Showing posts with label Especial Dawn. Show all posts
Sonata of Awakening

Chovia na mesma intensidade em que lágrimas rolavam do rosto de uma pequena criança. A figura entristecida de uma menina era envolta por cobertores que tentavam protegê-la do forte frio e dos pingos cortantes do lado de fora. Uma mulher a abraçou, tentou aconchegá-la em seu peito e fazer com que dormisse, mas os soluços penetravam no silêncio como se trouxessem todas as memórias do que acontecera naquele último mês a cada suspiro inquietante.
A infância de Dawn se resumira ao pior momento de seu passado, e as notícias ruins vieram todas como uma avalanche que destrói tudo no caminho. Começando pelo primeiro impacto: O velho Ed havia morrido. Um indigente finalmente encontra seu destino, mas aquilo não faria diferença alguma se ninguém ligasse, uma vez que ninguém sabia de sua existência; porém, para alguns sua partida fora dolorosa demais.
Ed era tudo para Dawn. E agora, tudo se fora.
Todo o resto, não havia mais nada. Começando pelos tristes lamentos de seus companheiros que também não conseguiam acreditar que aquele velho cego solidário um dia realmente chegaria a cantar sua última canção, uma melodia de dor e lamento para aqueles que ficavam para trás.
A segunda triste notícia lançara um impacto imediato no coração daqueles ali presentes, Dawn ainda não conseguia entender o peso daquela dor.
— Celia, vamos procurar meus pais, eles podem ajudar. A mamãe tem uma amiga médica, ela pode fazer alguma coisa, pode fazer o tio Ed voltar...
A mulher não lhe dava ouvidos, estava perdida em todas as lembranças que aquele maldito velho lhe trouxera, e de todo o trabalho que também dera. No fim, parecia bom que ele tivesse finalmente ido, uma despesa a menos. Aquela seria a sensação de Celia há pouco tempo atrás, mas desde que uma certa garotinha entrara em sua vida ela nunca mais havia sido a mesma, uma vez que havia aprendido a dar valor àqueles a sua volta. Mais uma vez, ela pôde ouvir seu nome ser chamado:
— Celia, Celia! Não podemos fazer nada?
— Não, querida. O Ed se foi...
— Mas ele disse que iria me fazer melhorar no piano, ele não terminou de me ensinar tudo! Ele disse que cuidaria de mim, e eu o apresentaria quando reencontrasse os meus pais, eu não acredito no que você está falando!
— Dawn! Não consegue entender quando alguém tem de partir?
— Não, não, não!! — ela negava incansavelmente.
— É só isso que sabe dizer? Acha que o velho era imortal? Então digo que não era. Não consegue entender isso? O mundo não é lugar para os fracos, você não sobrevive se for um ninguém, parece que as pessoas nos proíbem de sermos felizes e fazermos o que gostamos!
— O Ed não era fraco!
Argumentar com uma criança não chegaria a nada. Celia ergueu-se num pulo, agarrou sua bolsa e partiu em direção da porta. Dean estava encostado na parede e tentou segui-la com o intuito de perguntar aonde ia, mas a resposta da moça havia sido mais rápida.
— Boa sorte, vocês dois. Eu estou fora disso.
Um fraco grito vindo da boca de Dawn ecoou nos ouvidos da moça, aclamando por seu nome, mas ela já estava farta. Sempre vivera com o ódio, e ele agora dominava seu coração. A impaciência de lidar com aquilo já havia estourado no coração de Celia, e que diferença faria um velho a menos no mundo? A mulher fechou a porta sem olhar para trás, restou apenas Dean com suas sobrancelhas caídas e uma expressão de não saber o que fazer, Dawn correu para abraçá-lo.
— Me leva para os meus pais, Dean. Eu não quero mais ficar aqui.
— Eu levo, criança. Eu levo. — mentia cada vez com uma dor maior.
O rapaz segurou numa das mãozinhas da pequena e desceu as escadas. Deu algumas boas olhadas ao redor, esperava que Celia estivesse ali esperando-os, mas não havia sinal dela. A moça realmente estava decidida a desaparecer da vida dos dois. E agora, Dean estava sem rumo, sem reação, sem consolo dos únicos que conhecia, ele era apenas um ladrão com um anjo entre os seus braços. Ele não poderia contar para Dawn onde seus pais estavam, seria chocante demais para ela.
Os dois voltaram para Sandgem, talvez encontrassem algo no pequeno vilarejo. O velho depósito continuava como sempre, o piano de Ed no mesmo lugar com as marcas empoeiradas de seus dedos calejados e a presença oculta da solidão que lhes agravava ao ver o piano. Dawn começou a chorar quando se lembrou do velho.
— Eu quero os meus pais...
Era Dean quem havia começado toda aquela história. Ele salvara a criança das garras do mar, e por que houvera de roubá-la das águas? Agora o oceano estava em fúria e descontava tudo sobre o sujeito. Seria melhor se ele tivesse largado Dawn lá, e fim de assunto. Nada daquilo teria acontecido, nem ao menos um sinal daquele mês terrível lhe atormentaria para sempre.
As palavras ainda não lhe saíam.
— Dawn, escute, tenho algo a dizer... Os seus pais, eles... Bem, não sei como te explicar, mas eles...
Dawn ergueu os olhos entristecidos e observou o rapaz por um instante. A feição triste dele era mesclada com o sentimento de esperança ao ver uma pequena flor nascer em meio ao concreto. Não havia porque arrepender-se de suas decisões, todas elas se interligam de alguma maneira no futuro.
Por mais que Dean tivesse uma vida difícil ele sabia que tudo que havia feito valera a pena. Aquela criança ao seu lado havia o ajudado a acreditar que havia algo mais certo na vida do que apenas existir. Era preciso viver. Era preciso ter esperança em algo ou alguém.
— Você tem que ser forte, tudo bem? Me promete que vai ser forte?
Dawn abaixou o rosto um pouco pensativa. Aquele dia foi o único momento que Dean pediu algo para a menina. Pediu para que ela fosse forte, que encarasse os desafios do mundo e jamais desistisse, mas Dawn não compreendeu. Ela era nova demais para entender.
— Seu pais não podem voltar... — disse Dean fazendo uma pausa — Não me olhe dessa forma! Ah, é difícil explicar, juro que eu jamais gostaria de estar em uma situação como essa, mas você tem de entender... — ele abaixou o tom de sua voz cada vez mais — Seus pais morreram, Dawn.
A criança não respondeu, primeiramente recuou como alguém que evita ao toque de algo que lhe machuca. Dean tentou segurá-la, mas ela chorou antes, tão alto quanto qualquer outra vez. O rapaz não podia fazê-la parar, e Dawn correu para fora.
— Você está mentindo! — gritou ela várias vezes, embora em seu coração de criança ela já temesse por aquilo.
Nesse momento, dois guardas passavam próximos ao depósito. Uma menininha chorando, um sujeito mal encarado tentando segurá-la, aquilo só significava uma coisa para aqueles dois policiais.
Dean chamou pelo nome de Dawn duas vezes, mas a menina não parou, apenas escondeu-se atrás de um caixote.
— Dawn, me ouça! Não deixe que as coisas ruins te afetem, siga em frente! O Ed lhe disse isso, siga o seu coração e faça aquilo que você gosta!
— Cale a boca, insolente! Tenta assediar a garota e ainda lhe dirige a palavra? E o que temos aqui? Ora essa, é o ladrãozinho de Jubilife que sempre está roubando os bares e padarias, quem diria que de um pobretão em necessidade você chegaria a esse nível.
Dawn correu em direção dos guardas, tentando fazê-los largar Dean. Agora os policiais seguravam o ladrão e de e nada adiantaria sua velocidade.
— Vocês entenderam tudo errado, ele é o meu amigo! — gritou Dawn.
— Você, garotinha, iremos levá-la para onde quer que os seus pais estejam. É perigoso andar por essas bandas sozinhas, por pouco não lhe acontece nada pior! — respondeu um dos guardas.
— Dawn, corra! Não deixe que a prendam sobre quatro paredes, nem que a limitem de seguir todas as regras desse mundo. Crie asas e siga o que ama.
Foram as últimas palavras de Dean. Dawn era pequena, mas tinha pernas longas; foi capaz de despistar um dos guardas e acabou indo para uma área da cidade que não mais conhecia. Olhou para trás vendo se alguém ainda a seguia, e talvez na esperança de ver Dean correr até ela como um jato. Porém, ninguém mais passou por aquela rua naquela tarde.
Os passos da menina foram atrasando até que ela se sentasse atrás de uma parede e apenas esperasse o destino lhe pregar outra peça. Assustou-se ao ver alguém se aproximando e retirando todas aquelas caixas que a escondiam, e então, revelou um largo sorriso ao notar a presença de Celia toda descabelada.
— Finalmente te encontrei, menina. — disse Celia.
— O Dean... Pegaram o Dean... — respondeu Dawn entristecida.
— Ele sai dessa. — mentiu mais uma vez, mas agora Dawn já estava farta de todas aquelas mentiras em suas costas.
— Vocês mentiram pra mim, disseram que eu poderia reencontrar os meus pais, mas o Dean disse que eu não posso mais!! Eles afundaram naquele dia, não foi?!
A primeira reação da mulher foi mentir mais uma vez, mas era maldade demais continuar a enganar a criança. Celia agachou e segurou em uma das mãozinhas da pequena para levá-la para longe, onde fosse mais seguro. Dawn tentava segurar o choro enquanto as dúvidas continuavam a cercar sua mente. Agora eram apenas as duas, de quatro restaram apenas dois e aos poucos o mundo lhe arrancava alguém de sua família.
— O que fazemos, Celia? Ficamos só nós duas? Me ajude a fazer algo, deixe que eu faça o mesmo que você, que eu não seja uma indigente e que os policiais não me peguem! Eu quero ser alguém importante!
Uma das sobrancelhas de Celia se arquearam em enorme fúria, e o ato seguinte não pôde ser controlado. Ela virou e deu um tapa tão forte que Dawn ainda o sentiria depois de anos, mas a criança não chorou. Aquele tapa fora mais um ato de amor e compaixão do que raiva, e então Celia pronunciou-se com uma voz entristecida.
— Nunca diga que quer ser igual a mim, nunca diga isso.
— Mas você é tudo que me restou...
Celia permaneceu perdida em seus pensamentos não tendo ideia do que fazer em uma situação como aquela. Algumas nuvens cinzentas se aproximavam e uma forte chuva era anunciada com o entardecer. A mulher agarrou na mão da pequena e mais uma vez guiou-a para onde seu coração indicava.
As duas chegaram até uma pequena casa com um grande laboratório ao lado. Aquela era a área de estudos de um renomado professor da área, e que por sinal destacava-se muito como um pesquisador. A chuva começou, e as duas seguiram até em frente a porta que tinha uma proteção em forma de arco esculpido em pedras para que as duas se abrigassem da chuva.
A mulher limpou o rosto molhado da menina e a encarou. Dawn desviava o olhar que a todo momento obrigava Celia a segurar em seu rosto implorando para que prestasse atenção. Ela segurou nos ombros de Dawn e a encarou:
— Dawn, querida, me ouça. — disse ela, vendo os olhos dispersos e chateados da pequena — Me ouça! Não chore, suas mágoas irão passar, lembra-se da canção?
— Mas eu quero ficar com você... — repetiu Dawn.
— Eu não posso, eu não desejo isso. Às vezes precisamos sacrificar algumas coisas para um futuro melhor... O Ed tornou-se nada para fazer com que tudo que ele tinha ganhasse valor. Foi isso que ele escolheu para a vida dele, e assim como eu, quero que você se torne uma linda mulher!
Dawn abraçou Celia que a envolveu com braços de mãe que a mulher nunca mais viria a ter. Nunca amou tanto uma criança quanto aquela, e sabia que provavelmente não mais veria Dawn fora de suas lembranças e seus sonhos. Celia bateu na porta três vezes, aguardou pacientemente até que um velho fosse atender.
O Professor Rowan provavelmente estava para expulsar aquela moça da frente de sua casa, mas havia uma criança ao lado de Celia. Uma pequena garota. A mulher estava ofegante e cansada, os cabelos mal cuidados e as roupas completamente encharcadas. E em sua frente a pequena Dawn. Precisava pensar cautelosamente em palavras que não dessem a ideia de que ela apenas queria abandoná-la, quando na verdade sua intenção era salvá-la do tormento das ruas.
— Você é o Professor Rowan, certo?
— O que quer aqui? Quem é você? — indagou o velho um pouco assustado.
— Li no jornal a sua entrevista sobre o naufrágio do barco clandestino, e eu soube que um grande pesquisador, amigo seu, veio a desaparecer nas águas turbulentas do mar. Esta é a Dawn, a filha dele.
Rowan ficou estático, não acreditando ao certo que o maior tesouro de seu falecido amigo fora salvo, e agora ressurgia como se todas as suas preces tivessem sido atendidas.
— Torne essa garota alguém na vida.
Não houve despedida. Celia entregou a criança nas mãos do velho e saiu de lá correndo, e ainda que as palavras de sua boca mal saíssem coerentes desejou de todo seu coração que Dawn tivesse um futuro próspero quando crescesse.
— Faça aquilo que ama.
A mulher correu em meio à chuva que engrossava e aos poucos desapareceu. Contornou uma casa como se fugisse de algo, ou apenas lamentasse não ter tido a oportunidade de propor uma vida melhor à uma menina que tanto amou. A chuva continuou, continuou, e continuou praticamente por toda a noite. De quatro, agora restara apenas um. Mas enquanto um lutasse para viver haveria a oportunidade de um novo começo; Dean, Celia e Ed acreditavam na esperança, e quando tudo apontava para que eles desistissem foi a esperança que se manteve em pé. The Dawn of a New Day. O amanhecer de uma nova manhã.
• • •
A noite não calou-se, e por longas horas a menina ardeu em febre e descansou sobre o leito da casa do velho professor. Quando despertou estava em uma fofa cama de cor amarelada, e próximo à janela estava um senhor com um cachimbo e olhos graciosos. O professor Rowan já estivera em melhores dias, mas pelo menos o tempo lhe dera muito renome e experiência compensando a falta de saúde. Naquele dia, o sentimento de gratidão por saber que Dawn estava bem fazia com que o velho se esquecesse de todos os seus problemas.
— Onde estou? — indagou a menina.
— Em Sandgem. São pouco mais das dez da manhã do dia vinte e sete de outubro, se quer saber. — disse um velho homem, soltando um longo suspiro sem desviar seu olhar da janela — Você é uma figura abençoada, minha pequena Dawn.
— Quem é o senhor?
— Provavelmente não irá lembrar-se, mas eu a vi quando era apenas uma menininha. Sou amigo há tempos de seu pai, e sofro muito pelo falecimento dele. Presumo que ainda queira descansar, é um processo difícil de recuperação.
— Ela me deixou... — respondeu Dawn, sem dar muita atenção àquilo que Rowan dissera. O Professor levantou-se e enfiou as mãos no bolso do jaleco.
— Refere-se àquela moça?
— Sim, a Celia... Ela me abandonou... Assim como todos os outros...
— As pessoas fazem esforços por amor, Dawn, elas deixem de fazer aquilo que amam por quem realmente amam, consegue entender o que digo?
Dawn abaixou a cabeça refletindo sobre o que o Professor dissera, mas aquela mensagem só faria sentido quando ela tivesse mais maturidade, ainda que as palavras tivessem sido fixadas em sua mente.
Rowan caminhou até um armário que havia ao lado da cama e retirou alguns doces. Entregou-os para Dawn, que não via um daqueles desde que chegara à Sinnoh. O velho riu ao ver a expressão de felicidade da menina mudar tão rapidamente. Ela já havia sofrido demais como uma adulta, agora deveria apenas voltar a agir como uma criança.
— Eu não queria tocar neste assunto, mas acho importante que saiba. Nós pensamos que você estivesse morta, havia apenas um sobrevivente até então e cinco pessoas desaparecidas. Aqui, em minhas mãos, tenho os últimos pertences de seus pais.
Havia três pokébolas com o Professor, que mais tarde revelariam ser Glaceon, Leafeon e Lairon. Três dos Pokémons presentes na equipe de seus pais, ainda que alguns tivessem desaparecido, e provavelmente nunca mais fossem encontrados. As palavras mal saíram da boca da menina, que logo começou a chorar.
— São os Pokémons da mamãe e do papai...
Dawn cambaleou colocando a mão no rosto para evitar mostrar o quão feliz estava com aquela notícia. Era muito bom ver que algo de seus pais estava seguro, eram suas últimas lembranças. O professor segurou no ombro da menina para que ela se deitasse.
Dawn cambaleou colocando a mão no rosto para evitar mostrar o quão feliz estava com aquela notícia. Era muito bom ver que algo de seus pais estava seguro, eram suas últimas lembranças. O professor segurou no ombro da menina para que ela se deitasse.
— Minha pequena, descanse... Entenda que eu estou aqui agora, e dê graças aos céus por estar viva e com saúde! Vamos fazer alguns exames amanhã, ver como você está por dentro. — comentou Rowan logo fazendo um sinal de alívio — Ora, e por Arceus! Fico a imaginar como sobreviveu todo esse tempo nas ruas.
— Meus amigos cuidaram de mim. — respondeu ela, tentando forçar um sorriso. Rowan acenou algumas vezes positivamente, e então disse:
— Devo dizer que você encontrou anjos, minha querida. Os seus anjos da guarda, e acredite, eles nunca deixarão você. Assim como seus pais. Nunca se esqueça disso.
O tempo passou, e com ele a vida de Dawn começou a voltar a caminhar gradualmente. Com passos lentos e cuidadosos a pequena começou a viver ao lado do Professor Rowan auxiliando-o como sua assistente nas pesquisas. Tanto que em sua vida como pesquisadora o velho homem fora uma importante peça para suas decisões. Certo dia ele perguntou:
— Diga-me uma coisa, Dawn. Pretende seguir o mesmo caminho de seu pai? Você seria uma excelente pesquisadora.
— Para falar a verdade, eu nunca gostei do ramo, Professor. Mas se for para ajudar o senhor, então posso agir como sua assistente.
— Não lhe obrigo a seguir isso, mas sabe como são os dias de hoje. Crianças que sonham em serem treinadores e coordenadores, quase que como sonhos automáticos; mas devo dizer algo, ouça apenas o seu coração.
— E como eu posso ouvi-lo, Professor?
— Deixe o tempo dizer.
Alguns dias mais tarde voltou ao depósito para tocar piano escondida. Aprendeu seus esquemas sozinha e com livros que o velho Rowan lhe dava. Mas sentia aquilo mais como um hobbie do que um sonho. Na verdade ela ainda não sabia diferenciar os dois, e sentia falta do apoio para seguir um dos caminhos. Chegou a mudar de sonho várias vezes, ganhou até mesmo um Pokémon, seu Piplup, para acompanhar em jornada.
— Quero sair em uma jornada agora! Este será meu novo sonho!
A vontade se perdeu pouco depois. Aquele suposto sonho esvaiu-se até tornar-se lembranças da infância, de suposições que fazemos ao ver todos os demais fazendo o mesmo. A verdade é que ela tinha muito tempo para decidir o que realmente queria ser, mas chegou um dia em que deixou de ouvir seu coração. E agora, parecia que todos queriam opinar sobre o que ela queria e deveria ser.
A cada ano que passava Dawn desempenhava melhor os seus deveres como pesquisadora, mas o próprio Rowan sentia que aquele ainda não era o caminho dela.
— Esses dias eu estava me perguntando, qual é o seu maior sonho? — perguntou Rowan.
— Tornar-se uma grande pesquisadora. — respondeu ela, quase que de forma automática.
— Sabe, você desempenha isso muito bem, mas eu não a vejo amar o que faz, por isso acredito que apesar de ter muitas habilidades na área você tenha outros objetivos. Talvez algo adormecido que não tenha sido despertado... — assentiu o velho.
— Ora, Professor. Que pergunta tola, todo jovem pesquisador em Sinnoh desejaria ser seu assistente. Muitos querem ser treinadores, coordenadores, e têm grandes sonhos com isso. Todo mundo quer.
— Mas você não é todo mundo.
Ele estava certo. E agora? Dawn abaixou a fronte e admitiu:
— Sinto que se eu não me tornar o que a sociedade quer então serei uma pessoa fraca, e os fracos não tem lugar nesse mundo. O mundo não é lugar para um coração frágil como o meu...
— Então pegue-o, e tente mais uma vez.
O Professor levantou-se e tocando nos ombros da menina disse com insistência:
— Você tem que encontrar o que você ama. Não pare de procurar.
Dawn abaixou e esboçou um sorriso, mas ainda assim não conseguiu dizer o que realmente queria para sua vida. Almejava ser pianista, um segredo oculto em seu coração que nunca foi capaz de compartilhar com ninguém. Era apenas uma vontade que permaneceu adormecida como um dom que certas pessoas nascem para ter. Mas ainda assim as sábias palavras que o Professor dissera permaneceriam caminhando ao lado de Dawn até o momento em que ela mais precisasse: Você tem que encontrar o que você ama. Não pare de procurar.
Uma flor nasceu e desabrochou. Foi sufocada no concreto, mas um dia ela ainda ergueu-se para que viesse a se tornar a mais bela flor com sentimentos guarnecidos numa caixa branca. Dawn viveu na rua, mas não veio a passar fome de comida, e sim, de viver. Ela deveria passar a ter fome de vida. Aprender a tocar piano parecia algo tão fútil a princípio, então para que Dawn usaria aquilo em sua vida? O futuro é incerto, e por isso devemos acreditar que todos os pontos se ligarão de alguma maneira. Continue à procura daquilo que ama, não descanse.
.jpg)
.jpg)
Requiem of Songs

A sala suja do cômodo era mal iluminada e pouco decorada, o conjunto de camas desarrumadas e enfileiradas dava a ideia de um quarto onde as pessoas eram tratadas como números, cada qual em eu devido lugar, aguardando seu devido julgamento para saber se teriam mais um dia de vida ou não. Pessoas entravam e saiam do albergue a todo o momento, e em um canto escuro do quarto jazia um velho homem enrolado em seus cobertores e ouvindo o caminhar pesado das pessoas no local.
Estava imóvel naquela posição há quase duas horas, ninguém lhe dirigia palavra, ninguém lhe direcionava interesse. E se estivesse morto, não fariam questão de verificar. Estava muito mais degradado desde a última vez, havia perdido peso e tinha a garganta machucada de tanto tossir. O homem permaneceu naquela posição por mais alguns minutos até ouvir alguém sentar-se na ponta de sua cama, a figura esticou seus braços e segurou nas mãos machucadas do velho, colocando uma linda flor no vazio daquele instante.
— Ed, você melhorou? — perguntou a garota.
O velho deu três tosses, uma seguida da outra, em seguida, acenou positivamente para a garota e tentou forçar um sorriso após limpar o nariz sujo.
— Sim, Dawn. Já estou bem melhor. Vou até cantar hoje.
— Verdade? Vai fazer um daqueles shows? — perguntou a garota com toda sua curiosidade.
— Um show não, um verdadeiro concerto! Haverá uma plateia gigantesca, eu tocarei em um teatro tão grande que caberiam milhares de pessoas, milhares! Consegue ter noção do quão grande este número é?
A menininha tentava fazer contas com os dedos de sua mão, e independente de não saber ao certo do quanto se tratava, sabia que seriam muitas pessoas. Estava ansiosa para ver o velho Don Edward voltar a tocar. Naquele dia fazia duas semanas que ele estava na cama do albergue, aproximadamente quinze dias. Celia e Dean faziam seus trabalhos de forma frenética enquanto tentavam juntar dinheiro para ajudar o amigo com os remédios e o que fosse necessário. Chegaram até mesmo a optar por largá-lo nas ruas, mas Dawn os impedira de qualquer maneira. Eles jamais poderiam abandonar alguém da família.
— Tio Ed, o que vai fazer hoje à tarde?
— Provavelmente o mesmo que todas as semanas passadas. Escrever canções e poemas. — disse o velho fazendo uma curta pausa — E você, minha querida? Conseguiu terminar aquele projeto?
Os olhos de Dawn pareceram brilhar, ela abriu a pequena mochila que a acompanhava desde então e retirou um objeto. Estava mais cheia desde a última vez; tinha algumas maçãs, cadernos de anotações, seu Mudkip de pelúcia, roupas sujas, podia-se dizer até que era uma treinadora que saia em viagem.
Dawn abriu o objeto que se revelou ser uma garrafa de vidro e tirou um pequeno papel que continha uma caligrafia infantil. Ela entregou-o nas mãos de Ed que o tateou lentamente, em seguida perguntou à garota:
— Poderia ler para mim?
— Hm, acho que sim... Eu melhorei um pouco minha leitura, me fala se estou melhor.
A menina começou a ler sua cartinha um pouco sem graça. Ed estava sentado na cama ouvindo atentamente cada palavra que era interrompida por tosses que pareciam piorar cada vez mais. Porém, o brilho da carta não desaparecia. A magia da inocência dela, a esperança que nunca morreria.
"Papai e Mamãe, onde vocês estão? Eu joguei essa garrafa no mar esperando que vocês encontrem um caminho para mim depressa. Estou morando com meus novos amigos, o tio Ed e o tio Dean. Também tem a tia Celia, mas ela é muito brava, eu tinha medo dela antes. Só que agora ela é legal, ela cuida de mim. Estou contando os dias para vocês voltarem logo, muitas saudades. Com carinho, Dawn.”
O velho não pôde terminar de ouvir a carta, começou a tossir de forma tão frenética que até mesmo Dawn se assustou. As outras pessoas do albergue foram ver o que acontecia até Dean e Celia chegarem. O bandido guiou Ed até o banheiro enquanto Celia trazia Dawn para fora do imóvel. A menina estava muito assustada, só teve tempo de guardar suas coisas e deixar o local. As duas sentaram-se na praça e aguardaram, Celia cruzou as pernas enquanto olhava para a janela do segundo andar do albergue de forma impaciente. Estava muito preocupada, embora tentasse não demonstrar.
— O tio Ed está doente? — perguntou Dawn.
— Não. É uma gripe, eu acho. Coisa de velho. — respondeu Celia.
— Você acha que ele vai...
Celia deu um salto da banqueta e segurou nos ombros de Dawn com força, olhando com seus olhos profundos diretamente nos de Dawn e parecendo dar-lhe uma bronca.
— Ele não vai morrer, está me ouvindo? Não vai!
— D-Do que você está falando? Eu ia perguntar se meu pai vai encontrar a garrafa que eu vou jogar no mar. — respondeu Dawn espantada. Celia afastou-se lentamente e pôde ver os olhos esbugalhados da garota agora liberarem finas lágrimas. Dawn hesitou e mordeu os lábios tentando conter o choro. — Você acha que o tio Ed vai... morrer?
— N-Não... Você entendeu errado...
Dawn levou suas mãozinhas em direção de seu rosto e tentou tampá-los para evitar que fosse vista. Levou a mochila até o rosto e o tampou para abafar o som, pois sabia que Celia odiava choros. A mulher ajoelhou-se em frente de Dawn e abraçou-a um pouco sem reação, tinha adquirido um grande afeto pela menina, e não queria perdê-lo tão depressa. Lentamente, tirou a mochila da garota e começou a acariciar seus cabelos negros, erguendo o rostinho dela e limpando suas lágrimas.
— Me escute, me escute. — repetiu — Esqueça o que eu disse, tá bom? Eu só estava preocupada, e você conhece o Ed, nada derruba aquele velho! Se quiser pode perguntar para o Dean, ele nunca mente.
Dawn ainda chorava um pouco, tentou limpar as lágrimas esfregando suas bochechas rosadas. Celia esticou os braços e chamou-a para um abraço, acolhendo a garota em seu peito como se fosse sua mãe. Nas últimas semanas Celia havia se tornado mais carinhosa, talvez fosse o efeito da presença de uma criança em sua vida. As duas permaneceram naquela posição por um tempo, e logo, Dean estava de volta cabisbaixo e com as mãos no bolso.
— Ele está mal. Piorando cada vez mais...
Dawn voltou a chorar depois do que o amigo dissera, Celia deu um soco no ombro de Dean que ainda não entendia muito bem o motivo daquilo. A mulher continuou a tentar consolar a pequena. Os três se sentaram na praça de frente ao albergue e ali permaneceram, revezando algumas vezes os momentos em que subiam para ver como o velho estava.
— O tio Ed disse que tinha um concerto hoje. Como ele vai fazer para ir? — perguntou Dawn.
— Provavelmente não poderá mais ir. — respondeu Celia de imediato.
— Isso se esse concerto existir. — brincou Dean, recebendo um olhar reprovador da moça seguido de outro soco — Digo, e você saberia nos dizer onde era esse concerto?
Dawn não havia perguntado, mas fez questão de subir e verificar com o homem. Ed pareceu envergonhado quando ela perguntou onde seria o tão aguardado concerto, o velho coçou a cabeleira e hesitava a cada palavra proferida.
— Acho que não vou poder ir.
— Eu sei, mas onde seria? — continuou a garotinha — A gente vai falar para os homens que você está passando mal e não pode ir.
— Não tem problema, eu aviso eles.
— Não avisa, não! Você tem que ficar deitado, tio Ed.
O velho hesitou um pouco, ele realmente não queria contar onde era. Na cabeça de Dawn ele fazia aquilo para aumentar o suspense e no final mostrar para todos que iria se recuperar e fazer o melhor show de sua vida, mas o velho sabia muito bem porque não queria contar. Ele mentia. Nunca houvera nenhum show. E ainda por cima, se escondia em um pseudônimo ridículo. Seu nome verdadeiro era João de Souza, quem apostaria seu dinheiro na carreira de um velho cego?
Ed ainda hesitou, pensou numa forma de enganá-la, mas não via como, então, decidiu contar onde era o famoso teatro com um público de milhares de pessoas.
— Siga para a direita do Centro Pokémon por alguns metros, é um local... Um pouco discreto. Fale com o Dean, ele provavelmente irá saber onde é. Meu show estava marcado para as oito horas da noite.
Dawn agradeceu alegremente e desceu as escadarias do albergue indo ao encontro de seus amigos. Ela indicou onde se localizava o teatro, mas até mesmo Celia que morava em Jubilife a vida inteira parecia não conhecer.
— Um teatro desse porte? Você tem certeza que o Ed te falou o endereço certo? — perguntou Celia.
— Tenho sim, ele não iria mentir!
— Tudo bem, vamos seguir para onde o velho nos indicou e cancelar esse concerto antes que chegue a hora dele se apresentar. — concluiu a mulher.
Os três caminharam pelas ruas movimentadas da cidade. Aos poucos o entardecer desaparecia dando lugar à noite que jamais dormia. Em breve Celia iria começar mais um dia de trabalho para pagar garantir seus trocados e pagar a estadia de Ed no albergue sem que os donos reclamassem. Dean e Celia logo alcançaram o local marcado por Dawn, e como esperavam, não havia teatro nenhum. Era apenas um velho bar de esquina com alguns frequentadores.
— Eu sabia. — disse Dean.
— Onde está o teatro? E as pessoas? O Ed disse que tocaria para milhares, elas ainda não chegaram?
— Talvez não, querida. Sorte delas, não é? Pelo menos elas não precisarão ficar esperando, pois o Edward não poderá comparecer essa noite. — mentiu Celia — Vamos cancelar esse show o quanto antes.
Celia entrou no balcão do bar e direcionou-se ao gerente. Alguns homens pareciam cumprimentá-la em busca de algo, mas a moça apenas dizia estar ocupada. Não estava ali para negócios, estava somente como um favor para um amigo. O gerente era um velho gordo de bigodes brancos, quando soube da doença de Ed ficou muito chateado sabendo que havia perdido a noite sem seu músico predileto.
— Então, o velho Ed não poderás aparecer hoje? — perguntou o gerente.
— Sim, ele está piorando cada vez mais, sair da cama num dia frio como esse não seria bom para ele. — explicou Celia.
— Ora pois, essas mudanças de clima... Sempre nos pegam desprevenidos, ó pá!
O homem ficou extremamente chateado, não tinha nenhuma atração para manter seus visitantes entretidos, e àquele horário era impossível encontrar algum outro músico nas redondezas. Quando Celia, Dean e Dawn preparavam-se para partir, o homem chamou-os novamente:
— Dona Celia, por favor! Não poderia indicar nenhuma pessoa para tocar aqui nessa noite?
— Qualquer lixo aí na rua seria melhor do que o Ed. Você não vai demorar muito para encontrar.
No mesmo momento, a moça foi interrompida por um puxão de Dawn.
— O Ed não é ruim, ele toca muito bem! Não diga essas coisas!
Celia ficou um pouco perplexa, ainda estava acostumada com a forma rude como tratava seus companheiros, e a maneira grossa a que se referia ficara bem evidente em sua mente. A pequena Dawn se prontificou:
— Eu posso cantar no lugar do tio Ed...
— A gaja podes cantar! Ó pá, serás magnífico!
O gerente se surpreendeu, assim como Celia. Dean caiu na risada, ajeitou o blusão e encarou o local vendo se haveriam pessoas demais para rir daquela cena. Celia agachou na altura da pequena e afirmou:
— Você nem sabe cantar!
— Essa apresentação era importante para o tio Ed, eu vou cantar no lugar dele.
— Não, você não vai! Você nem deve saber cantar, vamos embora daqui.
— Mas eu sei tocar piano! Um pouco pelo menos, eu vou cantar, sim!
Dean tocou no ombro de Celia e observou-a de forma séria com suas sobrancelhas caídas.
— Se a Dawnzinha for, eu também canto.
— Ah, era isso que me faltava! — Celia esticou os braços no sinal de surpresa e angústia, sua maldade parecia ter se aglomerado para ser liberada naquele instante — Dois imprestáveis fingindo saber cantar para entreter um bando de pessoas vão só rir de vocês!
— Vamos lá, Celia. Será divertido, todos nós podemos ajudar o Ed e comprar remédios ou qualquer coisa que ajude na melhora da saúde dele. Não sabemos o que está acontecendo, e se eu continuar levando qualquer xarope com efeitos diferentes isso poderá piorar ainda mais a situação do velho. Ele nos ajudou quando éramos mais novos, ele é, tipo, da nossa família, como diz a Dawn.
Celia olhou para a menina que parecia balbuciar palavras de imploração para que ela ficasse e cantasse. A mulher deu de ombros, e não fez questão nem de se despedir.
— Cantem, sigam a música. — disse ela de forma irônica, como se caçoasse da forma como Ed falava — Sejam humilhados sozinhos. Eu tenho que trabalhar hoje à noite.
Dean pensou em dar uma resposta naquele mesmo momento, mas não falou nada pelo bem da pequena ao seu lado. Dean disse ao gerente que estaria cantando naquela noite, e assim, preparou-se para subir no palco na companhia de Dawn.
Não era um bar muito grande, havia apenas alguns homens e casais em mesas mais distantes. Nenhuma música tocava até então, as caixas de som localizadas em pontos estratégicos foram ligadas chamando a atenção de algumas pessoas que estavam na bancada. Dean era um sujeito tímido, mas se fosse pagar uma grande vergonha podia correr. Era o melhor que fazia.
A plateia parecia muito surpresa com a presença de uma criança, mas no começo, Dawn apenas sentou-se em um canto do palco e aguardou. O gerente entregou o microfone nas mãos de Dean que fez alguns acenos estranhos tentando refletir sobre alguma canção que conhecera na infância. Gostava de ouvir o rádio, e lembrava-se de uma que seu bom pai cantava para ele antes de ser levado pelo governo. Dean segurou o microfone e sorriu:
— Todo mundo já se apaixonou por alguém nos tempos de infância. E nossa, como a gente é bobo nessa época. Nem todos esses amores e paixões dão certo, mas querem saber? Naquele tempo, posso dizer que foram os melhores dias de minha vida. Tempos em que eu podia jurar que vivia em um paraíso.
"Pensando nos nossos tempos de juventude só existia eu e você
Éramos jovens, selvagens e livres.
Agora nada pode te manter longe de mim
Já passamos por isso antes, mas agora já acabou.
E você continua me chamando pra mais.
Querida você é tudo que eu quero
E quando você está deitada em meus braços quase não consigo acreditar
Estamos no paraíso
E querida, é tudo o que eu preciso. Encontrei em seu coração
Não é tão difícil de ver que estamos no paraíso"
Algumas moças que estavam no fundo aplaudiram e sorriram. Não pela voz rouca de Dean, mas pela mensagem que a canção transmitia. Os homens que estavam no balcão estavam sérios, mas gostavam do entretenimento, queriam mais músicas. Uma música, era tudo que sabia. Quando Dean se virou viu Celia apoiada em um pilar de madeira numa posição provocativa e de braços cruzados. Seus olhos eram sedutores e românticos.
— Espero que essa canção não seja uma homenagem a quem estou pensando. — disse Celia.
— Os melhores dias de minha vida. — assentiu Dean.
— Então me dê esse microfone, porque agora é a minha vez de fazer um show.
A pequena plateia começou a aplaudir a entrada de Celia, muitos conheciam sua reputação, mas não faziam questão de comentar. Naquela noite ela teria outro propósito, era uma cantora, incumbida de sua função. Revelou-se um lado diferente de Celia, de uma verdadeira diva do passado com seu estilo bem característico de quem faz o que bem entende. O toque de piano começou a ser ouvido nos fundos, um homem que fazia a composição da música acompanhou Celia, e Dawn adorava aquela parceria. Queria ser a próxima a tocar o piano, e tinha uma canção bem planejada em sua cabeça.
“E eu preciso de você agora esta noite.
E eu preciso de você mais do que nunca
E se você apenas me abraçar forte
Nós ficaremos abraçados pra sempre
E só vamos estar fazendo o certo, Porque nós nunca estaremos errados.
Não há nada que eu possa fazer, apenas um eclipse total do coração.
Eu realmente preciso de você hoje à noite
A eternidade vai começar esta noite.”
Os aplausos aumentaram. O que começou com uma pequena plateia já havia se tornado um público maior, e era o gerente quem ganhava com aquilo. Quando dois policiais chegaram para ver o que acontecia Dean se escondeu atrás de um dos pilares, mas os guardas pareciam apenas contemplar a canção, era Celia quem chamava a atenção.
Dawn bateu palmas para seus dois, a menina caminhou em direção de Celia e abraçou-a como a sua mãe. A moça segurou nos ombros miúdos da menina e apontou para o piano velho num canto do palco. Era mais simples do que aquele no depósito, mas estava mais afinado e deveria se basear no mesmo estilo. O homem que fazia o acompanhamento permitiu que a garotinha viesse e mostrasse seu talento.
— Toque uma canção, eu aposto que o Ed irá adorar quando souber.
Fez-se um silêncio, a atenção centralizou-se na pequena garota. Dawn sentou em frente ao piano de forma acanhada, ergueu as mangas de seu blusão, e assim, tocou nas teclas de forma suave. Ela podia sentir as mãos marcadas de Ed sobre as suas, como se ele a guiasse e sussurrasse em seu ouvido cada tecla que deveria ser transmitida. No começo ela não sabia bem o que estava acontecendo, só sentia que queria tocar.
Não havia ruídos, não havia vozes que a interrompessem. Celia lembrava-se uma letra que conhecera em um filme antigo, e pensou numa forma de emendá-la com as notas sempre iguais que a menina tocava. Se as duas tinham algum talento para música haviam acabado de descobrir.
— Certa vez, ouvi a letra dessa música... Em noites que tudo parecia perdido para mim eu não via como me erguer, mas então, percebi que havia algo a mais no horizonte. Algo mais belo além daquilo que imaginamos. — disse Celia.
"Repouse sua frágil e cansada cabeça
A noite está começando você chegou ao fim da jornada
Durma agora, e sonhe com os que vieram antes
Eles estão chamando das praias distantes
Por que você chora?
O que são essas lágrimas no rosto?
Logo você verá que todo esse medo passará...
Seguro em meus braços você apenas dorme.
Os navios vieram para te levar para casa."
A música havia conquistado a todos. Dawn não estava sozinha tocando o piano, outro homem fazia a parte mais importante da melodia por trás, corrigindo erros de forma discreta e tornando a canção uma verdadeira súplica.
Algumas pessoas faziam questão de aplaudir de pé, os dois guardas na entrada também, provavelmente não haviam notado que era a mesma criança que tinha fugido do orfanato há um mês. A multidão não chegava nem perto das milhares que Ed dissera, mas para Dawn, era algo muito maior, eram milhões. Um número que ela jamais aprenderia a contar nos dedos. O velho não havia mentido, tocaria como se fosse sua última vez para o máximo de pessoas que pudesse, tocaria de coração, pois era aquilo que ele amava.
No fim das contas, Dawn parecia ter descoberto o que sempre buscara em sua vida. Não queria se tornar uma pesquisadora como seu pai sempre fora, não queria ser treinadora, Coordenadora, o que fosse. Queria ser Ed com suas canções, estar ao lado de Celia, Dean e seus pais. Viver com sua família até o fim de sua vida.
Celia se gabava do poder de sua voz, e do dinheiro que receberam no fim da apresentação. Dean carregou Dawn em seu colo e parabenizou a pequena pela apresentação.
— Dawnzinha, você arrasou! Conte isso para o Ed assim que voltarmos, ele ficará orgulhoso ao saber do show que você deu naquele bar! — disse Dean.
Os três seguiram lentamente até o albergue, caminhavam cantando suas glórias e comemorando a grande noite, porém, seus risos cessaram. Um velho senhor do albergue correu assim que avistou Dean retornando, não precisou dizer nada, apenas acenou a cabeça negativamente insinuando alguma coisa.
— Não, não, não!! — Dean praguejou três vezes antes de subir as escadarias correndo.
Celia tentou tapar um soluço que lhe saiu da boca. Dawn queria subir também, mas foi impedida pela moça. Era Celia quem a abraçava agora, exalava tamanha força e tristeza que fazia Dawn não entender absolutamente nada do que acontecia. Algumas lágrimas rolaram do rosto da mulher que que não queria acreditar se aquilo era verdade ou não.
— Por que está chorando, Celia? O que são essas lágrimas em seu rosto? — disse Dawn.
“A canção, Celia, não lembra? Logo seus medos irão passar...”
Dawn permaneceu quieta, assim como o silêncio. Dean não desceu as escadas, e as duas apenas permaneceram abraçadas no frio da noite. Celia sussurrava de forma triste em seu ouvido:
— Dawn, você é uma garota forte. Prometa que não importa o que acontecer, você vai permanecer em pé.
— Por que está dizendo isso? Aconteceu alguma coisa?
Celia hesitou.
— Aquele seria o último show do Ed.



































