Capítulo 46.5

A sensação indesejável de incômodo e insegurança tornou aquela uma das piores noites que Dawn havia tido. Demorou para adormecer, ficou perdida em seus devaneios virando de um lado para o outro durante horas apenas a fitando a escuridão a tentar esvair seus pensamentos de um passado que há muito havia deixado para trás.
Muito tempo se passou desde que ocorreu o incidente em que a menina perdeu os seus pais, em breve completaria seis anos. Apenas com a ajuda do Professor Rowan ela conseguiu iniciar uma nova vida com novas ambições e desejos para se realizar. Porém, Dawn nunca mais foi capaz de sonhar de verdade. Não chegou a encontrar-se com o que realmente desejava e acabava lidando como se tudo fosse apenas passageiro, e certamente era, mas a diferença é que na vida devemos lidar com cada dia como se fosse o último, e não apenas pensar que tudo se resume à um fim. Caso o contrário não vivemos. Apenas existimos.
Estes foram os últimos pensamentos da garota antes que ela adormecesse durante a madrugada. Despertou ainda muito cedo, tão cedo que nem sequer Lukas pensava em levantar-se e nem o sol havia se erguido completamente com todo para anunciar mais uma rotina exaustiva para os cidadãos da cidade de Jubilife. Faltava pouco para as seis da manhã e um frio aconchegante tornaria aquela ocasião perfeita para apenas ficar na cama e descansar, mas Dawn não estava muito disposta a refletir e se ali ficasse teria tempo demais para perder-se em sua indisposição. Levantou-se e saiu do quarto.
Estava vestida com um pijama rosa listrado, rapidamente tirou-o e vestiu um abrigo para o frio sereno que cobria a cidade; usou meias para abafar o som de seus passos. Fez o maior silêncio que podia, odiaria acordar um dos avós dos Wallers por conta de alguns problemas com o sono que tivera, mas para sua surpresa a avó dos garotos já estava de pé e com a mesa do café da manhã pronto. Dawn surpreendeu-se com a presença da mulher àquele horário.
— Puxa, acordei a senhora? — indagou ela.
— De maneira alguma. — respondeu a velhinha abanando a mão — Já tenho o costume de acordar cedo, então aproveitei para preparar a mesa do café para vocês estarem bem satisfeitos antes de saírem em jornada. E eu sabia que você acordaria antes. Eu sei de tudo. — continuou a velinha com uma risada enquanto colocava um pouco de café em duas xícaras
— Creio eu que o Luke não tenha puxado nada da senhora, se depender dele aposto que acordaria todo dia depois do meio dia. — brincou Dawn.
— Isso porque eu o acordava nove horas quando ele morava aqui, e ainda assim acho nove horas muito tarde. Daqui a pouco vou acordar todos, preciso que o Luke limpe o aquário, vá na padaria e depois colha algumas berries no quintal. Depois de se aposentar é quando a vida começa de verdade, menininha. Vocês ainda são novos. — disse a velhinha com uma risada.
Dawn agradeceu a xícara de café tomando um rápido gole para manter-se disposta.
— Certamente, a senhora é mais saudável do que nós quatro juntos. — falou — Ah, e a propósito, estou de saída. Não quer que eu vá na padaria comprar os pães?
— Hai, hai. Seria muito bom. — disse a avó, procurando uma pequena bolsinha e entregando algumas moedas nas mãos da menina — Aqui está, dõmo arigatō!
Dawn agradeceu e logo saiu da pequena casa para comprar os pães. Ela gostava de sentir-se importante, quando morava em Sandgem não tinha ao certo um motivo para ir à padaria todos os dias, por isso só ia quando o Professor pedia, mas ainda assim eram raras as vezes. Era uma pequena tarefa que ela sentia falta no cotidiano, e ainda assim poderia aprender com uma mulher valorosa que ainda mantinha-se casada com seu marido mesmo depois de quase 60 anos. A avó de Luke era um exemplo de esposa, e Dawn esperava aprender isso com ela.
— Ah, só fico imaginando se o Luke também ficaria rabugento depois de velho. — pensou ela em voz alta, não escondendo uma risada na sequência.
Dawn chegou até a padaria, pediu dez pães e alguns frios e logo saiu. As ruas de Jubilife eram cheias até mesmo àquele horário, pois a cidade nunca dormia. Porém, especificamente naquela parte mais afastada à oeste da cidade não havia muito movimento. Dawn conhecia pouco daquelas áreas, de certa forma sentia que já estivera lá mesmo que com lembranças longínquas, mas ainda assim não escondeu certo desconforto. Era um local afastado demais. E agora, ela era apenas uma garota sozinha a caminhar no sereno do amanhecer.
Enquanto a menina fazia seu caminho alguns rapazes que estavam sentados na frente de uma casa imediatamente se levantaram ao avistá-la. Eles pareciam ter a mesma idade, ou eram até mesmo mais velhos. Ficaram a assoviar e a elogiar a menina que caminhava sozinha e sem companhia. Dawn segurou os pães com mais força quando eles começaram a se aproximar, tentando ignorá-los um pouco constrangida, mas eles persistiram.
— Aí, gatinha! Tá perdida na cidade? — perguntou um dos rapazes.
— Não. Estou apenas de passagem. — respondeu ela sem desviar o seu olhar centrado.
O rapaz riu e apontou para os colegas que riram. Eles apertaram o passo para continuar a segui-la, Dawn sentia-se cada vez mais incomodada com aquilo e almejava apenas que aquela área estreita da cidade terminasse.
— Tu num é daqui, nunca te vi. Tá perdida é? — repetiu ele de forma maliciosa.
— Por favor, peço para que se afastem.
— Olha só, a Purrloinzinha está ficando bravinha. — sorriu o indigente, fazendo a garota parar ao erguer-se em sua frente e impedir o caminho— Vamos lá, me conta de onde você é. Uma jovem linda assim não ficaria andando por aí sozinha, você deve estar procurando algo. Quer companhia, né?
— Eu estou acompanhada, e saibam que estou muito bem sem a presença de nenhum de vocês. Agora, se me derem licença.
O rapaz puxou Dawn e a encarou de forma séria dizendo palavras com maldade e ambição.
— Tu tá no nosso domínio, vai fazer o que a gente quiser agora.
Os olhos de Dawn concentraram-se em uma lembrança antiga de Jubilife na qual uma garotinha solitária caminhava sozinha e de repente é abordada por alguns garotos de rua. Os meninos tentaram aproveitar-se da ingenuidade da menina naquela época que lutou e esperneou da forma que pôde, e as palavras daquele rapaz pareciam ser exatamente as mesmas que Dawn chegou a ouvir naquela época: Tu tá no nosso domínio, vai fazer o que a gente quiser agora.
— Saia de perto de mim! — gritou ela, afastando o rapaz com força e tentando correr para algum lugar.
Os pães caíram. Dawn não encontrava nada nem ninguém para ajudá-la, ela nem pensara em levar Lairon ou algum de seus Pokémons para a padaria, e para acrescentar, o sujeito não ficou muito feliz com o empurrão que levara. Ele passou a mão no rosto e lançou um olhar de tamanho ódio que fazia todas as lembranças ruins armazenadas no íntimo voltarem à tona. Era como se seu próprio passado voltasse ali para atordoá-la.
— O que está olhando?
— Você. — respondeu o homem.
— Dê o fora daqui.
— Seria o contrário, eu vim aqui para que vocês desaparecem desse lugar. Este é o meu domínio.
Um dos rapazes ergueu a sobrancelha como se tentasse descobrir ao certo quem era aquele sujeito. Recuou ao poder notar melhor o rosto tão marcado e característico pela feição melancólica. Apenas uma pessoa de Jubilife manteria tanto respeito nas ruas da cidade.
— O q-que está fazendo aqui?
— Eu posso ter o lugar que eu quiser quando eu bem entender, e vocês sabem disso... — respondeu o homem da triste figura, direcionando-se para Dawn a indicando ela com o rosto — A menina. Deixem a menina em paz.
Os sujeitos foram afastando-se aos poucos. Dawn ficou a fitá-los tentando descobrir quem era aquele estranho o homem e porque impunha tanto respeito. Ainda sem perder a calma e a feição triste ele repetiu:
— O que estão esperando?
— Você vai pagar, Dean. Você vai pagar. — respondeu um dos malandros, apontando para homem enquanto se distanciava. Dean arqueou uma das sobrancelhas não gostando do que acabara de ouvir.
— Quer mesmo que eu acabe com vocês como na outra vez, não?
Os rapazes saíram de lá constrangidos procurando evitar mais conflitos. Dawn não acreditou no que acabava de ver. Ela havia conhecido um rapaz chamado Dean quando era mais nova e morou nas ruas, esse rapaz havia sido o responsável por salvá-la de um naufrágio e ainda cuidar dela por um mês que mais parecera um ano. Dean virou-se e a encarou com uma feição triste e que ainda assim tentava ao máximo esboçar um sinal de felicidade.
— Não é possível. É o mesmo rosto que um amigo meu tinha. — sussurrou a menina.
— Dawnzinha... Há quanto tempo... — disse Dean com a voz cansada.
Dawn aproximou-se do homem e para olhá-lo mais de perto. Estava velho, muito mais acabado de quando o vira da última vez, demonstrava a feição sofrida que tinha de costume. Estava mais encorpado e seria praticamente irreconhecível, mas certamente, jamais esqueceria do rosto da menina que conheceu quando era mais jovem.
— Dean, é você mesmo? Mas... Você foi preso, eu pensei que... Eu pensei que...
— O mundo dá voltas. Nunca mais saí dessa vida. Creio que eu continue na mesma situação de sempre, mas agora com um pouco mais de respeito, sabe?
— Você voltou! — gritou Dawn, correndo para abraçar o homem que corou um pouco sem graça. Ele observou os lados para ver se era observado. Ainda não estava habituado a tanto carinho, mas nem por isso deixou de apreciar o abraço como há muito não recebia.
— Não, Dawn, eu não voltei. É você quem voltou para nós.
Dean guiou a menina para uma área fora daquela rua pouco movimentada. Ainda era bem cedo, mas aos poucos o fluxo de pessoas aumentava e tudo se tornava mais seguro, especialmente ao lado de Dean que agora não era apenas um ladrão de comidas, era uma figura de muito mais respeito entre o povo do gueto. Os dois voltaram para a padaria para que Dawn comprasse seus pães de volta. Dean não entrou. O senhor da loja já era um velho conhecido dele e sentiria-se ameaçado ao ver um antigo ladrão com uma menina em sua padaria. O rapaz agora era mais cauteloso, certamente corria tanto quanto antes, mas agora precisava tomar mais cuidado por onde andava na rua.
Assim que Dawn saiu com os pães os dois voltaram a caminhar. A menina voltou-se para ele e perguntou:
— Você não costumava roubar essa padaria quando era mais jovem?
— Todo dia. Mas depois de um tempo o senhor Emanuel deve até ter se acostumado. Hoje ele não liga mais, não mexo com esse tipo de coisa.
— Não muito, né? — riu Dawn, vendo Dean segurar um pedaço de bolo de chocolate envolto em alguns papéis.
O homem entregou o pedaço de bolo para ela que agradeceu com um aceno, em seguida ele enfiou a mão no bolso da blusa e voltou a caminhar. Dawn abaixou esboçando uma feição um pouco tímida. Fazia muito tempo que não o via e era como conversar com um desconhecido novamente.
— Mas me conte sobre você. Nossa, virou uma mulher de verdade, eu não teria reconhecido se não fosse por seus olhos e pelo dom de meter-se em encrenca. Eu a vi assim que chegou na cidade, mas estava apenas esperando uma oportunidade para encontrá-la.
— E por quê não foi falar comigo antes? Digo, por que desapareceu por cinco anos? Cinco anos?! Cheguei a pensar que você tinha morrido.
Dean abaixou a cabeça um pouco pensativo passando a mão na barba sem ter uma desculpa certa.
— Eu fiz isso por você, sabe disso. Não sou do tipo de pessoa aceita pela sociedade, do tipo de gente que pode sair por aí caminhando como se fosse alguém normal. Eu não sou normal.
Dawn ficou quieta, notando que aquilo era verdade. Tudo que Dean fizera era por ela, para o bem estar dela.
Enquanto os dois faziam seu caminho pela praça ele retirou um bichinho de pelúcia que tinha no bolso do blusão, cabia feito uma luva de tão pequenino que era, ou então estavam faltando algumas partes e outros estavam emendadas com muito cuidado por terem sido arrancadas com o tempo. O brinquedo estava muito sujo, se aquilo era um azul no passado então já tinha se tornado cinza empoeirado. Dawn demorou a reconhecer o que era.
— Dean, eu não acredito... Esse era o meu Mudkip de pelúcia... Uma das poucas coisas que me restou de Hoenn... — disse ela, sentindo um imenso aperto em seu coração — Onde o encontrou?
— No depósito abandonado. O último lugar que nos encontramos, lembra? Você o esqueceu lá, e acho que desde então ele apenas ficou a esperar o dia em que pudesse reencontrá-lo.
— Obrigada, de verdade. Eu vou guardá-lo com carinho. Muito obrigada.
Dawn deu-lhe um beijo no rosto agradecendo o presente tão nostálgico e especial. O homem virou o rosto um pouco sem graça e Dawn riu ao notar a timidez aparente dele que não tinha mudado, por isso logo emendou outro assunto para confortá-lo.
— Mas me conte, e a Celia? Como ela está?
— Vivendo a mesma vida de sempre. Você conhece a mulher. Não vai cair tão cedo.
— Eu adoraria vê-la... — respondeu Dawn um pouco pensativa.
Dean soltou um longo suspiro virando o rosto um pouco constrangido ou chateado.
Dean soltou um longo suspiro virando o rosto um pouco constrangido ou chateado.
— Me desculpe, mas acho que ela não gostaria disso. — falou Dean um pouco cabisbaixo, tomando o máximo de cuidado com as palavras que escolhia — Não na situação atual, sabe? A Celia é uma mulher forte, não saberia encarar você da maneira que ela se encontra agora. ...Mas veja só! Você se tornou uma verdadeira moça, certamente, eu poderia dizer que ela ficaria orgulhosa.
— Eu entendo a situação... Mas eu juro, por mais que essa não seja a vontade dela eu ainda voltarei a vê-la. E a Celia não irá acreditar como me esforcei para seguir meus sonhos!
— Sonhos? Conseguiu virar pianista?
Dawn recuou.
— Bom, eu... Estava tentando ser pesquisadora.
— Ah, que bom. — comentou Dean, que provavelmente ainda não entendia a utilidade dos pesquisadores no mundo Pokémon — Parece algo bem... interessante. Mas eu pensei que você tivesse outros objetivos.
Dawn abaixou a cabeça admitindo.
— Eu tinha mesmo... Acho que falhei com a Celia. Vivi alguns anos de minha vida tão presa ao passado que me esqueci de seguir meu coração e fazer o que amo. Não fui capaz de viver como ela queria.
— Ei, ei! Não diga essas coisas. Você viveu, lutou para viver. Isso já faria a Celia ficar extremamente feliz por você. — o homem parou ao colocar as mãos no bolso da blusa, notando algo guardado, então voltou-se para a menina e anunciou — Olha, e eu tinha outra coisa para te entregar, mas só vou entregar se me prometer algo.
— E o que seria?
— Prometa que não vai se deixar se influenciar por nada. Que vai seguir seu sonho e viver intensamente.
Dawn riu, parecia uma promessa simples de ser cumprida daquela que apenas concordamos por nem entendê-las ao certo. Dean emendou o assunto e sacou duas pokébolas que tinha nos bolsos. Parecia que o bolso daquele blusão era capaz de retirar o tudo que ele imaginasse. O homem mostrou as duas pokébolas para Dawn e falou:
— Está vendo? Eram Pokémons de seus pais.
Os olhos de Dawn se arregalaram com mais uma notícia inesperada do homem. Dean era uma figura cheia de surpresas, mas naquele dia em especial tinha algumas a mais do que o normal.
— Como você...
— Na realidade alguém os encontrou antes, mas acho melhor poupar os detalhes, o que você precisa saber é que agora eles estão bem e a salvos. Encontrei essas duas pokébolas, e nelas descobri um Nosepass e uma Mawile. Acredito que eram deles.
— Era sim! Meu pai tinha esses dois Pokémons. Mas, eles estão bem?
— Agora sim, passaram por alguns maus bocados principalmente na questão de alimentação, mas passei a cuidar deles com o tempo e estão mais saudáveis. Mas por sinal, acho que agora é a hora deles retornarem para a garota que realmente os merece.
Dawn olhou para os pokébolas, mas negou com a cabeça. Segurou nas mãos de Dean afastando as cápsulas e tocando no peito do rapaz. Ela disse com palavras delicadas:
— Não posso aceitar.
— Como assim? São os Pokésmons de seus pais...
— Eu sei, mas, ainda não sou forte o suficiente para tê-los comigo. E outra, ainda não cumpri a promessa que acabei de fazer para você. Não vou me deixar se influenciar por nada, vou seguir meu sonho e continuar a viver intensamente.
Dawn segurou as mãos frias do homem com força e olhou a triste feição estampada no rosto Dean.
— Foi você quem cuidou deles, por favor, continue protegendo-os. Guarde-os como um símbolo de nossa ligação, como prova de que voltará a me ver e que algum dia nos reencontraremos.
O homem sorriu e foi aos poucos recuando a mão até guardar as pokébolas no bolso da blusa. Lairon, Leafeon e Glaceon ficariam extremamente animados assim que soubessem que depois de praticamente seis anos dois de seus parceiros de batalha ainda estavam vivos, mas Dawn preferia guardar aquilo até o dia em que realmente cumprisse sua promessa.
— Prometo que viverei sempre dando o meu melhor. — afirmou Dawn.
— Nós dois o faremos.
Os dois se encararam com um olhar terno e carinhoso. Dean nunca chegou a sentir nada pela menina, talvez fosse apenas um apreço tão grande que sua maior vontade era chamá-la de filha, mas não o fez. Dawn virou-se subitamente ao ouvir uma voz conhecida e assim pôde ver Luke surgir todo estabanado como alguém que acabara de ser enviado para uma corrida sem estar preparado.
— Dawn, Dawn! — gritou ele ofegante — Caraca, pode onde esteve? Minha batian me acordou maior preocupada dizendo que você tinha se atrasado seis minutos e que a padaria não ficava tão longe! Ela é louca com horários, pensei que alguém tinha te levado embora. Aconteceu alguma coisa?
A menina virou-se para Dean que abaixou a cabeça e enfiou as mãos inclinando um pouco o rosto para não ser visto. Provavelmente naquele instante ele reconheceu Luke como o possível namorado da garota, alguém que se importava e que principalmente pudesse cuidar dela. Dawn ficou sem falas e não sabia ao certo como explicar toda a história confusa e dramática de sua infância para seu amigo, mas antes, Dean aproximou-se de Luke e apontou para ele:
— Ah. — gaguejou Luke um pouco surpreso — Pode deixar, tio, não vou deixar ela se perder por aí na cidade de novo. Desculpa aí cara, mas quem é você?
— Ele é o meu...
Ele é o meu pai de criação. Foi o que Dawn pensou em dizer, mas a palavra final acabou saindo apenas como um amigo. Quando uma tempestade aproximou-se e o perigo era certo, foi Dean quem alertou todos para voltarem; quando o barco naufragou e todos os tripulantes pensavam apenas em se salvar, foi Dean quem a resgatou; quando todas as pessoas ao lado dela desapareceram, Dean continuou até que o tirassem a força. Ele foi como um pai para Dawn, ele sempre teve sentimentos para com a humanidade, e depositou todas as suas esperanças na garota.
Fez um aceno para a menina e aos poucos foi se distanciando. Virou e foi embora. Dawn ainda o observava implorando para que ele se lembrasse da promessa, e uma última vez ele abanou a mão esboçando sua feição melancólica na tentativa de esboçar um sorriso sereno por trás da vida sofrida que sempre tivera. Luke voltou-se para Dawn e continuou a falar:
— É o seguinte, quando minha batian fala para você voltar em dez minutos, você tem que fazer isso em nove, se não ela pensa que você foi sequestrada. — brincou Luke, notando algo nos braços da menina — Ei, e que coisa esquisita é essa?
— É um brinquedo que eu tinha quando criança. Aquele homem o encontrou e voltou aqui só para me entregar. — sorriu Dawn abraçando o bichinho.
— Que maluco bacana. Agora você tem aquele Piplup que eu te dei em Hearthome e um Mudkip de pelúcia para a coleção. Você podia juntar um de cada região, fala aí.
— Seria muito legal mesmo. Esse brinquedo é muito importante para mim, nunca mais vou perdê-lo. Ele é como um símbolo de esperança, e mostra que mesmo da chuva pode haver um dia bem claro na sequência.
• • •
Dean caminhou pelas ruas de Jubilife que já conhecia muito bem. Caminhou a manhã inteira, seus pés não tinham controle e apenas eram guiados para onde sua vontade o levava. Assim que escureceu ele chegou até uma área afastada que estava fechada mas em breve abriria assim que anoitecesse. Dean entrou no quarto à procura de uma amiga que estava sentada em um quarto simples e pouco iluminado.
Ela tinha traços de alguém que já foi muito bela, e mesmo que agora o tempo e as marcas deixadas por ele se tornassem mais evidentes ainda carregava indícios da juventude terna e delicada; estava um pouco magra e os cabelos despenteados como sempre, tinha as pernas cruzadas cobertas pela meia calça e um olhar perdido a observar o movimento na cidade através de uma pequena janela que parecia ser a única visão que ela tinha do mundo a fora. Dean sentou-se ao lado da mulher que virou-se para ele e sorriu. Ela soltou um suspiro que demonstrava seu cansaço e assim deitou-se no ombro do homem que respirou fundo e segurou nas mãos da moça com ternura.
— É, Celia... Nossa menina cresceu...
Sonata of Awakening

Chovia na mesma intensidade em que lágrimas rolavam do rosto de uma pequena criança. A figura entristecida de uma menina era envolta por cobertores que tentavam protegê-la do forte frio e dos pingos cortantes do lado de fora. Uma mulher a abraçou, tentou aconchegá-la em seu peito e fazer com que dormisse, mas os soluços penetravam no silêncio como se trouxessem todas as memórias do que acontecera naquele último mês a cada suspiro inquietante.
A infância de Dawn se resumira ao pior momento de seu passado, e as notícias ruins vieram todas como uma avalanche que destrói tudo no caminho. Começando pelo primeiro impacto: O velho Ed havia morrido. Um indigente finalmente encontra seu destino, mas aquilo não faria diferença alguma se ninguém ligasse, uma vez que ninguém sabia de sua existência; porém, para alguns sua partida fora dolorosa demais.
Ed era tudo para Dawn. E agora, tudo se fora.
Todo o resto, não havia mais nada. Começando pelos tristes lamentos de seus companheiros que também não conseguiam acreditar que aquele velho cego solidário um dia realmente chegaria a cantar sua última canção, uma melodia de dor e lamento para aqueles que ficavam para trás.
A segunda triste notícia lançara um impacto imediato no coração daqueles ali presentes, Dawn ainda não conseguia entender o peso daquela dor.
— Celia, vamos procurar meus pais, eles podem ajudar. A mamãe tem uma amiga médica, ela pode fazer alguma coisa, pode fazer o tio Ed voltar...
A mulher não lhe dava ouvidos, estava perdida em todas as lembranças que aquele maldito velho lhe trouxera, e de todo o trabalho que também dera. No fim, parecia bom que ele tivesse finalmente ido, uma despesa a menos. Aquela seria a sensação de Celia há pouco tempo atrás, mas desde que uma certa garotinha entrara em sua vida ela nunca mais havia sido a mesma, uma vez que havia aprendido a dar valor àqueles a sua volta. Mais uma vez, ela pôde ouvir seu nome ser chamado:
— Celia, Celia! Não podemos fazer nada?
— Não, querida. O Ed se foi...
— Mas ele disse que iria me fazer melhorar no piano, ele não terminou de me ensinar tudo! Ele disse que cuidaria de mim, e eu o apresentaria quando reencontrasse os meus pais, eu não acredito no que você está falando!
— Dawn! Não consegue entender quando alguém tem de partir?
— Não, não, não!! — ela negava incansavelmente.
— É só isso que sabe dizer? Acha que o velho era imortal? Então digo que não era. Não consegue entender isso? O mundo não é lugar para os fracos, você não sobrevive se for um ninguém, parece que as pessoas nos proíbem de sermos felizes e fazermos o que gostamos!
— O Ed não era fraco!
Argumentar com uma criança não chegaria a nada. Celia ergueu-se num pulo, agarrou sua bolsa e partiu em direção da porta. Dean estava encostado na parede e tentou segui-la com o intuito de perguntar aonde ia, mas a resposta da moça havia sido mais rápida.
— Boa sorte, vocês dois. Eu estou fora disso.
Um fraco grito vindo da boca de Dawn ecoou nos ouvidos da moça, aclamando por seu nome, mas ela já estava farta. Sempre vivera com o ódio, e ele agora dominava seu coração. A impaciência de lidar com aquilo já havia estourado no coração de Celia, e que diferença faria um velho a menos no mundo? A mulher fechou a porta sem olhar para trás, restou apenas Dean com suas sobrancelhas caídas e uma expressão de não saber o que fazer, Dawn correu para abraçá-lo.
— Me leva para os meus pais, Dean. Eu não quero mais ficar aqui.
— Eu levo, criança. Eu levo. — mentia cada vez com uma dor maior.
O rapaz segurou numa das mãozinhas da pequena e desceu as escadas. Deu algumas boas olhadas ao redor, esperava que Celia estivesse ali esperando-os, mas não havia sinal dela. A moça realmente estava decidida a desaparecer da vida dos dois. E agora, Dean estava sem rumo, sem reação, sem consolo dos únicos que conhecia, ele era apenas um ladrão com um anjo entre os seus braços. Ele não poderia contar para Dawn onde seus pais estavam, seria chocante demais para ela.
Os dois voltaram para Sandgem, talvez encontrassem algo no pequeno vilarejo. O velho depósito continuava como sempre, o piano de Ed no mesmo lugar com as marcas empoeiradas de seus dedos calejados e a presença oculta da solidão que lhes agravava ao ver o piano. Dawn começou a chorar quando se lembrou do velho.
— Eu quero os meus pais...
Era Dean quem havia começado toda aquela história. Ele salvara a criança das garras do mar, e por que houvera de roubá-la das águas? Agora o oceano estava em fúria e descontava tudo sobre o sujeito. Seria melhor se ele tivesse largado Dawn lá, e fim de assunto. Nada daquilo teria acontecido, nem ao menos um sinal daquele mês terrível lhe atormentaria para sempre.
As palavras ainda não lhe saíam.
— Dawn, escute, tenho algo a dizer... Os seus pais, eles... Bem, não sei como te explicar, mas eles...
Dawn ergueu os olhos entristecidos e observou o rapaz por um instante. A feição triste dele era mesclada com o sentimento de esperança ao ver uma pequena flor nascer em meio ao concreto. Não havia porque arrepender-se de suas decisões, todas elas se interligam de alguma maneira no futuro.
Por mais que Dean tivesse uma vida difícil ele sabia que tudo que havia feito valera a pena. Aquela criança ao seu lado havia o ajudado a acreditar que havia algo mais certo na vida do que apenas existir. Era preciso viver. Era preciso ter esperança em algo ou alguém.
— Você tem que ser forte, tudo bem? Me promete que vai ser forte?
Dawn abaixou o rosto um pouco pensativa. Aquele dia foi o único momento que Dean pediu algo para a menina. Pediu para que ela fosse forte, que encarasse os desafios do mundo e jamais desistisse, mas Dawn não compreendeu. Ela era nova demais para entender.
— Seu pais não podem voltar... — disse Dean fazendo uma pausa — Não me olhe dessa forma! Ah, é difícil explicar, juro que eu jamais gostaria de estar em uma situação como essa, mas você tem de entender... — ele abaixou o tom de sua voz cada vez mais — Seus pais morreram, Dawn.
A criança não respondeu, primeiramente recuou como alguém que evita ao toque de algo que lhe machuca. Dean tentou segurá-la, mas ela chorou antes, tão alto quanto qualquer outra vez. O rapaz não podia fazê-la parar, e Dawn correu para fora.
— Você está mentindo! — gritou ela várias vezes, embora em seu coração de criança ela já temesse por aquilo.
Nesse momento, dois guardas passavam próximos ao depósito. Uma menininha chorando, um sujeito mal encarado tentando segurá-la, aquilo só significava uma coisa para aqueles dois policiais.
Dean chamou pelo nome de Dawn duas vezes, mas a menina não parou, apenas escondeu-se atrás de um caixote.
— Dawn, me ouça! Não deixe que as coisas ruins te afetem, siga em frente! O Ed lhe disse isso, siga o seu coração e faça aquilo que você gosta!
— Cale a boca, insolente! Tenta assediar a garota e ainda lhe dirige a palavra? E o que temos aqui? Ora essa, é o ladrãozinho de Jubilife que sempre está roubando os bares e padarias, quem diria que de um pobretão em necessidade você chegaria a esse nível.
Dawn correu em direção dos guardas, tentando fazê-los largar Dean. Agora os policiais seguravam o ladrão e de e nada adiantaria sua velocidade.
— Vocês entenderam tudo errado, ele é o meu amigo! — gritou Dawn.
— Você, garotinha, iremos levá-la para onde quer que os seus pais estejam. É perigoso andar por essas bandas sozinhas, por pouco não lhe acontece nada pior! — respondeu um dos guardas.
— Dawn, corra! Não deixe que a prendam sobre quatro paredes, nem que a limitem de seguir todas as regras desse mundo. Crie asas e siga o que ama.
Foram as últimas palavras de Dean. Dawn era pequena, mas tinha pernas longas; foi capaz de despistar um dos guardas e acabou indo para uma área da cidade que não mais conhecia. Olhou para trás vendo se alguém ainda a seguia, e talvez na esperança de ver Dean correr até ela como um jato. Porém, ninguém mais passou por aquela rua naquela tarde.
Os passos da menina foram atrasando até que ela se sentasse atrás de uma parede e apenas esperasse o destino lhe pregar outra peça. Assustou-se ao ver alguém se aproximando e retirando todas aquelas caixas que a escondiam, e então, revelou um largo sorriso ao notar a presença de Celia toda descabelada.
— Finalmente te encontrei, menina. — disse Celia.
— O Dean... Pegaram o Dean... — respondeu Dawn entristecida.
— Ele sai dessa. — mentiu mais uma vez, mas agora Dawn já estava farta de todas aquelas mentiras em suas costas.
— Vocês mentiram pra mim, disseram que eu poderia reencontrar os meus pais, mas o Dean disse que eu não posso mais!! Eles afundaram naquele dia, não foi?!
A primeira reação da mulher foi mentir mais uma vez, mas era maldade demais continuar a enganar a criança. Celia agachou e segurou em uma das mãozinhas da pequena para levá-la para longe, onde fosse mais seguro. Dawn tentava segurar o choro enquanto as dúvidas continuavam a cercar sua mente. Agora eram apenas as duas, de quatro restaram apenas dois e aos poucos o mundo lhe arrancava alguém de sua família.
— O que fazemos, Celia? Ficamos só nós duas? Me ajude a fazer algo, deixe que eu faça o mesmo que você, que eu não seja uma indigente e que os policiais não me peguem! Eu quero ser alguém importante!
Uma das sobrancelhas de Celia se arquearam em enorme fúria, e o ato seguinte não pôde ser controlado. Ela virou e deu um tapa tão forte que Dawn ainda o sentiria depois de anos, mas a criança não chorou. Aquele tapa fora mais um ato de amor e compaixão do que raiva, e então Celia pronunciou-se com uma voz entristecida.
— Nunca diga que quer ser igual a mim, nunca diga isso.
— Mas você é tudo que me restou...
Celia permaneceu perdida em seus pensamentos não tendo ideia do que fazer em uma situação como aquela. Algumas nuvens cinzentas se aproximavam e uma forte chuva era anunciada com o entardecer. A mulher agarrou na mão da pequena e mais uma vez guiou-a para onde seu coração indicava.
As duas chegaram até uma pequena casa com um grande laboratório ao lado. Aquela era a área de estudos de um renomado professor da área, e que por sinal destacava-se muito como um pesquisador. A chuva começou, e as duas seguiram até em frente a porta que tinha uma proteção em forma de arco esculpido em pedras para que as duas se abrigassem da chuva.
A mulher limpou o rosto molhado da menina e a encarou. Dawn desviava o olhar que a todo momento obrigava Celia a segurar em seu rosto implorando para que prestasse atenção. Ela segurou nos ombros de Dawn e a encarou:
— Dawn, querida, me ouça. — disse ela, vendo os olhos dispersos e chateados da pequena — Me ouça! Não chore, suas mágoas irão passar, lembra-se da canção?
— Mas eu quero ficar com você... — repetiu Dawn.
— Eu não posso, eu não desejo isso. Às vezes precisamos sacrificar algumas coisas para um futuro melhor... O Ed tornou-se nada para fazer com que tudo que ele tinha ganhasse valor. Foi isso que ele escolheu para a vida dele, e assim como eu, quero que você se torne uma linda mulher!
Dawn abraçou Celia que a envolveu com braços de mãe que a mulher nunca mais viria a ter. Nunca amou tanto uma criança quanto aquela, e sabia que provavelmente não mais veria Dawn fora de suas lembranças e seus sonhos. Celia bateu na porta três vezes, aguardou pacientemente até que um velho fosse atender.
O Professor Rowan provavelmente estava para expulsar aquela moça da frente de sua casa, mas havia uma criança ao lado de Celia. Uma pequena garota. A mulher estava ofegante e cansada, os cabelos mal cuidados e as roupas completamente encharcadas. E em sua frente a pequena Dawn. Precisava pensar cautelosamente em palavras que não dessem a ideia de que ela apenas queria abandoná-la, quando na verdade sua intenção era salvá-la do tormento das ruas.
— Você é o Professor Rowan, certo?
— O que quer aqui? Quem é você? — indagou o velho um pouco assustado.
— Li no jornal a sua entrevista sobre o naufrágio do barco clandestino, e eu soube que um grande pesquisador, amigo seu, veio a desaparecer nas águas turbulentas do mar. Esta é a Dawn, a filha dele.
Rowan ficou estático, não acreditando ao certo que o maior tesouro de seu falecido amigo fora salvo, e agora ressurgia como se todas as suas preces tivessem sido atendidas.
— Torne essa garota alguém na vida.
Não houve despedida. Celia entregou a criança nas mãos do velho e saiu de lá correndo, e ainda que as palavras de sua boca mal saíssem coerentes desejou de todo seu coração que Dawn tivesse um futuro próspero quando crescesse.
— Faça aquilo que ama.
A mulher correu em meio à chuva que engrossava e aos poucos desapareceu. Contornou uma casa como se fugisse de algo, ou apenas lamentasse não ter tido a oportunidade de propor uma vida melhor à uma menina que tanto amou. A chuva continuou, continuou, e continuou praticamente por toda a noite. De quatro, agora restara apenas um. Mas enquanto um lutasse para viver haveria a oportunidade de um novo começo; Dean, Celia e Ed acreditavam na esperança, e quando tudo apontava para que eles desistissem foi a esperança que se manteve em pé. The Dawn of a New Day. O amanhecer de uma nova manhã.
• • •
A noite não calou-se, e por longas horas a menina ardeu em febre e descansou sobre o leito da casa do velho professor. Quando despertou estava em uma fofa cama de cor amarelada, e próximo à janela estava um senhor com um cachimbo e olhos graciosos. O professor Rowan já estivera em melhores dias, mas pelo menos o tempo lhe dera muito renome e experiência compensando a falta de saúde. Naquele dia, o sentimento de gratidão por saber que Dawn estava bem fazia com que o velho se esquecesse de todos os seus problemas.
— Onde estou? — indagou a menina.
— Em Sandgem. São pouco mais das dez da manhã do dia vinte e sete de outubro, se quer saber. — disse um velho homem, soltando um longo suspiro sem desviar seu olhar da janela — Você é uma figura abençoada, minha pequena Dawn.
— Quem é o senhor?
— Provavelmente não irá lembrar-se, mas eu a vi quando era apenas uma menininha. Sou amigo há tempos de seu pai, e sofro muito pelo falecimento dele. Presumo que ainda queira descansar, é um processo difícil de recuperação.
— Ela me deixou... — respondeu Dawn, sem dar muita atenção àquilo que Rowan dissera. O Professor levantou-se e enfiou as mãos no bolso do jaleco.
— Refere-se àquela moça?
— Sim, a Celia... Ela me abandonou... Assim como todos os outros...
— As pessoas fazem esforços por amor, Dawn, elas deixem de fazer aquilo que amam por quem realmente amam, consegue entender o que digo?
Dawn abaixou a cabeça refletindo sobre o que o Professor dissera, mas aquela mensagem só faria sentido quando ela tivesse mais maturidade, ainda que as palavras tivessem sido fixadas em sua mente.
Rowan caminhou até um armário que havia ao lado da cama e retirou alguns doces. Entregou-os para Dawn, que não via um daqueles desde que chegara à Sinnoh. O velho riu ao ver a expressão de felicidade da menina mudar tão rapidamente. Ela já havia sofrido demais como uma adulta, agora deveria apenas voltar a agir como uma criança.
— Eu não queria tocar neste assunto, mas acho importante que saiba. Nós pensamos que você estivesse morta, havia apenas um sobrevivente até então e cinco pessoas desaparecidas. Aqui, em minhas mãos, tenho os últimos pertences de seus pais.
Havia três pokébolas com o Professor, que mais tarde revelariam ser Glaceon, Leafeon e Lairon. Três dos Pokémons presentes na equipe de seus pais, ainda que alguns tivessem desaparecido, e provavelmente nunca mais fossem encontrados. As palavras mal saíram da boca da menina, que logo começou a chorar.
— São os Pokémons da mamãe e do papai...
Dawn cambaleou colocando a mão no rosto para evitar mostrar o quão feliz estava com aquela notícia. Era muito bom ver que algo de seus pais estava seguro, eram suas últimas lembranças. O professor segurou no ombro da menina para que ela se deitasse.
Dawn cambaleou colocando a mão no rosto para evitar mostrar o quão feliz estava com aquela notícia. Era muito bom ver que algo de seus pais estava seguro, eram suas últimas lembranças. O professor segurou no ombro da menina para que ela se deitasse.
— Minha pequena, descanse... Entenda que eu estou aqui agora, e dê graças aos céus por estar viva e com saúde! Vamos fazer alguns exames amanhã, ver como você está por dentro. — comentou Rowan logo fazendo um sinal de alívio — Ora, e por Arceus! Fico a imaginar como sobreviveu todo esse tempo nas ruas.
— Meus amigos cuidaram de mim. — respondeu ela, tentando forçar um sorriso. Rowan acenou algumas vezes positivamente, e então disse:
— Devo dizer que você encontrou anjos, minha querida. Os seus anjos da guarda, e acredite, eles nunca deixarão você. Assim como seus pais. Nunca se esqueça disso.
O tempo passou, e com ele a vida de Dawn começou a voltar a caminhar gradualmente. Com passos lentos e cuidadosos a pequena começou a viver ao lado do Professor Rowan auxiliando-o como sua assistente nas pesquisas. Tanto que em sua vida como pesquisadora o velho homem fora uma importante peça para suas decisões. Certo dia ele perguntou:
— Diga-me uma coisa, Dawn. Pretende seguir o mesmo caminho de seu pai? Você seria uma excelente pesquisadora.
— Para falar a verdade, eu nunca gostei do ramo, Professor. Mas se for para ajudar o senhor, então posso agir como sua assistente.
— Não lhe obrigo a seguir isso, mas sabe como são os dias de hoje. Crianças que sonham em serem treinadores e coordenadores, quase que como sonhos automáticos; mas devo dizer algo, ouça apenas o seu coração.
— E como eu posso ouvi-lo, Professor?
— Deixe o tempo dizer.
Alguns dias mais tarde voltou ao depósito para tocar piano escondida. Aprendeu seus esquemas sozinha e com livros que o velho Rowan lhe dava. Mas sentia aquilo mais como um hobbie do que um sonho. Na verdade ela ainda não sabia diferenciar os dois, e sentia falta do apoio para seguir um dos caminhos. Chegou a mudar de sonho várias vezes, ganhou até mesmo um Pokémon, seu Piplup, para acompanhar em jornada.
— Quero sair em uma jornada agora! Este será meu novo sonho!
A vontade se perdeu pouco depois. Aquele suposto sonho esvaiu-se até tornar-se lembranças da infância, de suposições que fazemos ao ver todos os demais fazendo o mesmo. A verdade é que ela tinha muito tempo para decidir o que realmente queria ser, mas chegou um dia em que deixou de ouvir seu coração. E agora, parecia que todos queriam opinar sobre o que ela queria e deveria ser.
A cada ano que passava Dawn desempenhava melhor os seus deveres como pesquisadora, mas o próprio Rowan sentia que aquele ainda não era o caminho dela.
— Esses dias eu estava me perguntando, qual é o seu maior sonho? — perguntou Rowan.
— Tornar-se uma grande pesquisadora. — respondeu ela, quase que de forma automática.
— Sabe, você desempenha isso muito bem, mas eu não a vejo amar o que faz, por isso acredito que apesar de ter muitas habilidades na área você tenha outros objetivos. Talvez algo adormecido que não tenha sido despertado... — assentiu o velho.
— Ora, Professor. Que pergunta tola, todo jovem pesquisador em Sinnoh desejaria ser seu assistente. Muitos querem ser treinadores, coordenadores, e têm grandes sonhos com isso. Todo mundo quer.
— Mas você não é todo mundo.
Ele estava certo. E agora? Dawn abaixou a fronte e admitiu:
— Sinto que se eu não me tornar o que a sociedade quer então serei uma pessoa fraca, e os fracos não tem lugar nesse mundo. O mundo não é lugar para um coração frágil como o meu...
— Então pegue-o, e tente mais uma vez.
O Professor levantou-se e tocando nos ombros da menina disse com insistência:
— Você tem que encontrar o que você ama. Não pare de procurar.
Dawn abaixou e esboçou um sorriso, mas ainda assim não conseguiu dizer o que realmente queria para sua vida. Almejava ser pianista, um segredo oculto em seu coração que nunca foi capaz de compartilhar com ninguém. Era apenas uma vontade que permaneceu adormecida como um dom que certas pessoas nascem para ter. Mas ainda assim as sábias palavras que o Professor dissera permaneceriam caminhando ao lado de Dawn até o momento em que ela mais precisasse: Você tem que encontrar o que você ama. Não pare de procurar.
Uma flor nasceu e desabrochou. Foi sufocada no concreto, mas um dia ela ainda ergueu-se para que viesse a se tornar a mais bela flor com sentimentos guarnecidos numa caixa branca. Dawn viveu na rua, mas não veio a passar fome de comida, e sim, de viver. Ela deveria passar a ter fome de vida. Aprender a tocar piano parecia algo tão fútil a princípio, então para que Dawn usaria aquilo em sua vida? O futuro é incerto, e por isso devemos acreditar que todos os pontos se ligarão de alguma maneira. Continue à procura daquilo que ama, não descanse.
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Duke's Theme + Atros' Theme
I Believe I Can Fly
Duke's Theme
Duke's Theme
"Eu costumava pensar que eu não pudesse prosseguir.
E a vida não era nada, além de uma temível canção
Se eu posso ver isto, então posso fazer isso,
E se eu só acreditar, nada poderá me impedir.
Eu acredito que posso voar
Eu acredito que eu posso tocar o céu
Penso nisto todos os dias e noites
Esticar minhas asas e voar...
Eu acredito que eu posso elevar-me
Eu me vejo correndo, atravessando uma porta aberta
Eu acredito que posso voar!
Eu acredito que posso voar!"
"E quem é você, o senhor orgulhoso disse,
Que eu devo me curvar tanto?
Apenas um gato de um casaco diferente,
Essa é toda a verdade que eu sei.
Em um casaco de ouro ou um casaco de cor vermelha,
Um leão ainda tem garras,
E as minhas são longas e afiadas, meu senhor,
Tão longas e afiadas quanto as suas.
E então ele falou, e então ele falou,
Esse Senhor de Castamere,
Mas agora as chuvas choram em seu salão,
Sem ninguém lá para ouvir.
Sim, agora as chuvas choram em seu salão,
E nenhuma alma à de ouvir."







































