The Squirrel that Fell from the Sky

Support Conversation (Aerus x Watt)
Gênero: Amizade, Mistério;
Tema: O que você faria se o seu "eu" do futuro decidisse
dar uma volta no passado e ver como as coisas estão (ou estavam)?
Sugestão da leitoraLeeca.

O céu era mantido por tonalidades escuras, e ocasionalmente um imenso relâmpago cortava o véu de escuridão num brilho intenso para aqueles que o observavam. De fato, era um clima estranho, uma tempestade anormal como aquelas que parecem ser causadas por algo inexplicável, e muito menos um fenômeno natural.
Aerus permanecia apoiado próximo à janela com os braços cruzados, ele aguardava pacientemente a chegada de seu companheiro Watt que saíra em uma missão com previsão para retornar em algumas horas. O pequeno esquilo era pontual, e a verdade é que ainda faltava cerca de meia hora para sua chegada, mas Aerus já estava ali a aguardá-lo pacientemente. Queria ter certeza de que ele voltaria bem e a salvo, ou não conseguiria dormir a noite toda por mais que desejasse.
Mais um relâmpago cortou o céu, fazendo-o piscar, seguido de um trovão que rebombou com violência a uma certa  distância. A tempestade piorava e já era bem tarde, mas o dragão continuou ali, esperando. Passou a contar os raios que eram um símbolo de seu amigo, e imaginou se aquela tempestade não poderia um dia vir a ser ocasionada por ele, caso o jovem aprendesse a dominar seus poderes especiais. Watt era forte, talvez muito mais do que ele próprio poderia supor, mas ainda não havia aprendido a reparar nisso.
Subitamente a chuva começava a transformar-se em uma tempestade de relâmpagos no lugar das gotas, foram tantos que até mesmo o grandioso dragão chegou a assustar-se com o barulho. Era como se umas das máquinas de Vista tivessem explodido e suas faíscas voassem para todos os lados como bichos sem dono.
Ele só se levantou quando viu seu amigo aproximar-se.
Seus olhos estavam ofuscados pelo clarão, e então, quando Aerus forçou a visão pela janela notou que Watt estava todo encharcado do outro lado, com as orelhas eriçadas e o rabo em espiral ensopado. Aerus sibilou um sorriso e abriu a porta, forçando-a contra o vento.
— Entra logo, Watt! Não vai querer ficar parado aí nessa chuva, né? — Aerus gritou de maneira eufórica, mas aliviado por saber que o amigo retornara.
O esquilo correu e passou pela porta com enorme agilidade. Aerus ria conforme segurava as chaves e trancava o portão da guilda sibilando um sorriso em seu rosto cansado. Ele mal olhava para Watt, porque o sono o fazia ter dificuldade em encontrar a fechadura.
— Pensei que a chuva tivesse te levado embora com esse seu tamanho todo, não iria me surpreender se você saísse voando como uma folha perdida no vento com esse tempo ruim. Olha que eu estava quase indo te buscar, Bola de Pelos!
Watt permaneceu sério de primeira instância, depois abaixou o rosto e retribuiu um sorriso singelo com uma voz estranhamente diferente do que Aerus estava acostumado a ouvir.
— Bola de Pelos... Já te disse para parar com esse apelido.
Aerus parou, e pouco a pouco foi virando-se para encarar seu companheiro. Seus olhos piscaram quando em sua frente ele notou que o Pachirisu que conhecia estava muito mais alto do que de costume. Tinha uma feição mais madura, o rabo era menor e o cabelo mais curto demonstrava um corte jovial. Seus olhos pareciam centrados e cansados como alguém que regressara de uma longa viagem sem retorno garantido.
Aerus recuou assustado chegando até mesmo a derrubar as chaves da porta, esticando o braço em direção do rapaz e perguntando com a voz trêmula:
— W-Watt, o que aconteceu contigo, cara? — o dragão parecia surpreso. — Mano, você está... Você está... Enorme! Olha esse seu tamanho, eu batia na sua cabeça como se fosse um moleque do ensino fundamental! Você continua menor que eu, mas como você cresceu tanto em apenas alguns dias fora?!
Aerus foi caminhando em direção do esquilo, examinando-o de uma ponta a outra. Ele tinha o porte de seu amigo, tinha os olhos dele, o rosto dele, mas por um instante foi como se Watt tivesse pulado no tempo e avançado alguns anos até sua melhor fase. Aerus estava surpreso com a cena.
— Que tipo de missão maluca foi essa? Você achou alguma espécie de máquina do tempo ou fonte do rejuvenescimento? Isso é muito show, Bola de Pelos!
Aerus parecia cada vez mais empolgado, obrigando o esquilo a recuar para trás um pouco sem graça com toda aquela situação.
— O-Olha, Aerus, eu também não sei direito...  Apareci aqui por acidente, isso nunca devia ter acontecido! Eu sabia que eu deveria tomar mais cuidado com as criações engenhosas do senhor Vista, elas sempre dão certo, e este é o verdadeiro perigo! — respondeu Watt.
Aerus continuou a fita-lo, admirado. Ocasionalmente segurava nas orelhas do pequeno para saber se elas poderiam desgrudar revelando um impostor, mas pareciam bem reais. Ele tinha inclusive as mesmas mechas azuladas, o mesmo olhar, ainda que estivesse mais velho e maduro, quase chegando na idade mental do Garchomp. Aerus sentou-se em uma cadeira e cruzou as pernas.
— Que bacana, que bacana! Gostei de verdade. Amanhã vamos apresentar esse novo Watt para o pessoal da guilda, agora sim as fêmeas vão cair matado em cima do seu charme. Seremos a dupla incrível de galanteadores da Fire Tales! — disse Aerus, colocando um dos braços em volta do ombro do esquilo, um feito que antigamente ele nunca conseguiria fazer por sua altura.
Watt recuou, ainda não escondendo um sorriso. Olhou para a guilda e aquele lugar tão familiar antes de repetir várias vezes:
— Que saudade disso tudo. Aerus, Aerus... Você está... Tão jovem...
O pequeno esquilo olhou firmemente para os olhos do amigo ao repetir seu nome, como se há muito tempo sentisse falta daquilo.
— Você nunca muda, sabia? Mesmo depois de tanto tempo, jamais perdeu essa essência do que você sempre foi.
O dragão parou de caminhar, olhando para os olhos do amigo e tentando assimilar aquilo. Watt abaixou o rosto, demonstrando certo equívoco e incerteza sobre como dar aquela notícia que tentara dizer desde o começo. Ele tomou fôlego e por fim explicou:
— Sei que tudo isso parece esquisito, mas, eu não sou o Watt que você conhece, sou o Watt, mas não o seu Watt.
— Tá brincando? Você é a cara dele, tem o mesmo jeito de andar, de falar, de me olhar... Só se aquela missão maluca que você foi te deu a habilidade Double Team e o fez separar-se em vários corpos diferentes enquanto seu espírito vaga pela terra tentando juntar sua essência!! Maluco, é por isso que eu não queria que você fosse sozinho nessas missões!
— Eu sou o Watt do futuro, Aerus.
O dragão o encarou, coçando a cabeça um pouco confuso sem entender o significado daquilo.
— Ehh? Essas coisas não funcionam comigo, Bola de Pelos.
Watt suspirou, observando a chuva de raios lá fora.
— Eu vim do futuro, mas por acidente. Para se bem sincero eu também não imaginava que isso daria certo, mas olha só, aqui estou! E sabe-se lá quantos anos atrás! Nossa, eu senti muita falta disso tudo, da guilda, de meus amigos que se foram, de você...
Watt juntou suas mãos e tentou aquecer-se do frio por suas vestes ainda estarem molhadas. Aerus pegou uma toalha e jogou em sua direção para que o rapaz pudesse sentar-se e explicar tudo aquilo com mais cautela.
— Então você... Não é o Watt?
— Sim, eu sou o Watt, mas não de seu tempo. Da mesma maneira que existe um Aerus na minha época, e ele é exatamente você no futuro.
— Tá brincando?!  E como é que estou? Ainda sou o pegador e fodão da guilda? Achei uma namorada gostosona? Detonei a Titânia?? Rapaz, você tipo é um Spoilers vivo da realidade!!
— Desculpe-me, Aerus. Não posso revelar nada disso, ou eu poderia interferir diretamente no futuro. Para ser bem sincero, tenho medo de que essa visita já tenha interferido...
Aerus riu, espreguiçando-se ao sentar ao lado do amigo futurístico.
— Ahh, cara, relaxa! Já que você está aqui, senta e aproveita! Só fiquei eufórico com a oportunidade de saber o que vai rolar, mas nem sou curioso, relaxa.
— Seria maravilhoso ver como as coisas eram, e admito que vê-lo hoje me trouxe a esperança de que tudo pode continuar caminhando nos trilhos certos... Aerus, você não mudou nada todos esses anos, sabia? — respondeu Watt com um sorriso. — Eu não deveria estar aqui, isso pode atrapalhar as coisas, eu posso cometer algo errado... Mas já que aqui estou, irei aproveitar a ocasião para unir alguns pontos que ficaram faltando lá na frente.
Aerus já estranhava todo aquele falatório, principalmente porque seu companheiro nunca fora de falar muito sobre assuntos como aquele. Watt nem era de dar continuidade às conversas, parecia alguém completamente diferente. Mais de bem com a vida, mais experiente, mais atento. Mesmo que aquele fosse o Watt do futuro, Aerus ainda demoraria muito até assimilar tudo.
— Então... Quer dizer que se você veio lá da última página... Do Capítulo 100 da história... Isso quer dizer que você sabe tudo que aconteceu durante todos esses anos?
Watt olhou para os lados, acenando positivo com a cabeça.
Os olhos do dragão brilharam.
— Mano, isso é... isso é... foda!! Diga ae, como é que vou estar lá no final?! Nosso Mestre ganhou a Liga? O Mikau deixou de ser um idiota? A Titânia turbinou aqueles peitões dela e voltou para a equipe? E você cara, como é que virou esse guerreiro fodão?!
— E você disse que não era curioso há menos de um minuto... São respostas que eu não posso te dar agora, Aerus — disse Watt com uma risada, indo até uma banqueta de madeira, cruzando as pernas e sentando-se nela.
Aerus bufou frustrado por ter todas as suas expectativas rompidas.
— Você terá que chegar lá para descobri-las — o esquilinho riu.
— Ah, qual é? Manda só um Spoilers disso tudo, prometo que não conto pra ninguém!
— Não se trata de revelar o que você ainda não conhece, Aerus, e sim, das decisões que você vai tomar para torná-las possíveis. E você deve trilhar as suas para que tudo isso aconteça — explicou o Watt. — E diga-me, onde está o Eu do passado? Eu gostaria de falar comigo, entende?
— O meu Watt saiu em missão — respondeu Aerus desconfiado, de repente mudando completamente de assunto. — Cara, posso te chamar de... Bolona de Pelos? Ainda não caiu a ficha que você veio do futuro! Será que o Watt não teria algum irmão mais velho muito parecido com ele, ou acabou sendo vítima de alguma magia negra que o deixou assim?
O esquilo parou levantando uma das mangas do blusão onde ele carregava uma marca em formato de raio que Aerus sabia ser inconfundível. Era ele, era seu amigo ali de pé, que por algum motivo saíra de sua zona de conforto e viajara no tempo para encontrá-lo. Watt tocou levemente uma das paredes de madeira da guilda e sorriu:
— Tenho saudades daqui. O pessoal ainda caminhava tranquilo e sem preocupações, todos juntos, todos unidos... Isso é algo que sinto falta.
Aerus ergueu a cabeça ao ouvir aquilo, e Watt percebeu que poderia responder aquela duvida que logo surgiria.
— Todos estão muito bem, se é isso que você deseja saber. Passamos por muitas aventuras juntos, e mesmo que eu raramente consiga manter contato com alguns dos nossos velhos companheiros, estou sempre tentando visita-los para ver como as coisas estão.
— Watt... Watt... — disse Aerus, esticando a mão na direção do esquilo que recuou assustado. — Na moral, você está muito bonito cara. Eu não poderia imaginar que um dia você cresceria tanto e se tornaria assim... Eu... Eu posso te abraçar?
Watt abaixou as orelhas um pouco sem graça, vendo que agora seu velho Aerus do passado olhava para ele com olhos esbugalhados e joviais como os de antigamente. Ele podia ver claramente que era uma mistura de orgulho com alívio, ele cuidara de sua criança por tanto tempo, e agora vê-la crescida em sua frente era o seu maior presente. Watt levantou-se e foi até o dragão, dando um abraço carinhoso sendo que agora o Garchomp não precisava nem mais ficar de joelhos ou carregá-lo no colo como costumava fazer.
— O futuro é ruim? — perguntou Aerus.
— É o futuro, aceitando ele ou não — respondeu Watt tentando manter o bom astral.
Então, foi possível ouvir três batidas fortes no portão de entrada. Aerus virou-se, e depois de trocar um rápido olhar com Watt, foi atender. Ao abri-la notou que seu amigo Watt acabara de chegar, o real, e também estava encharcado dos pés a cabeça. Era bem menor e mantinha os cabelos infantis todos bagunçados, o rabo felpudo estava enrolado nos ombros para protegê-lo do frio. Watt olhou-o de baixo para cima e afastou-se assustado:
— Eu... Posso entrar? — perguntou, esperando uma recepção diferente.
Só então Aerus percebeu que estava claramente sem saber o que dizer com tudo aquilo que vinha acontecendo. Virou-se para trás, encarando o Watt do futuro e perguntando se devia mandá-lo entrar ou deixava que seu amigo continuasse esperando lá fora na chuva. O viajante no tempo indicou que o mandasse entrar logo, como se até mesmo no futuro tivesse aquele certo descontentamento com a chuva e o medo dos trovões.
— Ei, Bola de Pelos... Olha cara, tudo isso também está bem confuso para mim, e acho que não entenderia tudo tão cedo, mas...
— O que houve? Você está parecendo assustado, é como se tivesse visto um espírito...
O dragão abriu espaço, e o pequeno Watt entrou secando os cabelos com as mãos e balançando a cabeça para retirar a água que pingava. O esquilinho deu os primeiros passos e no centro do salão deparou-se com uma figura bem familiar. Ele parou e ficou estático naquela situação conforme os dois trocavam olhares perdidos.
Ele do passado, e ele do futuro.
Aerus imaginou se aquilo não iria interferir no futuro de alguma maneira e logo tentou interromper o susto.
— Se liga, Bola de Pelos! Esse aqui é o teu xará, o Bolão de Pelos. É tipo, um parente perdido, tá ligado?! Eu encontrei ele na chuva aí decidi deixar que ele entrasse, mas acho que já está na hora de você ir dormir, não?
Os dois permaneceram em silêncio, examinando a figura oposta de uma ponta a outra. O Watt atual encarava sua imagem com surpresa, estava pasmo, impressionado, como aquele jovem tão belo e de aparência determinada poderia ser... ele? O Watt do futuro dirigiu seu olhar com compaixão e serenidade. Ele provavelmente entendia tudo que se passava em sua mente passada naquele exato momento.
— Você é... V-Você...
— Você. — Confirmou o Watt do futuro com uma risada. — Nossa, até eu estou sem falas agora. Isso deveria ter sido um teste, e olha só a bagunça que estou fazendo na mente de vocês... Dois Watts de épocas diferentes ao mesmo tempo!
Os olhos do Garchomp brilhavam.
— Mano, ele veio do futuro, essa é a verdade! Que foda, que foda, dois Watts na equipe, se um já era fofo imagina explosão de fofura com esses dois juntos! — brincava o dragão.
Watt começou a caminhar em direção de sua imagem futurística, as mãos estavam juntas e trêmulas e ele ainda demorou a acreditar que aquilo tudo pudesse ser real.
— Mas por que você está aqui? Aconteceu alguma coisa? E-Eu fiz algo de errado?
— Não, não — respondeu o Watt mais velho de forma amigável. — Eu apenas queria ter certeza de que você soubesse o quanto é forte e determinado. Porque eu sei o que passa em seu coração nesse instante, eu sei o que você está sentindo.
Aerus parou com as brincadeiras para ouvir aquilo mais atentamente. O Watt do futuro agachou até ficar na altura de sua forma mais nova, e sorriu.
— Você falhou nessa missão, não é?
O pequeno balançou a cabeça, como se tentasse segurar as lágrimas e dizer que no fim de tudo não conseguira sequer cumprir seu objetivo.
— Sim, eu me lembro muito bem dessa missão... Tudo culpa daquelas armadilhas no meio da estrada, não?
O Watt da época atual sorriu, como se confirmasse aquela questão.
— Sabe, já que estou aqui hoje quero contar para você algo que eu gostaria de ter ouvido há muito tempo. — ele fez uma pausa olhando para baixo e pensando nas palavras selecionadas. — Você é forte, Watt. Você é destemido e corajoso, mas ainda não encontrou a sua força. Na realidade encontrou, mas ela partiu e foi-se embora. E agora, você deverá encontrá-la mais uma vez, e dessa vez não a deixe ir embora por nada nesse mundo!
— E como eu poderia encontrá-la? — perguntou o primeiro Watt, com os olhos umedecidos. — Eu sou fraco, mesmo que eu seja o sub-administrador da guilda sinto que sou o integrante mais inútil e imprestável. Eu quero ser forte, quero ser um diferencial de minha espécie, quero ajudar meus amigos quando eles mais precisarem...!
— Isso você certamente irá.
Seu companheiro do futuro sibilou um sorriso familiar de aconchego e prontidão em sempre estar presente para ajudar os amigos, mesmo que isso custasse uma viagem no tempo.
— Olhe dentro de seu coração. Procure por aqueles que estarão aí do seu lado para carregá-lo quando você mais precisar. Você pode não ser os pés, então não terá de correr e pular obstáculos; também não será os braços, que suportarão o peso e lutarão contra os inimigos; e também não será o corpo, que dá o equilíbrio disso tudo. Você é a alma que moverá todas essas peças, lembre-se disso.
O Watt do futuro passou a mão nos cabelos encharcados do pequeno e sorriu. Levantou-se, trocando alguns olhares com Aerus como se apreciasse a beleza do rapaz nos tempos de sua juventude, mas ainda sem perder o apreço que tinha pelo seu próprio. Ajeitou o blusão e olhou pela janela com um ar rejuvenescido.
— Preciso achar um jeito de ir e voltar ao meu tempo. Há pessoas lá que vão sentir falta de mim.
— Ei, Bolota de Pelos, você vai voltar? — perguntou o Garchomp.
— Não. Eu estarei esperando-os. Como sempre fiz — disse o viajante com um sorriso no rosto. — E Aerus, saiba que a vida é feita de escolhas. Você terá que caminhar ao lado daqueles que ama para alcançar aquilo que sempre sonhou, para o próprio bem e o dos outros. Seu sonho realizará o de muitos, entenda isso. Uma mínima decisão pode alterar o rumo do futuro, e cabe a cada um de vocês seguir com a vida e trilhar seu caminho.
— Qual é cara, não tem nenhuma dica mais fácil, não? Vou ficar tentando decifrar isso o ano inteiro! — Aerus caiu na risada. — Tranquilo, Bola de Pelos. Eu acharei a resposta. Sempre acho.
— E como eu saberei que esse é o caminho certo? — perguntou o pequeno Watt.
Sua versão do futuro olhou para trás e acenou.
— Não há caminho certo ou errado. Há apenas o que você decidir escolher. E Aerus, pare com esse apelido.
O viajante no tempo abriu a porta e encarou a tempestade, vestindo seu capuz e correndo para fora sem mais desejar olhar para trás. Um clarão se seguiu como se um dos raios o atingissem, e assim, ele desapareceu.
A tempestade não tardou em passar, e os relâmpagos foram diminuindo até tornarem-se meros feixes da divisão celestial, como se a máquina do tempo finalmente tivesse sido apagada.
Watt sentou-se na mesma cadeira, cruzando as pernas e encarando o vazio exatamente da mesma maneira. Aerus sorriu com aquela cena, depois deu um soco no ombro do amigo que caiu no chão, libertando-se daquele transe.
— Ei, doeu!! — praguejou Watt.
— Que ideia é essa de que você é um fraco, hein? Quem te disse isso?
Pachirisu encarou o dragão e desviou o olhar, abraçou o próprio corpo gelado e sussurrou:
— Eu nunca ajudei em nenhuma batalha, só atrapalho os outros... Vocês destroem montanhas... Eu... Eu não consigo nem levantar uma pedra. Só falho nas missões e quando acho que consigo fazer algo de bom, sempre tem alguém que faz melhor.
Aerus coçou a cabeça e foi buscar uma toalha percebendo que o menor tremia, chegou próximo ao esquilo e sentou-se em sua frente pegando a toalha e secando os cabelos azulados do esquilo.
—Watt, você nunca foi fraco... Ser forte não se resolve em apenas destruir coisas. Destruir coisas é fichinha perto da força que você tem.
Watt olhou para ele confuso.
— Como assim da força que eu tenho?
— Você é capaz de entender a alma das pessoas, de mantê-las unidas, dar força a elas. Sério, Bola de Pelos, eu nunca ia conseguir fazer as coisas que você faz. Você pode não conseguir destruir montanhas, mas você é forte. Às vezes até mais forte que eu.
— Aerus, eu nunca seria mais forte que você!
O dragão sorriu esfregando com mais força os cabelos de Watt.
— É claro que é! Lembra da nossa luta com o Seth? Você pode não ter percebido, mas eu só consegui dar um golpe nele porque você estava lá, só consegui evoluir porque você estava lá. Você é mais forte do que imagina.
Watt sorriu com o dragão e puxou a cauda para si abraçando-a.
— Obrigado, Aerus, não saberia dizer o que seria de mim sem você.
— Isso ai está mais para o contrário. Eu seria um babaca sem você!
— Então é só fazermos as decisões certas?
— Decisões, hein? — sorriu o mais velho. — Não me leve a mal, mas você é muito louco no futuro. Tu vai ser foda. Eu sabia que tinha potencial nesse seu corpinho de esquilo, tá no nosso sangue! Comece mudando esse cabelo e exercitando-se três vezes mais, agora eu também quero aquele Watt do futuro!
— Mas como eu saberei que é o momento de fazer a escolha certa? Isso tudo é muito confuso... — perguntou o mais novo, assustado.
Aerus sorriu ao passar a mão em seus cabelos.
— Acho que o jeito é seguir com sua vida. — respondeu o Garchomp, olhando pela janela à procura de um esquilo que caísse do céu. — E deixe que o coração faça o resto.

• • •

A brisa batia no rosto do esquilo e a grama fazia cócegas em sua bochecha, lentamente abriu os olhos para encarar uma máquina gigantesca que o encarava com um único olho vermelho, fitando-o.
— Eu te disse, Squirrel. Tudo o que eu faço funciona. For me, the word “impossible” will never exists!
O Pachirisu levantou-se rindo e limpando a calça.
— Eu sei, Vista. A máquina do tempo funcionou certinho.
A máquina gigante não respondeu, apenas virou-se com todo o seu peso que tremia o chão para ir embora.
 Of course it works. Espero que tenha tido uma agradável viagem, e se você tiver detonado algo no futuro irei mandá-lo de volta para a pré-história concertar tudo isso, got it?
Watt sorriu e olhou para o céu, um céu calmo depois da tempestade, olhou ao redor para encontrar uma figura sentada perto de uma árvore o encarando com seus óculos escuros e um sorriso no rosto, Watt sorriu de volta e sentou-se ao lado apoiando a cabeça no ombro do homem.
— Terminou sua aventura?
— Sim. Foi divertido, nós mudamos bastante.
— É claro que mudamos! Eu fiquei mais gostosão e você mais fofo!
Os dois riram e sentiram a brisa balançar as árvores, o homem levantou-se e esticou a mão para o menor.
— Bora aí, Bola de Pelos. Os Fire Tales nos esperam.
Watt sorriu e esticou a mão pegando na do outro.
— Já te disse, Aerus, pare com esse apelido.


Talk Show das Ilhas Laranja - Marina

Como já é de praxe em dias de semana monótonos e entediantes, o Thiago organizou um Talk Show e me convidou para participar, mas a diferença é que desta vez estarei na platéia assistindo como qualquer outro espectador de modo que possamos participar das conversações e fazê-la rolar em um clima agradável e organizado, pois eu e meus personagens não seremos os entrevistados do momento. O centro dos holofotes dessa vez foi a Marina, a escritora do Aventuras em Johto! Acho que quanto mais episódios vão passando, mais personagens vão surgindo até que o programa se transforme em um verdadeiro barraco, como vocês também estão bem acostumados a ver. Muita bagunça, baderna e revelações proibidas. Está na hora de você conhecer um lado dela que você nunca imaginou.

No programa que nós fizemos na quinta passada, a entrevistada do momento foi a Marina, mas vocês também podem conferir a participação de todos que já passaram por aqui. A Wiki, a Julia e a Vivian estavam lá para ajudar na organização de tudo, e dessa vez contamos também com a presença da Eleanor, que sempre arruma um jeito de se destacar com aquele jeitão autoritário e de manias excêntricas. Até mesmo o Canas participou bem discretamente, mesmo que fosse só para ficar no fundão sendo assediado por essas moçoilas malucas que se liberam nesses momentos de intimidade. Mas quem realmente comandou foram as mulheres, e dessa vez a nossa Marinex estava aí para revelar tudo que estava escondido!

Ainda é cedo para dizer muito sobre Johto, mas com toda certeza este Talk Show serviu como as novas boas vindas à ela, porque mais uma vez nossa Marinex está aí para encantar leitores e seguidores da Aliança Aventuras com seu charme tão especial. Vocês conferem também a presença de Lyra, Kris, e até algumas rápidas aparições de Ethan. Tudo isso o é o suficiente para já deixá-los na ansiedade de aguardar o Capítulo 2 de Johto, não? Só não se assustem com a baderna que acabou saindo... Quando junta só mulheres em uma sala, deu no que deu! Estou até com medo delas depois disso...


Artbook - Remarkable Final


Autor(a): Canas Ominous
Finalizado: 24 de Junho, 2013
Técnica: Pintura Digital
Resolução: 2088 x 2160
Tamanho: 2,40 mb
Descrição: The Remarkable Five. Presidente (Dusknoir), Bonna Party (Magmortar), Davy Jones (Tentacruel), iDie (Metagross), Sonnen (Gallade), Titânia (Steelix). Pokémon Gijinka. O fim do Aventuras em Sinnoh está chegando!

Notas do Autor (Capítulo 80)

Na semana passada esse capítulo já estava finalizado, mas eu sentia que faltavam alguns ajustes que eu fazia questão de melhorar antes que ele fosse postado. É melhor adiar um capítulo a mandá-lo meia boca ou pela metade, e cara, do número 80 para frente faço questão de trazer-lhes apenas o melhor. Primeiro porque gosto desse número e eu já falei para vocês, e segundo porque de agora em diante só vem coisa boa mesmo. A começar pela competição da quinta e última fita do Lukas. Esta é a última etapa de nosso jovem coordenador antes do Grande Festival, e eu precisava de algo que fosse... magnífico! Esplendoroso!  Deslumrabnte! Eu queria algo que fosse...indescritível.

Alguns devem ter notado, mas essa fita trouxe algo em comum. A última competição de Sinnoh juntou tudo que o Lukas vem trabalhando desde o primeiro episódio. Cada ideal, cada enredo, cada Pokémon. Ele usou a equipe inteira dele, cada qual com sua respectiva habilidade, seja na culinária, na dança, na moda, na bondade dele... Toda a equipe participou desse espetáculo que retratou exatamente todo o caminho percorrido pelo Lukas em nossa jornada. Adoro essa nostalgia da Saga Platina. Ele entrou como um jovem sonhador, acanhado, tímido e sempre preocupado com os outros, para que no fim de sua viagem ele se tornasse exatamente o que trilhou.

Este foi um episódio dele, ele é o brilho. Coloquei alguns pensamentos, e há cenas que vocês sinceramente não compreenderão se lerem tudo com olhos de uma pessoa normal. É aqui onde as palavras tomam formam e vão subindo, subindo, subindo... Para muito além da imaginação. Obrigado pela leitura, galera, e me despeço aqui da última competição do Aventuras em Sinnoh. O Grande Festival será diferente, e para falar a verdade, o foco será outro. Permita-me surpreendê-los mais uma vez.

Capítulo 80

Surpreenda-me.

Era preciso inovar, era preciso ter novas ideias.
          Lukas preparava-se para a competição de sua última fita, se ele levasse a melhor estaria a um passo de completar seu sonho e finalmente lutar pelo maior posto conquistando o troféu dos coordenadores no Grande Festival. Lukas vinha se destacando cada vez mais em cada uma de suas apresentações; Jubilife, Hearthome, Pastoria, Snowpoint... Cada uma delas era marcada por inovação e um brilho particular que o diferenciava de todos demais. Porém, dessa vez o jovem sabia que aquela luta não seria nada fácil.
Lukas estaria voltando à Cidade dos Corações, mas seria ele capaz de impressionar os juízes e manter seus ideais sempre visando um mundo melhor? Lukas já era conhecido por todos os cantos de Sinnoh, alguns o consideravam o salvador dos oprimidos por suas mensagens sempre conterem um contexto moral. Mas e agora? Como ele continuaria inovando para fechar suas apresentações com chave de ouro? Era isso que o garoto tinha de descobrir.
— Como exatamente se inventa algo novo? — indagava Lukas, sentado sobre um banco da praça enquanto seu irmão, Dawn e Cynthia o acompanhavam.
As garotas tomavam sorvete, enquanto Luke mantinha os olhos distantes e com os pensamentos mais longes ainda.
— Sei lá cara, faça exatamente o que você fazia antes — disse Luke.
— E como é que vou saber o que eu fazia antes? As coisas simplesmente saíam, na hora de impressionar a ideia brotava na minha mente, e então eu a colocava em prática! — explicou Lukas, ainda confuso. — É diferente de quando você improvisa e tem de se virar para atingir um resultado, e quando tem que sentar e pensar em como atingir esse resultado...
— Faça como antigamente, entre lá e arrase! — sugeriu Dawn. — Você pode deixar que seu coração diga o que fazer.
— Ahh, Dawn... Têm coisas que se deixarmos que o coração assuma o controle, cedo ou tarde ele acabará nos deixando na mão. Já dependi muito dele até hoje, e ele também me tirou de algumas boas enrascadas... Mas preciso resolver as coisas por mim mesmo de agora em diante.
Cynthia tomou mais um pouco de seu sorvete antes de sentar-se ao lado do garoto. Lukas balbuciava palavras consigo mesmo enquanto os demais o ouviam.
— Não acredito que seria tão fácil dessa vez. Estamos falando de uma competição Master Rank, a mais difícil e agraciada pelos críticos. Eles querem algo novo e moderno, mas ao mesmo tempo o padrão e o clichê também agrada as pessoas. Como posso dar-lhes tudo isso?
— Infelizmente temos aqui um caso que quanto mais você pensar, mais será incapaz de resolver — disse Cynthia. — Acredite, já lidei com o fato de governar toda uma região, e deixar as coisas para a última hora não ajuda muito... Mas o que podemos fazer quanto aos imprevistos? A única maneira de enfrentá-los é aprender a lidar com eles. Você não sabe o que os juízes vão querer ouvir, terá que recorrer à sua criatividade e utilizar tudo que aprendeu até hoje em suas apresentações. O que me diz?
— Não sei... Sou daqueles certinhos que gostam de ter tudo esquematizado, imprevistos me deixam um pouco assustado...
Lukas olhou para seu relógio. Já estava entardecendo, e ele esperava ter uma boa noite de sono para que na manhã seguinte estivesse revigorado e pronto para disputar. Sua apresentação seria de manhã, próximo a alvorada, o que o deixou inconformado pelo fato de ter desejado apresentar-se ao anoitecer, quando tudo seria mais belo e elegante. Porém, sendo de dia ou de noite, o público e a recepção seria o mesmo. Sempre. O mesmo.
— Bom, vou praticar algumas danças, conferir algumas revistas para referência de moda, e treinar a minha equipe... A essa altura é tudo que posso fazer. Não vou passar toda a madrugada treinando, isso tiraria todo o foco e a concentração que preciso.
— Isso mesmo, procure descansar — aconselhou Dawn. — Amanhã será um dia cheio, e também repleto de alegrias com sua quinta e última fita em mãos!
— O mundo dos Contests vai lembrar-se de seus feitos para todo sempre, meu jovem. Você verá seu quadro estampado nas paredes do Hall da Fama ao lado de todos os Top Coordenadores do passado. Siga em frente, você não chegou até a reta final para perguntar-se se estava na pista errada — disse Cynthia com um sorriso, terminando seu sorvete de casquinha ao levantar-se. — Vamos lá, Lukas, garanto que amanhã teremos uma surpresa magnífica.
— É o que eu espero...

O dia amanheceu ensolarado e calorento. Seria uma manhã horrível para vestir um terno e concentrar-se em sua última apresentação. No auge das férias as pessoas queriam era divertir-se com seus Pokémons na piscina e na rua, e não ficar dentro de um palácio congelado pelo ar-condicionado sentindo um misto exagerado de todos os tipos de perfumes caros do mundo.
Lukas estava acordado logo pelas oito da manhã, vestindo-se para sua apresentação. Luke implorava por mais alguns minutos de sono, enquanto Dawn estava de pé ajeitando a gravata borboleta nas vestes de seu amigo sentado na ponta da cama.
— Prontinho. Ficou muito chique, hein! Vai arrasar o coração das menininhas!
— Dawn, não estou indo lá para procurar uma parceira... Se eu começo a pensar nisso eu perco o foco, e a Paula me mata! E também vai ter a Marley, e seria horrível se a Vivian caísse do céu para iniciar o armageddon de uma vez por todas... Eu preciso me focar, concentração, concentração...
— Ei, — ela chamou apenas uma vez, segurando em seu rosto para encarar mais de perto aqueles olhos esverdeados que lembravam tanto os de Luke. — Se tem algo que o diferenciava de todos os outros competidores, era que você entrava lá sabendo que ia ganhar. Nunca vi a incerteza em você, nunca vi a dúvida em seus olhos. Mande-a embora, e mostre porque está aqui para tornar-se o melhor Coordenador do mundo.
Lukas acenou levemente com a cabeça, sabendo que levaria consigo aquelas palavras até o fim da competição.
Levou mais uma hora até que as mulheres se trocassem e arrancassem Luke da cama. Cynthia seria uma convidada especial, enquanto Paula ainda não aparecera e dissera que esperava preparar uma surpresinha para seu amado quando a hora chegasse, o que o deixava ainda mais tenso. A equipe deixou o Hotel Deluxe Heart e rumou ao Contest Hall, o salão mais belo e conceituado de toda a Sinnoh.
Lukas murmurava consigo mesmo o tempo todo.
— Preciso surpreender, preciso surpreender... Vamos lá, qual assunto seria legal? Diferenças sociais de novo? Meio ambiente? Proteção aos Wailords? Racismo? Corrupção? Estereótipos e padrões de beleza? Como posso conscientizar as pessoas mais uma vez? Preciso inovar...
Foi quando uma moça loira passou ao seu lado, tinha olhos invejosos e o nariz empinado. Nunca havia sequer ouvido falar dela, mas ela andava como se fosse dona do mundo. Virou-se para o pobre Lukas que caminhava de um lado para o outro indeciso e riu:
— Preocupado, mauricinho? Não esquenta, a tendência é piorar ainda mais quando chegar lá em cima. É bom você ter alguma ideia boa, porque eu tenho “A Melhor” — e saiu esperando manter a pose mais sensual do mundo.
A educação de Lukas indicava que ele devia ser educado com todas as mulheres, e mesmo tendo a resposta na ponta da língua precisou mordê-la e deixar passar.
O salão recebia seus visitantes de portas abertas. As escadarias de mármore brilhavam e todas as recepcionistas estavam bem vestidas e prontas para receber gente famosa de cada canto do país. Até mesmo viajantes renomados de outras regiões costumavam frequentar aquelas competições, qualquer atitude acabaria repercutindo por todos os lugares, e isso deixava os coordenadores ainda mais ansiosos, afinal, tratava-se de uma competição Master Rank, a categoria dos mestres.
A mesma moça loira desfilava pelo salão quando Luke não conseguiu despregar os olhos dela. De tanto receber olhares dos rapazes ao redor, ela veio a tropeçar em seu salto alto, revelando um descuido e inexperiência por parte. Luke deu-lhe apoio para que a moça não viesse de cara ao chão, mas ela retribuiu o gesto com uma careta.
— Ué, você não estava logo ali atrás?
— Malz ae, moça. Acho que você esbarrou é com o meu irmão. Não sou coordenador, sou treinador. Futuro campeão, se me permite dizer.
— Obrigada pela ajuda. Hm, jovens determinados a chegarem até o topo são sempre bem vindos, podemos conversar a sós em meu camarim mais tarde, o que acha? Diga ao seu irmãozinho que é uma pena que ele queira “sonhar” em levar a fita de hoje, porque a Top Coordenadora do momento sou eu.
Notando que era descaradamente observada, ela ajeitou o cabelo atrás da orelha e lançou todo seu charme em direção do rapaz.
— E lembre-se de Lorena quando essa competição terminar, treinador. Você ainda ouvir muito esse nome pelo fato da melhor coordenadora da década apresentar hoje toda sua beleza magistral!
Quando Lorena afastou-se, Dawn foi em sua direção nada satisfeita.
— Que cobra essa garota, hein? Por que você tem essa terrível habilidade em atrair um ninho de víboras para perto de si?
— É que eu pensei se já tinha visto aquela moça em algum lugar... — disse Luke pensativo. — Acho que foi em uma revista.
— Que tipo de revista exatamente, senhor Luke? — questionou Dawn.
— Ihh, de um tipo que não seria nada legal que você soubesse... — respondeu ele com uma risada, em seguida recebendo uma chave de braço da menina que o imobilizou no chão. — O-Ouch!! É brincadeirinha, eu vi numa revista de famosos!! De fofoca, fofoca!! Por Arceus, o que essa Cynthia está ensinando para você, Dawn?
— Ela está me tornando uma mulher de atitude — respondeu ela, largando o braço de seu companheiro. Luke ainda lhe lançava um olhar de relance após recuperar o fôlego.
— Fica fria, eu não sou idiota de dar mole para uma mulher que vai chupar meu sangue quando eu virar as costas, e muito menos de alguém que quer derrubar meu irmão. Eu faria questão de dar um fora nela, mas meu mano pode dar conta do recado. Estou louco é para vê-lo entrando em campo e acabando com essa Lorena, isso sim vai ser divertido.
Seu irmão continuava parado e com os olhos focados no chão, refletindo profundamente sobre como seria sua apresentação.
— Preciso inovar, preciso inovar...
Lukas caminhava de um lado para o outro até perceber que era observado.
Ele recebia a agradável visita de Paula, que aparentemente estava observando-o de longe em um sofá exótico desde que chegara. As pessoas não sabiam quem ela era, mas todos achavam que era uma famosa coordenadora do passado por suas vestes chamativas e seu carisma incomparável. A moça estava com as pernas cruzadas e um dos braços esticados sobre o encosto, seu vestido longo tinha uma coloração perolada e em sua cabeça ela carregava uma tiara de prata. Estava magnífica, chegava a realmente a parecer uma deusa.
Lukas foi em sua direção com as mãos no bolso e sem fala. Foi Paula quem lhe fez a pergunta:
— Por que espera tanto inovar? — indagou a Guardiã do Espaço.
— Preciso chamar a atenção das pessoas — respondeu Lukas.
A moça deu um sorrisinho aconchegante.
— Querido, você não percebeu que já chamou? Todas as suas outras apresentações, todas as mensagens que você conseguiu transmitir... Você acha que não foi ouvido?
— Eles ouviram, mas preciso continuar me expandindo, mais pessoas precisam saber disso, eu preciso disseminar minha mensagem! — respondeu ele, parecendo eufórico e agitado.
Paula levantou-se, em seguida agachando para ficar na altura do garoto e poder encará-lo nos olhos. A mulher ajeitou os cabelos engomados de sua pequena criança e fez alguns ajustes na gravata que estava um pouco torta mesmo depois de Dawn ter ficando arrumando-a por horas. Em seguida, ergueu o olhar e sorriu em direção dele.
— Você começou tudo isso, você já fez a diferença necessária e não percebeu. Pense comigo nessa lógica... Se ajudarmos três pessoas, apenas três, isso fará a diferença no mundo?
— Não exatamente... — respondeu Lukas.
— E se essas pessoas ajudarem mais três? Cada uma delas, isso já totaliza nove, não? E se cada uma dessas nove ajudarem outras três? Seria um ciclo, a palavra vai sendo disseminada de boca em boca até que um dia, de fato, todo o mundo saiba.
Lukas continuava com os olhos presos nas orbes peroladas de Paula. Ela era tão sábia, tão prestativa... Será que estava lendo o futuro?
— Apenas siga em frente, tenha fé. Sua mensagem já foi conferida com sucesso, meu querido. Acredite. O mundo te ouviu.
Assim que Paula terminou de falar, um sinal soou fraco e continuamente anunciando a entrada de todos os coordenadores participantes. Lukas deu um suspiro e olhou para Paula uma última vez antes de entrar na arena e caminhar rumo à reta final de seu sonho.
— Deseje-me sorte.
— Você não precisa. Verá que esta apresentação irá recuperar aquilo que tornou todos os coordenadores exatamente o que eles são. Coordenadores. Lembre-se disso.

A plateia foi se formando e cada participante tomou posição na arena de apresentações. Lukas lançava um olhar de relance para todos os lados e conseguia ver o rosto de muitas figuras famosas. Coordenadores veteranos que ele respeitava, seu irmão, Dawn, a ex-campeã Cynthia, Lúcio e Clarisse curiosamente também estavam ali, e Paula o observava de camarote tendo sua presença despercebida por qualquer um.
A respiração do garoto estava ofegante, ele parecia querer desmaiar. Sua cabeça rodava e ele nem parecia lembrar-se que estava no palco vestindo seu terno e ouvindo os discursos chatos dos juízes. Sua cabeça girava e seus pensamentos estavam conturbados. Estava realmente perturbado.
— Lukas? Você está bem?
O jovem virou-se para o lado e pôde deparar-se com Marley, uma de suas primeiras e mais adoradas rivais. Ela vestia um vestido curto na altura dos joelhos, e tudo se baseava ao costumeiro preto que era sua cor predileta. Marley tinha também um par de fitinhas no cabelo que a deixavam com uma aparência graciosa e meiga. Agora os dois estariam se enfrentando para conquistar a quinta e última fita antes de competir pelo Grande Festival, o que era horrível. Lukas queria chegar ao topo sem derrubar seus próprios amigos, desejava acima de tudo que todos eles chegassem lá juntos.
Mas afinal de contas, quando Marley entrara que ele nem havia notado? Quando Lukas adentrara aquele palco imenso, sendo encarado e fotografado por milhares de pessoas que esperavam algo especial vindo especialmente dele? Tudo se passara em terríveis segundos que o deixavam nauseado e cada vez mais ansioso.
— Eu preciso inovar... E-Eu preciso...
— Lukas, o que está dizendo...? — repetiu Marley, confusa.
Seu irmão de longe percebia que tudo não estava nada bem.
— Cara, ele tá perdendo o foco! Parece o coordenador amador que nunca participou de uma competição, o que está acontecendo com ele?
— O Lukas se sente na obrigação de vencer — disse Cynthia. — Todos apostam nele, todos acreditam, e ele tem medo de decepcioná-los. O Lukas terá que perceber sozinho que para vencer terá que agir como um Coordenador, ganhando ou perdendo. Quanto mais cobramos de nós mesmos, mais isso nos sufoca até que chega a ser impossível de aguentar.
Todos tiveram sua atenção drenada quando um velho senhor interrompeu o longo e cansativo discurso de boas vindas e falou mais alto pelo microfone:
— Senhoras e senhores, eu gostaria de informar-lhes que no evento de hoje realizaremos uma competição diferente. Inédita, solidária, justa, e entusiasmante! Para dar início ao Master Rank da cidade de Hearthome, eu gostaria de chamar aqui a idealizadora de nossa competição de hoje, senhorita Fantina!!
Luke quase engasgou com a pipoca que comia, e chegou a ver de longe que a mulher lhe lançava uma piscadela sedutora, apontando com o indicador em sua direção como se insinuasse: Je t’aime, mon cher.
Fantina ergueu suas mãos para o alto e balançou seu vestido tão marcante.
— Bonjour, meus adorados coordenadores! Acredito que todos vocês tenham grandes expectativas da competição que virá a ser realizada hoje, non? Aqui estão reunidos os melhores das últimas temporadas, apenas os mais magnifique!!
A líder do ginásio fantasma lançou um olhar de desprezo para alguns dos competidores, e por fim falou:
— Mas para falar a verdade, e grande maioria de vocês nem se lembra o que é realmente ser um coordenador.
Lorena, a loira que debochara de Lukas na entrada, ficou enfurecida com aquilo.
— O que você pensa que está dizendo, sua louca desmiolada? Somos os melhores de nossa temporada!
— Pardon, madam, o que você quis dizer é que vocês são os mais ricos de sua temporada. Quanto custou este vestido para a apresentação de hoje, cher? Oui, oui. Quanto custou o corte no cabelo e as horas gastas no salão de beleza?
— Uns duzentos e cinquenta para a escova, cento e trinta para as luzes, e... E o que isso tem haver com as competições?!
A coordenadora recuou, e por um instante toda a plateia começou a murmurar entre si. Lukas ainda não entendia o que havia conseguido, mas acalmou-se. Fantina olhava especificamente para ele. Sua mente deixou de ficar conturbada e começar a encaixar-se lentamente. Paula soltou um suspiro. Fantina caminhava de um lado para o outro, e logo continuou:
— Qual a nossa função como coordenadores?
Os participantes também se entreolhavam, imaginando se a pergunta fora feita para eles ou para todos. Marley abaixou o rosto, dizendo bem baixinho:
— Nós entretemos pessoas...
— O que você disse, mon amour? Ahh, sim, nós entretemos pessoas! Entretemos uma pequena parcela dela, pelo menos. Com as mesmas danças. Os mesmos objetos caros. Devo admitir que gosto muito disso tudo, mas o que acham de mudar? O que acham de... Surpreender a si mesmos?
Fantina rodopiou no centro do palco, apontando diretamente para o portão de entrada que todos tiveram acesso.
— Coordinateurs, este será o meu maior desafio de suas vidas. Eu vos desafio a apresentarem-se longe disso tudo, longe dos palácios, do mesmo público de sempre, e até mesmo de nós, juízes. Vocês irão para o Centro de Hearthome, o coração da cidade. Hoje, os juízes serão todos nós.
Os aplausos foram ouvidos aos poucos, ganhando intensidade a cada pessoa que se levantava e aplaudia aquela causa. Até mesmo Luke ergueu-se num salto e pareceu adorar a ideia, ele nunca antes havia pensado que Contests poderiam ser incríveis, e aquela ideia era simplesmente surpreendente. Somente então Lukas notou o que havia conseguido.
Ele havia sido ouvido.
O jovem coordenador ainda lembrava-se de cada fita conquistada, cada vitória adquirida e uma lição de vida transmitida às pessoas que o assistiam. Desde o dia em que ele se encontrara com a gangue de Royce em Vesiltone e percebera todas as injustiças cometidas pelos burgueses dos Contests, o padrão de classe alta que sempre se limitava, os Pokémons sempre adornados em brilho, belos por natureza e com um alto padrões de vida.
As diferenças sociais, um mundo melhor, tudo. Cada palavra. Há muito tempo o garoto vinha tentando disseminar aquela mensagem, e só de ver a alegria nas pessoas ao seu redor era possível notar que elas estavam entusiasmadas. Eles faziam aquilo porque achavam novo, diferente e surpreendente.
— Parte da função de um coordenador é surpreender — disse a líder Fantina, em pé ao lado de Lukas. — Conversei com seu irmão há algumas noites, e ele me falou muito de você. Eu nunca havia percebido como vocês eram tão parecidos.
— Ahh... É. O Luke também chegou a comentar que teve uma noite bem... legal... com você... — Lukas falou um pouco sem graça, mas a Fantina deu uma gargalhada e sorriu de volta.
— Não se preocupe, mon cher, não estou falando isso de aparência ou personalidade, e sim, de ideais. Vocês lutam por uma causa em comum, querem mudar o mundo, mas jamais serão capazes de fazer isso sozinhos. É para isso que estou aqui. Preparado para apresentar-se como nunca antes imaginou?
Lukas assentiu, e Marley ao seu lado também parecia muito entusiasmada. Logo o público começou a levantar-se, porque a apresentação seria feita nas ruas, no meio de todos e qualquer um que quisesse poderia assistir. Obviamente alguns estavam irritados por terem pago ao espetáculo e desejavam vê-lo, e a coordenadora Lorena não parecia nada satisfeita.
— Eu jamais iria juntar-me a vocês em uma apresentação ridícula como essa! Não irei sair daqui, irei apresentar-me no Contest Hall longe do resto. Não comprei esse vestido para ficar andando na rua e esbarrando em qualquer um. Ouviram?! Vocês vão perder uma grande coordenadora, a melhor de todas!! Quer saber? Vou mandar meu pai prender todos vocês pelo descaso que tiveram comigo!
Luke estava para sair do salão ao lado de Dawn quando veio a parar e encarar Lorena de frente.
— Oh, o lindo treinador da entrada. Viu só como eles me trataram mal?
— Foi mal, mas... Quem é você mesmo?
Luke saiu andando e Dawn não contentou-se em virar para Lorena e mostrar-lhe a língua. As portas se fecharam e a loira ficou lá dentro, gritando sozinha e amaldiçoando todas as gerações que passassem.
...Mas no final das contas ninguém a ouviria.

O centro de Hearthome era muito movimentado, e algumas pessoas demoraram a perceber o que estava acontecendo quando tantos coordenadores e gente famosa começou a chegar. Parecia um desfile de moda com diversos modelos e Pokémons pomposos a desfilarem pela calçada. Para os turistas aquilo foi um prato cheio, e cada vez mais o movimento despertava a atenção dos visitantes da cidade.
A própria Fantina sentou-se em uma mesa de madeira do lado de fora da padaria que ela sempre tomava café, e então, reuniu os coordenadores presentes para dar início oficial ao Master Rank.
A líder de ginásio tomou um gole de seu café que desceu queimando sua garganta. Ela por fim voltou-se para os competidores que se aglomeravam ao seu redor ansiosíssimos.
— Bien, o que vocês acham que vão fazer aqui fora?
— Estive me perguntando onde vamos arrumar nossos Pokémons para o concurso de moda... — comentou uma coordenadora.
— E também como faremos a dança... É meio embaraçoso ter que dançar assim na frente de tanta gente... — respondeu Marley, um pouco envergonhada com o movimento.
— Mon cher, vocês chegaram até aqui para terem medo de uma plateia um pouquinho maior do que o comum? Sim, sim, é para ter medo mesmo, porque aqui vocês irão lidar com todos os tipos de opiniões, todos os tipos de pessoas! E para conquistá-las vocês devem, de fato, surpreender a todos e serem versáteis. Vou mostrar-lhes por que ser coordenador é tão difícil.
Fantina tomou mais um gole de seu chá e apontou para a padaria:
— É aqui onde peço um croissant todas as manhãs e fondue nas noites frias de inverno. Desafio número 1! Vamos ver seus dotes culinários na cozinha estão bons. Vamos lidar com trabalho em equipe, liderança, versatilidade e criatividade.
Os coordenadores se entreolharam, e Fantina os pressionou.
— O que estão esperando, hmm? Eu já organizei tudo, entrem lá e aprontem-se, sirvam-me, sirvam as pessoas! Vamos ver a nota que vocês ganham, accepter que le meilleur. (Só aceito o melhor.) Ah, e só um detalhe, o uso de Pokémons está completamente liberado. Faça uso de todos eles, ok?
Lukas não esperou sequer um instante e logo correu para dentro da padaria enquanto os demais ainda tinham problemas com o terno apertado ou o salto que atrapalhava o movimento. Marley não queria ficar para trás, ela logo retirou suas sapatilhas e entrou na cozinha da padaria que realmente já estava toda preparada com ingredientes e chefes de cozinha para manter o olho em tudo.
A garota olhava para todos os cantos desesperada. Suas mãos se movimentavam agitadas e sua maquiagem pesava no rosto pelo calor dos fornos ligados.
— E-Eu sou horrível para cozinhar, o que eu faço? — indagava Marley para seu companheiro.
— Use seus Pokémons, eles não conseguem ajudar? Faça uso de tudo aquilo que você aprendeu com os poffins, está na hora de mostrar que preparar o almoço para os amigos valeu a pena!
Um total de oito coordenadores ainda participavam da competição, e todos eles riam e se divertiam enquanto preparavam as comidas mais diversificadas do cardápio. Eles tinham cerca de meia hora para preparar algo, podiam ajudar os outros como uma equipe e ainda recebiam o devido apoio de Pokémons completamente inusitados. Marley tinha um Sneasel que fatiava os legumes com velocidade, um Licktung provava as comidas com velocidade e aspirantes a cozinheiros tropeçavam com frutas por todos os lados.
Do lado de fora, as pessoas acompanhavam secretamente o estado da situação por um telão. Todos riam enquanto os coordenadores nem sabiam que eram filmados.
Lukas não pensou duas vezes, lançou Akebia e Panetto, seus dois melhores cozinheiros, para que juntos eles planejassem aquilo que Fantina mais adorava: A comida de sua terra natal na romântica Cidade da Luz. A Roserade sabia muito bem como criar pratos exóticos, enquanto o Gastrodon era excelente para elaborar alimentos para muitas pessoas ao mesmo tempo.
— Vamos lá, galera. Sei que juntos conseguiremos criar algo melhor do que jamais imaginei! Nossos amigos sempre elogiaram nossa comida, agora está na hora de pularmos para a próxima fase. Vamos mostrar ao mundo essa capacidade!
O Gastrodon era ágil em preparar seus pratos, e ao seu lado Marley preparava tudo com calma e concentração demonstrando muita dificuldade em lidar com as chamas do fogão.
— Ahh, não... Nunca pensei que eu teria que preparar um almoço para alguém...
— Por que não utiliza seu Arcanine? — perguntou Lukas.
Marley estranhou.
— Mas ele é grande, forte e bruto... Eu o utilizo em combate, como um Pokémon como ele poderia ser utilizado no preparo de pratos finos e sofisticados...?
— Às vezes você precisa correr riscos para descobrir coisas novas, Marley.
A garota decidiu correr o risco, e de fato descobriu que seu imenso Arcanine tinha um grande olfato e paladar para lidar com comida, o que a impressionou e ajudou muito ao agilizar o processo com suas brasas particulares. Lukas ainda corria de um lado para o outro auxiliando Pokémons e os demais coordenadores.
— Misture isso direito! Mais açúcar! Experimente canela. Coloque um tempero diferente na carne. Diminuia a quantidade de tempo no fogão. P-Panetto, só tome cuidado com o sal, hein? Akebia, fique longe do fogo, suas pétalas vão queimar!! Marley, mande seu Arcanine dar uma maneirada no fogo. Adorei o toque o final.
As pessoas riam, e a comida vinha aos montes. Fantina e alguns outros juízes foram servidos, mas o principal era que pessoas da própria plateia experimentassem. Luke entrou na frente para ver o que seu irmão havia preparado.
— Licença, licença! Eu provei a comida desse pivete a viagem toda cara, deixa eu ver se ele repetiu a mesma coisa de sempre ou conseguiu inovar... Olha que vou ser crítico, beleza! De comida eu manjo! — Luke experimentou um bolo de mil folhas feito de massa folhada e recheado com creme, não escondendo a reação. — C-Caraca... Essa coisa está... foda demais!
Lúcio surgiu do meio da plateia e empurrou seu rival para o lado.
— É claro que tu vai falar isso, você é irmão dele, aposto que está roubando ao seu favor — respondeu Lúcio, intrometendo-se na fila e provando um pedaço. Sua expressão mudou no mesmo instante. — M-Mas que diabos você fez com essa comida, moleque? Está... Gostosa demais...
Fantina adorou provar um pouco da comida que ela julgou ser um Blanquette de Veau, mas nem mesmo ela sabia ao certo.
— Fantastiques! E quem criou este prato com gosto de defunto?
Todos olharam para Marley.
— Que audácia, que sutileza! Vocês todos foram aprovados, e com toda certeza o púbico agora poderá concentrar-se em avalia-los de barriga cheia. Vamos à próxima competição? Danser!!
— Dança? — Lukas sussurrou.
Era possível ouvir alguns murmurarem: Essa vai ser fácil, pelo menos algo semelhante aos velhos esquemas. Mas a líder não estava disposta a deixar as coisas fáceis, Fantina balançou suas mãos de um lado para o outro e depois fez um estranho movimento ao cruzar os braços.
— Desafio número 2! Dança? Eu quis dizer Dança de Rua!
Marley olhou para Lukas e deu uma risadinha, lembrando-se da vez que os dois haviam se perdido em Veilstone e acabaram se envolvendo com uma gangue que lhes ensinara muito sobre as competições de rua. Aquilo reviveria os velhos tempos, e a multidão mal poderia esperar para ver como seria.
— Karl, Lyndis! O que acham de fazer aquilo que vocês fazem de melhor?
Lukas parecia preparado para tudo. Sua Infernape rebolava e requebrava até o chão com suas pernas torneadas, enquanto aquele Togetic invocado tinha todo o ritmo para danças de rua daquele estilo. Era cômico observar Pokémons todo certinhos e engomados tentarem algo diferente, mas acabou saindo de tudo, desde uma valsa voltada para o ritmo de hip-hop até grupos de até seis Pokémons que deram verdadeiros shows na arena.
Fantina aplaudia de pé. Luke gritava para seu irmão e o público começava a ficar ainda melhor. Havia flashes para todos os lados, pessoas do alto dos prédios assistiam tudo de camarote resultando em uma plateia que nenhum salão poderia suportar.
— O que acham agora de uma competição que mostre sua bondade ao próximo? É o desafio número 3! Vamos ver como vocês se saem lidando com o público, interagindo com ele e impressionando-o. M'impressionne, okay?
Eram muitas ideias e atitudes, todas acontecendo ao mesmo tempo. A criatividade simplesmente surgia e os coordenadores precisavam sair correndo pela cidade. As pessoas abriam caminham e eles vasculhavam todos os cantos em busca de inspiração. Era uma sensação diferente, não era nada como planejar tudo e colocar em prática aquilo que deveria ser feito. Eles faziam o que sentiam que deviam ser feito, e acabavam descobrindo um lado particular que nunca haviam imaginado.
Dessa vez Lukas lançou Eva e Marco para o auxílio. O Mothim recolheu flores enquanto a Eevee ajudava com todos os envelopes e papéis utilizados. Tinham trinta minutos para preparare m um lindo buquê que foi entregue nas mãos de Dawn, que surpreendeu-se com aquilo mais do que o esperado.
— P-Para mim?
— Você esteve ao meu lado até hoje, cuidando de mim e dando toda a atenção necessária como uma irmã mais velha. Obrigado por tudo, Dawn, eu te adoro.
A moça quase veio ao chão a ponto de desmaiar de emoção. Seus olhos deixaram algumas lágrimas de felicidade caírem enquanto as pessoas ao redor gritavam:
— Beija, beija, beija!
— Qual é, ela tem namorado, pô! — gritou Luke em resposta.
— Beija os dois!! — e as brincadeirinhas continuavam.
Uma rosa foi levada para Fantina, que agradeceu o gesto com delicadeza. A moça prendia a flor em seu vestido enquanto conversava com os demais coordenadores que se aglomeravam ao seu redor,
— Muitos homens já não se lembram da importância de entregar uma flor à uma mulher... De fato, elas morrem e secam, mas a felicidade ainda dura aqui dentro, le cœur.
Assim que a rosa ficou bem presa, a juíza suprema da competição apontou para o alto e soltou um grito entusiasmante.
— Vamos lá, desafio número 4! Combinação de golpes!!
Provavelmente todos estavam esperando por aquilo, e era agora que os coordenadores voltavam a lidar com aquilo que já dominavam. Tinham a cidade toda para improvisar, Lukas selecionou seu Riolu e Pachirisu para colocar em prática alguns truques que vinha treinando. Tom Sawyer era ágil, e Watt marcava presença com seus raios e faíscas que encantavam tanto os juízes.
— Pachirisu, suba no alto do poste e utilize o Discharge! — ordenou Lukas.
O esquilo saltou para o alto e ficou receoso de liberar uma descarga elétrica tão forte e com tantas pessoas ao seu redor, mas lembrava-se de como aquele truque funcionava. Os raios foram disparados, e nesse instante o pequeno Riolu utilizou de sua aura para controlar as faíscas que planavam no ar como se fossem vagalumes brilhantes em plena luz do dia.
Aura Sphere e Discharge, que combinação incrível para Pokémons tão pequenos! — elogiou um dos juízes.
O mais interessante daquele desafio era que Pokémons estranhos fizeram presença. Criaturas grandes e robustas, que normalmente não teriam cabido nos salões do Contest Hall. Pessoas filmavam e aplaudiam as batalhas que eram realizadas em uma avenida que fora fechada somente para que o evento acontecesse. Aquilo liberava todos da rotina maçante da vida, era impossível não sentir-se interessado ou pelo menos ir até lá para dar uma olhada.
O desafio número 5 era ainda mais desafiador, e provavelmente um dos últimos. Estava na hora da batalha.
— Ei, Marley. Importa-se de participar dessa comigo?
— Eu adoraria... Será uma luta muito interessante, e eu também venho me preparando para isso desde que nos conhecemos... Eu encontrei meu caminho nos Contests, e adorei isso tudo. Mas tenho medo de saber como tudo acabará quando isso terminar... Eu não queria que terminasse.
Marley abaixou seu olhar e voltou a observar seu amigo. Ela juntou as mãos e entrelaçou suas pernas num gesto tímido e sem graça.
— Só me diga uma coisa, você promete que...
Lukas esperou uma resposta.
— Sim?
— Promete que nunca vai se esquecer de mim...?
Lukas segurou nas mãos da rival e beijou-as de maneira delicada.
— Prometo que você sempre fará parte de minha vida. Aceita?
Marley sorriu, e juntos eles lançaram seus Pokémons. No campo de batalha estava um magnífico Honchkrow ao lado de uma Milotic, enfrentando um suntuoso Arcanine e um precipitado Jolteon.
Aquela foi uma batalha de tirar o fôlego onde Al Capone e Milena souberam muito bem como lidar com suas vantagens e desvantagens para adquirir a atenção. O velho Arcanine de Marley era sábio e poderoso, enquanto Jolteon tratava-se de seu braço direito conseguindo muito bem driblar os inimigos ao completar as fraquezas de seu parceiro.
Nenhum deles atacava para machucar. As cortinas de fogo feitas pelo Heat Wave do Honchkrow criavam uma névoa vermelha que era encoberta por um anel d’água feito pelo Water Ring de Milotic. Com o Agility de Jolteon e o Extremespeed de Arcanine os Pokémons davam um show de velocidade de maneira que nem mesmo os olhos conseguiam acompanhar.
Aquilo sim era uma apresentação, aquilo sim era um espetáculo que um coordenador deveria fazer. Por um momento Lukas ignorou completamente o fato dele competir por sua quinta e última fita. Ele nem imaginava como os juízes fariam para avaliar os competidores, mas estava adorando. Sentia-se novo mais uma vez, sentia-se um coordenador do mais alto nível de existência.
Ao término das batalhas, até mesmo Fantina estava exausta.
— Oh, nossa, estou extasiada somete de assisti-los! Mas não pensem que este é o fim... Está na hora do desafio final, o mais desafiador de todos. Coordinateurs, estão preparados?
Lukas e Marley se entreolharam, assentindo com a cabeça. Os demais coordenadores também estavam exaustos, e acima de tudo curiosos para saber o que seria aquele desafio final. Já haviam se passado horas de evento, e algumas pessoas haviam até mesmo cancelado seus compromissos somente para assistir às finais do espetáculo.
Fantina ajeitou-se em sua cadeira, esticou os braços para os lados abrindo-os como se desse as boas vindas à missão final, aquilo que definiria a carreira profissional de todos que lutariam por um sonho em comum. A líder sorria ao falar:
— Surpreenda-me.

Lukas engoliu seco. O que era aquilo? Por que era tão vago? Como ele esperava surpreender uma das juízes mais renomadas do mundo? Eram tantas ideias que passavam em sua mente que naquele instante foi como se cada um deseus Pokémons sussurrassem em seu ouvido:
— Use a criatividade! — afirmou Watt, seu Pachirisu.
— Prove de todos os perfumes da vida, e use um novo a cada dia — disse Akebia.
— Viaje o mundo, conheça pessoas novas, prove um pouco de tudo, erre bastante e também ame de montão! — encorajou Panetto.
— Pense na sutileza, na beleza e no brilho das competições — afirmou Milena.
— Estaremos aqui para apoiá-lo. Coloque em prática tudo que aprendeu — continuou Al Capone, o Honchkrow da máfia.
— Vá além de seus limites! — disse Lyndis animada.
— Faça aquilo que ama, cara — acompanhou Karl, o Togetic.
— Com grandes poderes, também vêm grandes responsabilidades. — disse Marco. — Não, pera...
— Suba lá e dê um verdadeiro show, chefinho! — disse Eva com seu jeitinho.
— Surpreenda muito mais que os outros, sô! Supreenda ‘ocê mesmo! — disse Tom Sawyer.

Lukas suspirou fundo e fechou os olhos.
Imaginou-se ali. Viu-se ali. Mas não estava ali, não tinha certeza. Paula caminhava em sua direção vestida como a rainha do universo, e ele, como um ser normal. Repleto de sonhos e desejos ao lado de uma figura tão perfeita que ia em sua direção e lhe esticava a mão com o sorriso mais belo e gracioso do mundo. A palma da mão dela brilhava, e ao tocá-lo, foi como se toda a pureza e a magia do universo o consumisse.
— Eu estive pensando em você — disse Lukas.
— Eu também. Venha, vamos caminhar pelo universo.
Por um instante não existia mais nada. Não havia Luke. Não havia Marley. Não havia Dawn, Cynthia, Fantina, Pokémons. Ninguém. Era apenas Ele e Ela. Os dois caminhavam juntos pelas estrelas conforme o sol brilhava lá distante, explosões surgiam em uma supernova que dava lugar aos astros e à vida num lugar distante somente existente no coração daqueles que acreditassem. Não havia sons e nem movimento. Conforme Lukas andava sentia apenas que seu caminho ia se formando em uma poeira cósmica dirigindo-lhe exatamente ao seu objetivo, e nada mais ao seu redor.
— Paula? Onde você está?
— Estou aqui.
A moça esgueirou-se por trás do rapaz e segurou suas costas com suavidade e delicadeza. Lukas desceu suas mãos até segurar as delas, mas ela havia desaparecido novamente. Virou-se num gesto lento e pôde observar sua deusa ali, dançando em meio ao universo com os astros girando ao seu redor. Sua saia longa balançava com o zumbido de um vento invisível e da suavidade que somente uma divindade seria capaz de dar. Lukas olhou para as próprias mãos que brilhavam.
— Estou sonhando?
— Se for um sonho, não vou deixá-lo acordar.
— Eu estava na competição até agora há pouco, e o último desafio era surpreender a juíza. Eu ainda não sei como fazer isso, não sei como elaborar algo que faça as pessoas perderem descrever, eu só... eu só...
Paula rodopiou suavemente e seus vestido se abriu como os anéis de saturno envolvem seu planeta. A moça levou o indicador até os lábios do menino e pediu silêncio.
— Surpreenda a si mesmo.
Ela deu um toque na testa do jovem que caiu, caiu e caiu... Era como um buraco negro em meio ao paraíso onde Lukas não sabia se poderia voltar e muito menos compreendia o que era aquilo.
Quando acordou estava deitado, seus olhos fixos no vazio branco. Em seu coração sentia uma enorme vontade de liberar tudo aquilo que o repreendera até então. Voltou a sentir tudo que o afligira  e por um instante perdeu as esperanças. Viu de relance a imagem de Paula ao seu lado, e juntos eles encontraram suas mãos que foram escorregando gentilmente pelo corpo um do outro.
Seus lábios se encontraram por segundos que duraram séculos, e a deusa sorriu.
— Espero mil anos para passar por isso, nem que seja uma única vez — disse Paula, tendo sua imagem opaca mesclando-se com as estrelas. — E por todas as vezes que vivi isso, eu faço o possível para aproveitar ao máximo os nossos momentos.
          — Eu penso em você todos os instantes. É difícil de acreditar que já nos encontramos em outras encarnações, e... Eu gostaria de nunca deixá-la novamente.
          — Eu também. Venha. Vamos dançar.


Por muitas vezes ele acordou desejando ser diferente, sentia uma dor estranha em sua cabeça e ficava imóvel na cama. Pensava em seu par perfeito e onde ela estaria conforme o mundo girava loucamente. Ele queria mudar o mundo e torná-lo novo em folha, só para os dois. Queria ter tempo para tudo aquilo, dormindo madrugada adentro conforme o mundo continuava girando. E deixou o dia passar, observando as estrelas enquanto elas se moviam, e percebia que, por fim, fizera a diferença.
Quando Lukas abriu os olhos estava de volta ao centro de Hearthome, porém, o silêncio profundo reinava em toda a cidade. Não era possível ouvir um só murmúrio, e todos olhavam para ele sem exceções. Paula estava ao seu lado, segurando uma das mãos do jovem que olhou para todas as direções tentando compreender o que havia acontecido com ele.
O rosto de Fantina estava umedecido, era claro que ela estava chorando. Foi então que a juíza falou:
— Vocês conseguiram o que poucas pessoas conseguiram até hoje. Oui, vocês me fizeram chorar. Emocionar-me. Vocês me surpreenderam.
Lukas não sabia ao certo o que havia feito, e muito menos o que as pessoas haviam visto. Para ele tudo aquilo havia sido tão real e natural, Paula entrelaçou suas mãos nas dele e as apertou com mais força.
E finalmente a gritaria voltou. Todos aplaudiram juntos, a cidade inteira. Fantina gritou e deu um salto em direção do pequeno coordenador:
Félicitátions!! Vocês estão mais do que preparados para participar do Grande Festival, têm a minha aprovação!!! E muito mais do que isso... Estão prontos para mudar o mundo à sua maneira. Merci à vous tous, (obrigada a todos) jamais l’oubier!!! (jamais se esqueçam disso!)
As palmas continuaram e parecia que ficavam cada vez mais fortes. Era como se toda aquela cidade estivesse ali, aplaudindo de pé um espetáculo para todos. Luke estava pasmo e correu em direção de seu irmão que ainda repetia incansavelmente:
— Cara, o que foi aquilo?! Como você fez aquilo??
— Aquilo o quê? — Lukas sempre fazia a mesma pergunta, mas as pessoas balançavam a cabeça e pela primeira vez não encontravam uma maneira de definir o que haviam visto.
— Foi indescritível.
Fantina acabara por decidir entregar a quinta fita para cada competidor, cada coordenador que tivera coragem de deixar tudo aquilo que lhe disseram que era certo e tentar algo novo, e diferente. Cada um deles havia competido naquele dia para fazer a diferença, ver o sorriso nas pessoas, e mesmo que aquilo não repercutisse no mundo todo as pessoas que assistiriam levariam consigo cada momento.
Lukas olhou bem para a fita, a última de todas que ele precisava antes de completar seu maior sonho. Cada uma era adornada em cores especiais como se tivesse sido feitas sob medida, a de Lukas trazia a cor lilás, e o mais importante era que aquela medalha em especial era espelhada, trazendo assim o seu reflexo.
E ele percebeu o que havia do outro lado do espelho. Percebeu a diferença que fizera aquele tempo todo, as palavras que foram ouvidas. Seu aprendizado, tudo que ele levaria em sua vida até o fim de seus dias.
No reflexo estava seu rosto estampado, um garotinho outrora tímido e que tinha vergonha de conversar com mulheres, que tinha dificuldade de expressar-se e conhecer pessoas novas...
Havia entrado como criança, e saído como homem. Este era seu maior prêmio, e certamente, uma experiência que ele levaria para a vida toda.

      

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