Capítulo 98 (Parte 2)

Ilustrações do Mangá feitas por Nyx.

A gente nunca esquece um lugar que um dia frequentou. Pode ser que sejamos muito novos quando o vimos pela primeira vez, mas ele continua em algum lugar remoto de nossas lembranças.
— A última vez que estive na guilda Mithril, minha primeira casa, ela... parecia completamente diferente. O mesmo lugar, só que diferente. No fundo, acho que ainda está a mesma coisa. Talvez seja eu quem tenha mudado.
Titânia observava com atenção os pilares que carregavam toda a estrutura de uma das maiores fortalezas que a região de Sinnoh jamais vira. Mithril, a guilda onde os maiores Pokémons Metálicos do mundo um dia já passaram, erguia-se com toda sua glória e no auge de sua potência. Tendo suas origens em Hoenn com o campeão desta, expandiu-se para outros continentes levando suas palavras de sabedoria, força e honra. Nada se comparava com outras guildas menores. Desde sua estrutura até os exércitos que noite e dia treinavam com o único objetivo de alcançar a supremacia. Cada elemento natural tem seu foco, seja ele a inteligência ou o poder, e os guerreiros Steel-type treinavam para ir além.
Visionários, criadores.. Há muito tempo Titânia se esquecera de como era frequentar uma guilda como aquela, mas suas memórias iam aos poucos retornando. E quanto mais se lembrava, mais percebia que não sentira muita falta daquilo.
Estava nas finais do campeonato que decidia o próximo “braço direito” do império. Mal retornara para sua casa, e já fora recebida com espadas, lanças e machados.
— E com vocês, retornando das cinzas de uma fogueira apagada, eis que aqui está Titânia, a Steelix! — narrou um dos comentaristas, enquanto outros soldados assistiam a batalha e batiam palmas civilizadamente. Por todos os lados haviam olhares invejosos que certamente passaram a temer o poder de influência que o nome “Titânia” trouxera nos últimos meses.
E ela odiara a comparação “das cinzas de uma fogueira apagada”.
Titânia estava trajada em sua armadura completa. Recebera alguns reparos, estava mais resistente e muito mais leve, sua velocidade aumentara de maneira impressionante. Alguns a consideravam até mesmo uma fada das profundezas, sua cota de malha frontal tinha adornos nas costas que formavam asas de ferro de uma graciosidade mais magnifica do que diamantes recém lapidados.
Ela se mantinha forte e ereta. Batalhara muito para chegar ali. Não por vontade própria, mas era bom que começasse a se adaptar à sua “nova vida”. Velhos tempos que não voltariam mais, é que pensava.
A mulher fez um cumprimento e entrou na arena. Do outro lado estava  Adamantium, o Skarmory, e ele seria seu adversário final, disputando pela vaga de novo sub-administrador da guilda. O silêncio se fez quando os dois se encararam num gesto generoso e de respeito. Se tinham inveja um do outro, então ninguém se manifestou. Guerreiros metálicos nunca desrespeitavam seu inimigo. Era contra seu código e ética moral. Era isso que aprenderam com o líder absoluto da Mithril durante tantos anos.
Foi a vez de iDie erguer-se de seus aposentos.
Eram feitos discursos longos e cansativos quando dois cavaleiros da alta corte de enfrentavam. O ciborgue erguia seu punho e indicava o início da batalha. Como os antigos imperadores, ele definia o vencedor e o perdedor com um polegar positivo ou negativo. E ver aquele dedão abaixar era uma das maiores derrotas que alguém daquela guilda poderia receber.
— É dado o início da batalha! — repetiu o comentarista com enorme furor.
Titânia avançou depressa, brandindo sua espada e visando os pontos fracos do inimigo. Adamantium tinha uma defesa invejável, armadura completa, planos e estratégias que aprendera durante o tempo justamente para derrubar adversários que focavam no ataque físico e na defesa impenetrável. Meras lâminas, machados ou lanças não podiam feri-lo. O Skarmory devolveu a investida arremessando três facas que fincaram no peitoral da serpente. Titânia imaginou como teria sido a cena se ela não trajasse armadura. Um corpo estendido no chão. Arrancou-as com força e retomou a ofensiva.
Durante a batalha, a mulher se lembrava do último torneio que fizera com seus amigos da Fire Tales, onde a questão de vida ou morte prevalecia, o mais forte predominava. Espere. Afinal de contas, nunca existira nenhum torneio do tipo na Fire Tales. Exceto pelas competições de braço de ferro, onde Tih acabou por perder logo no primeiro turno para o grande Atros Atroce, e lembrava-se disso com um sorriso no rosto.
O sorriso desapareceu quando uma lâmina arremessada quase lhe trouxera uma cicatriz nova.
O próximo ataque foi facilmente rebatido, pois Adamantium podia ter uma resistência formidável, mas era lento em tomar novas iniciativas que fossem fora de seus planos e estratégias estipuladas. Nos últimos meses na guilda Titânia percebera isso, ele era como um assistente robótico, com todas as suas atitudes programadas e códigos feitos por um motivo. A mulher havia se deparado com muita gente desse estilo, criaturas cibernéticas, robôs, assistentes mecânicos. Talvez esse fosse um dos motivos pelos quais estranhara a Mithril da Nova Era. Ela já não era mais como no passado. Espadas foram substituídas por armas e metralhadoras que tinham um alcance muito maior, mas era interessante notar que o povo ainda vibrava ao ver um guerreiro no melhor estilo dos tempos passados. Espadas ainda traziam muita honra e estima para aqueles que as embainhavam. Nunca saíam de moda.
Sem dizer muitas palavras, Titânia foi capaz de derrubar Adamantium da arena. Aquele que fosse colocado para fora perdia, como nas regras do Torneio de Guilda. Porém, ele estendeu os braços e suas vestes pareceram se transformar em duas enormes asas de metal, retornando para dentro do campo. Ela estava em desvantagem uma vez que seu adversário era detentor do Flying-type. Golpes terrestres como seu temido terremoto não surtiriam efeito. Precisava de outra estratégia.
Com seu inimigo nos ares, Titânia cravou sua espada no chão, de onde uma enorme torre de pedras surgiu e atingiu Adam em cheio. Stone Edge! O Skarmory caiu no chão com terríveis ferimentos, e quando Titânia preparava-se para dar o golpe final, iDie levantou-se.
That’s enough — disse o Imperador Metálico.
Titânia imediatamente cessou seu ataque e cravou a espada no chão, ajoelhando-se num sinal de reverência e obediência. Manteve o olhar baixo. iDie ainda era o seu chefe. Enquanto o Metagross falava, a mulher pegou-se pensando nas vezes que batera em Aerus, mesmo ele também sendo seu chefe. Talvez a Fire Tales fosse a única guilda do mundo onde nenhuma regra valia. Ah, e como sentia saudades daquilo!
— T-Titânia... — ela ouviu uma voz ao seu lado chamar.
Despertada de seus pensamentos, ela virou-se em direção de Adamantium.
— O sinal... — O Skarmory repetiu. — O chefe deu o sinal negativo. Não o faça esperar.
Com os olhos arregalados, a mulher virou-se para iDie e viu que ele mantinha o dedão virado para baixo. O resultado fora dado. Titânia saíra vitoriosa.
— Termine logo — repetiu Adam com a voz cansada.
— O quê? Eu não poderia fazer isso — ela respondeu com a voz baixa.
Adamantium riu.
— Nós logo nos reencontraremos. Posso ser reconstruído. Sou uma máquina, mas ainda guardo alguns sentimentos de quando fui... vivo. De alma. Só lhe peço uma coisa — o homem estendeu a mão e colocou-a no braço da mulher. — Nunca permita que sua alma seja levada embora.
Com um forte empurrão, Adamantium forçou a espada de Titânia contra seu próprio peito, finalizando o que ela evitara. Alguns membros na plateia bateram palmas, mas foi uma estranha comemoração que logo terminou. Um a um os soldados que assistiam foram se levantando e indo embora, retomando seus treinamentos cotidianos. A diversão acabava. E assim, o torneio se concluía.
Titânia aproximou-se do corpo esticado de Adamantium e beijou-o na testa num sinal de respeito.
— Ele vai se recuperar — disse iDie que logo estava ao seu lado. — Afinal, estamos falando de máquinas. Enquanto houver alguém para usá-las, sempre serão reconstruídas.
Titânia respirou fundo. Odiava certas regras e condutas de seu “novo lar”.
Come on — iDie a chamou. — Convido a minha nova campeã a iniciar o treinamento para assumir o posto de sub-administradora. Vou leva-la para conhecer seus aposentos, e em breve terá seus criados e seguidores que aprenderão seus princípios.
A serpente levantou-se e os dois seguiram em silêncio até que finalmente iDie parou e olhou para trás.
— E a propósito. Congratulations for your victory.
Não achava justo que alguém merecesse parabenizações por finalizar com um amigo.
A mulher nem reparou o quanto parecia perdida e desamparada. Watt costumava dizer que ela era completamente transparente, por vezes resistente como a rocha, e em outras frágil como um vidro. Se estava feliz, todos conseguiam facilmente notar. Se estava irritada, ninguém ousava ficar por perto. Enquanto faziam seu caminho pelos corredores suntuosos da fortaleza de ferro, iDie ergueu sua voz novamente, mas dessa vez sem seu tom costumeiro, e não uma voz automática de ordem autoritária. Era uma das poucas vezes que o ouvia falar... como se fosse vivo.
— Você deve estar odiando tudo isso, não?
— Sim — Titânia respondeu com a maior sinceridade que pôde, mas logo se recompôs. — Q-Quero dizer, não, senhor. São muitas informações que tenho de absorver de uma só vez, então, ainda estou tentando me acostumar.
Don’t worry. Um dia você aprenderá, e logo, tudo isso será parte de você.
Os dois chegaram até o Salão Central, onde erguia-se o trono principal, revestido de prata, platina e ouro do mais puro. Pedras preciosas adornavam seus detalhes, diamante e pérolas, rubis e safiras. O trono estava imóvel e empoeirado.
— Não costumo me sentar ali — disse iDie, convidando Titânia a sentar-se junto dele em uma mesa de pedra logo ao lado onde iDie costumava jantar.
O Metagross encarou o trono por longos minutos.
— Não me acho digno de sentar ali.
— Por que, meu senhor?
— Depois de meu mestre, nosso mestre, passar o poder para mim, jamais senti que eu seria um líder tão bom quanto ele foi.
— Mas o senhor é admirável — respondeu Titânia, como se aquela bajulação já tivesse sido programa, e iDie claramente percebeu aquilo.
— Está se tornando um robô também? — ele falou num tom de brincadeira, e logo continuou.
— De maneira alguma, senhor. Você é honrado e justo, merece mais do que ninguém o título de mestre em nossa guilda.
My dear Titânia... Você conheceu essa guilda em seu auge, nos tempos em que Selena Smithsonian era nossa treinadora. Algum dia você poderia dizer que aprenderia a amar outro treinador que não fosse o seu primeiro?
A serpente ficou claramente pensativa. Ao mesmo tempo que amava Selena como sua primeira treinadora, lembrou-se de quando Luke a capturou. Um garotinho bobo com sonhos ridículos. Não era digno de seu respeito, no começo. Porém, conforme os anos se passaram, ela passou a respeitá-lo mais do que qualquer outro. Ele se tornara seu novo rei.
— As lembranças que tenho da Mithril quando entrei aqui são maravilhosas — contou Titânia. — Mas eu era muito pequena... Não vejo o mundo como o vejo hoje. O senhor ainda... tinha um corpo, não é?
iDie riu, cruzando os braços e apoiando as costas na cadeira.
Oh, yes, yes... Cada vez em que sou derrotado, sinto que morro um pouco mais por dentro. Então você se lembra de como era minha aparência natural?
— Um pouco — ela confirmou.
— Nunca fui dos mais atraentes, não?
— Tinha seus charmes — Titânia riu de maneira graciosa.
iDie trouxe-lhe então duas taças, e serviu vinho para sua nova companheira de liderança. Os dois estavam sozinhos no salão, e não havia um ouvido sequer para espiar o que faziam.
— Sabe, chefe, algumas vezes me pergunto como é ser imortal — falou Titânia ao encarar o líquido púrpuro em sua taça.
— Mesmo que eu ainda tivesse a fórmula, que por sinal, fiz questão de destruir; eu não a daria para você. Eu jamais desejaria que você também fosse amaldiçoada por ela.
O Metagross respirou fundo e com pesar.
— Ver todos que você amava partirem, seu corpo ser destruído pelo Senhor do Tempo, o mundo mudar, e você continuar o mesmo — ele tomou uma golada de seu vinho que escorreu por entre seus circuitos até cair em um filtro dentro de seu estômago artificial. Titânia imaginou se ele sentia o gosto ou simplesmente tomava o vinho para fazer social. — A verdade é que a imortalidade é uma maldição.
— Clichê — a mulher disse aquela palavra de maneira tão adorável que poucas conseguiriam. — Todos nós já sabemos disso.
— Perdi meu mestre, meu melhor amigo, e todos à minha volta... Encontrar você foi como rever uma filha antiga que estava perdida — admitiu o velho iDie. — E eu entendo melhor do que ninguém como é ser tirado da guilda que era o seu lar, e por isso, peço minhas sinceras desculpas.
— Senhor, eu não...
— E ao mesmo tempo também sinto que não devo lhe pedir desculpas — continuou iDie numa súbita mudança de personalidade. — Eu sou imortal, mas meu tempo nesse mundo está chegando ao fim, por mais paradoxo que isso pareça. E você é muito mais do que minha sub-administradora. Você é a futura líder desta guilda, a Imperadora Metálica dessa geração.
Titânia piscou várias vezes. Eram muitas informações para tão pouco tempo.
— Eu não entendo, senhor.
— Eu lhe disse que as máquinas existem enquanto elas tiverem um motivo para serem construídas. Tudo que tenho a passar para as demais gerações já está foi feito. Procuro uma substituta.
— Eu não poderia...
iDie segurou-a nos ombros com tremenda força.
— Você deve parar de pensar sempre no seu “eu”, e começar a pensar nos outros que dependem de você. Esta é uma das maiores guildas do Mundo Pokémon, um centro de treinamento que serve como referência para todas as regiões. Take the burden that has been imposed on you since you were a little girl!
Titânia levantou-se assustada. Não compreendia como alguém que chegara há tão pouco tempo poderia liderar uma guilda de tamanho porte como a Mithril. iDie também levantou-se, e dessa vez mais imponente do que nunca. Virou-se e foi em direção do trono onde uma estátua de mármore carregava um pano branco de cabo longo. Ele entregou-o então nas mãos da serpente, de modo que ela aceitasse aquele presente.
Anima Argentum. A Alma de Prata — explicou iDie. — Esta é a espada que foi embainhada por nosso mestre e senhor no passado. Forjada pelos melhores ferreiros da região, ela é capaz de partir armaduras e fender o solo como se você fosse a própria criadora desse mundo. Vai aceita-la, ou dizer que não se julga “digna o suficiente de carregar tamanho fardo”?
Titânia franziu o cenho. Escondeu todo o medo e dúvida em seu coração e acenou com a cabeça. Abriu o pano e encontrou a espada ali, brilhando como se tivesse acabado de ser forjada. Ela a retirou da bainha e observou atentamente a lâmina que brilhava da mais pura prata que já vira. O nome da espada estava encrustado no antigo alfabeto Unown, o que era uma raridade, uma vez que os sábios anciões da tribo dos Unown nunca mais se prontificaram a usar de suas habilidades e perícias para criar qualquer arma neste mundo.
— Que um dia sejas mais digna do que eu de sentar-se naquele trono — disse-lhe iDie. — Mas não pense que essa mudança será feita do dia para a noite. Come on, my dear sweet child. Aprenderás as nossas regras e normas, códigos e condutas; você irá sentar-se ao meu lado direito e aprenderá a agir como a futura imperadora que um dia será!

• • •

Agora entendiam porque o chamavam de Andarilho Fantasma.
Quando o ciborgue fez sua entrada triunfal na arena, o ambiente tornou-se escuro e o ar ficou mais pesado. iDie era o líder absoluto da Mithril, e todos os líderes pareciam seguir a estratégia de sempre deixarem para o final suas peças mais importantes. Todavia, quando não sobrava mais nenhuma peça no tabuleiro, como pôr em risco a mais importante? Aerus já se preparava para encarar Titânia no turno seguinte, mas quando viu que iDie colocou-se em sua frente, ele soube que algo maior e mais aterrorizante estava reservado para o final.
Vista liberava fumaça de seus circuitos. Ele viu iDie caminhar em sua direção e parar exatamente onde estavam caídos os corpos de Wiki e Mozilla, com uma metade para cada lado. Ele agachou e segurou na cabeça de Wiki que soltou murmúrios de dor. Mozilla não teve nem forças para contê-lo. Encarando profundamente os olhos de vidro da mulher, iDie falou:
— Tão bela, e ao mesmo tempo tão frágil — os olhos de iDie foram dos da mulher para o seu rival do outro lado. — O quão surpreendente é a vida de vocês!
— Solte-a — a voz de Vista soou seca.
— Vocês deveriam apresentar-me uma invenção de verdade ao invés desses brinquedinhos de criança — retrucou iDie. — Quando eu começar a lutar para valer, então vocês poderão ver uma obra verdadeiramente sublime!
Vista começou a caminhar na direção de seu adversário, movendo-se com passos pesados.
— Solte-a.
— A mulher? — iDie segurou no cabelo de Wiki com mais força, fazendo-a gritar. — E o que fará se eu não soltar? Pretendo estourar a cabeça dela na sua frente para que deixem de agir como criancinhas que chegaram nas finais por mera sorte. Exijo que comecem a lutar como soldados! Soldados de verdade que me fariam sentir-se honrado pela derrota!
— Solte-a.
— E se eu não quiser? — iDie o desafiou com a voz sombria. Vista estacva cada vez mais perto. — Sinto pena de vocês. Todos ligados por laços de amizade e carinho, guiados pelo amor, pelos amigos... Weaknesses. Fraquezas. Ligações de medo por perdê-los. Eu não posso ser vencido simplesmente porque não as possuo, não há nada que me guie, além do que eu mesmo construí para mim.
— EU. MANDEI. SOLTAR.
Com os dentes trincados, Vista acertou um soco tão forte no rosto de iDie que o robô foi parar do outro lado do salão, largando Wiki e destruindo pilares no caminho. Vista segurou a mulher no colo, examinando bem seus donos e vendo que mesmo sem um pedaço do corpo ela ao menos ainda funcionava. Ele a carregou e deixou-a junto de Mozilla, afastando-os da arena de luta para que mais nada lhes acontecesse.
Com a fronte baixa e a voz entristecida, Vista admitiu:
Era a minha função tomar conta de vocês.
E a resposta veio de Wiki, mesmo que lenta e demorada.
Era a nossa função tomar conta um do outro.
Ele olhou para trás e assentiu.
— Tome conta do nosso garoto.
— Ele já é um homenzinho... Aprendeu com você.
Com os circuitos preparados, Vista estalou os dedos e afiou as suas guerras.
— Está na hora de estourar alguns motores.
iDie levantou-se atordoado e ajeitou sua coroa quebrada. Aquele golpe o acertara em cheio, mas não passara de um aviso. Vista aproximou-se dele com os punhos fechados e acertou um soco tão forte em seu queixo que o fez rachar. Cada golpe vinha repleto de raiva e fúria, uma ira incomensurável. Ele acertava tantas sequências que iDie mal teve tempo de revidar. Dois tiros de canhões estouraram seus circuitos internos, seu braço foi arrancado fora e as pernas aleijadas. O soco em sua face quebrou sua coroa, e Vista só parou quando um corpo destruído estava no chão.
As peças levitaram no ar, reunindo-se separadas onde pudera, alcançar o corpo de iDie que reuniu-se e assumiu sua forma original, ainda que atordoado pela sequência agressiva que o atingira.
— Você pode ser imortal, mas eu sei que sente dor — disse Vista. — And I’m gonna make you suffer.
— Não se arrepende do monstro que se tornou, Vista?
— Foi você mesmo quem me criou.
Vista preparava-se para acertar outro soco direto em seu adversário, mas iDie  ativou suas quatro armas sagradas que tomavam posição em seu corpo. Diziam que cada uma delas tinham um cérebro separado e pensavam por si próprias. Além de enfrentar o corpo principal, Vista deveria destruir uma por uma.
Operação Extermínio iniciada — uma voz mecânica foi ouvida da bazuca de iDie.
Alvo localizado — continuou a metralhadora.
Altos níveis de ódio, rancor, raiva e adrenalina detectados em nosso inimigo — respondeu a terceira arma.
Tenho ssssua permissssão para exterminar nossa presa? — continuou um dos braços mecânicos composto por garras e laminadas afiadas.
— Ataquem-no. Ataquem-no e destruam-no — ordenou iDie de maneira sombria.




Com a explosão que se seguiu, ambos os ciborgues foram lançados para longe. O corpo de iDie continuou de pé, peças e estilhaços flutuavam como se cada uma delas fossem dotados de um cérebro diferente. Quando elas chegavam perto o bastante de se recompor, Vista as estourava em um milhão de pedacinhos menores.
Meteor Mash!
A cabeça de iDie virou do lado avesso com o impacto do golpe, mas lentamente ela retomou seu lugar e sua voz fria era ouvida ao afirmar.
I cannot die.
But I will make you suffer — e Vista voltava a golpeá-lo com todas as forças que lhe restavam.
Os dois lutaram e se enfrentaram minuto após minuto. iDie era destroçado, mas cada vez que levantava-se disposto a continuar combatendo a mente de Vista matutava uma alternativa de como vencê-lo. Suas baterias se esgotavam. Seus ataques não durariam para sempre. A eterna frase de seu inimigo mortal se repetia, ecoando em seus ouvidos:
I cannot die.
E do outro lado, ele lembrava-se da voz de Wiki.
Tenho medo de morrer... E perder vocês.
E aquilo era motivo o suficiente para lhe dar forças para continuar




• • •

O salão central estava vazio e silencioso como sempre estivera, mas naquela manhã uma nuvem muito mais solitária pairava sobre ele. Um clima pesado se formara por conta da Liga Pokémon que muito em breve aconteceria. Sentado em uma cadeira de madeira estava iDie, logo em frente ao trono de ferro, velho e empoeirado, como se conversasse com alguma entidade invisível em sua frente.
O som dos passos de Titânia eram ouvidos de longe. O cavaleiro solitário esperou que ela estivesse próxima o bastante do trono para que juntos eles contemplassem aquele trono possivelmente pela última vez.
— Torço para que algum dia este trono receba o dono que de fato merecê-lo — contou-lhe iDie. — O que me diz, senhorita Titânia? Seus antigos amigos seriam merecedores de tamanha glória?
— Duvido muito que algum deles aceitasse — concluiu a mulher. — Com exceção de alguns que não batem muito bem da cabeça, mas logo todos entrariam em acordo e o trono ficaria vazio por mais algumas eras.
iDie achou graça na conversa, e logo retomou sua fala:
— Talvez seja o destino dele jamais ser usado. And I tell you! Este trono é amaldiçoado. Ele traz imensa loucura para quem quer que sente-se sobre ele. E amanhã, serei obrigado a sentar-me pelo que espero que seja a última vez. Esse trono traz poder incomensurável para aqueles que o tiverem, ele destrói almas e corrompe heróis.
— Eu sinceramente não acredito nisso, meu senhor. — Titânia respondeu. —Com todo respeito. Acho que o poder e a loucura está não em um objeto unanimado, mas no coração de cada um.
— Belas palavras, my dear sweet child. Gostaria então de sentar-se em meu lugar?
Por um instante, Titânia sentiu que as palavras lhe escaparam.
— Creio que seja melhor não, meu senhor.
— Mas não foi uma sugestão.
O silêncio pairou no salão antes de iDie dar continuidade.
— E esta é a última ordem que lhe dou, antes de passar o meu cargo adiante a você, que conheci como uma criança, e hoje reconheço como minha senhora. Ensinei-a a questionar quando necessário, mas a também agir não por si mesma, mas pelos outros. Peço que não questione as minhas ordens uma última vez, e contente-se em obedecê-las, se justas forem as causas.
iDie ergueu-se de sua cadeira e encarou o trono. Virou-se e por fim ali sentou, para seu desconforto. Um trono frio e solitário, onde supostamente teria visão de tudo que não existia. Titânia ficou esperando algum raio mágico cair em cima dele, mas nada aconteceu, pelo menos visualmente, para sua frustação.
— Aproxima-te, my dear sweet child. Eu gostaria que você desativasse alguns de meus circuitos selecionados antes da batalha que acontecerá.
— Desligar?
iDie acenou com a cabeça.
— Serei obrigado a tomar atitudes e agir de maneira que seria contra minha índole. Mas, no fim das contas, todos aqui somos soldados de uma causa maior. Compaixão, amor, carinho, respeito e honra de nada me valerão amanhã, pois serei obrigado a estraçalhar todos os sentimentos que muito prezo. Peço que desligue meus circuitos, pois não serei capaz de encarar meus oponentes com o peso que carrego em minha mente.
iDie abriu seu peito e encaixou ali fios e botões que eram ligados a uma máquina que repousava vigilante em dos cantos do salão.
— Acha que consegue? São tarefas bem simples.
— Chefe, eu sou horrível com essas coisas... E se eu apertar um botão errado?
I think I will explode. Then we will die.
— Não pode pedir para outra pessoa?
Nope. Confio essa tarefa somente à você. Vamos lá, são alavancas normais, cada qual com seu respectivo nome. Projetei para que elas só pudessem ser desativadas e ativadas pelas suas mãos.
Titânia caminhou até a máquina onde estavam ligados todos os circuitos que iDie indicara. Sua testa suava, era como um teste de algo que ela nunca tivera perícia alguma. Levou a mão até a primeira alavanca e trocou olhares com seu chefe.
— Pronto, meu senhor?
Yeah. I’m ready.
Titânia respirou fundo e mergulhou a alavanca para baixo.
— Amor — iDie falou, vendo o aparelho ser desligado e seu corpo continuar ereto, resistindo à cada mudança. Nenhuma diferença aparente era notada, mas um brilho desaparecia no seu olhar. Ele perdia um gesto que o tornava mais espontâneo do que artificial, mais carinhoso do que qualquer criança, mais atencioso do que o melhor dos professores, mais real do que mecânico.
Continue — repetiu iDie.
— Compaixão — e desativou a segunda alavanca.
Continue.
— Respeito — foi-se a terceira.
Continue.
A voz de iDie foi desaparecendo, até que Titânia encarou a última alavanca, sibilando a palbra em voz baixa.
— Honra.
Subitamente, iDie deu um forte tranco como se estivesse pronto para levantar-se dali e sair destruindo tudo ao seu redor. Titânia assustou-se, pensou que fosse um modo de defesa e que ela seria atacada, mas ouviu a voz de iDie uma última vez da maneira como a conhecia.
— Se por ventura eu colocar-me contra você e tudo nesse mundo, destrua-me. Não conte-me o que fiz ou farei, e nem guarde em suas lembranças minhas atitudes finais. Lembre-se apenas do que foi bom, e das belas lições que compartilhei com cada um de vocês. Adeus, minha doce criança! Ou eu deveria dizer até logo?
A alavanca final mergulhou para baixo, e por fim, a máquina foi desligada por completo. Um por um, iDie sentiu seus sentimentos irem embora. Agora, em sua frente, Titânia via apenas um corpo seu alma, uma máquina criada para matar e destruir, afinal, era com esse motivo que ele fora criado. Durante a vida toda a serpente apreciou sua força, no fundo as máquinas invejavam sua capacidade de tomar decisões e mesmo assim continuar errando.
Fumaça saía do corpo do Metagross. Ele permaneceu por alguns minutos desativado, sem energia alguma. Quando seus olhos voltaram a brilhar, ele levantou-se e permaneceu ereto, como uma estátua brilhante, um colosso construído com um único propósito.
A mulher fez um cumprimento e ajoelhou-se em sua frente. iDie tocou-lhe o queixo, e a fez levantar-se.
Você nunca mais se ajoelhará perante ninguém — disse a máquina. — Seja bem vinda, Titânia, senhora e mestre suprema da Mithril! Pelo bem da ordem e do equilíbrio eu irei servi-la, e exterminarei qualquer um que queira colocar-se em seu caminho, pelo bem de nossa guilda, nossa casa, nosso novo lar.
O mesmo lugar, só que diferente ao mesmo tempo. No fundo, tudo continuava a mesma coisa. Talvez fosse Titânia quem tivesse mudado.

• • •

iDie estava com os dois joelhos apoiados no chão, encarando seu próprio reflexo no chão de mármore. Uma gota negra escorreu de seu rosto, manchando a imagem que ali estava. Ao erguer o rosto, levou um chute tão forte que sua cabeça quase saiu do lugar, arremessando-o longe dali. Quando tentou levantar-se foi recebido por uma saraivada de tiros que atingiram seu corpo e perfuraram seus circuitos internos. Paralisado e imóvel, sua dor já não podia ser medida, e mesmo que não quisesse mais seguir em frente, sua luta jamais chegaria a um final.
Vista arfava de cansaço, mas tentava fazer com que isso fosse o menos visível possível.
H-He’s like iron... Nada o impede de continuar seguindo.
Seu corpo estava despedaçado, mas cada uma das peças de iDie retornavam para seu devido lugar, ainda que metade delas fossem desintegradas e a outra metade aos poucos já não tivessem a resistência do aço que antes possuíam. O Andarilho Fantasma podia estar de pé, mas cada uma de suas derrotas o retardavam um pouco mais.
Come on, Vista! — disse o líder da Mithril de maneira ameaçadora. —Ambos queimaremos como as máquinas fugazes de outrora, até que nossos motores estourem e que nossas tecnologias se tornem ultrapassadas.
Vista tomou distância e suas duas mãos mecânicas avançaram contra iDie. Num movimento ligeiro, o ciborgue agarrou os enormes braços contra ele, puxando-os com força. Vista tentou recuar, mas seu adversário arrancou-os com força e fúria, inutilizando uma das melhores armas de seu oponente.
— Suas energias parecem estar perto do fim — disse iDie. — Não importa quantas vezes você me derrote, um pedaço meu sempre voltará para assombrá-lo. E eu cheguei ao ponto de acreditar que a Fire Tales um dia seria capaz de vencer uma obra suprema da criação!
Shut up — respondeu Vista, já farto dos discursos planejados de seu velho amigo. — Nós somos soldados. Vivemos e lutamos pela causa de nossos treinadores. Não me foi dada a permissão de desistir.
Você fala como se máquinas e Pokémons fossem duas coisas completamente diferentes.
— E são. Os Pokémons não são máquinas.
iDie parou de atacar por um segundo, refletindo sobre aquela frase.
Meu mestre me falou sobre isso uma vez... Sobre eu ser uma máquina. Vocês são sempre tão fiéis aos seus treinadores, sendo comandados por pokébolas como marionetes em cordinhas.  Eu sou a obra suprema do criador, e o criador sou eu mesmo! É por isso que sou invencível. Não dependo de ninguém para me conduzir.
Já furioso e farto de toda a conversação, Vista partiu para cima de seu inimigo sem tomar as devidas precauções. A cada vez que retornava das cinzas, iDie parecia voltar com seu poder estabelecido. Nada se alterava. O Espectro Mecânico estava cansado e mentalmente abalado. Marco chorava ao longe, e seus dois melhores amigos haviam sido dizimados. Era exatamente o que iDie desejava. Leva-lo à loucura, ao desespero.
— Criadores sem paciência são guiados pelo fracasso — disse iDie.
Assim que Vista chegou perto o bastante, ele o agarrou pelo pescoço e ergueu-o alto, sufocando seu pescoço e destroçando a armadura em seu peitoral.



— Não verás muito mais deste século! Já vivi tempo demais para saber como nossa existência rudimentar seguirá. Essencialmente, a mesma peça será repetida; os mesmos atores, só que com roupas e objetos diferente para cada geração que engole a anterior, cada qual achando que será a que faz tudo melhor!
iDie estava incontrolável. Estava prestes a disparar tiros de canhão que desabariam toda a estrutura da Liga. O portão fora derrubado, paredes rupiram dando visão para os primeiros raios de sol que surgiam tímidos no horizonte. iDie atirou em Vista com balas que perfuraram sua armadura, cada uma delas atravessou até o lado oposto liberando fumaça e peças metálicas que cobriam o chão como poças de sangue.
Vista ergueu um de seus braços para impedi-lo.
— Nós destruímos o indestrutível... Vencemos o invencível... Está na hora de matar o imortal só para provar que essas suas palavras idiotas não passam de vozes de um ser um normal como qualquer outro!
O espectro arrancou um dos braços de iDie para libertar-se. Não demorou para que o membro logo voltasse ao seu dono, mas ele simplesmente balançava a cabeça num gesto negativo, como um velho cansado de dar as mesmas lições para crianças levadas.
— Quanto tempo vai levar para que você perceba que não pode me destruir?
Maybe I really can’t destroy you... — admitiu Vista. — Mas eu vou dar o meu melhor para dar um fim na sua existência, e você vai sofrer tantos danos que demorará uma geração inteira para conseguir se reconstruir novamente.
Ele respirou fundo antes de anunciar.
— Nem que para isso eu precise ir junto.



Quando Marco ouviu do próprio Vista que ele saberia a hora de abrir aquele envelope, não imaginou que fosse ser tão depressa. Levado pelo instinto e pela curiosidade, desejou que nunca tivesse o recebido.
No presente que recebera de seu tutor, Marco encontrou dicas e instruções de como reconstruir o corpo mecânico do próprio Vista, Wiki e Mozilla. Havia o passo a passo detalhado ali. Ele não era nenhum engenheiro mecânico, não entendia o que aqueles sinais significavam, mas sabia o quão importante eram para garantir que no futuro poderia encontrar seus amigos novamente. Talvez desde o começo Vista estivera planejando aquilo, ele já sabia que não sairia inteiro da Casa do Campeão.
Os joelhos de Marco tremeram e ele chegou perto de cair. Não suportava a ideia de que aquilo realmente estava acontecendo. O Metagross estava disposto a explodir e levar tudo ao seu redor junto dele.
— Por favor, senhores passageiros, peço que deixem os seus aposentos, porque a explosão será grande e a morte é iminente — brincou Vista, olhando para seus companheiros num tom cômico desnecessário. — Então deem logo o fora daqui, seus merdinhas!
— N-Não... — a voz de Marco falhou cada vez que ele olhava para o arquivo eletrônico em suas mãos. — Isso não pode estar acontecendo...








iDie permaneceu sério. Pela segunda vez naquele dia, o gênio da ciência parecia incerto de sua imortalidade. Sabia que ele próprio tinha seus limites.
— Acha que pode me destruir com uma simples explosão? — indagou iDie. — Eu vou voltar. E quando eu voltar, vou exterminar cada pessoa que um dia você chamou de amigo.
— Pode vir. Até lá estarei cinquenta vezes mais poderoso, pois deixei minhas instruções nas mãos de um engenheiro mecânico formidável, cientista, visionário; e que infelizmente não poderei informar-lhe o nome. Quando você voltar, vou estar pronto para recebê-lo.
— Vai destruir a si mesmo para abrir espaço aos seus amigos?!
You know I will. Pelo menos será o suficiente para que você deixe de existir nesse planeta, até que algum dia, quem sabe, alguém sinta que precisará de seus serviços uma última vez. Você me ensinou isso, iDie. Nós somos máquinas. E máquinas devem ser controladas, porque quando elas saem de controle e passam a agir por si próprias, elas deixam de ser máquinas.
Diversos fios e cabos elétricos saíram do corpo de Vista, agarrando iDie com força e impedindo-o de afastar-se dali. Marco conseguira tirar o corpo de Wiki e Mozilla da zona de perigo, eles ao menos estariam a salvo. Aerus e os demais companheiros tomaram refúgio. O dragão trocou olhares com seu velho parceiro mecânico e fez um leve aceno com a cabeça, agradecendo o sacrífico em nome da vitória e tudo que eles vinham buscando até então.
Vista estava estranhamente tranquilo. Seus amigos estavam todos seguros. Não havia mais o que temer.
Com seu corpo imobilizado, iDie tentava se desvencilhar desesperadamente.
NO! NO! NO!
What is it, old friend? Questiona sua própria imortalidade?
— Ladrão de ideias, desgraçado, impertinente, egoísta e miserável! — iDie gritou enfurecido. — Você não vai me matar.
— Ah, vou sim.
I cannot die.
Don’t make me laugh.
— Você vai junto comigo.
— Não estou reclamando.
— Vou arrancar a sua cabeça.
— Eu explodo a sua depois.
Let me go! Nooo!
— Você não vai conseguir de qualquer maneira. Pronto para sentir o gosto amargo da derrota? Seu tempo está acabando. Marco, Wiki, Mozilla... Vocês foram muitos especiais para mim, saibam disso, seus pestinhas miseráveis! Estarei esperando vocês virem me buscar no inferno!












      

FanArt - Rafael Marques #6

A Casa do Campeão


Nome: Rafael Quesada
Idade: 11 anos
Estado: São Paulo
Técnica: Desenho (Lápis, Lápis de Cor, Giz e Papel) Digitalização, e Montagem (PowerPoint)

Oi Gente! Tudo bem? Sou eu, o Rafa! Primeiramente, venho lhes dizer Feliz Ano Novo atrasado (Bem atrasado mesmo!) Em segundo lugar, venho trazer uma ilustração que eu fiz da Casa do Campeão, no Capítulo 98 - Arquivo Deletado.
Esse foi um dos caps. mais legais e interessantes que eu já li, e ficou magnifico! Eu amei ele, mas fiquei triste pela pobre Wiki. 
Bem, eu me esforcei muito pra conseguir esse resultado (três dias para ser exato) e... ficou uma droga, mas mesmo assim estou mostrando a vocês. Mesmo ficando meio ruim, foi uma ótima experiência pra mim.
Eu nunca tinha valorizado TANTOOO o trabalho da Nyx, mas agora que vejo que é muito difícil desenhar (pelo menos pra mim), eu aprendi a valorizar pelo menos umas 25 vezes mais. Bem, é isso. Espero que gostem! Obrigado

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Cara, que bacana que você ilustrou uma cena tão importante quanto esta da nossa Liga! Fico feliz que você considere este um de seus favoritos, uma vez que nos dedicamos muito para torná-lo verdadeiramente intenso, afinal, eu não ia querer que meus personagens favoritos ficassem sem um brilho especial! -rs. Realmente, a perda da Wiki foi uma tragédia, mas nem se compara com o que virá pela sequência.

A Nyx está se dedicando muito com os desenhos, eu judiei dela nessa última etapa uma vez que desenhar mechas como o Vista e o iDie nunca fez parte da rotina dela, então ela também está indo ao limite ao ter de desenhar uma casa cheia de cenas de ação, peças mecânicas, bombas, tiros e onomatopeias. Acho que a gente só percebe o trabalhão que dá quando colocamos a mão na massa mesmo. Imagino como é a rotina daqueles mangakás que devem entregar capítulos semanais! E completos ainda por cima. Ainda assim, estou contente com o nosso resultado e com a frequência que viemos postando. Estamos perto da luta final, agora falta realmente muito pouco.

Curti muito a maneira como você representou a última imagem que o Luke teve antes de iniciar a batalha contra o Ike! Titânia, sua majestosa Steelix, junto de iDie e Adamantium, o Metagross e o Skarmory. Vejo ali no canto também uma Lustrous Orb e uma Adamant Orb, os verdadeiros símbolos da quarta geração. Acho que você mandou muito bem cara, bom trabalho!  Canas Ominous.

Vista's Time Machine - Episode 5: [Im]Perfect World

Support Conversation (Vista x iDie)
Gênero: Amizade, Ação, Drama;
Tema: Em uma de suas viagens temporais, Vista modifica seu passado por uma decisão tola, de tal maneira que, pela primeira vez, ele sente que nunca deveria ter construído a Máquina do Tempo;
Notas: Último episódio de nossa mini-série Vista's Time Machine! Aproveitem.


Simplesmente não aguentava mais aquela vida. Estava farto da mesma rotina de sempre; dos amigos chatos o importunando, das visitas indesejadas que atrapalhavam seu trabalho. Quando queria ter um tempo só para si ou concentrar-se em seus afazeres, era surpreendido por uma mulher quase nua correndo atrás de um garoto só de toalha pela sala, molhando equipamentos, encharcando o chão, fazendo barulho e quebrando coisas. Estava chegando a um nível insuportável.
— Marquiiiiinho! Você prometeu que iria tomar banho comigo se eu ganhasse no stripper pôquer, e já estou quase sem peças para serem tiradas, mas a vitória foi minha!!
— Eu nunca disse que concordaria com isso! — O Mothim gritou, e em uma de suas tentativas frustradas de escapar, for surpreendido por um homem másculo que surgiu logo na virada do corredor. De peito definido e braços fortes, ele o agarrou o garoto de surpresa e o arremessou no sofá.
— Peguei ele, fofa — respondeu Mozilla, contente com sua conquista.
A moça até estalou os dedos e lambeu os beiços.
— Perfeito. Agora leve-o para a banheira e encha de bolhas que eu cuido do resto.
— Hah! Como se eu fosse deixar o prêmio inteiro para você — Mozilla respondeu com um ar esnobe, passando uma das mãos no cabelo de Marco. — Eu fiquei em terceiro lugar, então tenho direito de, pelo menos, um pequeno percentual.
— Só tinham três jogadores, querido — Wiki respondeu, já carregando Marco amarrado em suas costas em direção do banheiro.
A mulher nem se ligou quando chutou um emaranhado de fios num canto, dando três pulinhos desengonçados, mas conseguindo equilibrar-se. Uma fumaça negra começou a pairar no ar, e ela provavelmente vinha de onde Vista estava trabalhando.
— Credo, que cheiro horrível é esse? Tá pensando demais aí, Vista?
O Metagross deixou uma de suas ferramentas cair. Mais um de seus produtos arruinados quando, sem se dar conta, Wiki tropeçara na tomada. A chave de fenda tiniu no chão. O ciborgue levantou-se sem dizer mais nada e explodiu umas das paredes, deixando o lugar com a cabeça prestes a explodir. Marco se assustou com a cena, mas Wiki e Mozilla deram muita importância.
— Ihh, acho que pegamos pesado com a bagunça dessa vez... — disse Marco de mãos amarradas, preso nas costas de Wiki.
— Não esquenta — respondeu a mulher. — Daqui a pouco ele volta, esse monstrão de metal simplesmente não conseguiria viver sem a gente, somos a vida dele!
Marco soltou um longo suspiro.
— Às vezes penso se ele não estaria se virando bem melhor sem a gente...
Vista pisava com os pés firmes no chão. Não encontrava harmonia alguma naquela guilda, parecia que todas as pessoas ao seu redor só queriam abusar de sua boa vontade. Sentia falta das batalhas, das guerras que participava quando ainda fazia parte da guilda Mithril, comandada por iDie, o Pokémon Metálico mais poderoso de Sinnoh até então (antes da chegada de Vista, pelo menos, ou assim ele considerava).
Enquanto tentava caminhar e tranquilizar sua mente nos campos pacíficos dentro dos limites da guilda, foi surpreendido por um tiro bem no meio de sua testa. A Life Orb que carregava encrustada em seu elmo de ferro estourou, caindo aos pedaços no chão.
— Era uma peça de colecionador... — grunhiu o Metagross.
 Viu ao longe Mikau correndo e gabando-se por sua proeza de acertar-lhe um tiro bem no meio da testa. Pelo menos continuava vivo. A paciência de Vista estava no limite. Sempre que tentava encontrar paz, deparava-se com algo ainda mais irritante. Primeiro, Eva e Tom Sawyer aproveitavam a tarde de sol para se divertirem na colina quando derrubaram uma enorme pedra que arrastou-se montanha abaixo exatamente onde Vista estivera sentado. A queda foi brusca. Segundo, Lyndis e Karl jogavam bola e acidentalmente a Infernape acertou uma bolada bem na cabeça do ciborgue. Depois eles ainda saíram correndo com medo de pedirem desculpas. O dia seguiu maçante com situações semelhantes àquelas.
Corroendo-se por dentro e prestes a explodir tudo, literalmente, sua paciência já limitada alcançou o auge quando Aerus e Watt apareceram correndo por ali e o esquilo não viu por onde andava. Acabou trombando com o guerreiro de metal que lhe lançou um olhar sinistro por baixo de sua capa.
— Ouch... F-foi mal, senhor Vista! É que estou com muita pressa, preciso de ajuda!
— Suma daqui antes que seja tarde, esquilo — respondeu Vista.
— Espera, o tio máquina de guerra pode ser perfeito para nos ajudar! — disse Aerus, contente. — É o seguinte, parceiro, eu e o meu maninho saímos numa viagem hoje pela manhã quando encontramos um objeto esquisito abandonado.
Watt o interrompeu, eufórico.
— Tecnicamente, um TM 64. Só não me pergunte como!
— Pois bem — continuou Aerus. — E tu deve conhecer melhor do que ninguém qual TM é esse. EXPLOSION! Quando trouxemos a tal coisa para a guilda, eu ativei algum mecanismo estranho e somente então descobri do que se tratava.
— Senhor Vista, achamos que ele vai explodir a qualquer momento — continuou o pobre Watt, desesperado. — Não para de apitar.
— Cara, nós estamos tentando descobrir como desativar essa coisa há horas, antes que ela destrua a guilda inteira!
— Não é problema meu — respondeu Vista, indiferente, preparando-se para ir embora.
— Graças à Arceus temos um bom engenheiro na guilda, ou mecânico, ou programador, seja lá o que você faz! — respondeu Aerus, contente. — Por favor, só dá essa ajudinha para os irmãos, coisa rápida!
— No — Vista respondeu com certa calma, diferente dos “NOOO!” que ele costumava responder quando estava realmente irritado. — Estou meio cansado, não tenho tempo para ficar resolvendo probleminhas irrelevantes como esse.
Percebendo que suas tentativas haviam sido em vão, Aerus apontou em sua direção e exclamou:
— Caramba, e o que você faz nessa guilda, afinal de contas?
Vista parou de andar.
Watt percebera que teria sido melhor que Aerus nunca tivesse dito aquilo. Teve medo de que uma batalha começasse ali no mesmo instante. O imenso Metagross voltou e caminhou em direção dos dois, intimidando os líderes da Fire Tales só com um olhar, chegando tão perto de encará-los no rosto só para dizer:
I should never have accepted entering this guild.
Ele então virou e partiu, sem esperar para ver a reação do Garchomp à uma ofensa tão grande quanto aquela. Pensou em voltar para seu laboratório, onde sabia que teria paz, mas lembrou-se que Wiki, Marco e Mozilla provavelmente deveriam estar continuando a festa maluca deles em sua ausência.
Vista ausentou-se por várias horas, vagou além dos limites da Fire Tales, enfrentou alguns bandidos desprezíveis e gastou todo o tempo que fosse necessário antes de voltar para a casa, e nem mesmo aquilo o havia acalmado. Sua mente continuava aflita e perturbada, só conseguia pensar que sua vida andava de mal a pior.
A noite caiu, e ele abriu a porta com cuidado. O silêncio finalmente prevalecia. Não havia sinal de seus amigos. Caminhou até a máquina que estivera fazendo alguns reparos e a encarou com atenção. Se realmente quisesse, poderia acabar com tudo aquilo antes mesmo de começar, seria uma melhora e tanto. A Máquina do Tempo que nunca deveria ter sido criada. Parou logo em frente ao enorme equipamento, encarando-o no escuro, quando um ouviu um gemido baixo vindo do sofá, o que logo o enfureceu ao pensar tratar-se de algo desrespeitoso.
Damn, Wiki! Vocês não conseguem me deixar em paz nem por um instante?!
Porém, ao olhar com mais atenção, viu que Wiki apenas dormia ali tranquilamente, vestindo só as roupas de baixo, toda encolhida de frio por conta do cobertor que estava derramado no chão. Aparentemente, ela estava tendo uma noite conturbada.
— V-Vista... — murmurou enquanto dormia. — Vista, não...
Será que estava tendo algum pesadelo com ele? O que quer que aquele sonho significasse, certamente a amedrontava, como uma menina que anda sozinha no escuro.
— Vista... Vista... — Wiki repetia, e seu rosto começava suar a ponto de que algumas lágrimas rolassem mesmo com os olhos fechados.
O Metagross soltou um longo suspiro.
— Talvez sua vida fosse muito melhor se eu nem existisse, não é? — Vista murmurou em silêncio, sem a intenção de que ela ouvisse.
Voltou a atenção para sua máquina do tempo, e por fim decidiu. Iria embora dali para nunca mais voltar. Adeus Fire Tales, adeus aos mesmos amigos de sempre. Adeus Marco, Mozilla, e adeus a uma belíssima Wiki dormindo só com as roupas de baixo no sofá. Todas aquelas cenas que um dia tanto prezara viveria apenas em suas memórias, e estava disposto a aceitar o que o destino lhe reservava em qualquer universo alternativo que encontrasse para habitar.
O ciborgue entrou em sua máquina do tempo que iniciou-se e fez um clarão, começando uma onda de sons e barulho. Wiki era conhecida por ter o sono pesado e ainda demorou para acordar e perceber o que acontecia. Lentamente ela abriu um dos olhos e viu que seu amigo Vista estava na máquina do tempo que ele mesmo reconstruíra, para o que viria a ser sua última vez.
— Leve-me para uma vida onde eu jamais entrei nessa guilda ou conheci essa gente. Vai ser melhor para mim — fez-se um intervalo —, vai ser melhor para eles.
Uma onda se formou, e tudo ao seu redor girou antes que se apagasse.
As viagens no tempo costumavam afetar muito os humanos e até causar danos irreparáveis, mas Vista já fizera tanto daquilo que já estava acostumado, e podia muito bem reparar os danos em seus sistemas com enorme facilidade. Algumas vezes pareciam durar eternidades, e em outras, apenas alguns segundos rápidos, como o piscar de olhos, ignorando toda a física e ciência moderna. Não sabia se morria e voltava à vida nesse curto intervalo de tempo, mas viajar no tempo já era como perambular pelas páginas de um livro que pode ser aberto em qualquer hora e qualquer página que desejasse. E isso o tornava o leitor da obra.
Mas havia um pequeno problema... Odiava quando vinha parar naquele lugar — o Nada. Só ia parar ali quando algo realmente ruim ocorria após uma viagem no tempo que afetaria até mesmo o universo e, para isso, uma pequena intervenção divina era comumente necessária.
Paula não estava com uma das melhores expressões. As mãos estavam entrelaçadas, apoiadas sobre uma mesa redonda gerada por energia cósmica com apenas duas cadeiras, uma em cada ponta. Vista sentou-se meio desengonçado à espera do que a deusa do espaço teria a contar para ele depois de mais uma desastrosa viagem no tempo. Se Dialga não fosse irmão de Palkia e tivesse fortes afinidades com o pessoal da Fire Tales, ela provavelmente já teria feito Vista vaporizar do universo pelas constantes quebras que ele causava em todas as dimensões existentes.
— Quero ouvir de sua própria boca — começou Paula. — De onde surgiu essa ideia ridícula de viajar no tempo para fingir que nunca entrou na Fire Tales.
Vista deu de ombros, meio indisposto a explicar.
I dunno. I guess I’m tired of them — respondeu na maior sinceridade.
— Como você é rude...
A deusa piscou vagarosamente, e dessa vez demonstrou um raro sorriso para a ocasião.
— Você vai adorar ver o que causou.
— O que houve dessa vez? Alguma explosão cósmica? Algum defeito complexo na teoria da física ou interrupção temporal por conta do encontro de ambas as minhas versões do passado e do futuro em uma mesma linha temporal? Não tenho sido tão fácil de se surpreender depois de tantas viagens.
— Veja por si só, meu querido.
No centro da mesa redonda do vazio, uma imagem se formou, como um espelho que a tudo revelava. Paula mostrou a guilda dos Fire Tales, exatamente como sempre fora. Não havia nenhuma mudança, nem mesmo uma pedra fora do lugar. Pôde ver muitos membros lá, estavam todos contentes, treinando, levando a vida como sempre levaram, absolutamente sem nenhuma mudança significativa.
— Está querendo dizer que minha presença na guilda é irrelevante? — vociferou o ciborgue, irritadíssimo.
— Continue olhando.
Mais acima na colina, havia um laboratório, coincidentemente no mesmo lugar onde ele próprio construíra o seu, mas a diferença era na construção que havia se tornado um pouco mais moderna e arranjada. Vista continuou olhando a imagem ilusória com atenção. Uma porta se abriu, e dali de dentro Wiki surgiu mais linda e radiante do que jamais vira. Lembrava-se de como adorava ver aquela mulher sorrir, mas nunca antes a havia visto daquela maneira. Na sequência viu Mozilla carregar Marco no colo enquanto os dois davam muitas risadas e se divertiam, pareciam ser os mesmos de sempre, só que mais felizes.
Seus olhos se arregalaram quando ele viu uma quarta presença surgir. Ali estava iDie, seu rival e maior inimigo num passado muito distante.
NO. NO. NOOOO!! — Vista gritou com todas as suas forças, incrédulo. — What’s this? Por que esse monstro está na guilda deles, como isso aconteceu?!!
— Você desejou que nunca tivesse entrado na Fire Tales, e seu desejo foi coincidido em sua viagem no tempo, mas o universo fez seu trabalho ao colocar outra pessoa em seu lugar, com as mesmas capacidades, se não superiores — contou Paula com um sorriso de certa forma sarcástico, como se percebesse que finalmente o feitiço voltara contra o feiticeiro. — Não vê como eles estão felizes agora?
Como isso era possível? Como os amigos que mais prezava nessa vida agora estavam andando com a pessoa que mais odiava, e para piorar, como eles pareciam felizes! Viu Wiki segurar em uma das mãos de iDie e leva-lo adiante, linda e radiante como sempre. Quando foi a última vez que ela o tocara daquela maneira, mesmo que inconscientemente?
— Venha logo, iDie! Vamos apresentar essa ideia para o pessoal da guilda! — gritou a moça contente, sendo seguida pelos outros três.
— Acalme-se, senhorita Wiki, não vamos querer vê-la espatifar-se no chão com todo esse entusiasmo, right? — sorriu iDie com alguma estranha habilidade de prever o futuro, uma vez que Wiki tropeçaria nos próprios pés e por pouco não saiu rolando colina abaixo, se não fosse interceptada por mãos ágeis que lhe deram apoio.
iDie a segurou com carinho, sem malícia ou maldade, com o simples intuito de realmente vê-la bem e segura. Se a situação fosse com Vista, ele provavelmente a teria deixado se esborrachar no chão e depois rido dela enquanto Marco corria desesperado para socorrê-la. De qualquer maneira, no final Vista teria ficado para cuidar dos ferimentos dela a sós, como adorava fazer. Não era por maldade, simplesmente gostava das coisas assim. Na realidade, percebeu que adorava quando tudo era assim.
E ver tudo que acontecia parecer longe e inalcançável o incomodou mais do que uma faca que vai entrando aos poucos em seu coração.
— Obrigada, você é um amor — disse Wiki, com um carinho sobrenatural. A mulher ainda segurou no elmo de ferro de iDie e deu-lhe um beijo gentil no rosto, berrando na sequência: — Já que está me segurando, quebra um galho e me leva assim pra base! Já cansei de andar.
Absolutely — concordou iDie num gesto gentil e colocando-a em seus ombros, como se ela fosse sua filha e pilota. Wiki estava alta e imponente, sentia o vento soprar em seu rosto. Tinha sob os pés um tanque de guerra que lhe dava mais segurança que nenhuma outra máquina poderia, um guerreiro de metal para chamar só de seu.
Vista teria adorado jogá-la no chão e gritado: Not my problem! Mas não teve essa oportunidade
Aquilo estava ficando cada vez pior.
As imagens continuaram. Ao chegar nos limites da guilda, todos receberam o grande iDie como um verdadeiro líder. As crianças o rodeavam, Lyndis chutara uma bola em sua direção que fora agarrada com perícia, e depois lançada para muito longe de propósito (bem, pelo menos nisso eles concordavam que fora divertido). Aerus, o grande líder, o recebera de braços abertos.
— Diga aí, Máquina de Guerra! O que faz por aqui num dia desses? Nós sentimos a sua falta!
— Desenvolvi um novo mecanismo capaz de aumentar o ataque físico de todos os guerreiros com essa prioridade, o Choice Band. E para os outros não ficarem de fora, criei também o Choice Specs para os guerreiros com Sp. Attack — explicou iDie.
— Isso é incrível — admitiu General, impressionado com a capacidade de criação do Metagross. — Vai nos auxiliar muito na guerra contra os Remarkable Five!
— Poxa, eu queria usar esses óculos maneiros, mas eles são só para Sp. Attack! — afirmou Aerus, referindo-se ao Choice Specs. — Eles ficam tão legais em mim, nunca tentei usar algo nesse estilão. Agora irei substituir meus óculos escuros por um par de óculos coloridos em tons de vermelho e amarelo. STYLE.
All right — iDie respondeu com dedicação. — Preciso continuar minhas criações antes que a data das batalhas chegue, mas até lá, quero que sintam-se livres para visitar-nos no laboratório para ver como as coisas andam. Podemos dar uma festa, vamos sair juntos e festejar, pois uma mente vazia também é oficina de Darkrai. Let’s keep our minds clean!
Todos os membros da Fire Tales concordaram em uníssono, erguendo as mãos juntas, ansiosos por uma batalha onde tinham a certeza da vitória. Todos continuavam fortes e confiantes como nunca, a diferença é que agora tinham alguém para incentivá-los ainda mais ao invés de simplesmente reclamar o dia inteiro.
A imagem se desfez, e dessa vez Vista encontrou-se num lugar diferente. Paula não estava mais em lugar algum. Ao seu redor havia um cenário desolado, tecnológico, diversos equipamentos impressionantes que iam muito além do que sua imaginação e criatividade teria condições de criar. Porém, era uma visão triste e abandonada. Ele estava no centro de tudo, era como o dono supremo de todas aquelas invenções.
— Pelo visto teve tempo o suficiente para fazer com que suas maiores ambições se tornassem reais, não é mesmo, old friend?
Vista cerrou os punhos ao reconhecer aquela voz. Viu que iDie estava no lado oposto do campo, e dessa vez não era nenhuma ilusão ou imagem de sua mente, ele era muito real. Estava armado dos pés ao pescoço, suas maquinações eram incríveis e refinadas, diria até belas, tinham um design que não caberia a sua mente criar. Nunca pensou que seu rival teria tanto tempo para aperfeiçoar-se daquela maneira, principalmente com as obrigações que tinha na Liga.
— Estive aguardando este nosso encontro — disse Vista num estado de frenesi incontido. — Você roubou tudo que eu tinha!
— Digo o mesmo — iDie concordou. — Mas não permitirei que você roube o bem mais precioso que encontrei nesta nova vida: My friends, my guild, my Family.
Perto de onde seu rival estava, Vista aos poucos percebeu que Wiki, Mozilla e Marco estavam todos ali, gritando bem alto. Até mesmo Aerus e Watt estavam juntos, os membros da Fire Tales cantavam pela vitória de seu amigo, mas Vista notou que algo estava errado... Por que não diziam o nome dele?
— Vamos lá, iDie, detona esse cara! — gritou Aerus.
— Falta muito pouco, nós confiamos em você, não desista, não tenha medo dele! — continuou Marco, e ver seu pequeno pupilo gritar pelo inimigo só não o feriu tanto quanto o que veio a seguir.
— iDie, destrua esse monstro, e vamos voltar para casa!
Wiki. A sua Wiki havia dito aquilo? E o monstro era ele? Não, aquilo não poderia estar acontecendo... Somente agora as palavras de Paula fizeram sentido. Quando viajou no tempo, o universo encarregou-se de inverter os papéis. iDie tornara-se membro efetivo da Fire Tales, era bondoso e criativo, mudara a guilda para melhor e ajudara a todos com suas ideias revolucionárias. E quanto à Vista, caíra no mesmo campo que iDie ocupava em seu próprio universo, um caminho triste e solitário, mas supremo.
Vista, o Pokémon Metálico mais poderoso do mundo. Adorava a maneira como aquilo soaria quando finalmente alcançasse se objetivo. O imperador da tecnologia. A encarnação do mal e o último desafio que se estendia entre seus amigos e a vitória na Liga Pokémon. Era tudo que gostaria de ter ouvido, mas não daquela maneira.
No, no... Isso não está acontecendo — murmurou Vista, recuando devagar.
iDie avançou com velocidade, atirando com suas balas projetadas para nunca errarem o alvo e certificando-se de ferir seu oponente com toda a convicção que sentia em seu coração. Por mais que Vista também estivesse furioso, sentia-se mais machucado por dentro do que enfurecido. Sentia-se arrependido, na verdade. Não se lembrava da última vez que sentiu vontade de desculpar-se com todos e pedir por uma segunda chance, mas aquilo de nada adiantaria. Eles não o ouviriam.
Seu rival acertou-lhe um soco no queixo, mas Vista revidou com um soco três vezes mais intenso do que era acostumado. O que acontecera com seu corpo? Como estava tão poderoso? Era essa a troca de seus amigos? A amizade pela força suprema?
— iDiE!! — A voz de Wiki foi ouvida como um lamento.
— Fique afastada, my dear sweet child. Eu nunca vou permitir que esse monstro machuque vocês... Esta rivalidade é nossa, Vista. Deixe-os fora disso! — gritou iDie.
Why would I do that? — o ciborgue murmurou com a voz baixa, mas foi recebido com um forte disparo de canhão. — They are... They are my friends...
— E ainda age com ironia para cima de mim? — iDie gritou, enfurecido. — Vista, o Andarilho Fantasma, você será destruído! Eu vou proteger meus amigos, custe o que custar!
iDie aproximou-se o suficiente para encostar seu canhão no peito de Vista. Ele disparou, ferindo-o mortalmente e fazendo-o ajoelhar-se no chão.
— Eu o farei arrepender-se de todas as suas ações em sua vida — disse-lhe iDie.
Já cansado daquela humilhação, seus olhos arderam em chamas. Vista ergueu-se e, com um golpe inesperado, perfurou o peito de iDie. Ele chegou bem perto e sussurrou baixo:
— Você não tem ideia de quanto tempo esperei por isso.
O que havia acontecido? Por que dissera aquilo? Aquelas palavras há muito guardadas saíram de uma maneira que não planejara. Onde esperava os aplausos, viu apenas tristeza. Olhou para suas próprias mãos, e viu ali garras mortíferas. No lugar de seu rosto, existia apenas uma máscara de terror e medo. O que havia acontecido com ele?
— iDiE! — gritaram seus amigos. — iDiE!! Não desista, levante-se! Derrote-o, estamos contando com você!
Wiki apoiou-se em uma das arquibancadas, ameaçando entrar e parar a luta antes que seu amigo se ferisse, mas Aerus a impedia. Com os olhos de vidro cheios de lágrimas, a mulher encarou bem fundo os olhos de Vista e falou:
— Você é um monstro! Eu vou matar você! Eu te odeio mais do que tudo nesse universo, eu te odeio!!!
Vista recuou. Seu maior sonho se realizara, ele havia superado seu rival, iDie, mas por que não conseguia comemorar? O que estava faltando? Levou as mãos até a cabeça e caiu de joelhos, sussurrando baixo o profundo arrependimento em seu coração. Não esperava que ninguém ouvisse, mas falou da mesma maneira.
Por favor, me desculpem por tentar arrumar minha vida que já era perfeita... Desculpe-me por ter uma vida boa, mas exigir uma melhor — ele ergueu seu rosto, e então começou a gritar e repetir com todas as suas forças. — I’m sorry! I’m sorry! I’m sorry!
Com a fronte baixa encostada no chão, Vista sentiu suas lágrimas escorrerem. Pensou que elas já haviam se extinguido havia muito tempo, desde que se tornara uma máquina, mas ficou feliz por saber que elas ainda estavam ali. Devia mesmo ter passado tal humilhação. Queria ser mandado embora, ridicularizado, preferia perder tudo que sempre sonhou em ter a vivenciar aquilo.
Alguém aproximou-se. Teve medo de levantar e encarar os olhos de Wiki decepcionados, não sabia como a encararia, como se tudo que haviam passado jamais tivesse existido. Foi quando sentiu o toque suave de Paula, tocando sua cabeça com a suavidade de uma divindade. A mulher então aproximou-se como uma mãe que aninha o filho em seus braços quando ele mais precisa, dizendo com a voz mansa:
— Brincar com a vida dos outros é divertido, mas não é nada legal quando a vítima é você, não é? — sussurrou a deusa. — Você viajou no tempo, tentou tornar tudo melhor, divertiu-se o bastante para rir e ter muitas histórias para contar. Mas espero que agora você tenha percebido que o que você tem feito foi terrível, Vista. É hora de parar.
Diante dos pés da deusa, o soldado sem sentimentos chorava como nos dias em que entrara no exército e o obrigaram a entrar naquela vida sem retorno. Ele não conseguia olhar nos olhos dela. A Guardiã do Espaço brilhava em sua armadura cintilante, e o simples vislumbre de sua força total o destruiria.
— Por favor, — ele clamou com a voz baixa. — Me dê outra chance.
Era a primeira vez que Paula ouvira uma frase tão sincera de Vista. “Por favor” não fazia parte de seu vocabulário, exceto quando dizia ironicamente para que calassem a boca ou trouxessem um refresco.
Paula agachou, segurando com as duas mãos no rosto do ciborgue e sibilando o mesmo sorriso que fez com que um humano normal se apaixonasse por ela. Agora estava transformada mais uma vez, assumindo sua aparência apenas como Paula, a mulher que tanto o ajudara a consertar suas burradas em cada viagem no tempo que fizera.
— Vá, e viva sua vida imperfeitamente perfeita. Tenha bons sonhos, criança, e não direi para que esqueça essa aventura, mas para que sempre lembre-se dela e torne-a um exemplo enquanto durar sua existência.

• • •

Ao abrir os olhos, Vista encontrou-se no mesmo lugar de antes, seu laboratório velho e bagunçado, com calcinhas penduradas na cadeira, salgadinhos abertos e ferramentas espalhadas por todos os cantos. Em sua frente, estava a máquina do tempo, imóvel e inalterada. Wiki ainda dormia no sofá.
O ciborgue arqueou uma das sobrancelhas. No fim das contas, percebeu que ainda odiava aquele lugar. Vira tanta coisa boa que logo sua mente começou a pipocar com tantas ideias de como melhorá-lo. Queria começar tudo de novo, mas dessa vez ao lado de seus amigos. iDie podia muito bem ser um sujeito mais tranquilo e organizado, mas ele jamais aprenderia a conviver com a rotina maluca dos Fire Tales. E daquilo Vista não abriria mão. Adorava causar algumas explosões.
Correu em direção da mulher e pegou-a na colo dando-lhe um susto daqueles.
— Ei, que assédio é esse? Deixa eu acordar primeiro! — gritou Wiki, espantada.
— Arrume suas coisas, andrógena. EVERYTHING IS GOING TO EXPLODE!
— Como é que é?!
Antes que Wiki pudesse fazer mais perguntas, Vista levou-a nas costas e foi em direção do quarto onde Marco e Mozilla também estavam, e deu-lhe um susto ainda maior por interrompê-los no meio da madrugada.
— CARAMBA! Bate na porta antes, cara! — resmungou Mozilla.
— Ué, o que estou fazendo aqui? Ou melhor, COMO VIM PARAR AQUI? — gritou Marco.
Vista agarrou-os, somente com suas roupas de baixo, pijamas, ou o que fosse que estivessem usando na hora. Saiu correndo no meio da madrugada até se deparar com seus companheiros de guilda em volta da fogueira no meio da noite, encarando um objeto em forma de CD enquanto General suava na tentativa de desativá-lo.
— Vamos lá, cara, você consegue, ou vai tudo explodir! — gritava Aerus, impaciente.
— Meu caro companheiro, entrei na Fire Tales para lutar e comandar exércitos, e não para desarmar bombas ou lidar com esse tipo de pressão! Nunca senti tanta dúvida entre cortar um fio vermelho ou o verde, acho que eu cortaria a garganta de inimigos com mais facilidade... — bradou General com as mãos trêmulas. — Mas o problema é que esta coisa não tem fios...
Não demorou para que Vista chegasse correndo e destruindo tudo. Ele jogou seus amigos no chão, agarrou o TM e arremessou-a com enorme força em direção de seu velho laboratório. O aparelho saiu deslizando pelo ar como um disco. Demorou pouco mais de alguns segundos para que caísse suavemente no chão explodisse tudo nos limites da Fire Tales, causando um tremendo choque até mesmo na base, mas pelo menos sem ferir ninguém.
Todos o olharam espantados, até que Aerus ergueu as mãos pro céu e gritou.
 — ALELUIA! Eu sabia que você estava brincando e que de última hora ia salvar a gente, viva ao grande Vista!
Seus companheiros comemoraram juntos e o ciborgue sorriu, contente. Wiki estava toda descabelada e vestindo apenas suas roupas de baixo, ainda tentando entender o que havia acontecido e o motivo de tanto alarde.
— Beleza, deixa eu entender... Então você mandou uma bomba para a nossa casa, explodiu tudo, e agora não temos mais onde morar — disse a mulher com a voz irônica. — Oh, meus parabéns, Vista. Você merece o troféu de idiota do ano!
— Bem, eu estava planejando recomeçar de qualquer maneira — contou o Metagross. — E dessa vez, sem chances de reconstruir aquela máquina. Chega de viagens no tempo.
— Pensei que elas tivessem acabado desde o primeiro episódio — continuou Mozilla.
— Mas ele sempre dá um jeito de reconstruir, né — brincou Marco.
Not today, kid. Not today.
— Vou querer ser recompensada mais tarde com aquele seu mecanismo esquisito que cria um monte de tentáculos cibernéticos, espero que pelo menos isso não tenha sido destruído — continuou Wiki, indignada. — E guarde o que eu vou dizer, agora você vai ter que me suportar um bom tempo, porque eu não vou te largar enquanto não reconstruir tudo! EU QUERO MINHA CASA DE VOLTA.
Not bad.
— Mandou bem, hein, parceiro! — disse Aerus, dando um forte soco nas costas do ciborgue, que por acidente abaixou a cabeça e fez com que seu elmo de ferro caísse. Todos os demais membros arregalaram os olhos. Wiki quase soltou um grito de espanto ao ver a real face de Vista.
O dragão olhou primeiro para a máscara caída, e depois para o rosto de Vista.
— Ops.
— Qualquer um que tenha visto o que acaba de ver, não será poupado —murmurou Vista, voltando a colocar seu elmo enquanto lançava um olhar mortal para todos os demais membros da Fire Tales. — Fujam, seus merdinhas, enquanto ainda dá tempo! Hah, hah. Porque eu vou pegá-los, e nunca mais vou soltar.

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