fato não o merece?
— Agora sim a história está ficando interessante — continuou Wiki.
Everyone must DIE at the end — respondeu Vista.
— Calem a boca porque a história é minha e eu conto ela do jeito que eu quiser — resmungou Aerus. — E tem mais, ainda nem cheguei na melhor parte.
— Me acorda na hora da guerra — disse Mikau, virando-se de lado para tirar um cochilo.
— Uma torre em uma praia, interessante. — Al Capone parecia realmente curioso sobre o enredo. — Por um acaso a princesa estava aprisionada em um farol?
— O farol deve ser assombrado, tive muitos amigos que decidiram morar em faróis — continuou General.
Karl levou a mão até seu rosto.
— Meus ouvidos nem merecem ter que ouvir essa história inteira, mas só vou ficar porque se não a Sophie vai mandar eu ir dormir cedo.
— A princesa podia estar presa em uma gruta fedorenta — sugeriu Eva.
— Ieeck! E se aparecerem polvos marinhos para capturá-la? — pensou Tom Sawyer.
— Aí é onde eu entro na história, porque tentáculos são tudo de bom! — continuou Wiki com certo ar malicioso.
— Continua logo essa merda! — Mikau voltou a gritar, os ouvidos tampados.
Enfim... Protegendo o castelo da princesa existia uma serpente chata e muito maléfica que engolia os soldados e destruía qualquer um que tentasse se aproximar, e...
— Não era uma torre? — o comentário de Sly se perdeu na barulheira que veio a seguir.
— UH! Eu sei quem é! — Eva ergueu-se animada, mas Chaud abaixou a mão da menina insinuando que seria melhor ela ficar quieta.
Um silêncio formou-se na roda de amigos, apenas a brasa da lareira se movimentava. Foi então que alguém lá do fundo se manifestou:
— Repetindo a mesma história da primeira vez, Aerus Draconeon? — indagou Titânia, apoiando-se em seus joelhos enquanto descansava a cabeça. — Ainda me lembro da primeira aventura desse Dragão Guerreiro bobinho e, pelo visto, ele ainda não aprendeu nada depois de tanto apanhar da serpente.
— Desencana, Tih! Dessa vez eu bolei um final alternativo que vai fazer todo mundo se surpreender.
— Você morre no final? — perguntou Mikau.
— O Duke morre no final — concluiu General.
— TODO MUNDO MORRE NO FINAL! — gritou Vista.
— NÃO! Parem de tentar adivinhar o fim da história e ouçam, porra!
Então... O Dragão Guerreiro foi até a torre/castelo/farol amaldiçoado e tentou derrotar a Serpente de Ferro. Ele apanhou tanto, mas tanto, mas tanto que até perdeu o rumo da casa. De que adiantava ser conhecido como uma lenda e explorar o mundo inteiro, se não conseguia nem ganhar de uma serpentinha de merda? (Lembrando que ela era gigante, tá?) O comentário fazia os demais rirem ao seu redor, só que isso só incentivou o jovem dragão a tentar mais uma vez, e quando ele aproximou-se o suficiente para ataca-la despercebida, ele percebeu que a serpente estava profundamente triste e solitária.
Aquilo fez seu coração amolecer. Lá no fundo, tudo que a serpente malvada queria era companhia, mas fora aprisionada a proteger os outro, então ninguém nunca valorizava seu esforço, e esta era a sua sina.
Decidido então a resgatá-la de tal tormento, o Dragão Guerreiro decidiu por iniciar uma demanda de salvação.
Ele retornou para seu vilarejo e reuniu os melhores guerreiros que uma vez o auxiliaram em suas aventuras no passado. Eles formaram então a Sociedade Itinerária de Salvação das Serpentes Negligenciadas pela Organização dos Humanos, também conhecida como operação S.I.N.N.O.H. Tanto é que, ao apanhar da serpente na primeira vez, o dragão percebeu que quem ele realmente queria nunca fora a princesa...
— Aquela serpente ainda será minha — dizia o Dragão Guerreiro.
— Ohh, ele não é fofo? Está apaixonado! — disse Milena.
— O quê? Claro que não, estou só tentando contar uma história que eu inventei da minha cabeça... Tipo, não é como se isso tivesse acontecido ou se eu quisesse que acontecesse. E tem mais, qualquer semelhança com pessoas conhecidas é mera coincidência!
— Não caia nessa história de paixão. Você sempre termina com filhos pra cuidar — respondeu Milady, meio emburrada. — E eles crescem, e começam a virar criancinhas barrigudas e catarrentas, e sua vida começa a virar uma...
— Uma maravilha! — interrompeu Isaac. — Os filhos certamente são a maior benção em nossas vidas, principalmente quando podemos acompanhar seu crescimento e vê-los se tornarem importantes para o mundo.
— Filhos?! Qual é, ninguém tá nem falando de filho — rugiu Aerus, com o rosto extremamente ruborizado. Ele notou que Titânia também desviara o olhar, mas dava aquele sorriso encabulado que só ela conseguia dar, principalmente porque depois tentava disfarçar e acabava ficando mais na cara ainda. — Podem parar, vocês estão confundindo a minha história toda... Nem lembro mais onde eu parei. Ah, sim.
— Aquela serpente linda... um dia será minha!
— Por que você não vai lá contar para ela o que sente então? — disse uma segunda voz que assustou o dragão.
— Quem é você? E quem lhe deu permissão de aparecer na minha história?!
— O senhor recrutou vários guerreiros poderosos para a operação S.I.N.N.O.H., então eu vim para ajudar. Meu nome é Bola de Pelos, e eu sou um esquilo com poder sagrado da Explosão de Fofura que ninguém pode resistir.
— Isso é fofo demais! Desculpe ter levantado a voz e duvidado de você. Diga-me, nobre bolinha felpuda, quem trouxe consigo nesta demanda?
— Então, é uma lista meio grande... Eu trouxe um pinguim que serve de saco de pancada, um cavalo marinho que atira pelas mãos (mesmo sem ter mãos), uma cobra d’água que pode ficar fora d’água, uma mariposa que tem medo de fogo, um dinossauro fossilizado, uma lesma, uma rosa murcha, dois fantasmas, uma libélula, um sapo sádico, um ovo falante, uma macaca dançante, uma enfermeira gostosa, um corvo sem um olho, dois disquetes usados, um computador sem CPU, um unicórnio de pedra, um cachorrinho fofo do sertão, uma gatinha com poderes psíquicos, um extintor de incêndio do inferno e um dragão de ouro.
— Puxa vida... — o Dragão Guerreiro parecia impressionado. — Já temos um verdadeiro exército para marchar e resgatar a serpente!
— Certamente, meu senhor, então só falta chegarmos lá e domarmos seu coração! — continuou o esquilinho.
MAS, como toda história que se prese e recebe um plot twist pouquinho antes do final, justamente quando o Dragão e a Serpente perceberam que poderiam ficar juntos eis que surgiu uma galerinha do mal para badalar essa turminha do barulho! E eles também eram conhecidos como... Retarded Five. Os cinco retardados.
O silêncio se formou, e todos os membros da Fire Tales viraram-se para onde estavam seus convidados, os integrantes da própria Remarkable Five.
iDie estava sentado de pernas cruzadas ouvindo a história atentamente (ou recarregando as baterias sem que ninguém notasse); Sonnen e Davy Jones atacavam alguns petiscos espalhados na mesa para o lanche; Tashiki fumava um cigarro e a última coisa que deveria estar ouvindo era a história de Aerus; Bonna preocupava-se mais com a pequena Elba que caminhava para o colo de todos os desconhecidos, enquanto Presidente estava próximo demais de Glaciallis para sentir qualquer coisa que não fosse um friozinho no coração.
Titânia soltou um suspiro, movendo os lábios para seu companheiro como se insinuasse: Pega leve. Aerus logo retomou o rumo de sua história, mesmo que ninguém estivesse prestando atenção.
Os Retarded Five eram um grupo bacana, mas sendo legais ou não, eles ficavam no caminho do dragão para conquistar o coração de sua amada serpente. Em sua composição havia o temeroso cavaleiro fantasma, uma cobra peçonhenta de veneno mortal, um espadachim que movia-se tão depressa que parecia ter cinco braços, uma velha água-viva com tentáculos intrigantes e um tanque de guerra... E para piorar, a princesa ficou muito brava por não ser a mulher mais desejada do mundo e revelou-se por ser na verdade uma Feiticeira das Chamas.
Resumindo: Enquanto o grupo do Dragão Guerreiro tinha pinguins bobos, esquilos fofos e cavalos-marinhos folgados, seus inimigos tinham um poderio equivalente a uma bomba atômica.
— Quem é a princesa das chamas? Não estou reconhecendo — comentou Sonnen, até que Davy Jones cochichou em seu ouvido. — Ahhh, sim... Então é uma espécie de princesa disfarçada de bruxa?
— Minha filha não tem idade para ouvir esse tipo de história, senhor Aerus Draconeon... Você vai se responsabilizar por qualquer efeito colateral no crescimento dela — comentou Bonna Party.
— Titio Aerus, vai todo mundo morrer na sua história? — perguntou Elba.
— Claro que não, minha doce menina — Presidente comentou de maneira acolhedora. — Toda história deve ter um final feliz, e se não tiver, a gente mata o autor.
— A gente pode envenenar a bebida dele, ou ameaça-lo de morte e obriga-lo a fugir para as Sevii Islands — sugeriu Tashiki, tragando seu cigarro. — E depois jogar fogo nas ilhas, porque ele não teria como escapar.
Aerus estava fazendo uma careta de espanto ao ouvir todas aquelas ideias.
— Acho que... Acho que é melhor eu mudar o final então.
E assim, iniciou-se uma guerra intensa onde cada um lutava pelo ideal que possuía. O grupo da S.I.N.N.O.H. ansiava por roubar a cobra que protegia a princesa malvada, e os Retarded Five a protegiam sem imaginar que na verdade a facção inimiga só queria levar a serpente embora.
O Dragão Guerreiro, poderoso e temido como era, estava para detonar geral quando optou por dar uma trégua e reunir todo mundo em sua casa pra fazer um churrasco e falar mal da vida alheia no domingo. Interessados na proposta, a guerra logo acabou sem mortes. Ninguém morreu, e quem morreu reviveu depois (pronto). Ele pegou a serpente, colocou-a no ombro, e saiu pulando contente, de volta para seu ninho do amor onde eles possivelmente viveriam felizes para sempre.
— Tecnicamente, dragões e serpentes podem acasalar? — questionou Watt.
— Talvez nasça um esquilo desse amor — continuou Seth, escondendo uma risada.
— Cara, e cadê o resto dos personagens?! Já acabou essa merda de história? — resmungou Karl. — E o Ovo Malandro Falante? E a Macaca Animada Dançante?
— Filhote, sem rimas toscas, por favor. Só eu fico envergonhada quando isso acontece no meio de algum parágrafo mesmo que sem querer? — perguntou Sophie.
— Eu não aceito que termine assim, tem que ter mais! — gritou Lyndis.
— ISSO! Quem sabe uma segunda temporada? — Tom Sawyer parecia empolgado com a ideia. Adorava todo o tipo de história, e enquanto só precisasse ouvi-las não teria trabalho algum. — Mais uns 200 capítulos das Aventuras do Dragão Guerreiro estaria ótimo. Eu peguei a história da metade, mas tava achando muito batuta, sô! Quero mais.
— Calma, galera, calma... Eu só queria fazer suspense, a melhor parte nem chegou! — Aerus revelou, retomando de onde havia parado. Ele engrossou a voz, e por fim anunciou:
E foi então... que o Duke morreu.
FIM.
— HAHAHAHAHAH! Porra, cara, o Duke tem que sempre morrer no final! — Mikau riu alto, sem conseguir se segurar.
— Quem é Duke? — Beliel perguntou olhando para os lados.
— Mamãe, eles estão fazendo bullying comigo... — O pobre pinguim choramingou, puxando a barra da saia de uma mulher ao seu lado.
— E-Eu não sou a sua mãe, querido... Eu sou a Milena.
— O QUÊ?! A Milena teve um FILHO?!! — Mikau levantou-se pasmo com um grito. Quase engasgou ao pensar ter ouvido algo que não gostaria.
— Depois desse final acho que eu fiquei até com dor de barriga... — disse o pobre Marco, deitando de bruços na grama.
Let me get outta here before I kill someone... — reclamou Vista, indignado.
O Garchomp se divertia com a ira de seus amigos e como eles haviam odiado o final de sua história, mas logo todos começaram a se dispersar para ir embora. Talvez a revolta tivesse sido grande demais, talvez tivessem coisas mais importantes a serem feitas.
— Ei, galera, calma aí! Não vamos contar mais histórias? Eu queria contar para vocês a verdadeira Última Aventura do Dragão Guerreiro. Quem quer ouvir?!
— Meu caro Aerus — Ereon o chamou e colocou o braço em volta dos ombros do mais novo. — Devo reforçar que você tem habilidades terríveis para contar histórias, e que deveria aposentar-se do ramo antes que causem uma revolução e o tirem do poder à força.
— Tá brincando? Eu demorei um tempão pra bolar tudo!
Aerus desesperou-se ao ver que seus amigos realmente estavam indo embora. Demorara tanto tempo para juntá-los, e agora não sabia como entretê-los a continuarem junto. Isso sem contar os convidados, que deveriam estar pensando como a Fire Tales era um tédio, e fazer feio na frente de gente respeitável como Ereon e os Remarkable Five era a última de suas intenções.
— Pessoal, espera só mais um pouco, a história de hoje era só brincadeira! — disse Aerus sem receber atenção. — Na verdade, eu reuni todo mundo aqui pra... Ficarmos um pouco juntos. Ao mesmo tempo que vivemos tão próximos uns dos outros, sinto que deveríamos passar mais momentos juntos. Tem aquela frase que diz: Nunca se sabe quando será a última vez. E a gente, sei lá... Nunca sabe mesmo, né?
Os demais se entreolharam, e compreendiam perfeitamente o motivo. Mikau foi o primeiro a erguer sua voz e comentar num tom divertido:
— E você acha que nós iríamos abandoná-lo? Esteja tranquilo, meu caro, só íamos buscar mais pipoca pra acertar sua cara depois de uma história horrível como essa.
— Pense bem, é melhor do que tomates. No meu tempo arremessavam tomates nos atores que faziam peças ruins. Isso quando não os enforcavam — comentou General
Ereon caminhou em direção de Aerus e levou a mão até seu ombro, sorrindo.
— Por que não vamos até minha casa? Imagino que lá tenha mais espaço para todos nós, e posso pedir para meus criados irem preparando um banquete especial. Quero que sejam meus convidados, poderemos comer e beber à vontade, iremos nos divertir juntos, e quando a madrugada chegar, descansaremos somente quando o último não aguentar mais ficar de pé.
Aerus olhou para Watt, que prontamente concordou. Ele sempre consultava o esquilo antes de tomar qualquer decisão. Ereon era mais experiente, sabia como ser um bom anfitrião e dar uma festa de verdade onde ninguém ficasse empanturrado em salas jogando vídeo games e comendo salgadinhos (não que isso que fosse ruim, de fato). Aerus poderia aprender muito com o homem que tanto o ensinara, e não importava o quanto tivesse crescido, ele sempre teria mais alguma coisa para aprender.
Ereon levou a Fire Tales e os demais até uma chácara que tinha em seu nome, construída há muitos anos para seus familiares e amigos, usada até seu limite quando ele era mais novo. Nos dias atuais ficava abandonada e restrita às férias. A viagem foi bem rápida, quando avistaram o lugar Aerus e seus amigos ficaram encantados com tamanha magnificência. A iluminação noturna era impecável, parecia que haviam chegado a um hotel cinco estrelas. Piscinas, saunas, banheiras para deitar e relaxar com os amigos, telões de cinema particular, e uma das paisagens mais lindas que se podia imaginar. Aerus só conseguia imaginar observar um nascer do sol naquele lugar, e logo percebeu qual seria o seu plano:
— Quem vai ficar acordado comigo até de madrugada?!!
Todos gritaram juntos, pois aquela seria a melhor noite de suas vidas.
Wiki, Mozilla, Marco e Vista encontraram a adega de Ereon, e o velho Salamence liberou alguns de seus melhores vinhos e whiskies para serem provados. Seus convidados se deleitaram. Wiki embebedou-se e gritava mais animada do que o costume, prestes a arrancar suas peças de roupa em um jogo de strip poker. Vista e iDie sentaram-se juntos, um gesto raro, e conversaram sobre bebidas refinadas até um discordar do outro ao afirmar que Royal Salute da safra de 21 anos era melhor do que uma Platinum Label da Johnnie Walker, e logo começaram a se destruir onde o derrotado seria obrigado a tomar a garrafa inteira do outro (que por sinal nem eram deles).
Yoshiki e Jade estavam com Tashiki na sala de massagem, onde puderam sentar e conversar sobre os tantos rumos que tomaram, e a Arbok se enchia de orgulho ao ver como eles haviam crescido. Yoshiki inventou de testar suas novas técnicas de acupuntura em Tashiki, e desesperou-se quando o braço esquerdo da mulher parou de funcionar, mas o problema logo foi resolvido.
Mikau e Milena aproveitavam a jacuzzi aquecida até Bonna Party e Davy Jones se juntarem a eles, e logos todos se sentiam estranhos com a presença de um Tentacruel na banheira, mas a conversa fluiu bem com assuntos sobre filhos e futuros projetos, enquanto os homens aguardavam a hora em que suas companheiras parassem de tagarelar.
General e Glaciallis fizeram uma caminhada pelo luar e foram surpreendidos quando Presidente pediu encarecidamente por uma única dança com a mulher de sua vida. Ao som da bossa nova que saía de todas as caixas de som espalhadas pelo ambiente, os dois reviveram um momento único em suas vidas pós-morte, e perceberam que só precisavam ter paciência. Quando a música acabou, Presidente retomou sua caminhada solitária e desapareceu a noite toda. Talvez estivesse chorando, seja de alegria ou de tristeza.
Sonnen se divertia muito com Karl e Lyndis. Todos pareciam ter a mesma idade. Al Capone e Sophie brindavam uma taça de vinho, mas mantinham um olho nas “crianças” que logo aprontariam algo contra eles, era só questão de tempo.
Eva, Chaud e Tom Sawyer se maravilhavam com a biblioteca particular de Renée Whitecloud. Milady e Isaac tiraram um tempo para conversar com a formosa Altaria, esposa de Ereon, que mesmo nunca tendo um filho sonhava com o dia em que teria uma criança e poderia finalmente ser chamada de “mãe”. O senhor Atros, Malbora e Magnum foram dispensados do trabalho e tiraram a noite para beberem com os outros e comemorarem. Tiveram a ideia de cantar karaokê, o que foi uma tremenda maldade para cima de Malbora que não podia cantar por motivos óbvios. Coffey ficava andando tranquilo no gramado enquanto observava as estrelas, com seus próprios mistérios e rumos quando aquela jornada terminasse.
Akebia e Panetto faziam social com outros amigos de Ereon que estavam muito interessados em ouvir histórias antigas sobre a Fire Tales; Sly dançava loucamente sem ninguém para acompanha-lo; Seth caminhava de grupo em grupo, tomando conta de todos como se fosse o responsável da família. Era acompanhado de perto por Beliel que se sentia em paz pelo simples fato de estar em um lugar tão tranquilo onde poderia esquecer todos os seus problemas e, de fato, descansar sua mente.
Aerus continuava com os olhos atentos em tudo... Estava à procura de uma única pessoa especial.
— Belíssima noite, não? — ele ouviu uma voz ao seu lado, e virou-se ao ver um sujeito esquisito com olheiras profundas e cartola.
— Eita. E quem é tu?
— Ora essa, que ultraje! Fui um membro da Fire Tales por um tempo, porém, não efetivo, e imaginei que fosse lembrar-se de uma figura tão marcante como eu... Eu sou Alexay, o Faísca Negra!
— Malz. Ainda não sei quem você é e nem o que está fazendo aqui... — Aerus teve de ser bem sincero. — Mas você não é o cara que morreu no FT 35 e ninguém nem lembra?
— Não entraremos em detalhes aqui, meu nobilíssimo amigo... — Alexay segurou em um dos braços de Aerus enquanto os dois faziam uma rápida caminhada sob o céu noturno. — Vamos ao que interessa. Está à procura da mulher dos olhos de cigana oblíquos e dissimulados, não? Oh, os adoráveis olhos de ressaca, como diria nossa clássica obra literária! Impossível não cair por seus encantos.
— Tá falando da Tih...? — ele perguntou, meio discreto, e Alexay balançou a cabeça com compreensão.
— Sim, sim! E agora vá, meu bom companheiro, pois a mulher de sua vida o aguarda no final da torre, quando todos os desafios forem superados e nada mais o impessa de tê-la somente para si!
— Onde ela está?!
— Basta subir as escadas, mas peço que seja discreto para não assustar a sua princesa... Ela já esperou tempo demais para esse encontro, não acha? Tenha um encontro não apenas maravilhoso, mas que ultrapasse todos os superlativos absolutos de nossa boa gramática. Que esta seja a sua noite perfeita!
Alexay girou sua cartola e empurrou Aerus para as escadarias que levavam ao terraço. Ele podia sentir o coração batendo muito mais freneticamente em seu peito. O vento começara a soprar delicadamente, como se até mesmo desejasse dar uma trégua. Olhou para frente, e mesmo com pouca luz pôde enxergá-la, uma estrela brilhante que agora estava ao seu alcance. Um sorriso brotou em seu rosto.
Titânia estava sentada sozinha. Obviamente aproveitava a festa, mas por algum motivo decidira afastar-se em sua individualidade óbvia para quem quisesse ver. Ela também o esperava.
— E ae, Tih — Aerus fez o primeiro cumprimento, aproximando-se dela e pedindo um pequeno espaço onde pudessem ficar sentados perto um do outro.
Titânia sorriu, mas desviou o rosto sem dizer nada.
Não sentia vergonha ou qualquer emoção semelhante, apenas estava contente em poder ficar ali com ele, no silêncio profundo de suas respirações, onde por um instante eles pareciam ser os únicos no mundo, longe de todo o barulho e agitação que a vida lhes trouxera.
Aerus balançava as pernas de um lado para o outro e sentia suas mãos suarem. Olhou para o pulso e lembrou-se que não tinha relógio (mesmo já sabendo que não tinha relógio, pois só queria ter um assunto para começar a falar).
— Tem horas?
— Deve passar das três da manhã. Estou ansiosa para ver o sol nascer daqui — continuou Titânia.
— Acho que ainda está meio longe... — o dragão comentou.
— Pois é. Terei de esperar — ela assentiu, mas não como se aquilo fosse um problema.
— Posso acompanhar você, então?
— Se você não estivesse aqui, provavelmente eu teria ido chama-lo.
Mais uma vez eles mergulharam no silêncio. Assim que Aerus virou-se para a mulher, foi surpreendido por um gesto de carinho e afeto inesperado de sua parte.
— Titânia, eu queria dizer que... — e ela o abraçou com os dois braços fortes envolvidos, o rosto afogando-se em seu peito definido, os olhos fechados e as maçãs do rosto avermelhadas de paixão.
— Eu sinto sua falta todos os dias. E nunca deixarei de sentir.
Aerus agora retribuiu o gesto e a abraçou, ainda meio sem jeito, mas tentando dar-lhe o mínimo de conforto. Ficou pensando um tempão em quais palavras poderia escolher, e depois de sua experiência terrível com a narrativa do Dragão Guerreiro percebeu que era melhor só ficar quieto. Tentava imaginar o que passava pela mente da companheira.
— Eu queria que nossas horas juntos parassem de passar. Que ficássemos presos no tempo — disse Aerus. — E pensar que se eu fechar os olhos, pode ser que você não esteja mais ao meu lado, como fez das últimas vezes...
— Mas não hoje, meu adorado Dragão Guerreiro que veio me resgatar das prisões profundas de castelo frio e cinzento! Vocês pintaram a minha vida, todos os membros da Fire Tales, mas você foi o meu artista preferido.
— Não era um castelo, era uma torre — ele a corrigiu e deu a risada desinibida que Titânia tanto adorava.
— E mesmo assim, não é como se eu estivesse precisando de ajuda, heh.
— Fazer o quê, não gosto de salvar donzelas em perigo. Prefiro mais é entrar na pancadaria com as guerreiras de armadura pesada.
— Mas não estou vestindo armadura hoje... — respondeu Titânia, revirando os olhos e levado suas mãos até seu corpo. Ela vestia apenas um vestido simples cinza, mas era acompanhada de belos sapatos e acessórios incomparáveis. Era incrível como por alguns momentos ela parecia forte e robusta como as guerreiras de outrora, e em outras escondesse a mulher mais meiga e delicada do mundo.
— Acho que eu preferia que você não estivesse usando nada.
As bochechas dela ficaram ruborizadas de vergonha. Aerus tirou os óculos escuros e revelou as estrelas douradas que escondia. Titânia segurou em seu rosto porque adorava vê-lo sem eles.
— Fica para uma próxima. Ainda sou difícil — a serpente deu uma risadinha.
— Vou esperar até o nosso banho, quem sabe — o dragão riu, bastante paciente.
— Preciso te contar uma coisa importante antes.
— Diga.
— Você é horrível com histórias.
E os dois riram. Quando estavam prestes a dar continuidade para um possível beijo discreto, Watt subiu no telhado e levou um enorme susto com a cena que viu, quase caindo para trás na escada.
— WAAAAAAH! Qual é, pessoal! Vão procurar outro lugar pra fazer isso!
— Sai daqui, bola de pelos! Você ainda é criança.
— Eu já tenho 17 anos, irmão.
— 17 ANOS?! — Aerus afastou-se de Titânia e caiu no chão com tudo, o que a fez rir de maneira doce. — Minha boa Cresselia, como eu estou ficando velho... E se eu estou ficando velho, a Tih deve estar ficando ancestral!
— Não me venha com essa história de velha, ainda mais agora que realmente sinto que estou ficando para titia — Titânia retrucou.
— Mas é uma titia que eu pegava fáciiiiiiiiil...
A mulher tentou chutá-lo, mas Aerus a segurou e puxou-a de modo que ela caísse em cima dele e quase o esmagasse com seu peso. Watt correu para socorrê-lo, mas acabou escorregando sem motivos e os três terminaram no chão um em cima do outro, rindo sem parar.
— Nossa, quando foi a última vez que o trio diamante tinha se juntado dessa maneira? — perguntou Aerus.
— Tirando os momentos tensos da Liga onde um estava disposto a matar o outro, reuniões estratégicas ou visando assuntos de guildas, longe de todo o resto da equipe que está sempre por perto para fazer algum comentário fora de hora... Uau, não consigo nem lembrar da última vez! — continuou Watt.
— O importante é que aqui estamos nós — foi a vez da mulher falar com um longo suspiro de satisfação.
Aerus respirou fundo.
— Espero que não seja a última.
— Claro que não, meu querido — Titânia puxou-o para perto de si, dando um beijo em sua testa. — Ficaram sabendo que hoje é um dia previsto para ter chuvas de meteoros?
— Não costumo acreditar nessas coisas que não vejo — e quando Aerus terminou de falar, viu uma estrela cadente passar no céu. — CACETADA! É a primeira vez que vejo uma estrela cadente, meu Arceus do Céu, pra mim isso nem existia!
— Que droga, eu queria ter visto... — Watt decepcionou-se, mas logo apareceu outro risco brilhante cortando o horizonte, e dessa vez ele estava olhando exatamente para o lugar certo. — Eu vi! Eu vi!
— Tá chovendo Jirachiii, caraleooo!! — Aerus gritou.
— Fizeram um desejo? — perguntou Titânia, apressada.
— Agora que a gente já ganhou da Liga nem sei mais o que pedir...
— Uma montanha de doces! — gritou Watt.
— Peitos maiores na Tih!! — Aerus aproveitou-se da situação.
— Que continuemos juntos para sempre — a mulher encerrou.
Mais uma estrela atravessou o céu. E outra, e mais uma. Era uma verdadeira “chuva de meteoros”. Nenhum deles nunca tinha presenciado algo como aquele evento, e certamente nunca mais voltariam a vê-lo.
— Minha nossa senhora, já vi tanta estrela cadente que vou começar a pedir chiclete pra elas — Aerus riu.
Titânia foi até a beirada do terraço e gritou para que seus amigos ouvissem as notícias sobre a chuva de estrelas cadentes que ocorria. Um a um eles foram saindo e se surpreenderam com o evento surreal. Nem mesmo Chaud que vivera milênios ou General em suas incontáveis eras vividas vira algo parecido. E mais o importante é que estavam todos juntos e reunidos. Muitos pedidos foram feitos naquela noite, os Jirachis teriam trabalho de sobra para os próximos anos. Provavelmente o único que não vira absolutamente nada fora Duke que caíra no sono antes do evento começar, mas Beliel compartilhava dessa tristeza, e resumia sua felicidade em ver seus amigos felizes (dizem que mais tarde Seth fora buscar uma estrela para ele).
Nenhum deles jamais esqueceria aquele dia. Se contassem para qualquer outra pessoa, parecia impossível de se acreditar. Fora tão incrível e perfeito que nem palavras poderiam descrever, e somente os olhos que ali estavam presentes puderam apreciar o que viram naquele exato instante, para sempre gravado em suas memórias.

• • •

Estava amanhecendo. Aerus limpava as cinzas da fogueira da guilda sozinho, apoiado em seus joelhos enquanto balançava a cabeça com pensamentos muito, muito distantes.
— E assim, terminou a última aventura do Dragão Guerreiro... — o dragão sussurrou para si próprio. — Não se sabe se ele realmente ficou até o fim de sua vida junto da serpente, mas é certo que eles se amaram até milhares de novas regiões serem descobertas, até seus nomes caírem no esquecimento, até o mundo se transformar e perder sua forma original. É. Então acho que foi tipo um “para sempre”.
Continuou remexendo alguns gravetos que ainda queimavam.
— Seus amigos viveram ao seu lado e nem mesmo o infinito ciclo das estações puderam separá-los. Alguns disseram que um a um eles foram abandonando este mundo, mas cada um deles fora eternamente ligado pela amizade e pelo amor à guilda mais famosa da região que jamais deixou de existir, seja nas histórias, em lembranças, ou em meras palavras compartilhadas com as futuras gerações. Alguns poucos ouvintes, e embora poucos, que de fato souberam apreciar.
Uma última fagulha se apagou, e a fumaça branca começou a subir.
— Se me perguntarem se um dia as aventuras terminaram, então direi que é mentira. Porque cada dia foi seguido de uma nova, sempre em busca de estrelas. Certa vez em uma noite estrelada percebi que as estrelas cadentes eram como sonhos. Longes e distantes, mas que se muito batalhar por eles podem de fato ser alcançados. E depois de realizados, o que vem a seguir? O que fazer depois de ver uma estrela cadente? Percebi que o jeito é continuar esperando por uma próxima.
Aerus foi surpreendido quando Watt chegara ao pátio da Fire Tales e se deparara com o líder da guilda mais famosa da região fazendo a limpeza do local.
— Nossa. Acordado a esse horário? — Watt sorriu.
— Só pensando em algumas histórias.
— E falando sozinho?
— Pois é, limpando as sujeiras do fim de semana... De vez em quando é bom renovar as energias para então começarmos tudo de novo.
Watt sentou-se ao lado dele.
— E o que vamos fazer agora?
Aerus olhou para a fogueira apagada e sorriu.
— Acender de novo.

- Copyright © 2011-2023 Aventuras em Sinnoh - Escrito por Canas Ominous (Nícolas) - Powered by Blogger - Designed by CanasOminous -