The Post-Game 2


Café preparado, documentos organizados e crianças dormindo; finalmente teria algumas horas de paz. Com o tempo fresco, a quietude e o sossego que somente uma humilde mansão na Resort Area poderia oferecer, tudo colaborava para uma noite produtiva.

Dawn respirou fundo e esparramou-se em sua cadeira no escritório. Separara aquela noite especialmente para avançar no TCC depois de uma semana alvoroçada. Soprou o ar quente que subia da xícara e sentiu o aroma forte de café só deixaria aquela poltrona quando o dia estivesse clareando e houvesse pelo menos trinta páginas concluídas e revisadas.

Tec, tec, tec. O som do teclado do notebook era um deleite para seus ouvidos, sinal de que estava dando resultados. Sem distrações, apenas pilhas de anotações, notas de rodapé e folhas espalhadas pela mesa; nunca antes imaginara que gostaria tanto da vida acadêmica. Bem, tinha de admitir que estava um pouco exausta, já não se preocupava tanto com a aparência quanto em seus primeiros anos na Unisyno, afinal, quem estava tentando impressionar? Sua musa estava ali, no quarto ao lado, adormecida no sofá com o volume da televisão bem baixinho, e ela continuava a amá-la do jeitinho que era.

Dawn estava no penúltimo ano de faculdade — em breve, pesquisadora, quem diria! Seus colegas teriam duvidado, gente que vivia na pacata Sandgem e não tinha grandes ambições de vida. Seus pais estariam orgulhosos.

Nos três anos que se passaram, não tivera a chance de presenciar grandes aventuras como quando era adolescente. Acabara de voltar de seu estágio na misteriosa Ilha Pokémon, recomendação do renomado Professor Carvalho, e aquela experiência inusitada foi o mais próximo de uma verdadeira “Aventura” com A maiúsculo. Durante a estadia se deparara até mesmo com Vivian e Stanley, seus companheiros de viagem havia tanto tempo. Era uma saudade atrás de outra.

E agora estava ali, de volta à rotina. Até que gostava daquela vida.

Tec, tec, tec, tec, tec.

Dawn verificou as anotações que trouxera da ilha. Sua tese era focada em DNA e estudos do lendário Pokémon Mew, muitos deles deixados pelo próprio Samuel Carvalho. As folhas estavam sujas e amareladas, Dawn folheou cada anotação feita a lápis e sorriu ao pensar como a tecnologia havia evoluído nos últimos anos. E pensar que nos dias atuais tudo aquilo cabia em um pendrive, ou até mesmo na nuvem! Como é que os Pesquisadores Pokémon do passado conseguiam se virar?

Uma das páginas estava abarrotada e com orelhas de tanto que fora usada. Anotado à mão em um canto havia um link com login e senha. Curiosa por nascença, Dawn decidiu investigar.

A página levava a um site de aparência rudimentar. Parecia uma espécie de fórum onde pesquisadores do mundo todo compartilhavam seu conhecimento sobre os mais variados assuntos, o PokéScience, fundado em 1998 nos tempos da internet discada e continuava ativo até os dias de hoje.

Dawn mordiscou a unha do dedão. Não faria mal dar uma olhadinha.

 

Login: samuelcarvalho@hotmail.com

Senha: agatha

 

Acesso permitido. Sentiu-se uma verdadeira “hacker”.

Apesar do aspecto antiquado, o site era uma verdadeira porta de entrada para arquivos e PDFs acadêmicos que não existiam em nenhum outro lugar da internet — nada de pesquisas rápidas e de origem amadora, ali havia conteúdo redigido por grandes nomes como Dr. Elm e Aurea Juniper. A conta de Carvalho não era atualizada havia pelo menos sete anos, mas a quantidade de documentos que ela poderia usufruir através da conta era insana.

Por onde começar? Estava tão empolgada com o acesso à tamanha fonte inesgotável de informações que começou a divagar: imaginou-se Profª Dawn, entregando os iniciais para novos treinadores na região de Sinnoh.

Foi então que uma mensagem privada inesperada pipocou na tela, escrita por um usuário anônimo:

“Olá.”

Dawn franziu o cenho. Devia ser algum tipo de spam, então preferiu ignorar, mas as mensagens continuaram:

“Você não é o dono dessa conta, como entrou aqui?”

Devido ao susto a garota pensou em desligar o computador e nunca mais ligá-lo, mas sua curiosidade a incentivou a dar continuidade à conversa:

“Encontrei o login e a senha para essa conta em um documento antigo. Vou deslogar.”

“Não. Por favor, fique. É que faz muito tempo que ninguém entrava aqui”, digitou o usuário anônimo. E logo deu sequência: “Estranhei que o último acesso havia acontecido havia tão pouco tempo. Você é o neto do Profº Carvalho?”

Dawn pensou antes de responder.

“Não. Sou apenas uma estagiária.”

O usuário amenizou o clima com uma sequência de risadas.

“Ah, sim, então é você! Bom saber. Pode me chamar de Caronte.”

“Como o barqueiro da mitologia?”, digitou Dawn.

“Precisamente.”

Fez-se um longo intervalo até que o usuário anônimo voltasse a digitar algo, mas sua última mensagem pareceu confusa e misteriosa.

“Obrigado por acessar essa conta hoje. Significa muito. Nos vemos qualquer hora.”

Dawn estava para digitar a resposta quando ouviu uma voz vinda de trás:

— O que você está fazendo?

A garota deu um pulo da cadeira, bateu na mesa e fechou as abas do navegador tão depressa que Cynthia até recuou. Dawn sentiu seu coração disparar como se estivesse fazendo algo proibido. Suas atitudes tornavam tudo ainda mais suspeito.

A loira estava descabelada e sem maquiagem, mas sua beleza continuava estonteante. Embriagada pelo sono, Cynthia coçou a cabeça e comentou:

— Desculpa, não queria te assustar. Só vim dar boa noite — disse a mulher, bocejando logo em seguida. — Obrigada por colocar a Verity para dormir, peguei no sono no meio do episódio e só acordei agora com a mensagem do Natuflix: “Você ainda está assistindo?”.

— Tudo bem. A gente continua o episódio amanhã — respondeu Dawn de um jeito apreensivo, como quem quer encerrar a conversa.

Cynthia arqueou a sobrancelha, olhou a tela inicial do notebook sem nenhuma aba aberta e depois voltou a encarar Dawn em sua frente.

— O que você estava assistindo?

Dawn não conseguia nem piscar, tinha até começado a suar. Cynthia riu em sua frente como uma mãe que acabou de pegar o filho fazendo arte e acaba se divertindo junto. Ela apoiou os braços na mesa, chegou bem perto da orelha dela e sussurrou no seu ouvido de maneira sensual:

— O que acha de vermos algo mais quente juntinhas?

Dawn respirou fundo e chegou à conclusão de que não conseguiria mais escrever o TCC naquela noite.

 

i

 

Dawn não voltou mais a acessar a conta. Escreveu algumas páginas para seu TCC, mas estava difícil se concentrar com tanta coisa acontecendo na sua cabeça. Por mais que já fizesse anos desde que Cynthia cedera o posto de campeã de Sinnoh, ela ainda recebia visitas frequentes de figuras de renome e comparecia a bailes e festas em prol de organizações dos mais variados tipos, e fazia questão de que Dawn fosse junto e a apresentasse como “sua namorada”, pois não tinha nada a esconder. Durante alguns meses as duas passaram por momentos difíceis com a mídia colada e fãs obsessivos nos muros de sua casa, todos à procura de qualquer foto ou momento oportuno para jogar nos sites de fofoca. Dawn não estava acostumada com aquela vida, no começo foi difícil, mas quando o anúncio se tornou público logo a graça se perdeu e os perseguidores foram atrás de novas manchetes.

— Daqui alguns anos seremos só nós duas. E a Verity — Cynthia lhe disse certa vez, suas mãos entrelaçadas. — Nós precisamos encará-los de frente para essa gente chata parar de tentar cuidar da vida dos outros. Se tentarmos fazer tudo em segredo, eles continuarão indo atrás. É por isso que quero que esteja ao meu lado nessas horas.

— Eu não me importo. Quero construir minha vida com você.

Dawn vinha experimentando uma paz e tranquilidade que não sentia desde que morara em Dewford quando criança. Cynthia ainda cumprimentava um fã ou outro quando saía cedo para se exercitar de cabelo amarrado e calças legging (ela conseguia parar a vizinhança inteira), e no fim ainda era arrastada para uma longa e tediosa batalha Pokémon. Sempre as recusava, pois não queria mais batalhar com ninguém. O que tinha a provar? Deixava o cinto com suas Pokébolas na cabeceira da cama e durante o período da manhã soltava todos eles para se divertirem um pouco. Sua Garchomp gostava de tomar sol no jardim ao lado de Roserade, a Milotic se banhava na piscina, o Lucario ajudava com os afazeres de casa... Todos eles adoravam aquela vida pacata e singela.

Era uma terça-feira comum. O dia estava lindo, Groudon caprichara no calor e a piscina parecia convidativa. O que poderia acontecer de errado?

Esparramada no sofá com seu Piplup no colo, Dawn só conseguia pensar no cheirinho maravilhoso que vinha da cozinha. Cynthia além de linda, bem sucedida e inteligente ainda era uma exímia cozinheira. Aquela combinação era um verdadeiro ultraje! Arceus de fato tinha seus favoritos.

Foi quando a campainha tocou.

— Môr, pode atender a porta? — Cynthia gritou lá da cozinha.

— Você pediu alguma coisa? — Dawn perguntou.

— Não, mas podem ser os Staraptor da entrega. Encomendei um livro novo que Steven me indicou. Abre pra mim, por favor?

Dawn colocou seu Piplup no chão e levantou-se descalça — quando deixava o pinguinzinho no colo, seu corpo ficava fresco e gelado —, agora estava quase derretendo. Duke também não gostou de voltar para o chão, por isso foi seguindo sua treinadora até a porta por vias de curiosidade.

Ao atendê-la, Dawn se deparou com um homem esquisito de barbicha e uniforme. A van dos entregadores estava logo atrás, mas não tinha logo algum.

— Dawn Manson? — perguntou o homem.

— Sim — ela confirmou com a cabeça, desconfiada.

— Assina aqui, fazendo o favor — disse ele, retirando um pedaço de pano e enfiando-o tão depressa na cara da garota que ela mal conseguiu recuar.

Dawn levou um susto com a arrancada súbita, mas o cheiro de clorofórmio impregnou suas narinas e ela apagou na mesma hora.

O homem dos correios e a segurou para evitar uma queda barulhenta e fez sinal com a cabeça para que seus comparsas entrassem na casa. O Piplup se escondeu debaixo de uma estante, amedrontado, pois não fazia ideia do que estava acontecendo.

O homem tirou o boné dos correios e entrou na casa. Era um lugar muito agradável, ficava afastado até mesmo dos condomínios de luxo então provavelmente nenhum vizinho seria alertado. Enquanto dois deles investigavam o andar superior, o outro capanga apontou para a cozinha e fez menção com um gesto que insinuava:

“Tem gente ali.”

— Vamos embora sem causar tumulto. Só encontrem os documentos — respondeu o líder.

Quando os outros dois desciam as escadas, um deles tropeçou e saiu rolando para uma queda e tanto — alguém havia puxado sua perna. Os invasores se viraram surpreendidos, Cynthia não estava escondida na cozinha. Diversos papéis repletos de informações se espalharam pelo corredor enquanto o líder da operação dava ordens para os demais.

— Saiam daqui! Peguem a garota e esperem o meu sinal!

Além dos documentos, Cynthia percebeu que os ladrões haviam pego o que ela mais temia: seu cinto de pokébolas. Justo naquela tarde nenhum de seus Pokémon estavam soltos e ela não conseguiria chamar ninguém para ajudar.

— Veja só, uma mulher encurralada feito um Pokémon acuado — disse o homem num tom provocador. — Tire os monstrinhos de bolso do treinador, e o que sobra?

Cynthia equilibrou-se na perna de trás e ergueu a outra, acertando com tanta força no queixo que o homem caiu para trás e colidiu com um armário que caiu em cima dele.

— Uma ex-campeã rica, influente, independente e bem treinada nas artes marciais — respondeu ela. — Devolvam-me a minha garota.

O homem sacou um canivete do bolso, a ponta da lâmina pingava um líquido roxo o que indicava que havia sido envenenado por algum Pokémon. “Veneno de Skorupi”, pensou Cynthia.

— Eu me lembro de você — disse a mulher. — A invasão ao Hotel Deluxe Heart. Você era um dos envolvidos. Eu não estava no dia, mas na época ainda era campeã e fui informada pelos membros da Elite dos 4 do ataque.

— Ah, a senhorita tem boa memória — ele respondeu de forma ríspida. — Petrel é o nome. Passei uns anos refletindo na cadeia.

Petrel? Aquele não era um dos administradores da extinta facção dos Rockets que vinha causando tumulto por todas as regiões do Mundo Pokémon havia tanto tempo? Dawn lhe contara da vez em que os Irmãos Wallers se envolveram com eles, o que resultou no famoso Arco dos Clones e a destruição da Ilha de Ferro. Era uma das histórias que a garota mais se orgulhava de contar apesar de mal ter feito parte da experiência toda. Tudo havia começado com o sequestro de um dos Wallers, e parecia que os Rockets voltavam a investir no ramo. Jamais deixaria que o mesmo acontecesse com Dawn.

O criminoso avançou com o canivete e Cynthia se defendeu com um golpe de krav maga para desarmá-lo. Torceu o punho do homem e a lâmina caiu longe. Tentou imobilizá-lo com os braços, mas Petrel parecia diferente do sujeito descuidado de antes; estava alto e troncudo, com tatuagens que cobriam o braço até parte da lateral de seu rosto. Em seus olhos ele não carregava mais a expressão de um cara sacana, e sim, de um assassino convicto em cumprir com sua missão.

— Eu vou te mostrar como a prisão muda as pessoas.

O pobre Piplup continuava espremido embaixo do armário. Petrel acertou um murro tão forte no abdômen de Cynthia que ela tombou para trás junto do sofá, depois chutou-a com a ferocidade de um lutador e a puxou pelo cabelo, aproximando-se dela como se quisesse ser envolvido por seu cheiro.

— Que desperdício, vocês duas juntas. Com tanto homem passando vontade...

Enfurecida com a afronta, Cynthia revidou com uma rasteira que o derrubou no chão, Petrel bateu a cabeça na mesa de vidro que se espatifou, espalhando cacos por todo o carpete. Ele berrou de dor e rolou para o lado por cima do sangue respingado.

Cynthia pensava desesperadamente em uma forma de recuperar seus Pokémon. Sem eles era só questão de tempo até que os homens de Petrel decidissem fugir e levar Dawn como refém.

— Você não pode dar conta de todos nós — disse Petrel num tom provocativo. — E nem estar em todos os lugares.

Cynthia arregalou os olhos. Onde estava sua filha?

Petrel correu para recuperar o seu canivete, mas foi interceptado por uma cabeçada forte de Duke, o Piplup de Dawn. Mesmo amedrontado, o pinguinzinho não poderia continuar parado sem fazer nada. Com o canhão de água ele o arremessou contra a parede e inundou a sala, permitindo que Cynthia corresse para a varanda onde se lembrava de ter visto Verity brincando pela última vez.

Ela não estava lá. Correu desesperada pelo quintal, contornando a rua vazia quando avistou a garotinha sentada na beira da calçada com um par de fones de ouvido enormes e um vídeo game portátil na mão. Ao seu lado, um velho parecia lhe dar instruções com a voz mansa:

— Isso, boa menina. Está se saindo bem. Isso não é divertido?

Cynthia sentiu o corpo estremecer .Ao perceber que estavam sendo observados, o velho virou-se para trás e falou:

— Ah, olá. É sua filha? Garota esperta, a danada conseguiu passar de uma fase que estou empacado há meses. Essa geração é muito precoce, não acha?

— Verity... venha para cá — ordenou Cynthia. — Vem com a mamãe.

Mas a criança não ouvia, absolvida pelo aparelho. O som parecia ter sido deixado alto de propósito. O velho levantou-se, limpou a sujeira de seu jaleco e estendeu a mão para cumprimentá-la.

— Me chame de Profº Charon. Eu costumava trabalhar para os extintos Galactics. Você deve ter conhecido o meu amigo Petrel e, como deve ter percebido, o que nos une é o fato de sermos tudo que sobrou do que no passado foi duas das facções mais poderosas do Mundo Pokémon.

Cynthia sentia como se suas mãos estivessem atadas. Uma gota de suor escorreu pelo rosto.

— O que querem comigo? Dinheiro? Eu pago o que for.

Charon revelou um sorriso torto com seus dentes amarelados.

— Não preciso disso, querida. Vim só pegar emprestado a sua amiguinha. Sabe, há algumas semanas eu rastreei o IP do computador da sua casa e descobri que a Srta. Manson tinha em posse alguns documentos sigilosos. Não foi muito difícil descobrir tudo sobre a vida de vocês duas, afinal, estamos falando de uma celebridade!

Cynthia olhou para trás e viu que Petrel retornava vitorioso de sua batalha contra Duke. Ele chutou o Piplup ferido para fora da casa e saiu arrastando a perna.

— Merda de Pokémon inicial, como eu odeio eles! Deve ser porque nunca ganhei um...

— Ah, Petrel, já terminou? Então estamos de saída — disse Charon, voltando a atenção para Cynthia. — Escute, querida. Nós não queremos fazer mal a ninguém. Eu prometo que trago a Srta. Dawn de volta sã e salva na semana que vem, nesse mesmo horário e local, mas você precisa cumprir com a sua parte e não avisar a polícia. Pense nisso como a continuação do estágio dela, viu como sou generoso? Se você avisar a polícia e eles vierem atrás de nós, a sua amiga vai se machucar. Sabemos onde você mora, e mesmo que tente se mudar, eu vou descobrir e encontrá-la de novo. E aí mais gente vai se machucar, como essa florzinha... — A mão enrugada do homem acariciou os cabelos de Verity.

— Olha, mamãe, passei de fase! — disse a criança contente.

Cynthia tremia de raiva. Verity só tirou os fones quando se deu conta das condições.

— Mãe? Por que você está tão machucada? O que está acontecendo?

— Mamãe caiu da escada — Cynthia respondeu com a voz doce.

— Sorte que estávamos por perto, não? — Charon mexeu nos cabelos da criança. — Ouça Verity, cuide direitinho da sua mãe enquanto ela se recupera, ouviu? Como eu havia dito para você, vou precisar levar a tia Dawn para fazer um trabalhinho, mas ela volta. Até lá, comporte-se, ouviu?

Petrel abriu a porta traseira da van e Charon saltou para trás. Os dois ainda encaravam Cynthia, como se quisessem se certificar de que ela não iria começar a gritar ou ligar para a polícia. Haviam levado Dawn e as pokébolas contendo seus seis Pokémon, incluindo seu Garchomp, mas no momento só conseguia pensar na segurança de sua pequena.

Cynthia abaixou-se para abraçá-la e começou a chorar.

— Tá tudo bem, mãe... tá doendo muito? Você disse que eu preciso ser uma mulher forte quando crescer, e que mulheres assim não choram... — disse Verity, retribuindo o abraço dela e beijando seu rosto machucado como se tivesse poder para curá-la.

— Me desculpe... eu nunca mais vou deixar que algo assim aconteça a você — lamentou Cynthia. — Você passou por tanto desde que nos conhecemos... você trouxe mais brilho à minha vida.

Cynthia verificou o bolso da calça para ter certeza de que seu celular continuava ali e só conseguiu pensar em um número para ligar.

 

ii

 

Todo mundo lhe dissera que tornar-se campeão era o final da jornada. Mas ainda havia tanta coisa para se descobrir!

Luke Wallers estava abismado com o tamanho do mundo. Nos três anos que se seguiram aventurando-se com seu irmão, conhecera treinadores muito mais poderosos do que ele, vira paisagens únicas e belas, mas nenhuma como os cartões postais de Sinnoh. Ainda amava sua casa.

Desde que voltara de suas viagens por Hoenn e Alola, Luke uniu-se ao seu velho amigo de infância, Stanley, para cumprir um desafio inusitado. Em uma dessas reuniões de domingo na casa de seus pais, tio Glenn acabou mencionando o quanto a Battle Tower era desafiadora e como poucos treinadores na história haviam alcançado o 100º andar com uma sequência de cem vitórias consecutivas. Seria mais uma estrela dourada para seu Cartão do Treinador, cinco delas e receberia a Black Deluxe Edition, um luxo de dar inveja em qualquer um.

— DU-VI-DO que você consiga ganhar dos cem andares seguidos — disse tio Glenn como quem só quer provocar.

E Luke não gostava de ser desafiado.

48º andar, 48ª vitória. A última vez que sentira suas mãos tremerem tanto havia sido na batalha contra Ike Smithsonian na Liga Pokémon. Stanley se aquecia no banco ao lado, preparava os três Pokémon mais fortes de sua equipe, pois estavam fazendo batalhas em duplas. Fire Tales e Red Fortress reunidos, os holofotes todos centralizados nele.

— Parece até que o meu coração vai sair pela boca — disse Stan a um dado momento. — Você sabe quem está no 50º andar, não sabe?

— Tô ligado — respondeu Luke. — Seu pai.

Palmer Tycoon. Nos tempos de Walter Wallers, diziam que ele havia sido um dos poucos a derrotá-lo de igual para igual em inúmeras ocasiões. Oficialmente Walter teve sua revanche durante a Liga o que coroou o campeão naquela temporada e o pôs na frente. Palmer decidiu não tentar outra vez, mas especializou-se em outras técnicas e dizem até que capturou Pokémon lendários.

— Só mais uma. Só mais uma — repetiu Stanley. — Depois de hoje, vou precisar de uma semana para me recuperar, pode ser? Prometi para a Vivian que ia passear no domingo com ela, talvez assistir aquele desenho Como treinar seu Charizard 3 que tá em cartaz.

— Tá tranquilo — Luke respondeu. Sempre fora de poucas palavras em momentos cruciais, pois concentrava todas suas energias na batalha que estava por vir. — Quando foi a última vez que encontrou teu pai?

— Acho que já tem uns três anos... — mencionou Stanley. — A gente não se fala muito.

— Deve ser estranho ter pais divorciados.

— Até que não. Ele sempre auxiliou no que eu precisava. Foi por causa da indicação dele que o Profº Rowan me colocou na frente para receber meu Turtwig. Mas encará-lo assim em uma batalha vai ser como enfrentar um completo estranho.

Luke balançou com a cabeça, compreensivo. Seu PokéNav vibrou. Verificou a ligação — número desconhecido. Estava acostumado a ignorar números privados desde que seu pai começou a receber com frequência trotes de gente idiota insinuando que haviam sequestrado seus filhos, exigindo quantias absurdas de dinheiro enquanto ele e Lukas estavam no quarto ao lado assistindo TV.

— Você não vai atender, vai? — perguntou Stanley. — A batalha, cara. Foco na batalha.

Luke respirou fundo. Algo em seu coração pediu que atendesse. Ele levou o celular à orelha.

— Fala.

Ele ouviu a voz de uma mulher, chorando baixinho.

— Luke, graças à Arceus você atendeu... É a Cynthia, eu... Preciso da sua ajuda.

— Cynthia? O que aconteceu, por que essa voz? — ele questionou, cheio de preocupação. Ele a considerava praticamente sua segunda mãe. Ouvi-la daquela forma lhe deu um tremendo aperto no coração, pois nunca a ouvira chorar.

Cynthia tentou contar-lhe todos os detalhes do ocorrido, mencionou as ameaças e o fato de seus Pokémon terem sido levados. Não sabia onde esconder a cara, pois há tempos Walter lhe aconselhara a se mudar para um lugar mais seguro ou investir em segurança. Por mais tranquila que fosse a Resort Area, ela nunca estaria livre de criminosos por ser uma celebridade visada, o que também colocaria sua família em risco, e agora ela pagava o preço.

Eram tantas preocupações que Cynthia não conseguia acreditar como deixara sua família exposta. Quando mencionou o nome de Dawn, o coração de Luke gelou.

— Eles a levaram, Luke... Não entendo o motivo, a Dawn nunca fez nada que a colocasse no caminho dos Rockets. Você precisa ajudá-la, Luke, por favor... Não podemos envolver a polícia nisso, eles ameaçaram a Verity, se alguma coisa acontecer com a menina...

— Não vai — respondeu Luke. — Eu não vou deixar.

— Você precisa ser discreto. Não dá pra acreditar que esses idiotas se rebaixaram tanto — falou Cynthia com indignação. — Pensei que esses lunáticos já tivessem desaparecido do mundo, mas eles continuam a colocar vidas em risco e se provam cada vez mais ousados em seus meios!

— Rockets de novo, hein? Esses roteiristas estão ficando meio sem criatividade, não acha?

Cynthia não pôde conter um riso breve. Em meio a todo o caos que sua vida se encontrava, Luke sempre era capaz de fazê-la rir.

— Só traga a nossa Dawn de volta... — implorou.

— Se precisar, eu afundo esse continente inteiro para trazê-la — respondeu Luke.

— Me dê apenas dois dias para me recuperar, e eu mesma vou atrás desses idiotas com todas as minhas forças.

— Nem se dê ao trabalho. Te dou notícias assim que puder.

Assim que desligou o telefone, Stanley o encarava com o semblante sério do outro lado.

— Deu ruim? — ele perguntou.

Seu parceiro de batalha apenas confirmou.

— Deu ruim.

— Vou remarcar a batalha. Digo que você está com dor de barriga, invento uma desculpa. Não sei direito o que está rolando, mas só me diga o que fazer enquanto você estiver fora.

— Preciso fazer uma ligação urgente, mas o Lukas não está atendendo...

— Se isso requer que os Irmãos Wallers se reúnam novamente, a coisa é séria — falou Stanley. — Tente não afundar uma ilha inteira de novo, tá?


Notas do Autor (PG-1)

UÉ. O QUE É ISSO? Sinnoh 2.0 é real?
É, digamos que sim. Não se trata de uma história inteiramente nova, não vai ter filho de personagem que nem Boruto, não vai ter Liga Pokémon, ginásio e nem e ilhas afundando, mas vai ser maneiro.

Se você caiu aqui de paraquedas e voltou a acompanhar minhas postagens, estou retornando com uma série de capítulos que contarão um pouco mais das aventuras de Luke e Lukas pela região de Sinnoh. 

"Ain, Canas, mas já deu, sua história já acabou, larga disso".
É, pode ser até verdade, não restou muito para eu contar depois de quase 250 capítulos escritos nessa fic... Mas a questão é que essa história sempre me fez feliz pra caralho. Eu voltei a escrever não para ter milhões de comentários e acessos, estou aqui para fazer uma homenagem a tudo que viemos construindo na Aliança Aventuras, e em especial ao meu amigo Dento que é o responsável por fazer tudo isso acontecer.

Alguns podem ter estranhado um capítulo com protagonistas diferentes: Amy e Ethan, do Aventuras em Johto. A história em si não será sobre eles, mas essa é a primeira vez que estaremos escrevendo algo grande interligando nossos personagens (quer dizer, isso também rolou com o Aventuras em Hoenn no especial o Arco dos Regis lá em 2013, mas os capítulos foram apagados).

Eu tenho um carinho enorme por esse capítulo, porque ele surgiu das férias de 2018 quando o Dento passou uns dias em casa. É maravilhoso poder falar de fanfics com alguém que acompanhou tudo que fizemos nos últimos 8 ou 9 anos, o Dento não é só o Presidente do nosso time, eu diria que ele é o fã Nº 1 da Aliança Aventuras. Ele lê todas as histórias porque gosta demais disso. É uma parte do nosso passado que olhamos para trás cheios de saudade, e mesmo com obrigações, ainda voltamos para cá como se fosse um santuário sagrado, um Shrine na Ilex Forest que nos leva em uma verdadeira viagem no tempo para 2011 quando tínhamos menos preocupações e a vida de adolescente era bem diferente.

O QUE ESPERAR?

Sinnoh 2.0 veio como aquele especial de Natal que você não espera, mas acaba sendo uma grata surpresa. Não se preocupe, não será nada longo, são 7 capítulos para matar a saudade mesmo.

Um de meus principais intuitos aqui é fechar alguns pontos que sempre tive vontade, e eis aqui um resuminho do que poderão encontrar:
  • Dar uma importância maior para a Dawn (SERÁ QUE CONSIGO?);
  • Explorar a Resort Area e a Stark Mountain no norte de Sinnoh (EU AMO ESSA ÁREA!);
  • Mostrar que raios aconteceu com o Petrel, um dos executivos dos Rockets (QUEM?) e só para constar, ele está preso desde o Capítulo 21;
  • Explicar o que aconteceu com o Looker, o Observador (não sei por que, mas muita gente gostava dele);
  • Trazer de volta um Pokémon que foi esquecido (APOSTO QUE SABEM QUEM!);
  • Mais cenas da Cynthia porque ela é uma DIVA.
Eu sempre disse a mim mesmo a seguinte frase: "Eu escreveria uma história inteira para um leitor que a amasse de verdade", então chegou a hora de cumprir com minha palavra. Aqui estamos nós. Escrevendo de novo.

Ninguém sabe até quando os Blogs vão durar, ninguém sabe até quando nossos amigos terão vontade de escrever e falar sobre Pokémon e fanfics, então devemos aproveitar cada quando dia enquanto ainda temos tudo isso em nossas mãos, porque eu gosto demais desse lugar. Sempre vai ser minha casa.

The Post-Game 1

Amy acordou com uma mão em sua cara. Precisou de apenas alguns segundos para se localizar no quarto escuro e abafado, as frestas de luz que passavam por baixo das cortinas indicavam que já havia amanhecido. Ela se manteve em silêncio para escutar se a pessoa na cama de cima estava roncando ou só respirando baixinho, saberia dizer se ele estivesse fingindo; tentou se levantar em silêncio para ir ao banheiro sem acordá-lo, mas não conseguiu passar despercebida.
— Bom dia, meu bem — ela ouviu Ethan murmurar em sua confortável cama de solteiro, ainda de olhos fechados.
Seu passado como ladra estaria decepcionado com ela. Já não conseguia mais ser furtiva como antes — ou, pelo menos, nunca mais precisara colocar suas habilidades em prática. Amy sorriu para ele e soprou um beijo no ar antes de entrar no toalete onde arrancou a camisola e ligou o chuveiro para uma ducha rápida. Começou a pentear os cabelos emaranhados e se encarou no espelho. Sua escova de dente garantia um espaço no armário, as roupas sujas já compartilhavam o mesmo cesto e a toalha de banho com estampa de Corsolas estava secando ao lado da dele.
Há quanto tempo estavam juntos? Os anos se passaram e ela mal percebera.
Ao sair do banheiro, Ethan já estava de pé abrindo a janela para ventilar. Os ventos em New Bark eram frequentes e sopravam logo cedo, como se limpassem as preocupações e trouxessem a perspectiva de que um novo dia começara.
— E aí, pijamão — disse Amy ao arremessar uma almofada na cara dele. — O que temos pra hoje?
Ethan se esquivou do projétil aéreo que acertou bem na cara do Typhlosion que roncava baixinho em cima de um sofá que parecia minúsculo debaixo de todo aquele peso. O Pokémon soltou uma baforada quente e virou o rosto na tentativa de conter a luminosidade que entrava.
— Sei lá, a mesma coisa de sempre. Quer descer pra tomar o café da manhã?
Se lhe perguntassem, a vida em New Bark com Ethan era muito boa. Tudo bem que já fazia alguns anos que ela dormia num colchão do lado da cama, isso porque ninguém naquela casa tomava a iniciativa de ir até Violet para escolher uma cama de casal decente onde os dois coubessem sem que uma guerra precisasse ser travada, mas em dias frios gostava de subir quietinha e se esgueirar por debaixo do cobertor dele para dormirem juntinhos.
A casa era pequena e aconchegante, o mais próximo que Amy jamais tivera de chamar algo de “lar”. Dona Marieta a recebera de muito bom grado desde que os dois haviam começado a namorar, Amy concluiu que todas as piadas sobre sogras se provavam falsas — a mãe de Ethan cozinhava para eles, assistia filmes junto, emprestava seu carro quando necessário e cuidava de Amy como se fosse sua própria filha; às vezes as duas passavam tanto tempo juntas que Ethan se sentia livre para ir até o jardim com seu Sandslash ao invés de ficar e ouvir as fofocas.
— Estou saindo para ir à feira comprar legumes para a semana, depois preciso passar no banco e pagar uns boletos, aí vou na farmácia rapidinho, depois estou no dentista e volto antes das cinco. Precisa de alguma coisa, Amy? — perguntou Marieta às pressas com as chaves na mão. As duas puderam ouvir Ethan gritar arroz com salsicha e ovo do quintal, mesmo que soubesse que sua mãe iria ignorá-lo em prol da opinião da eterna “visita”.
— Não precisa de nada, dona Marieta! Sei que tudo que você cozinhar será maravilhoso, mas deixa que eu preparo hoje, então você não precisa voltar na correria.
— Ah, já falei pra deixar dessa coisa de “dona” — respondeu a senhora com ar jovial. Mesmo estando acordada desde as seis, ela tinha mais energia do que seu próprio filho. — Bem, então deixo o almoço por conta de vocês! E vê se não deixa esse menino ficar aí só sentado te olhando, coloca ele pra trabalhar também. Tomem conta de tudo direitinho, hein?
Assim que Marieta deixou a casa, Amy se juntou ao namorado que balançava na rede sem precisar fazer força devido ao vento — o que não amenizava a sensação térmica, os últimos dias em Johto vinham sendo mais quentes que o comum. Ela parou ao lado dele segurando seu suco de laranja e o chutou por baixo da rede.
— Dá um espaço aí — ordenou.
— Nem — Ethan resmungou, ainda sonolento.
Amy puxou o boné dele para baixo e, antes que pudesse revidar, esparramou-se em seu colo até que os dois se ajustassem de maneira confortável enquanto balançavam lentamente.
— Sai pra lá, a rede vai arrebentar com o peso de dois! — falou Ethan.
— Vai nada — respondeu Amy. — Sei que você faria de tudo para ficar coladinho em mim.
Ethan riu, afinal, ela o conhecia bem até demais. Os dois mal haviam acordado e já estavam deitados na rede prestes a adormecer, a vida dos cidadãos em New Bark era assim. Há alguns anos, a cidade fora palco dos holofotes por servir como porta de entrada para muitos treinadores que começavam suas jornadas, pois era onde se localizava o laboratório do Professor Elm. Ethan olhou para a construção vizinha e sorriu, embarcando em lembranças de sua longa jornada por Johto ao lado de seus grandes amigos.
— Saudades do Forrest — murmurou Ethan, imerso em pensamentos.
— Pega um navio e vai visitá-lo, ué — respondeu Amy com uma risada. Conhecia bem demais o namorado para saber que sua preguiça o impediria de embarcar em qualquer viagem.
— Eu não vou nem na cozinha preparar um suco para mim, quanto menos viajar para Kanto.
— Você já viajou até para Hoenn onde se aprimorou lutando na Batalha da Fronteira, e olha que nunca tinha tentado nada parecido — disse Amy com um sorriso. — Admita, meu bem, vez ou outra você recebe um surto de inspiração divina que o permite embarcar em uma aventura inesperada pelo mundo. Já percebeu que toda vez que você sai de sua zona de conforto, coisas incríveis acontecem?
— Tipo te pedir em namoro?
— Claro, essa foi a melhor de todas — respondeu Amy com uma risada.
— Pensar em Hoenn me faz lembrar como eu sou um fracasso.
— Ai, não começa. Você é um treinador incrível e sabe disso.
— É muito convincente ouvir isso de alguém que já foi campeã em Kanto.
— É só levantar e tentar mais uma vez. Quando você menos esperar, vai surgir outra oportunidade de realizar uma looonga jornada pelo mundo com seus Pokémon. E eu estarei do seu ladinho — disse Amy, saltando para a rede e esticando os braços para ele. — Agora vem me ajudar porque eu não cozinho de graça, não.
Quando entrava na cozinha, Amy tinha de se certificar de manter um olho no rapaz. Era comum Ethan esquecer algum tempero — o sal no arroz, o adoçante no café ou a travessa de batatas gratinadas no forno —, mas ele se esforçava.
Desde que concluíra sua jornada por Johto, Ethan era ovacionado pelas ruas de New Bark, os cidadãos o consideravam um verdadeiro prodígio que chegara onde nenhum outro habitante local conseguira, mas Amy percebia que faltava algo. Desejava de todo coração encontrar alguma forma de mandá-lo em uma aventura nova onde pudesse reconquistar o brilho nos olhos, mas como? Tinham uma boa vida na cidade onde eram raras as surpresas e a rotina os abraçava como um velho conhecido.
Mas o destino — sempre cheio de suas surpresas e peripécias — sabe quando agir.
O almoço estava quase saindo quando a campainha tocou. Amy, vestida com o avental emprestado de Marieta escrito “Melhor Mãe”, estava com as mãos ocupadas e não pôde ir atender.
— Pode ver quem é? — ela perguntou e Ethan fez que sim.
Amy cantarolava uma cantiga alegre na cozinha quando ouviu o rapaz abrir a porta, mas ela foi fechada com tanta força que a estrutura da casa chegou a tremer. Pouco depois, via-se Ethan correr desesperado pela cozinha, afogando-se em suas próprias palavras.
— Amy, Amy! Tem um cara lá fora, você precisa se esconder!
— Do que você tá falando? — ela perguntou.
— Eles voltaram — exclamou Ethan, de olhos arregalados e tremendo dos pés à cabeça. — Os Rockets voltaram!
Foi a vez dela quase deixar a travessa de vidro cair no chão. A palavra “Rocket” ainda mexia com seu interior, muitas experiências traumatizantes e pontas soltas de seu passado voltaram à tona. Havia anos que ninguém ouvia falar das atividades dos criminosos, como a teriam localizado? Era como um fantasma que sempre voltava para assombrá-la, mas um choro de criança pareceu despertar-lhe do transe. Os dois correram para a sala de visitas, Amy se esgueirou pelo olho mágico da porta e viu um homem tentando acalmar uma garotinha de colo.
— Executivo Proton? — Amy murmurou baixinho.
Ao abrir a porta, o homem tentava de todas as formas acalmar a menina em seu colo.
— Não precisava ter batido com tanta força — resmungou Proton meio mal humorado. — Tudo bem, sei que é um pouco inesperado, mas... Surpresa?
A garotinha, ao perceber que tinha boa companhia, parou de chorar e esticou os bracinhos em direção de Amy.
— Tia Amanda!
Amy esboçou aquele sorriso forçado de quem não leva jeito com crianças.
— Ethan, pode colocar mais um prato na mesa?

i

O silêncio na casa foi substituído pela euforia que somente a presença de uma criança consegue causar, a filhinha de Proton agora brincava de empurrar o Wobbuffet de Ethan só para vê-lo ir para frente e para trás como um João Bobo. A última vez que Ethan se deparara com o ex-administrador dos Rockets não lhe trazia lembranças agradáveis, era estranho vê-lo se comportar como um pai de família, sua mera presença no recinto o deixava desconfortável, como se tudo não passasse de outro plano para sequestrar sua namorada.
Amy só estava terminando de tirar as batatas do forno, mas os minutos agonizantes que Ethan e Proton se encararam na sala de estar valeram por qualquer batalha Pokémon.
— Então... — Proton começou na tentativa de amenizar o clima. — Como é que vai a vida?
— Ótima — Ethan respondeu seco, indo direto ao ponto. — O que você veio fazer aqui?
— Bem, eu estava de passagem e decidi visitar uma amiga.
— Não amplie as coisas, éramos apenas colegas de trabalho — frisou Amy ao retornar da cozinha. — Admito que eu não esperava por sua visita, ainda mais acompanhando dessa...
Ethan a cortou antes que ela dissesse “coisa”.
— Qual o nome da sua filha?
— Eletra.
“Esse é o nome mais cafona que eu já ouvi”, pensou Amy com um sorriso doce.
— Quem diria, você como pai, hein? — ela brincou para disfarçar.
— Nem me fale, devo parecer mais surpreso do que vocês — brincou Proton. — Nunca imaginei que eu fosse me estabilizar com alguém e querer construir uma família, sou muito agradecido à Martha. Veja o destino de colegas nossos dos tempos dos Rockets; muitos desaparecidos, outros cumprindo pena de décadas na prisão, alguns mortos ou executados pelas autoridades... Penso que sou muito sortudo por ser considerado “apenas” um foragido.
— E por que exatamente você voltou para nos assombrar como um Gastly? — Ethan perguntou como quem pretende encerrar o encontro antes mesmo da hora do almoço.
A cabeça de um Gengar shiny emergiu do chão, pensando ter sido chamado.
Proton não esboçava o sorriso cínico que lhe era tão costumeiro; não se parecia em nada com o charlatão de antigamente, pelo contrário, algo preocupante o vinha incomodando a ponto de recorrer às duas únicas pessoas que julgava confiáveis. Ele tirou a boina e passou a mão pelos cabelos esverdeados com alguns poucos fios brancos, parecia que o excesso de preocupações o envelhecera alguns anos.
— Lembram-se do Petrel?
— Claro. — Amy confirmou com a cabeça. — Não ouço notícias dele há anos.
— Bom, eu e o Petrel nos metemos em algumas confusões em Sinnoh há alguns anos, como vocês devem ter ficado sabendo. Foi lá onde conheci a mãe da Eletra, a Comandante Mars, uma das representantes de uma facção conhecida como Galactic.
— Pensei que essas coisas de louco só aconteciam em Kanto e Johto — brincou Amy.
— Nem, tem um monte desses idiotas em Hoenn e Kalos também — respondeu Ethan. — Na verdade, acho que eles estão por toda parte...
— Pois bem — Proton retomou a conversa —, há alguns meses, Petrel veio me visitar após uma fuga bem sucedida da prisão, aposto que o miserável subornou alguém lá dentro. Ele ainda mantém aquelas ideias de recuperar a nossa glória, acho que nunca aceitou completamente a morte do chefe; mas da última vez que o vi, Petrel parecia... alterado. Ele não parava de falar em vingança, disse até que feriu gente inocente. Isso não é mais para mim, tenho uma família para zelar e sei que isso coloca em risco nossa segurança.
Amy estava chocada com o rumo da conversa. Não podia acreditar que mesmo depois de tantos anos os seguidores de seu pai ainda mantinham ideais tão cruéis. Os Rockets eram como uma dorzinha nas costas que sempre voltava, mas caso ficasse velha demais, um dia já não teria mais forças para combatê-la.
Proton virou-se para observar a criancinha que se divertia com o Wobbuffet.
— Minha família é tudo que eu tenho. Os problemas começaram quando minha esposa desapareceu, pouco depois dessa visita que recebemos do Petrel.
— Como assim “desapareceu”? — indagou Amy. — Acha que ela foi sequestrada?
— A Martha é inteligente demais para ser capturada. Ela estava envolvida com um pesquisador chamado Profº Charon, ele insinuava que Rockets e Galactics deviam trabalhar juntos uma última vez pelo bem maior. O projeto de Charon envolve clonagem de Pokémon avançada, ele insinuou até ser capaz de revivê-los... nada que nunca tenhamos tentado, e falhado miseravelmente.
— Ah, eu me lembro do problema que rolou com o Dragonite do Lance — mencionou Ethan.
— A Martha começou a agir de um jeito estranho... Ela estava distante, esquiva até com nossa filha.
— Como ela reagiu depois de perder um filho? — perguntou Amy.
— Eita, que história essa? — continuou Ethan. — Vocês estão conversando como se tivessem mantido contato próximo nos últimos anos.
— Querido, você acha que eu só fico em casa coçando que nem você?
Amy soltou um leve suspiro, sua voz não escondia o desapontamento. Há cerca de um ano, recebera uma ligação desesperada do ex-administrador. Proton tinha dificuldades em explicar-lhe o ocorrido — sua esposa, até então grávida, tinha sofrido um acidente. A cirurgia foi marcada às pressas, mas parecia que a criança já havia desenvolvido uma má formação e não sobreviveu. Martha jamais se recuperou por completo do choque. Por qual motivo Proton decidira ligar justo para Amy, ela nunca soube dizer. Mesmo que não tivesse mais nenhuma ligação com os Rockets, talvez os antigos membros a considerassem a verdadeira herdeira ao posto de líder que seu pai, Giovanni, deixara para trás.
Por esse motivo, Amy não estava surpresa em reencontrá-lo pessoalmente; não importava o quanto tentasse livrar-se de sua ligação com os Rockets, uma força misteriosa parecia sempre arrastá-la de volta, tornando-a eternamente responsável pela sujeira e os pecados cometidos. Nunca julgara necessário compartilhar com Ethan sobre tais conversas, não queria incomodá-lo.
— Eu vim pedir sua ajuda porque não sei mais o que fazer — disse Proton com ar de preocupação, olhando para sua segunda filha. — Nós dois sofremos com essa perda...
— O que disse para sua filha desde o sumiço da Comandante Mars? — perguntou Amy, apontando para a pequena Eletra de forma discreta.
— Falei apenas que a mamãe precisou viajar, mas tem sido difícil não levantar suspeitas. Ela chora todas as noites, diz que está com saudade. Veja, é uma menina de ouro.
Amy virou-se ao perceber que a criança se aproximava trazendo o que parecia ser uma Pokébola dourada com duas letras incrustadas no meio — GS.
— O que é isso, tia Amanda?
— Ah, é só um brinquedo quebrado. Está vazia.
— Posso brincar?
— Não. É de coleção.
Eletra voltou a deixar o objeto na estante, pois não parecia mais tão interessante. Amy não precisou refletir muito para dar a resposta ao ex-executivo:
— Eu irei investigar o que está acontecendo.
Tanto Proton quanto Ethan a encararam cheios de surpresa.
— Como assim, meu bem? Você realmente vai se envolver com esses caras de novo? — indagou Ethan, que ficou sem graça após alguns segundos ao olhar para Proton. — Nada pessoal, colega.
Proton levantou as duas mãos e fechou os olhos, num sinal de “deixa disso”.
— Se tem alguém que possui a habilidade necessária pra fazer isso da maneira mais rápida possível, sou eu. É pela coisinha... digo, criança — disse Amy olhando para Ethan.
— Bem, a ideia a princípio era deixar a Eletra umas semanas com vocês enquanto eu ia atrás de respostas, mas se a própria Srta. Amanda Green está se oferecendo para tal missão, quem sou eu para recusar? — Proton aproveitou-se da situação, um charlatão como só ele. — Você é a garota que burlou, enganou e deixou a maior facção criminosa do país comendo poeira com apenas quinze anos, não existe ninguém melhor para cumprir essa tarefa do que você.

ii

Depois de um almoço bem servido, Proton deixou New Bark antes do entardecer com sua filhinha adormecida no colo. Para onde ele iria ou onde estava se escondendo, Amy não soube dizer, mas tinha certeza de que estavam seguros e voltariam a se encontrar quando a tarefa terminasse. Ethan se manteve quieto pelo resto do dia, sentia-se deixado de fora dos grandes planos, como sempre. Sua namorada precisou de muita calma e paciência para dar-lhe a devida atenção.
— Então, quando é que você sai nessa viagem? — perguntou Ethan.
— Não sei. Quer que eu vá agora?
— Tá brincando, né? A vida sem você aqui vai ser... vazia. Capaz da minha mãe até me despejar pra fora de casa até você voltar.
— Você precisa mesmo encontrar algo para se distrair. O que acha de sairmos em uma aventura por aí depois? Só nós dois.
— Pra onde?
— Para onde sua imaginação levar.
— Vai ser difícil aguentar um tempo sem você — respondeu o treinador. — Tudo voltará a ser como era antes de eu sair em jornada por Johto, quando um jovem Ethan só buscava fugir da mesmice de sempre...
Amy sorriu ao perceber como ele estava desconsolado com a ideia de ficar apenas algumas semanas longe de sua amada. Ela se aproximou devagar, quase como se o seduzisse, sentou-se em seu colo, arrancou o boné e o colocou na própria cabeça, lascando-lhe um beijo digno que começou no pescoço e fez seu caminho até os lábios, digno de despedidas de filme.
— E o que seria de Ethan sem uma Amy em sua vida, não?
— Como consegue ser amável, sexy, assustadora e surpreendente, tudo num só dia, hein?
— Querido, sou uma musa de muitas facetas. Formidável treinadora, excelente namorada e nora, prestativa, conselheira, guerreira...
— Você é a coisinha mais linda do mundo, isso sim.
— Se usar essa voz de neném comigo de novo eu quebro todos seus dentes.
Ethan começou a rir, pois cada dia que passava sentia que a amava mais e mais. Em sua cabeça vivia repetindo palavras românticas, do quanto gostava de suas curvas, do sorriso travesso e de como adorava acordar do seu lado; mas na hora de expressá-las sempre se atrapalhava todo. Ethan a abraçou com mais força, como se dessa forma pudesse impedi-la de partir.
— Sabe, essa conversa de hoje com o Proton me fez pensar em uma coisa... — Amy mencionou entre suspiros.
— O quê?
— Que eu não quero ter filhos tão cedo.
— Apoiada — Ethan concordou depressa, tão assustado quanto ela com a ideia.
— E que também temos uma pilha de louças para lavar, sua mãe vai ficar furiosa se voltar e ver que não fizemos nada. Não se esquece do nosso acordo, hoje é você Quilava.
O grande Typhlosion grunhiu baixinho no seu sofá confortável.


 

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